sexta-feira, 14 de março de 2014

Uma janela para o sal - XI

-
A beleza do rer…
-
Depois do sal envieirado, faz-se a redura pelo fresco da manhã, que a rapação é dura – pede, não só, força e destreza, como também saber e certeza. E é por lá, por essas praias salgadas que se amaneiram salineiros e moços, estes... contratados ou trazidos para a escola da vida pelo pai, seu mestre, ambos aptos para o trabalho da salinagem. É de contemplar a beleza de tal feitura!
 
 
 
Descalço, pelo tabuleiro da marinha nova da «Branca Caravela», o moço caminha lesto... De chapéu na cabeça, carrega a rasoila ao ombro, em equilíbrio, com a certeza do dever cumprido. Este moço, homem de corpo feito, observa os montículos de pedrinhas salgadas alinhados ao longo da rude vereda.
Foi rapadura da uma manhã – pensa. Muito em breve estes se juntarão à montanha mãe.

 
Fugindo à canícula da tarde, marnoto e moços abrem o mandamento e os meios para renovação de águas e iniciam a redura diária, em mãos alternadas. A salina é dividida e amanhada por terços – não vá faltar sal para rer!
Estes corpos, ainda tenros, sofrem as amarguras do sal e escorrem a pura seiva da infância, tingindo os brancos cristais.
São chagas que queimam! «Mas o que arde cura» – diz o povo e com razão!
Em ritmo cadenciado, um aqui, outro além, puxam e repuxam os encharcados cristais pelos duros vieiros, deixando para trás uma camisa alva e protectora.
 
 
O contraste entre o azul do céu e o branco do sal, reflectido no geométrico reticulado da água moira, transpõe a razão e liberta a emoção, salgando o olhar mais sensível.
Emarachem, moços! Enfeitem a marinha de alvos cones de sal, quais seios de mãe reprodutora!
Em plano inclinado, com energia e em sintonia, os hábeis moços puxam o sal para o tabuleiro, transpondo a engiva – a tão desejada fronteira.
Encimado o sal, é deixá-lo escorrer as moiras, que devolvidas à água-mãe, de novo produzirão ao sabor do sol e do vento.
-
 -
É este o cristal puro e alvo, que foi rapado aos fundos de lama e areia da laguna, pelas mãos cruas de uma criança, ainda inocente de corpo, mas madura na arte.
São rastos deixados por uma geração que se criou no sal, ao sal... seguindo no encalço dos seus, mestres no saber e no fazer.
Pegadas no tempo, de um sal lagunar que conta Estórias de Gentes, numa História de um Povo.
_______________
Nota – Para esclarecimento de linguagem técnica, consultar GLOSSÁRIO de Diamantino Dias. 
Imagens | Paulo Godinho | Anos 80
-
29 | 10 | 2013
-
Texto | Etelvina Almeida |Ana Maria Lopes
-

terça-feira, 4 de março de 2014

Uma janela para o sal - X

-
A bulir e a quebrar
-
Alimentada e botada a produzir, eis que ela se cobre de um branco manto, cristalizado pelo sol e pelo vento. Suas vestes pedem feitura e será o seu dono a despi-la de tão precioso bem. Eis chegada a hora da colheita!
 
 
O marnoto sai descalço ou protegido, se a pele lhe pede. Leva consigo a razão e a emoção, porque a rasoila já lhe mora nas mãos. E lá vai ele juntar o seu oiro branco, envieirando por esses meios, rapando aquilo que a Natureza lhe deu. É marnoto vivido! Vem-lhe a força da alegria, por ver «prenhes» as suas praias, de brancos cristais.


A paisagem transmuta-se – já o branco sal transluz amontoado nas eiras, reflectindo-se sobre as crocantes superfícies dos parcéis carregados de salgado, que mais prometem...
O marnoto puxa e repuxa, junta e arrasta o rodo, rapando os férteis fundos.
Quebra o sal, marnoto! Que incessante safra essa!
– Ai que boas moiras lhe deste, ai que sol e que vento abençoados, que criaram tão rico «pão!».




