sábado, 21 de setembro de 2013

SAGRES - Chegada da «barca bela» - 2013

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Quem poderá, um dia, «fechar os olhos» a tanta beleza?
Na Costa Nova, depois de uma noite de lua cheia prenhe de luz, reflectida sobre a laguna argêntea, um sol incandescente e doirado iluminou a ria, de madrugada, sobrepondo-se aos tons azulinos e violáceos com que antes a vestira.
O objectivo de tal madrugada foi saudar, em passeio de moliceiro, a SAGRES, a «nossa barca bela» (lembrou-me Garrett), que veio visitar o porto de Aveiro, Gafanha da Nazaré.
Depois da edição e reedição do livro Sagres – Construindo a Lenda, do Comandante António Manuel Gonçalves, Edição da Comissão Cultural da Marinha, tudo está dito sobre este embaixador de Portugal. Que mais acrescentar?
Creio que as imagens que ilustram esta saudação são esclarecedoras:
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Junto à praia velha da Barra, com o Farol ao fundo, entre céu eivado de algodão esfiapado e «mar de azeite e prata», esperamos com ansiedade o símbolo marítimo da Pátria.
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Entre molhes, eis que surge a «barca bela», a SAGRES, aguardada entre uma etérea neblina matinal.
 
 
 
Avança lentamente entre azuis suaves, em águas serenas e espelhadas, apesar da força da vazante.
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A carranca dourada como que aponta o caminho ao país que «deu novos mundos ao mundo», sob o lema da sigla «TALANT DE BIEN FAIRE».
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Auxiliado por dois potentes rebocadores, o Navio-Escola Sagres prepara-se para acostar, entre uma doce neblina que teimava em não se levantar no Terminal Norte do Porto de Aveiro, onde estará aberto ao público, hoje e amanhã. Vale a pena ir visitá-lo, assim como valeu a pena ir recebê-lo.
 
Imagens – Da autora do blogue
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Costa Nova, 21 de Setembro de 2013
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Em honra da Senhora dos Navegantes - 2013 - na Ria

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Mais um ano, em Setembro, lá vamos à romaria lagunar! Tanto quanto me recordo, da minha meninice, a Festa da Senhora dos Navegantes tinha a marcá-la, como pormenor típico, uma procissão até ao mar, para além do que era habitual em festas, com uma mistura de religioso e de profano.
Celebrava-se na última segunda-feira de Setembro, depois do domingo da Senhora da Saúde, uma das festas lagunares mais concorridas, a seguir ao S. Paio. Já foi! Nunca troquei uma boa segunda-feira da Senhora da Saúde pela festa dos vizinhos, mas, notava a falta de algumas tendas de bugigangas que já tinham «levantado ferro», para estarem presentes na festa da Barra (assim se dizia).
Depois de algumas alterações e interregnos, a procissão lagunar em honra da Senhora dos Navegantes é uma iguaria a não perder, aproveitando, ao mesmo tempo o grande prazer que é marear na laguna, de moliceiro. A noite foi agitada, com a preocupação da alvorada e com receio do tempo nebuloso anunciado.
E, pelas 8 horas, o dia acordou sonolento e embrumado. Uma cortina cerrada, qual pano de cena, completamente corrido, impedia-nos de ver a paisagem, Vida de marinheiro é assim!
 
PARDILHOENSE

Entre céu e ria, de um acinzentado uniforme, o PARDILHOENSE, vaidoso, espelhava, nas águas a sua esbelteza polícroma, na marina do Oudinot.
As deambulações marítimas incluíam um almoço em restaurante ribeirinho de São Jacinto, e, aí, então, o sol já tentava espreguiçar-se entre nuvens, espraiando-se. Acordara, de vez, e inundara a paisagem de um cerúleo meigo e escaldante.
Tinha já acabado o agradável repasto, quando uma imagem, em andor de ria de tule rosa, adornado de flores rosa e branco, entre verdes contrastantes, surdiu de uma ruela, que corria do mar, acompanhada de pároco, acólitos com lanternas processionais e alguns devotos.
 
Senhora das Areias

O que seria? Sabia que a procissão em que nos íamos incorporar passava por S. Jacinto, mas desconhecia que havia um encontro formal entre as duas virgens – Senhora das Areias, a de S. Jacinto, a residente e a passante, Senhora dos Navegantes.
De máquina minúscula em punho, esforcei-me q.b., para recolher o melhor testemunho. Uma bateira tradicional, embandeirada, com um ar festivo, posicionada à beira-ria, estava preparada para hospedar a imagem.

