sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O MMI prepara-se para albergar a «nossa ílhava»

-
A ílhava, «para mim», só tem uma história mais ou menos consistente, há cerca de 30 anos. Bateira identitária dos ílhavos, foi a mais polivalente das embarcações da região lagunar – na ria, usada, para a apanha do moliço e para carreto; no mar, desde a rede do chinchorro, na quebra da vaga à arte da tarrafa, em águas do Tejo, na baia de Cascais. É enigmática e senti necessidade de sistematizar o que fui aprendendo sobre ela. Não descobri nada. Atenção! Li, observei, pensei e vou tentar pormenorizar coincidências. O processo da ílhava tem tido vários intervenientes, que se foram sucedendo no tempo.
-
Sabia desde os meus vinte e tal anos que tinha havido uma bateira ílhava, mas como não havia deixado rasto que me despertasse a curiosidade, esse conhecimento permaneceu em letargia.
-
A consulta frequente, pelos anos 60, do brilhante livro de Baldaque da Silva, Estado Actual das Pescas em Portugal, de 1891, não me despertou muito a curiosidade. Os elementos que, na altura, o autor forneceu, não me chamaram ao assunto. Baldaque fez algumas referências a esta embarcação e às tarrafas usadas pelos pescadores ílhavos na enseada de Entre Cabos da Roca e Espichel, em barcos denominados ílhavos. Inclusivamente com uma gravura (p. 403) e com uma descrição não muito vigorosa, relata que são barcos de fundo chato, de proa e popa terminadas em bico recurvado, mastro e leme de xarolo, construídos nas margens da ria de Aveiro, também usados na apanha da vegetação que ali denominam moliço.
-


Barco ílhavo, em Baldaque da Silva (gravura)
 
Embarcação, muito possivelmente, já usada pelos ílhavos nos séculos XVIII e XIX para a pesca da sardinha com a arte da tarrafa, em faina no Tejo – conclui-se.
Embora a mesma fotografia (aqui já fotografia), tivesse sido usada por Rocha Madahil in Alguns Aspectos do Traje Popular na Beira Litoral e pelo padre João V. Rezende na sua Monografia da Gafanha (1944), os autores não dão nenhum realce à embarcação, mas sim aos trajes dos pescadores que a usaram, sobretudo ao gabão, barrete, calça, camisa axadrezada e faixa.
 

E, à época, mais ninguém despertara para a ílhava, que eu tivesse tido conhecimento.
-
Eis senão quando D. Manuel de Castello Branco, in Embarcações e Artes de Pesca, livro publicado pela Lisnave, em 1981, fala destas embarcações oriundas do litoral de Aveiro, em que os ílhavos se deslocavam durante o Outono e parte do Inverno, temporariamente, para as águas de Cascais, atraídos por melhores condições de trabalho, preços, mercados e mar mais calmo.
-
Castello Branco faz uma descrição muito minuciosa da ílhava: as características principais, a construção, as dimensões e tonelagem, a cor, o leme, o velame, os aprestos e acessórios, meios de propulsão (remos e vela), tripulação, actividade, artes de pesca (tarrafa) e porto de armamento. Era sem dúvida a «nossa ílhava» (imagem seguinte).



Luiz de Magalhães, in Barcos da Ria de Aveiro, 1905-1908, fez-lhe uma referência muito fugaz, que, de certa maneira, me confundiu. O próprio Museu de Ílhavo, criado oficialmente em 1937, não tinha no seu conjunto de miniaturas à escala, feitas habilmente por Porfírio Maia Romão em 1934, uma verdadeira ílhava.
-
Há pormenores curiosos que me vão engrossando o interesse pela bateira ílhava.
Como nunca deixei de fazer recortes de jornais, de assuntos marítimos relativos ao mar e à ria, ao organizá-los, há cerca de três anos, veio-me à mão um, do Diário de Aveiro de 6 de Junho de 1999, em que a SIMRIA e o Clube de Vela da Costa Nova tinham assinado um protocolo em que uma das suas intenções era trazer de volta a ria antiga. Outro objectivo seria apoiar o projecto de recuperação da ílhava, embarcação que andou na ria de Aveiro, que deu origem a todas as outras, referiu Senos da Fonseca, acrescentando que «o próprio moliceiro é fruto de uma evolução natural da ílhava».
-