É o momento de quebrar as peles a essas já endurecidas superfícies, de deixar a moira respirar, evaporar ao sabor do tempo. É tempo de bulir com o longo e fino ugalho, movendo as águas «parideiras» sem ferir, amansando, cuidando...
É esse moço, já de saber feito, que agita levemente as espumosas águas – ora para lá, ora para cá, correndo os parcéis de par em par, com paciência e delicadeza, num corridinho cadenciado que lhe dará a pureza dos finos cristais, esses que em breve se hão-de colher.



Extrair o que o Homem preparou com a ajuda dos elementos, é uma bênção da Natureza.
É o Homem que amanha o seu «pão» e que, delicadamente, lhe cuida a feitura, gretando as mãos, ferindo os pés e tisnando a pele, sob agreste ambiente. É a colheita do fruto – bulindo, quebrando, rapando, dia após dia... Assim o faz, enquanto ela lho ofertar.
____________

Nota – Para esclarecimento de linguagem técnica, consultar GLOSSÁRIO de Diamantino Dias.

Imagens | Paulo Godinho | Anos 80
-
15 | 10 | 2013
-
Texto | Etelvina Almeida |Ana Maria Lopes
-

sábado, 1 de março de 2014

A Casa dos Faróis na Costa Nova do Prado - II

-
A Casa dos Faróis na Costa Nova do Prado 

(Cont.)

Casa dos Faróis. Anos 70
-
No primeiro andar, a maior das divisões, tão larga quanto a casa e profunda de bem quatro ou cinco metros, era o lugar de vida e de reunião. Servia de casa de jantar e de sala de estar. Uma janela de cada lado da porta e uma (ou duas) a Sul deixavam entrar a luz e o Sol. À volta da mesa, se bem me lembro redonda, as cadeiras.
Aqui começava o particularismo do mobiliário, que tentarei descrever se me não falhar a memória. Imagine o leitor uma canastra paralelepipédica com o fundo para cima a servir de assento. Por dentro, colocados e presos a cada aresta, os pés eram quatro cabos de remo. Nas costas, dois remos cortados do lado da pá, em diagonal, fixados à tampa da canastra de um lado e a uma das faces de canastra do outro formavam as costas da cadeira.  
Duas cantoneiras, réplicas exactas de popas de moliceiros usavam-se como credências, com o assento a servir de prateleira e, na parte de baixo, o armário para a loiça e os copos. O chão, os tectos e os tabiques da casa toda eram de madeira encerada, de tom quente e toque suave, quase cor de mel.
A porta, na enfiada da entrada principal dava para o corredor. Neste, ao fundo, ficava a cozinha virada a poente, à esquerda o quarto dos miúdos onde eu costumava ficar e a casa de banho, com as janelas a Sul. À direita, uma escada de madeira apoiada à parede Norte, com três lanços perpendiculares uns aos outros e balaústres esculpidos, dava acesso ao primeiro andar, onde ficavam os outros quartos e raramente acessível à miudagem.
No «meu» quarto, a cama de pessoa e meia, era de madeira esculpida em forma de barca estilizada. De parte e de outra, as mesas-de-cabeceira eram, nem mais nem menos, bitáculas, também obra de exímios marceneiros. Até hoje, tirando lá em casa, onde todos os quartos tinham este tipo de móveis, nunca mais vi nada com que se parecessem.
Na casa de banho contígua, mas sem comunicação directa com o quarto, não havia água canalizada, nem canos de esgoto. Chão, tabiques, tecto e portas eram também daquela madeira bonita e quente já descrita. Um lavatório de ferro esmaltado à antiga, encostado à parede, com o seu jarro de água e o balde para a água suja e, no meio da divisão, um semicúpio de zinco em forma de bateira, suficientemente grande para um adulto, era o equipamento sanitário de que me lembro. Pendurado por uma corda a uma roldana no tecto, por cima do semicúpio, um balde de folha com um ralo de regador para o duche. Muito bem me recordo de uma criada trazer da cozinha dois jarros de água quente. Começava por abaixar o balde de duche e enchê-lo de água. Feito isto, avaliava a temperatura com a mão, içava outra vez o instrumento e prendia a ponta da corda no gancho aparafusado no tabique. Então, já despido, entrava eu para o semicúpio e, em pé, com a ajuda da mãe, puxava pelo cordão da válvula de água e tomava o duche quotidiano, que adorava. Logicamente, penso que depois alguém vinha despejar a tina, mas julgo nunca o ter visto.
 