Senhora das Areias

Já estalejava, ao longe, foguetório… Sinal de que o desfile religioso já saíra do local acordado, na Gafanha da Nazaré? Nada de atrasos. Não convinha perder pitada. E lá partimos, ao seu encontro, numa ria sedutora, prateada e cativante, quase outoniça.
Chegados mais ou menos às instalações da antiga EPA, posicionámo-nos, para apanhar o melhor ângulo de visão! Quando se transportam fotógrafos, a responsabilidade é acrescida!
Já se fazia sentir a marola forte, neste caso fruto dos motores das diversas embarcações e da força da maré e de uma aragem amena. Manter a posição a bordo, num misto de equilíbrio e agilidade não era «mel». Mas valia a pena. Ao longe, já se avistava a começo do cortejo divino.
O barco dos pilotos ESPINHEIRO, com pompa e circunstância, com Virgem, irmandade, estandartes, lanternas e muitos devotos, abria o caminho. Seguidamente, um pouco ao molho e fé em Deus, salve-se quem puder, mas com cuidado e responsabilidade, outros sucediam-se.

Barco dos Pilotos

A motora TRAVESSO transportava o andor da Senhora da Nazaré, que não podia deixar de estar presente na festa.

TRAVESSO

Entre diversas embarcações de recreio acompanhantes que se ultrapassavam umas às outras, seguia, como vem sendo tradição, na traineira JESUS NAS OLIVEIRAS, a imagem da Senhora dos Navegantes, a padroeira, com banda gafanhense a bordo, muitos crentes, autoridades e enfeites diversos, desde palmas hirtas ou vergadas em arco, muitas, muitas flores, código de sinais, algumas insígnias clubísticas até à bandeira nacional. Tudo isto, sobre uma ria que faiscava prata, cegando-nos.

 
JESUS NAS OLIVEIRAS
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Como os homens não se medem aos palmos, como sói dizer-se, também a devoção não se mede pelo tamanho das embarcações – a pequena bateira de pesca, OS MANOS, transportava, numa proa de flores, uma minúscula Senhora de Fátima e ocupantes, pejados de brio e fé.
 
Brio e devoção...

Como a turbulência não era assim tanta, o «nosso arrais», este ano, propiciou-nos a volta por S. Jacinto, seguida de uma visita à Praia Velha, do Farol, em que veraneantes e pescadores aproveitavam as delícias de um sol incandescente e candente de fim de Verão.
Entretanto, o desfile religioso também seguiu o seu percurso até à Meia-Laranja, onde retornou, para dar início à recta final, entre paredões carregadinhos de mirones.
Encerrava o desfile religioso, uma embarcação majestosa, pelo seu tamanho, de colorido apelativo – o rebocador MONTE DO LEÇA.
 
Final do desfile

O momento alto, em que as embarcações acostavam em ancoradouro junto do Forte da Barra, em frente à capelinha, para apear as divindades e irmandades, aproximava-se.
Não faltaram também à chegada as sirenes, as gaitadas agudas, o estridente ribombar dos foguetes, que nos envolviam e estremeciam a alma.
Tudo isto com um não sei quê de devoto, místico, profano, folclórico e etnográfico que se entrelaça e confunde!!!!!!!!!!!!!!!!!
 
A chegada da padroeira
 
 
Senti a falta de o Santo Amaro oriundo da Capelinha da Costa Nova, altaneiro no seu meia-lua, num mar de flores. Faltou à chamada, pareceu-me.
Chegados à marina do Oudinot, degustámos uma saborosa merenda, enquanto os fiéis presentes participavam na divina Eucaristia, transmitida por ruidosos altifalantes. Festa é festa, romaria é romaria. E o Setembro já vai a meio. De meados de Setembro ao Natal, é um saltinho de pardal – adaptemos.

Imagens – Fotos da autora do blogue

Ílhavo, 17 de Setembro de 2013

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Regata de Moliceiros do S. Paio - 2013