DA de 6 de Junho de 1999

Achei que essa predilecção pela ílhava já era uma vocação mais antiga de Senos da Fonseca, tanto mais que um tempito antes (meados dos anos 90) tinha aparecido no Museu, para trocar umas impressões com a directora de então, sobre a bateira ílhava, munido de uns projectos da embarcação, em computador. Eu não sabia muito mais e confesso que os computadores, nessa altura, me intimidavam um pouco.
-
Revelou-me mais tarde que devido a maleitas de que as informáticas às vezes padecem, perdera, com pena, os referidos projectos. Talvez a razão por que ainda hoje não tivéssemos tido uma bateira ílhava em tamanho real.
-
Entretanto, tive conhecimento que na Colecção Seixas do Museu de Marinha existia uma miniatura à escala 1/25, em exibição, de um barco ílhavo.
-
Também me apercebi de que o precioso Catálogo Seixas (publicado em 1988, pelo MM), abundante em fartas e seguras informações, nos apresenta, uma fotografia de um barco ilho, assim o apelida, a navegar na ria de Aveiro.
 
Barco ilho navega na ria de Aveiro… (Foto cedida pelo Museu de Marinha. Colecção Seixas)

 
E mais umas tantas preciosas imagens da bateira ílhava, na pesca da tarrafa, na baía de Cascais e imediações.
Entre os Amigos do Museu havia uma vontade não divulgada, mas intrínseca, de que o Museu viesse a ter uma bateira ílhava, mas tal desejo também nunca se cumpriu. Era capaz de ser um bocadinho arriscado, em vários domínios, assumir a sua construção.
E o tempo foi passando…
Com a mudança de século e já em Junho de 2007, SF., após uma pesquisa aturada e entusiasta, lançou o Ílhavo – Ensaio Monográfico do Século X ao Século XX, em que informa, a propósito da ílhava que, com base nas informações de Castello Branco, encomendara a Manuel Rufo, de Pardilhó, um modelo à escala de 1/27.
-
Conclui (pp. 225 e 226) que havendo referências deste barco ter sido utilizado na apanha de moliço, não será estulto admitir ter sido a ílhava a precursora do barco moliceiro, tantas similitudes são patentes na forma e no conceito das duas embarcações…
-
Nesse mesmo ano de 2007, o MMI exibira a exposição A Diáspora dos Ílhavos, no seu 70º Aniversário, de 8 de Agosto a 31 de Outubro, em que um modelo da bateira ílhava executado pelo hábil Marques da Silva fora vedeta. O plano, à escala 1/25, do Museu de Marinha, pertence ao desenhador e modelista, Luís António Marques, investigador da equipa H. M. Seixas, entre 1926 e 1948.

Modelo de barco ílhavo, em exibição, no MM

 
E com a força do Verão de 2011, o livro Embarcações que Tiveram Berço na Laguna, de Senos da Fonseca foi dado à estampa pela Papiro Editora. O autor revelou mais pormenores sobre a embarcação e teceu as suas considerações, algo discutíveis, mas admissíveis, pela sua viabilidade.
Já agora, seria realizável, hoje em dia, com os associados da AMI, em causa, e os meios de que dispomos (ou não dispomos) levar a efeito a recriação de uma ílhava em tamanho real? – pergunta-se. A nossa embarcação identitária? E para abicar onde? Não numa rotunda…exposta às intempéries. Na água, não duraria muito tempo – é sabido. O nosso museu, concordemos, à parte algumas limitações, temos consciência, seria mesmo o local de eleição.
Fica o desafio….
-
Ílhavo, 20 de Outubro de 2011
-
PS. Este blogue está em banho-maria desde o inverno de 2010. Parece-me o momento oportuno de ele vir a lume.