Tina Campos, Alfredo, Margarida e Amélia Campos

 
Era na cozinha que se aquecia a água para os banhos e para o que mais fosse preciso. Um enorme fogão de lenha, de ferro fundido, com dois fornos e, do lado direito, aquecido pelo combustível do fogão, que se acendia de manhã e dava até à noite, havia um reservatório de cobre com uma torneira do mesmo material, sempre cheio de água, muitíssimo quente, designadamente para as tarefas e necessidades culinárias. Para os banhos e duches, penso que se aquecia água em grandes chaleiras na chapa do fogão. Dessa cozinha, onde raramente ia, é a única coisa que me ficou.

O DJ seria um Osvaldo, de Vagos


As janelas, a Sul e a poente arejavam e deixavam passar a luz do Sol. Por dedução, já que a memória o não registou, devia haver uma escada exterior da cozinha para o quintal, por onde entrava e saía o pessoal, com tudo o que era preciso para a casa e os seus moradores. Não poderia deixar de ser assim pois não havia nenhum acesso directo da garagem (que ocupava toda a superfície do plano térreo) para o primeiro andar, e também nunca vi passar pela porta principal fosse o que fosse para a cozinha ou para as necessidades domésticas.
A casa mítica da minha infância foi demolida e alguém construiu no terreno, se bem me parece com uma «fatia a menos» para alargar a rua dos Faróis. No que lá está, resta uma ínfima referência à Casa dos Faróis na forma do telhado.
-
O tempora! O mores!
-
Bruxelas, Janeiro de 2014
-
© Jorge Tavares da Silva
-___________________
Nota – Este texto e imagens foram-me enviados pelo Autor, meu amigo, com a finalidade de vir a ser publicado no Marintimidades. Um hino à Casa dos Faróis, demolida. Além do mais, também fui frequentadora de um ou outro bailarico, nesta cave.
-

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A Casa dos Faróis na Costa Nova do Prado - I

-

A Casa dos Faróis na Costa Nova do Prado

Casa dos Faróis. Anos 70
-
Quando nasci, ao sair da 2ª Guerra Mundial, o meu tio-avô paterno Manuel Marques, de Azurva, já tinha comprado a Casa dos Faróis, o refúgio estival da família.
Pela parte que me toca, as recordações directas e conscientes estendem-se muito aproximadamente por um curto período, de1949 a 1952. Ou seja, entre os meus quatro e sete ou oito anos. Mas, a magia daquela casa era tal que dela me recordo em pormenor, no que diz respeito ao ambiente, aos materiais e aos móveis, únicos no seu género. Além disso, soube-o muito depois, a moradia em questão tornara-se uma das referências da Costa Nova.

Para quem vinha da Barra, ou seja do Norte, único acesso terrestre da terreola, a primeira casa da Costa Nova era o palheiro do José Estevão. Seguiam-se, na avenida que lhe presta homenagem, a garagem do Samuel (actualmente devoluta), com uma fachada muito curiosa, e outras moradias da primeira metade do século XX que ainda lá estão. A Casa dos Faróis fechava a marcha, à esquina de uma ruazinha de terra sem saída, hoje rua dos Faróis. Mais adiante, antes do «Bico» subsistiam ainda alguns palheiros. Infelizmente, nessa altura já poucos eram de madeira. Tanto quanto sei, depois de um incêndio anterior à minha própria existência, a madeira fora banida da construção e os que ainda restavam eram casas de pedra e cal com o reboco das fachadas a imitar o revestimento tradicional. Verdade seja dita, mais para Sul alguns tinham escapado. Na memória dessa época, dos elementos urbanos marcantes, ficaram-me a pensão Pardal, o busto do Arrais Ançã e o popular café homónimo (também conhecido por Coração da Praia). Uns metros à frente o café Beira Ria, ponto de referência da burguesia veraneante, com um mezanino onde os músicos tocavam, o Hotel Restaurante do mesmo nome e a «Mota» (actualmente, posto de turismo) embarcadouro das barcas para atravessar a Ria e, depois da curva da convivial Marisqueira, outro excelente restaurante, campeava o Mercado Municipal. Duas ruas na direcção Norte-Sul e uma meia dúzia de transversais de nascente a poente constituíam a «rede rodoviária» da povoação.
-
É este o cenário urbanístico-arquitectónico que da infância herdei.
No final da década de 50, a Casa dos Faróis saiu da família e, até 1962, as férias que na Costa Nova passei foram na Pensão Pardal ou no Hotel Beira Ria. Esporadicamente, aquando de umas festarolas que organizei na garagem, ainda voltei à mítica mansão familiar.