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Hoje, sábado, dia 7, o PARDILHOENSE repete a dose e traz outro grupo de romeiros às festividades do S. Paio – é a regata dos moliceiros. Quantos estarão presentes?
À chegada, a maré não nos possibilita a atracação no Cais do Guedes e vemo-nos obrigados a amarrar na cais dos pescadores, de «braço dado» com O MARNOTO. Um pouco mais atrasado, chegou O INOBADOR.
O SÃO SALVADOR, da Junta de Freguesia de Ílhavo, já lá residia há uns dias para ser aparelhado com tempo. O arrais seria murtoseiro de gema – o Marco Silva.
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Barcos moliceiros de tamanho vernáculo, apenas se apresentaram dez, mais algumas amostras, com as quais embirro e que só atrapalham na fotografia. A regata dos moliceiros, ainda sublime, tem vindo a perder o brilho, pela diminuição consecutiva de embarcações presentes. Fica a interrogação – até quando teremos moliceiros na ria?
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Cansada de ontem, hoje, não deixarei mais que um relato dos acidentes e incidentes e registo das classificações para memória futura…
A moldura humana não tinha o mesmo fervor da véspera. Eu também apenas segui a corrida, da margem, que não é, de modo algum, tão emocionante!
Dada a partida, ei-los que largam tal cisnes brancos de asas iluminadas ao vento, tirando partido da posição na saída, da sabedoria e sorte dos arrais e da superfície dos panos, que a meu ver, deveria estar regulamentada.
Fugindo àquela imagem mais habitual de moliceiros certinhos, quase em posições paralelas, de velas incandescentes, em diagonal, focarei outros aspectos.
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Uma «molhada» de moliceiros

Os primeiros quatro…, cinco…, foram-se destacando, parecendo querer definir posições. Eis senão quando, de repente, avisto uma embarcação das que iam destacadas a querer tombar, ai!, ai!, ai!, e já está!... que emoção!... completamente adornada, fazendo da ria o seu leito.
Fotografias de pessoa amiga, ajudam-me posteriormente a ter uma perspectiva mais próxima do sucedido, em sequência.
Qual foi? Qual foi? Ainda por cima, ia em terceiro lugar… Ninguém sabia…Havia alguns moliceiros com costados da mesma cor. Só no final, a nossa curiosidade foi satisfeita – tinha sido o MANUEL SILVA.
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MANUEL SILVA - 1.
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MANUEL SILVA - 2.
 
MANUEL SILVA – 3.
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Imaginamos que terá sido dramático para a tripulação, que, fisicamente, nada sofreu. Houve alguma dificuldade no processo de remoção, tendo a embarcação sofrido alguns danos – constava.
Bem, não fora o PARDILHOENSE, constatámos, por exclusão de partes, caso contrário, teríamos de fazer uma maratona a nado, até ao Oudinot, vá lá, com água e vento a favor.
Também houve algumas desistências, mas a brisa, que até ia «caindo» não justificou mesmo estes desaires. Acontecem ao mais «pintado».
Classificação:
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1º - SÃO SALVADOR – Arrais Marco Silva
2º - ZÉ RITO – Arrais Zé Rito
3º - A. RENDEIRO – Arrais Zé Rebeço
4º - CÂMARA MUNICIPAL DA MURTOSA – Arrais José Caneira
5º - INOBADOR – Arrais Pedro Paião
 
O Ti Zé Rebeço em prova

De regresso, ultrapassámos O MARNOTO, na sua imagem fascinante. Não foi propriamente premiado, mas teve uma presença brilhante e digna, como a imagem denota, no seu porte elegante.
 
Porte elegante…

E mais um dia bem passado na ria, em são convívio, ambiente único, natural, sadio e festivo.
Grande gente, a gente da ria, «mai-las» suas embarcações, as que vão restando.
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Imagens da autora do blogue. As do MANUEL SILVA, gentilmente cedidas por Mariano Zé
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Algures na ria, 7 de Setembro de 2013
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Ana Maria Lopes
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domingo, 8 de setembro de 2013

«Durante» o S. Paio - 2013

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Como escrevinhei o «antes» do S. Paio, há quem espere pelo «durante». Ei-lo, aí vai ele, antes que seja tarde e se perca a emoção.
Um grupo de amantes da ria organizou-se e foi no moliceiro PARDILHOENSE, com a mira do S. Paio – a maior das romarias lagunares setembrinas de fim de Verão. Objectivo – assistir à regata de bateiras à vela e à corrida dos chinchorros – programa imperdível! Acompanhar as embarcações, apreciá-las, sorvê-las, admirá-las e divulgá-las.
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Mas o tempo promete, não promete?
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Nem chuva, nem sol, nem relâmpagos, nem trovões, nem calor, nem frio. Uma calmaria podre. A ria, um espelho, que a ausência de sol não valoriza. Mas, aguardemos!....
Os «nossos» romeiros vêm chegando, com entusiamo, farnéis diversos (chegou-me aos ouvidos…) e cheios de desejo de viver um dia na ria, à moda antiga. Dos 40 anos aos 70… com boa vontade, ou dos anos 40 aos 70?
Desvendem o trocadilho.
O astro-rei parece querer trespassar a camada de nuvens para nos aquecer a alma e encharcá-la de luz.
Muitos conhecidos, muitos amigos, muitos fotógrafos, boa disposição e cordialidade a bordo. E a tripulação vai aparelhando o PARDILHOENSE.
A viagem como de outras ocasiões, desta vez, a motor, por imperativos de horário, começa e prossegue sem incidentes.
Uma linha do horizonte mais escura divide dois mundos, ambos cinzentos, mas etéreos – o céu e a água.
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Linha do horizonte
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Muitas câmaras, mais ou menos pomposas, muitas objectivas poderosas, tripés, monopés, um «cardápio» de material fotográfico… A ria merece.
A luz tenta penetrar e aureolar a paisagem, facilitando os reflexos.
 