Como nas novelas…dois anos mais tarde…

A ílhava é um desejo concretizado. Chegou, no passado dia 30, ao Museu Marítimo de Ílhavo, graças ao saber e empenhamento de uma comissão da AMI, com a participação entusiasta e sabedora do construtor António Esteves, de Pardilhó, de Marco Silva (que se encarregou da vela) com cobertura fotográfica completa de Etelvina Almeida. No Verão passado, já com a ílhava em construção, Paulo Horta Carinha, reconhecendo o meu interesse pelo assunto, teve a gentileza de me oferecer um postal antigo de Aveiro, de que é grande coleccionador. Mostra nada mais nada menos que uma ílhava, já de menor dimensão, junto às Pirâmides, numa fase de vida já mais tardia, eventualmente pelo segundo ou terceiro decénio do século XX.
-
A ílhava vai ser apresentada aos ílhavos, a 11 de Janeiro 2014, como nossa embarcação identitária, que levou muitos conterrâneos de antanho, por essa borda fora, que se transformaram em colónias mais ou menos fechadas de pescadores oriundos da zona, dando até origem a várias localidades litorâneas. Rogamos aos ilhavenses que estejam presentes.

Ria de Aveiro, junto às Pirâmides
-
Imagens – Do arquivo pessoal da autora do blogue (livros, postais e jornal)
-
Ílhavo, 3 de Janeiro de 2014
-
Ana Maria Lopes
-

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Amigos do Museu de Ílhavo ressuscitam «a ílhava» - uma bateira secular

-
E a saga continua... do ano velho para Ano Novo.
-
O dia 30 de Dezembro foi de grande ansiedade e emoção para a equipa de trabalho que ficou encarregada da construção da «ílhava»...chove, não chove, passa... não passa...esmurra... não esmurra..., mas tudo foi previsto e medido ao milímetro. E o S. Pedro ajudou.
-
ílhava no Tejo. Imagem da Colecção Seixas, Museu de Marinha
 
-
Já cá está a ílhava e será apresentada ao público, no próximo dia 11, pelas 16 horas. Um velho sonho concretizado.
-
Para saber mais, consulte a edição do Diário de Aveiro, de hoje.
--
Ílhavo, 2 de Janeiro de 2014
-
Ana Maria Lopes
-