Da esquerda para a direita, identificados – Zeca Vinagre, Alfredo, Margarida, Barreto e Abrantes

O que dela posso contar resulta sobretudo de farrapos de conversas familiares e de lembranças «românticas» de uma infância radiosa. A Casa dos Faróis era, para nós crianças, um mundo fantástico de imaginação, onde tudo se tornava possível. Assente entre a Ria e o Mar, deste separada pelo que chamávamos «a Selva». Para lá íamos, quais «cowboys e índios» que éramos (designadamente o Dinis, o João Manuel e eu) e inventávamos todos os dias novas façanhas do Faroeste, com flechas de cana e revólveres de pau. Ou então, a nascente, na Ria, onde apanhávamos caranguejos no lodo da baixa-mar, andávamos de bateira ou lançávamos à água barcos à vela de cortiça de fabrico próprio. De quando em vez, lá aparecia um de nós com uma lancha ou um rebocador de folha com motor de corda, que acabavam sempre por enferrujar.
A nossa casa, construída na primeira metade do século XX, muito provavelmente por um «Calafão» (emigrante de retorno, com fortuna feita na Califórnia) cujo amor da Ria e do Mar o levou a erigir os dois faróis, réplicas reduzidas e fiéis do Farol da Barra, ao pé dos lanços de escada Norte e Sul a acolher quem naquela casa entrava. Mas, sobretudo, o mais marcante era a decoração e o recheio, de que só a família e alguns amigos poderiam testemunhar. Raros são ainda deste mundo e o que aqui revelo aos leitores, ainda que muito incompleto será, para quem a não conheceu, o pouco que gostaria de deixar.
A Casa dos Faróis foi erigida no terreno com três estremas que rematava o quarteirão a Sul. Ainda hoje delimitado pela Avenida José Estêvão, a rua dos Faróis e a Avenida da Belavista, esta última um mero sendeiro a poente. A Norte, o limite era então uma ruazinha de terra, de acesso ao já citado palheiro do José Estêvão, actualmente rua da Nossa Senhora da Encarnação.
Construção de planta rectangular, de alvenaria, com a fachada principal a nascente a altaneira Casa dos Faróis, com o telhado de duas águas, encimado por uma águia de asas abertas, não passava desapercebida. Quem lá entrava era recebido no terraço de cerca de quatro metros e a toda a largura da fachada, onde se chegava por um dos dois lanços de escada, com os míticos faróis por sentinelas. Dali, a vista para a Ria, sobretudo nas noites de lua cheia e de praia-mar era um encanto.
O muro de cerca, com balaústres arqueados a partir de um metro de altura, delimitava o terreno a nascente e a Sul. Deste lado ficava a entrada de serviço, um pequeno portão de madeira entre dois pilares. A nascente, um portão de madeira de dois batentes abria para um terreiro, parcialmente atapetado de chorões, por onde passavam os carros quando iam para a garagem. Na faixa central de cimento, entre os pilares de betão armado de sustentação da casa, havia espaço para três automóveis, uns atrás dos outros. À esquerda e à direita, o chão era de areia e ali se guardavam enviesados os barcos, as bicicletas, os apetrechos de praia, de navegação e algumas alfaias. Ao fundo da garagem, uma porta na fachada poente, dava para o jardim e o quintal. No muro de cerca das traseiras, de alvenaria maciça, com uns dois metros de altura, havia um outro portão inteiriço de madeira, que dava directamente para a «selva». Por uma estreita trilha ia-se até ao Mar. A Norte do terreno, o muro meeiro com o vizinho separava as duas propriedades.