Reflexos em S. Jacinto
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Lembrou-me a descrição de uma ida ao S. Paio, em mercantel, relatada por Egas Moniz, em seu livro de memórias, A Nossa Casa.
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«Na festa de S. Paio, a grande romaria da gente ribeirinha, a ria coalha-se de barcos que provêm de todas as freguesias marginais. Abundam os moliceiros lindamente embandeirados, com sinais distintivos para que os tripulantes os reconheçam quando, encostados uns aos outros, formam na Torreira a frota da alegria.
São as famílias e amigos do proprietário do barco que o enchem de raparigas airosas, de olhos escuros e tez morena, e de rapazes desempenados e garbosos, tisnados pela maresia (...)».
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O ambiente à chegada já era bem festivo, mas faltávamos nós, logo que tínhamos decidido degustar uns pitéus a bordo. Nada faltou. Vitualhas em abundância…desde rojões, sandes de queijo e fiambre, pataniscas de bacalhau, quiche, broa com azeitonas, queijo… a chouriço preto e vermelho, assados a bordo, quentinhos, a sair, por assador perito e gafanhão orgulhoso, da Gafanha de Baixo! Tudo bem regado por um vinho alentejano branco Porta da Revessa, por um tintol adequado e por «água fresquinha», para os mais imaculados.
Para quem não dispensa a fruta, uva saborosa e graúda, melão aquoso e figos apetecíveis, acabadinhos de arrancar da árvore, a gosto.
Claro, não podia deixar de ser, mesa posta em toste do moliceiro, coberta por toalha colorida.
Ou não tenha servido esta embarcação de casa – dizia Raul Brandão.


A assar a chouriça, a bordo
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Algumas bateiras já vão ensaiando o pano, a hora da partida, 3 horas, aproxima-se. E nem milhares de  olhos conseguiriam captar tanta beleza.
De repente, aguarelas belíssimas saídas da paleta de pintor sublime, imaginário e criador, deliciam-nos.
É dado o sinal de partida, a brisa norte vai apertando, a marola sucede e a arte dos arrais é posta à prova.
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Aguarela surpreendente
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Um chamado «vento burro» (incerto) – refere o Ti Abílio Carteirista – faz «das suas». E uma boa meia dúzia de bateiras, entre as cerca de quarenta, concorrentes, virou. Nada de maior! «Quem anda à chuva, molha-se».
Junto das bóias, a ria lembrava uma pista de carros eléctricos de choque, em que cada um, neste caso, cada uma, lutava pelo melhor lugar.
As velas das bateiras, em competição, conforme a posição, ganham uma brancura que até fere a vista, tal qual um abat-jour iluminado por lâmpada poderosa.
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Abat-jours iluminados
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Neste dia, há pequenos/grandes pormenores, que completam e embelezam a «alma das bateiras»: a toste, o mastro e a vela, respectivos cabos e leme, por vezes, com sigla. O céu azul em que se empastelam, adornado de nuvens róseas acaramuladas, tal pedaços de algodão perdidos no infinito, completa o cenário.
Sinto-me encharcada de tanta beleza e quase não consigo ordenar as ideias e a prosa. Jorram!
Não conheci o proprietário da bateira vencedora, que tinha o casco beije, cor não muito usual para o costado desta embarcação. Prestou boa prova.

Bateira vencedora. Foto de TCS
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Em segundo lugar, o Marco Silva, que nos proporcionou belas imagens, a bordejar, com a borda debaixo de água e o camarada, em equilíbrio, em pé, sobre a falca. A serra como fundo, com casinhas brancas, soltas, incrustada no céu, qual pantalha azul, azul, azul…
 

A bateira do Marco, em 2º lugar
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Meu Deus! Que mais se pode exigir da natureza?
Foguetes e palmas para os primeiros classificados!...
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O intervalo entre corridas deu para ir a terra, esticar as pernas à borda-d’água, contemplar os chinchorros que se preparavam, visitar o café do Guedes e sentir a romaria.
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A travessia dos chinchorros é um espectáculo único, daqueles que nos faz ferver o sangue e que vale a pena vivenciar. Não possibilita grandes imagens, mas faz subir a adrenalina e o entusiasmo. Grandes homens e grandes mulheres! É a competição pura e quase feroz! Excitante, mas pacífica!