domingo, 29 de dezembro de 2013

A propósito da vinda da «ílhava» para o MMI

-
Relembrando...
-
Último ensaio, em 15 de Novembro
 -
Ílhavo e a sua região de que tanto se fala como centro difusor de cultura marítima terão deixado, por via directa ou indirecta marcas na cultura marítima do nosso litoral.
Habituámo-nos desde cedo, quando visitámos zonas marítimas, para pesquisa etno-linguística, desde estudante universitária, a ouvir tecer algumas considerações relativas a Ílhavo e aos habitantes locais, mal se apercebiam que era oriunda da citada região.
E começámo-nos a capacitar-nos de que onde existia uma bateira existiu um ílhavo ou há vestígios, pelo menos, da passagem de um ílhavo.
Cremos mesmo que por Ílhavo tem havido um interesse crescente pela grande faina dos ílhavos no litoral, não tendo tido a exposição temporária, «A Diáspora dos ílhavos», no MMI, de 8 de Agosto de a 31 de Outubro de 2007 a aceitação desejada pela maioria dos interessados nesta grande questão da identidade local.
Virando costas à Laguna, por inóspita que estava, os ílhavos, com suas artes ainda algo rudimentares, fixaram-se junto ao mar. Aberta definitivamente a barra em 1808, vieram instalar-se no areal a que chamaram Costa Nova (arrais Luís Barreto, igualmente conhecido por Luís da Bernarda) com as companhas da xávega. Tão exímios se tornaram no manejo destas artes estes emigrantes da borda do mar, refere Senos da Fonseca, que o desejo de partir em busca de locais onde o peixe fosse mais abundante se tornou evidente (Senos da Fonseca, Ílhavo – Ensaio Monográfico – Séc. X ao Séc. XX, 2007, Papiro Editora. Porto, 2007, pp. 174 a 181).
A fundação da Cova e Gala por ílhavos tem-se apresentado um caso mais polémico, porque se tem baseado, de livro em livro, em afirmações não confirmadas por registos paroquiais estudados ultimamente pelo pesquisador Hermínio de Freitas Nunes.
A presença ou a passagem de ílhavos por Palheiros de Mira, também Raquel Soeiro de Brito a comprovou (Palheiros de Mira – Formação e declínio de um aglomerado de pescadores. Edição Fac-similada, Cemar. Praia de Mira, 2009, pp. 21 e 36), ao consultar Registos Paroquiais, concluindo que entre 1835 e 1870 as populações originárias de Ílhavo foram as que mais contribuíram para a formação do povoado.
Mas a sua característica de nómadas da beira-mar fez com que não parassem. Pela Nazaré também andaram, tendo contribuído para a sua formação. Na pequena monografia Nazaré e o seu concelho, Raúl de Carvalho, (Lisboa, 1966, p. 21), depois de algumas alusões aos pescadores de Ílhavo, referencia que estes, após terem abandonado as suas terras, em busca de melhor vida e mais fartura de peixe, constituíram os primitivos povoadores da Nazaré.
E Raúl Brandão, no capítulo dedicado à Nazaré de Os Pescadores (Edições Estúdios Cor, Lda. Lisboa, s.d., p. 160), afirma pela boca de Joaquim Lobo, que aquela gente viera de Ílhavo e recorda ainda que foram os cagaréus que povoaram os melhores e mais piscosos pontos da costa, vindo pelo litoral abaixo, aos dois e três barquinhos juntos, até ao Algarve.
Também tivemos conhecimento da influência que os referidos povos exerceram na Ericeira, visto que Joana Lopes Alves, ao ocupar-se da rede do linguado ou tresmalho, assegura ter sido trazida para a Ericeira pelos pescadores da Murtosa, que a usavam na sua terra (A linguagem dos pescadores da Ericeira. Junta Distrital de Lisboa. Lisboa, 1965, p. 57).
Mas não ficaram por aí. Também na Costa da Caparica, associando as pescas estivais de mar a fainas invernosas em rios e estuários, os ílhavos aí se instalam por volta de 1770, sendo referido por Helena e Paulo Nuno Lopes (A Safra. Livros Horizonte, Lda. 1995, p. 57), que no final do séc. XIX, trabalharam na Caparica, na pesca, mais de setecentas pessoas.
Igualmente Maria Alfreda Cruz ao ocupar-se do tresmalho, certifica que é conhecido, em Sesimbra, por «redes de ílhavos» designação que denuncia a sua proveniência (Pesca e Pescadores em Sesimbra. Centro de estudos Geográficos. Lisboa, 1966, p. 54).
Também por finais do século XIX, continuam a referir Helena e Paulo Nuno Lopes (ob. cit., p. 57) que os pescadores de Ílhavo chegam à costa alentejana, para aí trazendo as suas famílias, tendo vivido aí, em inícios do século XX, quarenta famílias.