Patacão (de costas), Abrantes, Amélia Campos e Jorge (autor do texto)

No vão da escadaria da fachada principal, de parte e de outra, havia um canil de abrigo para os vários cães da família. Acabado o defeso, os caçadores da casa iam às galinholas e aos mergulhões. No Verão, punham-se as bateiras-caçadeiras e o vouga na Ria, para passear, pescar ou ir à praia de «Biarritz» ou de «San Sebastian».
 
Bruxelas, Janeiro de 2014
-
© Jorge Tavares da Silva
_____________________________
-
Nota – Este texto e imagens foram-me enviados pelo Autor, meu amigo, com a finalidade de vir a ser publicado no Marintimidades. Um hino à Casa dos Faróis, demolida. Além do mais, também fui frequentadora de um ou outro bailarico, nesta cave.
(Cont).
-

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Desafiado a um relato da CHINCHADA...

-
Desafiado a algo dizer – embora sem delírios (?!!) que a autora reconhece no meu palrar – para assim dar conta das Chinchadas Monumentais organizadas pelo grupo dos «sete magníficos»,  anos seguidos, na Costa Nova, no dia 15 de Agosto, de cada ano.
-
O grupo era constituído por Francisco Meneses, Zé Parada, José Ançã, João Carlos Loureiro, Jorge Picado, Carlos Duarte, Manuel Cândido Amador e eu.
-
Ano após ano, púnhamos de pé uma complexa organização. Prévia e atempadamente apregoada, nos característicos «avisos» programáticos saídos da mão prodigiosa do João Carlos Loureiro (o mesmo acontecendo no S. Martinho).


Chinchada 73

Eram distribuídos aos amigos de aqui, mas e também, muito especialmente aos ílhavos que a profissão desviara para Lisboa: Alberto Bixirão, João Bela, Fernando Lau, e outros. Também em particular atenção para os amigos do grupo, embora de uma outra geração mais velha, onde pontificava meu Pai (sempre a adorar estar perto do filho e dos amigos), o Cap. Zé Vaz, inefável e inenarrável contador de estórias apimentadas, homem de um humor fino e privilegiado, o «Teiguinha», irmão de peito de meu Pai a quem consagrava verdadeiro culto; Ferreira Jorge, o eterno sonhador, homem de carácter a que Ílhavo tanto deve, amigo do seu amigo, que foi um meu companheiro de jorna, até ao seu fim. E muitos outros. Todos podiam convidar os seus amigos. Que por vias disso, nossos amigos eram. E é por isso que a fotografia apresentada pela AML, foi cedida pelo juiz Dr. Lamas, um dos convidados habituais. Juntamente com o Juiz de Vagos, o «El Gordito», senhor de uma alegria contagiante, que parecia ter, no lugar do estômago, antes uma esponja sequiosa. Outro habitué era o velho «Monchaine». Trazia sóbrio e direito, o D. João, Visconde de Taboeira, e o levava deitado, majestosamente embalado, para a cama de dossel e colgaduras onde deveria sonhar com o encargo real de vedor da adega celestial.