Chegada de chinchorros

Hora do regresso!
Meios chochos e cansados, «vimos da festa». A emoção gasta…
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Mas o lanche ajantarado preparado com desvelo pela Etelvina, com outras participações, «aqueceu a guelra». E, oh, oh, uma caipirinha, preparada a bordo, pela Lourdes, com todos, incluindo as muitas batedelas com o pilão, no meio de muito boa disposição, aqueceu a «malta». É que o vento norte soprava fresco e, então, o arrais, decidiu trocar o motor pela vela. Com maré e vento de feição, era um tal andar!...
No meio de grande azáfama e de alguns receios, era um tal obedecer a ordens:
 
- Pessoal para bombordo! Pessoal para estibordo! Tudo à proa! Mais gente para a ré!
- Caça o pano! Cuidado com as cabeças! Atenção à escota!
- Toste a bombordo! Toste a estibordo!
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Desligado o motor, é como que se apagou uma antiga máquina de petróleo.
E os barulhos naturais vêm ao de cima – o chape-chape da água da marola contra o costado, o ruído do vento, o panejar da vela, o piar de gaivotas e gaivinas – e são pacificadores!
Em frente à barra… entre o Triângulo e o Forte, à vista do porto de pesca costeira e do Sto. André, alguns chapiscos acordam-nos, no meio de tanta beleza.
Preparativos para a atracação – escota solta! Vela a panejar!
Chegada ao Oudinot e desembarque!
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Grande dia de ria, de romaria, de maresia e de agradável convívio. É de repetir!
Imagens da autora do blogue. A da bateira vencedora, gentilmente cedida por Teresa Cruz Santos
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Algures na ria, 6 de Setembro de 2013
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 3 de setembro de 2013

O «antes» do S.Paio - 2013

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Cumprindo uma ancestral tradição, a partir de amanhã e até ao próximo domingo, dia 8, a praia da Torreira, no concelho da Murtosa, volta a encher-se de gente vinda dos mais variados pontos do País, em maré de celebração, para a romaria do S. Paio, indiscutivelmente, a mais concorrida, popular e afamada da região.
 
A influência da festa é de tal ordem que ali o calendário é marcado em função da romaria e então é comum ouvir dizer-se que determinado assunto fica para “antes ou depois do S. Paio” – refere o Diário de Aveiro de hoje, 3.9. 2013.
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O texto despertou-me a atenção…
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Amanhã, começa a romaria e como adoro os preliminares das festas, resolvi ir até lá para ver, realmente visto, como «era o antes do S. Paio».
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Claro, as ruas já estavam engalanadas, como supunha, com as suas decorações e iluminações temáticas – davam-se apenas os últimos retoques e experimentavam-se as ligações.
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As primeiras tendas do que, agora, em todas as festas, são uma feira, já tinham chegado ou já estavam a chegar. Encontra-se de tudo um pouco e a preços de saldo, ou não tenhamos um país em saldo, desde as imagens mais devotas até à lingerie mais ousada e arrojada nas talhos e coloridos.
Como sou suspeita nos meus sabores marítimos, fui visitar os preparativos e os ensaios das embarcações que se preparavam para desfilar na ria, deixando boquiaberto quem aprecia. Deslumbrantes e etéreas aquelas velas disseminadas pela paisagem de uma beleza azulina e empolgante, deslizavam entre céu e ria. Tudo era atraente e não se passava dos preparativos.


Preparativos...
 
                                                     
Na sexta-feira, pelas 15 horas, não percam a regata das cerca de 40 bateiras, distribuídas por várias categorias, que nos surpreenderão, enchendo-nos a alma de cor, luz, reflexos e magia.
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Com dois tripulantes, já treinavam e acertavam as manobras, com fervor.
 

Treinavam…

Cerca das 17 horas, será o momento da actuação dos imponentes chinchorros, em travessia lagunar, com o entusiasmo vibrante e ágil das tripulações masculinas e femininas.


Chinchorro Raquel em competição (2012)
 

Enquanto alguns estaleiros, em Pardilhó e na Torreira, davam os últimos retoques a bateiras que desfilarão nas regatas, o moliceiro da Câmara Municipal da Murtosa sofreu, no estaleiro do Zé Rito, à beira-ria, uma amanhação de que estava bem carente, assim como o restauro de pintura e seus painéis, para a regata de moliceiros, no sábado, pelas 16 horas. O Zé Manel Oliveira não podia faltar, na renovação das decorações. Faz parte da romaria, ou seja, da «mobília», como sói dizer-se.