Todos os anos chegam ao Tejo umas dezenas de barcos varinos – é o nome que dão a estas embarcações pequenas e rasteiras, com um mastro e proa levantada (…). Quando se levanta borrasca encalham o barco nas margens do rio e abrigam-se à proa, debaixo de um oleado encerado (não haverá aqui hábitos idênticos?), onde dormem, cozinham e consertam as redes.
Também emigram para o Tejo barcos «ílhavos», que são maiores e andam à pesca da sardinha entre o cabo da Roca e o Cabo Espichel. E há muitos pescadores da Vieira que vão para os campos de Vila Franca e Santarém pescar o sável. Os da Borda-d’água chamam-lhes «avieiros» – ascendentes que ficariam a viver nos seus barcos até ao último quartel do século XX.
Francisco Oneto Nunes (Vieira de Leiria – A História, o Trabalho, a Cultura. Edição da Junta de Freguesia de Vieira de Leiria, 1993, p.174), baseando-se na informação recolhida nos registos paroquiais da freguesia de Vieira de Leiria refere que desde 1911 até 1933, os livros de registos de óbitos indicam o falecimento de 19 indivíduos já de idade avançada, cujos pais eram naturais de Ílhavo, Mira, Tocha, Quiaios, Figueira da Foz e Lavos. Oneto Nunes sublinha a existência, em 1790, de dois barcos de pesca, que habitualmente costumavam pescar nas costas de S. Jacinto, de fins de Junho até Fevereiro, e que seguiam depois para o Tejo.
Parece que a ida, se bem que temporária de ílhavos para o Tejo, começa a ser incontestável, porque registada por alguns documentos e estudiosos.
Também fomos recolhendo alguns testemunhos orais. Ao entrevistarmos, nos anos 80 do século passado, na Murtosa, Joaquim Maria Henriques (Raimundo), construtor famoso de embarcações lagunares, aí nascido em 1909, testemunhou-nos que «algumas vezes se deslocara com o pai a Peniche, Setúbal, Alcácer do Sal, Vila Franca de Xira, Carregado e Salvaterra de Magos para a construção de bateiras que os murtoseiros utilizavam, quando para esses locais iam fazer a safra do sável».
Também A. A. Baldaque da Silva, a quem é atribuída uma pesquisa extremamente criteriosa em 1886 (Estado Actual das Pescas em Portugal – A Pesca Marítima, Fluvial e Lacustre em Todo o Continente do Reino, referido ao ano de 1886. Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, pp. 197, 240, 241, 287 e 403), faz inúmeras referências ao carácter emigrante dos povos da região da Murtosa, Ílhavo e Aveiro. Ao ocupar-se da rede sardinheira, afirma que os pescadores ílhavos que emigraram para Setúbal, lá usaram uma sardinheira (rede de emalhar sardinha), de menores dimensões. Averiguou também em inquérito directo a que procedeu que trinta barcos ílhavos, tripulados por 450 homens, depois da pesca costeira à tarrafa, iam pelo rio acima para a pesca do sável. Eram também os pescadores ílhavos que emigravam para a enseada entre os cabos da Roca e Espichel e aí usavam, nuns barcos com o seu próprio nome, a rede de cerco volante, designada por tarrafa.
Sobre este barco ílhavo (também conhecido por bateira ílhava), refere-nos que era um barco de fundo chato, construído nas margens da ria de Aveiro, com um compartimento fechado à proa, para abrigo de parte da tripulação, com mastro a meio, aparelhando vela latina de pendão, navegando mais vulgarmente a remos, movidos por três a quatro homens. Empregam-se muito na pesca da sardinha, na enseada de Entre cabos da Roca e de Espichel, durante o inverno, usando a tal rede denominada tarrafa.
-
Aprestos por quem sabe…
-
É, no entanto, o tresmalho (rede de emalhar formada por três redes sobrepostas) a rede mais difundida pelos ílhavos, que em grande número emigraram durante a época do sável para o Douro, Tejo e Sado, continua Baldaque da Silva.
Todas estas citações elencadas não pretendem ser mais do que um ponto de reflexão.
Ainda há bem pouco tempo, ao abordarmos o livro Canoas do Tejo de Luís Sande e Pedro Yglesias de Oliveira (Edição da Câmara Municipal de Cascais, 2009, p. 92), achámos curioso o parágrafo que passamos a transcrever – As bateiras são embarcações pequenas, com cerca de cinco a seis metros, com uma construção muito simples, que foram introduzidas no Tejo pelos avieiros, ou cagaréus como eram conhecidos, que eram comunidades que vieram da zona de Aveiro e se instalaram nas margens do Tejo. Viviam em pequenas casas palafíticas, construídas em cima de estacas e nas próprias bateiras. Ainda hoje existem avieiros a viverem nestas condições e a pescar em embarcações que não têm sequer motor auxiliar.