 
Binhos

O grupo organizador, esse ia, responsavelmente, de véspera, para o local, onde se ia dar a batalha de fruição das vitualhas divinais. Que as mãos experientes dos master chiefs gourmetsFonseca & Meneses – iriam certamente prodigalizar.
Obrigatório, era cumprir «as vésperas». Ainda que reduzida a sua celebração, ao grupo organizador, eram, depois de terminados os arranjos do campo, mercadas por opípara jantarada. Cada um tinha a sua função: o Parada era o organizador do campus; o Zé Ançã era o homem que tratava das buídas – que se requeriam muitas e boas – sendo seu especial encargo encanteirar (em segurança) os pipos. E apor-lhes à distância de uma mão, duas confortáveis cadeirinhas (para o dito D. João e para o El-Gordito), que gostavam em particular, de degustar em repouso, o bairrada seleccionado. Os irmãos Amadores eram os achegadores das vitualhas, transportadores dos mantimentos e seus guardadores. E claro, os contabilistas, que ali não havia borlas para ninguém. O João Carlos era o fazedor da complicada engenhoca, o assador campal onde ao outro dia se churrascava, umas vezes, uma vitela inteira, outras, mais comedidamente, um caprichoso suíno de boa seba.
-
Voltando à foto. Pelo que relatarei, creio ter-se tratado da «Monumental Chinchada» de 1971. E explico porquê.
Os primeiros lanços da chinchada, nesse ano, a que eu, liberto dos afazeres da cozinha ainda assisti, terão começado pelas 7 da manhã. Às oito aparece-me o Cap. José Negócio (vindo da lota de Matosinhos onde era o capataz) com uma enorme lagosta viva. Enorme (!), pois nunca tinha visto alguma com aquela envergadura. Nem nunca mais vi. Talvez com uns bons 5 kg. Então logo me lembrei de uma partida. Entreguei ao Carlos Duarte (ou José Ançã) a lagosta, pedindo-lhes que, sorrateiramente, a levassem no saco, e, no momento da chegada da rede, fossem por detrás, e a lançassem na sacada da rede da chincha. Assim acontecido, imagine-se o pandemónio, quando, no meio de umas tuberculosas tainhas e do escasso, surge aquele monstro marinho.
A chinchada era acompanhada, por terra, por um balcão de vime, que continha bebidas para retemperar as forças aos participantes, após cada lanço. Dirigia e carregava, o bar, o Alberto Bixirão. Logo o bar se transformou altar de tasca, onde todos quiseram celebrar e discutir o milagre, digno de sermonário e responso. Só ali faltava o Padre António Vieira.
Mas a chinchada continuou. E eis que num lanço em frente à mota da barca, quando subiam a cortiçada para evitar o salto da tainha, o Zé Ançã exclama:
- Eh pá cuidado; anda aqui tubarão….Bateu-me numa perna, e não vos digo nada.
Claro que todos se riram da brincadeira.
- Vê lá se te come a mãozinha da direita e viras XUXALISTA….logo lhe atiraram…
O melhor estava para acontecer. Aberta a sacada, depara-se com uma enorme corvina. E que corvina (!): mais de doze quilos.
Só me lembro do desalento dos arrais das bateiras:
- E anda um home a esgalmir, noite e dias, a apanhar escasso …e vêm estes pis…… e é o que se vê. É que nunca na p… da nossa vida vimos tal coisa.
Ora certo é que no grupo, quando o caso da lagosta começou a ser murmurado, logo se pensou que a corvina também fora lá posta. O difícil foi convencê-los da fortuna. No cartaz do ano seguinte, lá aparece a corvina pendurada no pinheiro, tal como esteve no ano anterior.
 
Corvina

E o certo é que a corvina, foi assada (no forno de lenha) e comida, na cena seguinte, em casa do Sr. Manuel Casal.
E eram assim, as nossas «Chinchadas Monumentais». Que procuravam não deixar morrer a tradição, como as que relato no livro «Costa-Nova-do-Prado – 200 Anos de História e Tradição».
Como terminavam? Bem aí é que era chegada a hora dos valentes. Íamos jantar à casa da Barra, e depois era chegada a minha vez de levar os mais teimosos a casa. Toda a gente se habituara a que, sucedesse o que sucedesse, eu estaria mais ou menos sóbrio para levar a casa a procissão dos anjos que se não atrevessem a ir pelos seus pés. Felizmente que ainda não havia balão.
-
Mas ficamos por aqui, assim manda a desafiante….

Costa Nova, 14 de Fevereiro de 2014

SF

Nota – Agradece-se ao autor, assim como se salvaguardam os direitos.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Um achado em arquivo... CHINCHADA na Costa Nova

-
Ando numa de saudade da Costa Nova de outras eras. Também depende dos arquivos que me aparecem e com os quais vou convivendo.
Uma chinchada na nossa praia e…monumental, em Agosto de 1970, provavelmente. Recorrendo aos artefactos do costume, reconheci algumas pessoas que atravessaram a época – João Fonseca, ao centro, «mandador» e organizador da mesma, segundo me informaram.
Da esquerda para a direita, Capitão José Vaz, José Ançã, José Manuel Parada, Manuel Cândido Amador, Ferreira Jorge, Júlio Bela, Carlos Duarte Amador e outros mais.