Zé Manel repinta a SANTA LUZIA
 

Em tarde quente de Verão, de pés a chapinhar na água acalentada, rodeei a elegante embarcação, para apreciar e fotografar mais quatro novos painéis naïfs e coloridos, verdadeiro exemplo de arte popular.


Painel de proa. EB
 

Painel de ré. EB


E a festa já se vive, na véspera, com entusiasmo, mas sem grandes rebuliços.
 
Vamos esperando que estes últimos dias quentes de Verão se vão aguentando (não é o anunciado…), para podermos apreciar o que de melhor e entusiasmante se faz na ria, a nível de romarias populares.
 
As outras, as que Deus tem, já foram!....
E no domingo, dia 8, dia do santinho milagreiro, lá desfilará a procissão, como é hábito, com os andores que lhe são característicos, acompanhados por diversas irmandades, grupos de escuteiros, representações de emigrantes, personalidades, bandas de música, entre as quais a famosa Banda do Visconde de Salreu, e muitos crentes, que cumprem promessas. Dando a volta até ao mar, saúdam os barcos, em homenagem aos grandes homens que ali entregam a sua vida, sempre ameaçados por grandes perigos, em busca de alimento diário.


O andor do S. Paio (2012)
 
 
E mais um S. Paio se avizinha. Vivamo-lo com alegria, em confraternização e percurso lagunares, a bordo de um moliceiro tradicional.
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Imagens – AML e Etelvina Almeida (chinchorro e andor)
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Costa Nova, 3 de Setembro de 2013
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Ana Maria Lopes
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sábado, 31 de agosto de 2013

Ida às Berlengas no Santa Maria Manuela - IV

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Quando acordei já todos tinham almoçado. A pescaria já ia longa e produtiva. A certa altura, alguém anuncia que viu um tubarão! Todos se aproximam para ver de que se tratava e, de facto, era sem dúvida um animal com cerca de um metro de comprimento, que nadava no seu vagar. Começou a comer tudo o que lhe aparecia pela frente e o pessoal queixava-se que o animal não deixava ninguém pescar. Passados uns minutos, apareceu outro idêntico. A tripulação chamava-lhes "canejas". São ligeiramente maiores que os cações e a sua aparição é frequente por estas paragens, normalmente longe da costa.
– Quem se atreve a ir agora para a água? – Alguém perguntou.
A mim, os animais pareciam ser inofensivos e até me apetecia ir tomar banho, mas o desconhecido falou mais alto, porque podiam aparecer mais e a situação descontrolar-se-ia. E, na altura, não se conseguia perceber se estas não seriam os tubarões-bebé brincalhões e se não estariam o pai, a mãe, os tios ou os primos a tomar conta, mais abaixo.
Mais tarde, confirmei que a espécie é, de facto, inofensiva e que não há registo de algum animal destes alguma vez ter atacado uma pessoa na água. Os animais querem mais é que os deixem em paz.
Mas a tripulação não lhes estava a achar graça. Já tinham partido algumas linhas e comido iscos, chumbos e tudo o que lhes aparecesse no caminho. Então decidiram tentar pescar um. Arranjaram um cordel mais grosso que as linhas de pesca normais e também um anzol mais forte, a que prenderam uma cabeça cortada de uma das muitas cavalas que tinham sido pescadas.