E assim se foram expandindo os ílhavos…os ditos colonizadores da areia…– tínhamos por cá estas notas…outros terão outras… e documentos, para enriquecer o caudal da diáspora dos ílhavos.


A. Esteves e Marco Silva içam a vela…
-
Imagens - Da autora do blogue 
-
Ílhavo, 29 de Dezembro de 2013
-
Ana Maria Lopes
-

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A «ílhava» estará no Museu Marítimo de Ílhavo

-
É com encanto e magia que levantamos a pontinha do véu. No MMI, quatro pendões e uma tela exteriores anunciam a chegada da ílhava.
-
Em época natalícia, propensa a surpresas, o Museu Marítimo de Ílhavo recebe a peça de grande porte que há muito lhe faltava, pelas mãos da Associação dos Amigos do Museu.
-
Por enquanto, apenas se sabe: – a ílhava está no Museu a partir de 11 de Janeiro de 2014.
-
 
 
-
 
-
 
-
 
-
-
 
Ílhavo, 17 de Dezembro de 2013
-
Fotos: Etelvina Resende
Ana Maria Lopes
 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Ainda a propósito do MARESIAS...

-
Troca de impressões (por e-mail) entre o Autor e AML, há 3 anos...


-
AML – … Uma realidade para a qual eu acho que teria algum jeito (se é que tive), quando estivesse desempregada, era ajudar-te a seleccionar poesias tuas, para publicação, fazer-lhe a análise e  aquele arranjo final gráfico de que muitas vezes carecem. Pois, se não mais as lês,… fica por fazer. Não era modificá-las sem autorização, claro.
-
AML – Dou-te um palpite – a solidariedade também tinha de entrar, … a liberdade, a meninice, etc., outros temas. Mas aquilo de que gosto mesmo é das poesias  com a fluidez da água, com a ria, com o luar, com o mar, com a areia, gaivotas, gaivinas e outros bandos. Onde és melhor que tudo, para mim, é no amor (jogos amorosos), um hino à beleza da Mulher (só és bom, em poesia, nota!). Tem muito sumo, mesmo que não seja para ninguém beber.
11. 12. 2010
-----------------------------------------------
SF Não compreendo ainda bem, quando e porquê, me sai isto. Tenho muito pouco feitio de poeta. E por o reconhecer …não sei se valerá a pena. Olha entretém-te, se Te apetecer. Gostaria de ver.
--------------------------------------------------
SF O que eu disse é que tudo tem o seu tempo. E que não me sinto capaz de me apresentar como um poeta.
13.12.2010
--------------------------------------------------
SF Achas que  têm tiques de poeta? Coitado de mim. Que nem tenho a quem oferecer isto (Natal 2010 – À Ria).
15.12.2010
--------------------------------------------------
AML – O Teu grande amor é a Ria.
Tudo emerge da Ria e tudo submerge nela.
A Ria está no Amor, na Amizade, na Saudade, na Liberdade, na Vida, na Angústia, na Tua Terra, na Natividade, será...? Até a falta dela se sente no «Outoniço» que és, quando regressas da Costa Nova.
18. 12. 2010
-
AML Às vezes, parece que te entendo melhor em verso do que em prosa.
Ontem, dizia-te que a Ria era dominante em toda a tua poesia. Toda, toda não direi, mas é um tema  muito forte.
Encaixar a tua produção nos doze temas seleccionados, para facilidade de consulta (não esquecendo a ordem cronológica), nem sempre é fácil. Ou, por outra, é mesmo bastante difícil. Se um poema foca o tema vida, também toca na angústia, na liberdade, na saudade, no amor...Isto é um exemplo.
Escolher o sentimento dominante, oh, oh!, quantas leituras cuidadas e remoídas!
-----------------------------------------------
Acho, não sei se consigo minimamente explicar, que o conjunto dos teus versos poderia ser representado por um conjunto de círculos concêntricos de diferentes dimensões, em que um maior fosse o dominante, o Amor (uma espécie de um diagrama) …
_