 
Chinchada na Costa Nova, 1970 (?)

Em Costa-Nova-do-Prado, p. 128 a 130, Senos da Fonseca refere-nos que «Outro dia assinalado na época balnear, era o da chinchada. Promoviam-se chinchadas com frequência. Mas uma vez por ano realizava-se a chinchada monumental, quase sempre em meados de Agosto».
-
Mas, tivera eu a sorte de encontrar uma fotografia, que supera, em qualidade, as do livro.
Desafio, pois, o João Fonseca na sua tripla qualidade de autor do livro, organizador e «mandador» da chinchada que no-la conte no seu blogue, em linguagem típica, a seu jeito, mas sem desaforos.
Que não esqueça todas as peripécias que nela aconteceram, se a memória ajudar.
Aguardemos.
-
Imagem – Cedência gentil da Milú (Lau)
-
Ílhavo, 9 de Fevereiro de 2014
-
Ana Maria Lopes
-

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O recanto mágico de todas as magias - Costa Nova

-
Costa Nova de outros tempos

Neste dia 2 de Fevereiro, domingo, em que todas as notícias amarguram, dia triste por natureza, apesar de soalheiro, em que o vento e a chuva miudinha deram tréguas, que fazer, que, de alguma maneira, distraia das intempéries marítimas e das péssimas notícias com que nos azucrinam a toda a hora?
-
Talvez jogar com imagens, palavras  e memórias mais soalheiras!
-
Tive noutro dia o privilégio de ter ao meu alcance um «novo» arquivo fotográfico. Não muito vasto, mas com algumas relíquias. Nunca perco a oportunidade. Será sempre uma caixinha de surpresas. Às vezes, repetidas, mas boas.
-
E foi o caso.
 


Era este o cenário deslumbrante com que deparava, sempre que ao amanhecer abria as toscas portadas das janelas e varanda do meu palheiro, na Costa Nova, à beira-ria plantado, pela década de 50.
A paisagem, que nunca cansava, enchia os olhos e a alma de beleza – o céu azulino, o casario plasmado, os automóveis de época em plena avenida marginal, a muralha no seu largo boleado e acolhedor, a ria, nas suas mais variadas feições, as embarcações…
De olhos fechados, ainda revejo esta Costa Nova, linda praia… que alimenta o ego.
Hoje, também linda, é outra…, com vantagens e muitas desvantagens!
O casario desenrola-se (na imagem) entre o palheiro riscado de verde do Sr. Gordinho, o Hotel e Casino Beira-Ria, … o Café Coração da Praia, … o Chiadinho, o Café Atlântida, a casa da Isabel Maria Cachim (Pensão Malaca) …e a da Senhora D. Micas Machado. Até onde a vista alcança e a memória relembra!...


 
 
As embarcações – a bateira de recreio Milú, com a sua proprietária, acostando-a com o auxílio do remo. À direita, a JOÃO LUIZ, notando-se a ausência da minha, a NAMY, em que eu devia ter ido saborear os prazeres da ria.
Mais atrás, o «Vouga» de linhas quebradas construído pelo Sr. António Gordinho e de sua graça, o Rio Vouga.
Para aluguer, relembrar, sim,  as bateiras do Sr. Francisco Tainha – a Miúda, a Tildinha, a Maria Fernanda e a Kiss Me. Meio atamancados, não faltavam também os Vouga de aluguer, o Navegador I, II, III e IV.
Lá ao longe, acostada à muralha, só pode ser a bateira labrega, A PRETA do Ti Tainha.

 
 
O tempora! O mores!
Saudades entremeadas de amarguras!...
É este doce e franco contacto com as águas lagunares que faltam à Costa Nova de hoje. Muitas vezes o tenho sentido e expressado.
-
Imagens – Arquivo Maria de Lourdes (Milú) Lau
-
Ílhavo, 2 de Fevereiro de 2014
-
Ana Maria Lopes
-