À primeira tentativa falharam – o peixe comeu o isco mas não ficou preso. A segunda tentativa foi ensaiada pelo mestre, que supostamente tinha mais experiência. E, comprovou-se, porque foram bem-sucedidos, com um pequeno contratempo – o animal foi içado para bordo e esperneava, barbataneava, rabeava e dava cabeçadas por todo o lado. Filmei tudo e já revi. O mestre, entendido no assunto, tentou pegar-lhe pela cauda, mas o animal foi mais esperto – num golpe de rins muito contorcionista, conseguiu morder-lhe o braço de tal forma, que ainda hoje lá deve ter os dentes marcados, apesar de serem relativamente pequenos. Mas antes de ir à enfermaria, o mestre ainda teve tempo e força para o apanhar definitivamente e dar o golpe fatal.
A pesca desportiva a que a maioria dos instruendos e da tripulação se tinha dedicado resultou em quatro caixas de peixe fresco. Para além da caneja que, já arranjada e pronta para consumo por especialista, ocupava exclusivamente uma das caixas, havia (salvo erro) por ordem decrescente de quantidade, cavalas, salmonetes, fanecas, besugos, sargos e ruivos.
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A tripulação encarregou-se de distribuir irmãmente o peixe pelos instruendos que quiseram levar alguns exemplares para cozinhar em casa. A maioria dos colegas não quis levar nada, pelo que ainda sobrou bastante. Bom destino teve, certamente.
Por volta das 5 da tarde, o navio levantou o ferro e fez-se à barra de Aveiro. Parecendo que não, ainda teríamos que percorrer cerca de 14 milhas, o que, à velocidade de 7 ou 8 nós dá cerca de 2 horas.
Estava calor e soprava uma leve brisa. À medida que o sol baixava, ficava mais frio, mas a vista ficava mais regalada, com aquela cor alaranjada a ser reflectida pelos objectos mais claros.
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O navio entrou a barra devagarinho, sem a confusão que tinha havido no dia anterior de manhã, com os pescadores desportivos e seus barquinhos. A maré estava baixa. À medida que nos aproximávamos do cais do navio, onde já esperavam familiares e amigos, começámos a perguntar-nos como iria atracar. Para surpresa nossa, ainda conseguiu arranjar espaço para dar a volta, atracando por bombordo, para ficar pronto a sair novamente.
A manobra de atracação não é fácil, sobretudo tendo em conta que a maré estava vazia e que havia alguma corrente e vento a dificultarem as operações.
No entanto, tudo correu sem percalços. Tive oportunidade de verificar, com agrado, como funciona a hierarquia a bordo, sobretudo em situações mais delicadas, como esta atracação. Só se ouvia uma voz – a do Comandante. Por acaso, a tripulação não pareceu estar muito treinada nestas manobras. A hierarquia intermédia parecia estar um pouco desorientada e os marinheiros ficavam a aguardar ordens que demoraram a chegar.
O Argus assistia impávido e sereno a todo o processo. Certamente pensaria que algum dia pode voltar a ser a sua vez de lavar a cara e ser o suporte para uma tal experiência, ou outras viagens mais importantes.
Toda a manobra demorou mais de meia hora. Nós já estávamos com alguma vontade de sair, porque o dia seguinte era de trabalho normal. Fomos buscar o peixe a que tivemos direito e, depois de instalada a escada de portaló, lá abandonámos o navio com aquela lágrima de saudade no canto do olho, mas cheios de tanta emoção e aventura.
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Foi com grande prazer que «abri» o Marintimidades à colaboração do meu filho Paulo Miguel Godinho, dono de uma grande sensibilidade perante as «coisas do mar e da ria».
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Costa Nova, 31 de Agosto de 2013
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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Ida às Berlengas no Santa Maria Manuela - III