Outros, os restantes, de dimensões menores e diferentes, interpenetravam, interceptavam o central e, daí nasciam áreas comuns, em que os mesmos temas estariam presentes.
-
Por e-mail não dá… Percebeste alguma coisa?
-
Apesar de não ter grande jeito para desenho, com um lápis ou um compasso, representava-te muito mais depressa esta ideia. Seria uma espécie de representação gráfica.
Não sei se concordas minimamente com o que te venho dizendo.
Sinto que não andarei muito longe disto.
Se chegar a indexá-los, escrevê-los e imprimi-los, em versão caseira, para teres na mão, de consulta fácil, talvez consigas ver  melhor.
Ou então, já sabes mesmo que é assim. Ou então até achas, e só para contrariar, dizes que não é nada disto.
-
Dás-te muito mais a conhecer em verso do que em conversa, claro, para quem julgue conhecer-te um bocadinho. Mas, por isso, não deixes de versejar…
-
É uma expressão muito nobre, quando se sabe ser. Não é a parente mais pobre da literatura.
 
19.12. 2010
-----------------------------------------------
SF Mas (poesia) andas lá …é quase isso. Mais um pouco de solidão …e angústia por ter ficado aquém.
- Anda, pensa….
-----------------------------------------------
AML - É assim… não tive Curriculum Vitae para apresentar o MARESIAS, nem queria fazê-lo, mas o que é certo (e que degustei), é que o dei a lume, depois do autor, claro.
Et voilà o que ia pensando… há 3 anos (em Dezembro de 2010, como as datas comprovam).
-
Ílhavo, 15. 12. 2013
-
AML
-
PS – Ontem, sem contar, fui apanhada numa «ratoeira», ao ser-me pedido que lesse este texto com o Autor, na Livraria Bertrand, no Fórum, numa segunda apresentação do Maresias.
-

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Uma janela para o sal - IX

-
Chagas de sal
-
– Ai moço de outrora, quão velha é já a tua história...
Foste tecendo as tuas memórias por essas praias salgadas, entre lamas e sal com os pés em viva chaga. Mas, são teus pés, teus braços e teus ombros, a força que recolhe e transporta esses brancos cristais.
Foste criado, educado e forjado pela intensa canícula, curado pela moira e endurecido pelo vento, tal como cristal de sal – e és tu já sal!
-


– Ai moço,
teu corpo moçoilo é belo – tenro, mas forte: teus músculos retesam, tua pele brilha, teus cabelos ao sol resplandecem. A beleza mora aí, nesse corpo e nessa alma – és um dom da Natureza.
E serás tu, já moço-homem, capaz de obter o teu sustento?
 
-
– Ai moço,
que ainda crês no saber ancestral e aprendes a faina do sal
Aqui te entregas à lida do rer, curvado a jeito, para com jeito colheres os virgens cristais com a rasoila e puxá-los pelos meios, para o meio, para o duro vieiro, arrastando-os por esse caminho que leva ao tabuleiro.
Aí o amontoas em pequenos montículos de sal e o deixas a escorrer as moiras.
-
– Ai moço,
quão branco e amargo é esse oiro que acabas de rer e que escorre entre teus pés acabados de nascer...
Mas é assim que te entregas à marinha, que é mãe e rainha – a ela, que te ensina e dá o pão.
 