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O dia seguinte acordou nublado e muito calmo. Não se via o sol nem o vento. Por certo a viagem nocturna terá sido mais lenta. Ainda navegávamos, mas já estávamos perto do destino pretendido, que era o pontal da Galega, pesqueiro que fica a cerca de 14 milhas da barra de Aveiro, para noroeste.
O navio tinha canas de pesca que já tinham sido preparadas para todos se poderem divertir um pouco durante este dia.
Mas os meus planos não passavam pela pesca. Pensava mais em começar por tomar um banho revigorante e nadar em mar aberto – mais uma coisa inédita na minha "lista de coisas a fazer, se possível".
Entretanto, o pouco vento que havia de manhã tinha desaparecido por completo. Achei muita piada à descrição que aparece numa tradução da escala de Beaufort a que tive acesso – "mar de azeite". Não me lembraria de melhor expressão. Era mesmo, tal e qual.
 
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Não sei se seria do frio ou da vontade de pescar, mas ainda não tinha aparecido ninguém interessado nesse banho. Por isso, tive de ser eu a perguntar se não podia dar um mergulho.
– Claro que sim – respondeu o comandante – nesse caso, só temos que baixar um bote para a água, por uma questão de segurança. Faça como preferir: pode descer no bote, descer pela escada, ou atirar-se da borda.
– Hum, atirar-me da borda, não. Já estou velho para essas coisas. Prefiro descer no bote – respondi eu.
O  problema era mesmo eu achar que a água devia estar gelada e que ainda morria de hipotermia ou algo do género.
Por isso, lá desci no bote com o membro da tripulação que tinha sido destacado para me acompanhar. Não levei máquina fotográfica porque tinha medo que se molhasse e preferia viver o momento a ter que ficar atrás da máquina.
Afastados uns metros do navio, com os meus óculos de piscina bem apertados, mergulhei o mais fundo que consegui, na remota esperança de ver algum golfinho que estivesse à minha espera. Mas nada – para baixo, tudo escuro como breu e para cima, só a silhueta do bote. Sem guelras nem pulmões gigantes, tive que regressar à superfície.
E ao regressar, dei de caras com o navio, visto de fora, pois claro – um doce para a vista. Nem me tinha dado conta que ainda não o tinha visto de fora, nem sequer quando saí no bote a caminho da água supostamente gelada. Todo o cenário era idílico para a minha memória recheada de imagens antigas de lugres bacalhoeiros fundeados, enquanto os seus dóris tinham saído para a pesca. E mais – com este tempo nublado e com um mar que mais parecia um espelho de água, dava mesmo a ideia de estar a ver o Santa Maria Manuela na Groenlândia, onde estas calmarias eram mais frequentes.
Bom, acordei do sonho e decidi nadar um pouco...
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Ainda fiquei algum tempo na água. Já tinha frio, embora ainda não tivesse escamas. Quando já estava a subir as escadas definitivamente, para ficar no navio, ouço o comandante do Santa Maria Manuela a dizer:
– Vejam! Há golfinhos à proa. Estão muito perto. Não querem ir no bote lá ter com eles? Têm que ser rápidos. Eles estão a afastar-se.
De certeza que eles ouviram as minhas preces ou os meus pensamentos. Nem pensei duas vezes – atirei-me outra vez para a água e subi para o bote. Outros dois colegas de viagem juntaram-se a nós. Tinha esperança que a minha mulher aparecesse para nos acompanhar, mas isso não aconteceu.
O pequeno bote zarpou a grande velocidade na direcção dos golfinhos. Os meus colegas tinham trazido máquinas fotográficas e eu não, por causa da azáfama do banho e do medo que a máquina se estragasse. Mas depois voltei a pensar – ainda bem que não trouxe – será bom para desfrutar do momento.
E não foi preciso esperar muito. Em menos de um minuto estávamos junto deles. Eram pelo menos vinte. A minha boca só se abria de admiração e emoção. Os seus corpos eram visíveis debaixo de água. Apareciam de todos os lados a grande velocidade! Saltavam, brincavam, eram curiosos. Empurravam-se uns aos outros, como crianças que se querem chegar mais à frente para ver melhor.
Parecia que estávamos no meio de um espectáculo de golfinhos, mas este era genuíno e de grande beleza. Nenhum deles parecia medir mais de 3 metros e a maioria teria menos de 2 metros.
Ainda bem que não levei máquina fotográfica. Depois de passar algum tempo a assistir ao espectáculo, no meio da alegria, perguntámos ao comandante do bote se achava que podíamos tentar nadar com eles. Ele respondeu que sim, que não via nenhum motivo contra.
Então mergulhámos o mais rapidamente que conseguimos, mas... Que é deles? Desapareceram! De dentro do bote disseram:
– Assim que vocês mergulharam, eles fizeram o mesmo e já não os vimos mais.
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Os golfinhos apareceram passados uns momentos a uns bons 500 metros do bote, na direcção contrária à do navio. Mas estavam muito mais nervosos e ariscos e já não estavam tão brincalhões nem curiosos.
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Na altura, pensei que fosse a última oportunidade para tentar o encontro imediato no meio deles. Com autorização do nosso comandante, lá me atirei novamente. A mesma cena de fuga endiabrada repetiu-se, com uma pequena diferença: dentro de água, ouvi as suas vozes com grande perfeição, tal e qual as dos muitos filmes e discos em que as vozes destes simpáticos mamíferos marinhos foram registadas. Só que fiquei com a nítida sensação destas serem ligeiramente diferentes, em tom de lamento, como quem diz "nós até estávamos a gostar da brincadeira, mas não gostamos de estranhos e vocês têm que ficar mais tempo para nos conhecermos melhor".
Sendo assim, lá subi desgostoso para o pequeno bote e tinha acabado de acrescentar uma linha na minha "lista de coisas a fazer, se possível". O que será? É fácil: nadar com golfinhos, claro!
Com tudo isto, já estávamos, com certeza, a mais de uma milha do navio, que se via com grande nitidez, no meio da calmaria. O comandante do bote ainda disse:
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– Os golfinhos já se estão a afastar demasiado. É melhor regressarmos, não vá a nossa gasolina acabar.
– Claro que sim – respondemos todos.
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Quando cheguei ao navio, tiritava de frio. E a dor de cabeça que me atormentava desde manhã cedo tinha aumentado de intensidade. Por isso, decidi tomar um comprimido para o enjoo e deitar-me debaixo dos cobertores. Adormeci.
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E o relato do meu filho Paulo Miguel Godinho continua.
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Costa Nova, 23 de Agosto de 2013
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