– Mãos de moço-homem és, rasoila! E é com ele que, todos os dias mergulhas na moira, e te arrastas por essas praias de sal num vaivém interminável.
São ambos matéria que se curte e entranha em duro ambiente, entre elementos de água, sol e vento – entre o sal.
 

– Ai moço,
quão belo, mas cruel é esse salgado que te rouba a inocência, que te corrói o corpo e a alma, mas que te dá o pão da vida e te faz homem – são as «chagas da vida», dizem...
Ao tempo, com o tempo, curtes a tua cútis, endureces-te e moldas-te ao sal – só assim sararão essas feridas que agora tingem, de vermelho, o branco sal.
É esse sal que escorre entre teus pés, que te salga, te corta, te marca, te retesa essa pele de tenro menino e a enruga antes do tempo, curtindo-a de bronze salgado.
-
A seu tempo, moço, «homem de sal» serás!
_______________
 
Nota – Para esclarecimento de linguagem técnica, consultar GLOSSÁRIO de Diamantino Dias.
-
Imagens | Paulo Godinho | Anos 80
 -
31 | 07 | 2013
-
Texto | Etelvina Almeida |Ana Maria Lopes
-

domingo, 1 de dezembro de 2013

Uma janela para o sal - VIII


A dança das águas…
 
Depois da festa, volta o marnoto para o bailado das águas, numa relação íntima com a sua amada: a dança das águas não pára, é diária.
-
Nos cristalizadores, a água lá fica por uns dias depositando o sal, até à redura.
-
Novas águas os banham – a renovação é constante. É preciso limpar, depurar, conduzir os sais líquidos e rer os sólidos, voltando a encher esse ventre produtor, dia a dia, de sol a sol, enquanto houver fertilidade...
-
 
E eis que a marinha chora...
São os olhos da marinha, esses lacrimais chorosos, que o marnoto abre com o muradoiro – homem crente e engenhoso.
-
É por eles que as águas salgadas e espumosas escorrem e transcorrem serpenteando pelas carreiras, formando regos ao longo da crosta endurecida e ressequida, em craquelé.
-
Num simples abrir e fechar de «olhos» e fendas, o mestre abre e activa um labirinto de canalizações que alimentam, que escoam, que comunicam entre si – corre vida pela marinha! –.
 
 

São águas velhas e novas – escoam-se e renovam-se.
São entroncamentos por onde escoam, escorrem e dançam ao sabor da necessidade dessa mãe produtora e que, sob o olhar atento do marnoto, formam um complicado, mas admirável bailado de espuma salgada. 
 

Tão belo cenário atrai! – emprenha-se a marinha que, em breve, dará o sal da vida à gente que nela trabalha.
-
Marnoto, que curas, pisas, acamas e alisas esses parcéis, abre agora a porta à água fértil. Deixa esse ventre embeber-se, deixa humedecer o craquelé...
-
Solta essas águas! Deixa-a «parir»... produzir o que de mais belo te dá a laguna, o branco sal!...




De vigília, em cuidados com tão delicada paridura, ele se mantém.
-
És tu, marnoto, que controlas as águas, que supervisionas a paridura dos alvos cristais e rezas para que o tempo lhes dê tempo para a cristalização.
-
E assim se faz vida nessa marinha, tua rainha, que, de sol a sol, te obriga a abrir, a tapar, a sulcar... sempre vigilante. És seu criador, cirurgião, seu amparo e parteiro.
Produz sal, marinha minha – sussurras-lhe tu...
---------------------------
Nota – Para esclarecimento de linguagem técnica, consultar GLOSSÁRIO de Diamantino Dias.
-
Imagens | Paulo Godinho | Anos 80
-
23 | 07 | 2013
-
Texto | Etelvina Almeida |Ana Maria Lopes
-