quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Ida às Berlengas no Santa Maria Manuela - II

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É certo que o vento não soprava. De tarde aumentou um pouco, mas ainda estava fraco. Mas o Santa Maria Manuela não se fez rogado e, uma a uma, todas as velas foram içadas. Ao sair a barra, já estava em cima a vela grande e à proa, a polaca e a bujarrona. Ao início da tarde foram içadas, por esta ordem, a giba (à proa), a vela do traquete, a do contratraquete e por fim, a vela da mezena. Mas não se iam ficar por aí. Logo a seguir, seriam içados, por esta ordem, os gavetopes do traquete, do contratraquete, do grande e da mezena (ou seja, um a um, da proa para a popa). E assim passou o Santa Maria Manuela a navegar com todos os seus 11 panos orgulhosamente envergados nos seus mastros.
Foi curioso observar a confusão de cabos que abunda por todo o navio, até porque tenho sempre que pedir ajuda para montar convenientemente o catamaran que costumo alugar na Costa Nova. E assim, logo à partida, quando comparado com esse barquinho, a dificuldade aumenta enormemente, a partir do momento em que se começa a multiplicar por 11 o conjunto de cabos e apetrechos necessários para cada vela ou mastro: escotas, adriças, moitões, amantilhos, brandais, enxárcias, mais os cabos para amarrar cada vela quando descansa... E certamente me estou a esquecer de outros mais... É preciso tirar um valente curso. Mas a tripulação manejava toda esta parafernália com destreza e mestria.
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Ainda a respeito dos gavetopes, confesso que não conhecia o termo, mas rapidamente tentei inteirar-me do seu significado. "Gavetope" ou "gafetope" são as palavras portuguesas que derivam do inglês "gaff top", que significa topo da gávea. Portanto, o termo identifica as velas que são içadas no topo dos mastros. Pensava que estas seriam as famosas estênsulas, envergadas pelos antigos lugres, como o próprio Santa Maria Manuela, quando era mais novo. Mas não. Em comparação com as estênsulas, estes gavetopes são mais pequenos e certamente muito mais leves – uma das muitas inovações introduzidas na remodelação do navio, que não desvirtuam o seu aspecto.
Talvez devido à beleza e elegância que o navio espalhava no ar e espelhava na água, tivemos a simpatiquíssima visita dos verdadeiros especialistas da hidrodinâmica e da destreza aquática para completar o cenário – pelo menos três golfinhos apareceram para brincar na proa do navio e acompanhar a sua deslocação suave. Nunca tinha assistido ao vivo. Fiquei o tempo todo a admirar os seus movimentos rápidos e elegantes.
Pareciam ser eles que rebocavam o navio. Andavam de um lado para o outro, a vante. Apareciam acima de água, saltavam, mergulhavam, passavam por debaixo da proa do navio e apareciam do outro lado. Davam a sensação que viviam uma intensa alegria.
A viagem continuou calma e o vento até amainou um pouco. À medida que o sol se aproximava do horizonte, todas as cores ficavam mais quentes, quase parecendo queimar os objectos.
Entretanto, vimos uma nuvem curiosa por estibordo, por detrás da qual se escondeu o sol. Estava previsto alterar o nosso rumo sucessivamente para estibordo, invertendo o sentido da marcha em direcção a norte, para regressar. Passaríamos entre a Berlenga e os Farilhões. Mas, surpresa das surpresas (para mim, pelo menos), à medida que nos aproximávamos da referida nuvem, as condições de vento e de mar começam a alterar-se bruscamente. Passou a estar mais frio, pelo que tivemos que vestir uns casacos e passámos a ouvir uma zineira permanente.
Como o vento vinha de estibordo, de oeste, e ainda teríamos que andar algum tempo nessa direcção, para passar a sul dos Farilhões e inverter o sentido da marcha, assim que começámos a andar contra o vento, naturalmente as velas começaram a bater. Todos os panos ainda estavam içados e, principalmente, os gavetopes esvoaçavam numa dança permanente.
Não estava preocupado com toda a barafunda, porque um veleiro é um veleiro e eu sabia que assim que cruzássemos a linha do vento, as velas encheriam do lado contrário, o navio teria conseguido virar de bordo e prosseguiríamos a rota definida.
De qualquer forma, até que isso acontecesse, gerou-se alguma azáfama a bordo, para baixar os gavetopes, que continuavam endiabrados. O cenário era digno de registo, embora um pouco enigmático, porque ainda havia um lusco-fusco, a lua estava cheia e começava a espreitar por debaixo da tal nuvem, o navio tinha os holofotes do topo dos mastros acesos e a tripulação andava de um lado para o outro, embora houvesse alguma ordem em tais movimentos. A hierarquia de comando parecia funcionar e cada um sabia a sua função com maior ou menor rigor.
Eu observava e fazia experiências com a máquina fotográfica e com o telemóvel para tentar armazenar esse movimento – do mar, das velas, das gaivotas e dos homens, o melhor possível. Sim, porque situações destas, de movimento, luz e cor, não acontecem ao virar da esquina.
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E já disse gaivotas. Sim, não sei donde elas apareceram. Provavelmente vieram dos Farilhões ou da Berlenga. Estão habituadas a ver passar muitos veleiros por estas paragens. Mas a maioria deles são mais pequenos e não são tão vistosos como o Santa Maria Manuela. Imagino que as gaivotas tenham vindo para ver se estava tudo em ordem.
Certamente, não só acharam alguma parecença entre as velas do navio e as suas próprias asas, como também lhes pareceu familiar a forma leve e elegante como o navio sulcava as águas, muito semelhante ao seu próprio movimento de planadoras, quase sem esforço.
Ouvi-as, talvez por telepatia, dizer umas para as outras:
– Este não é o Creoula? É tão parecido!
– Não, são realmente parecidos mas esse costuma vir de sul e este veio de norte. Eu já vejo as suas velas desde que passou ao largo da Nazaré.
Ainda tagarelaram mais qualquer coisa, mas já não consegui ouvir. Depois, acho mesmo que pararam de conversar e começaram um movimento frenético de mergulho, seguido de refeição rápida, do tipo fast-food. Às vezes, os peixes fugiam-lhes. Mas elas não largavam o navio. Pareciam aproveitar a luz e o movimento. E não sei mesmo se não pousariam algures para descansar, aproveitando a boleia.
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Estava tão envolto nestes movimentos graciosos de asas e refeições rápidas, que quase me assustei... De repente, parecíamos ter ficado às escuras. Apagaram os holofotes dos mastros. As gaivotas não eram mais visíveis. E o corpo parecia querer um bom beliche para descansar.
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E o relato do meu filho Miguel continua.
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Costa Nova, 15 de Agosto de 2013
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sábado, 10 de agosto de 2013

Ida às Berlengas no Santa Maria Manuela - I

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Foi no fim de semana dos passados dias 20 e 21 do mês de Julho que, juntamente com a minha família, embarquei no navio Santa Maria Manuela, para uma viagem pequena e quase insignificante, mas inesquecível. Iniciou-se no porto de pesca da Gafanha da Nazaré, de onde saímos em direcção ao arquipélago das Berlengas. Passámos entre a Berlenga e os Farilhões e regressámos durante a noite, em direcção ao pontal da Galega, pesqueiro que fica a cerca de 14 milhas da barra de Aveiro e a 19 milhas da barra de Leixões, para um dia dedicado a actividades marítimas diversas.
Este relato será escrito mais como repositório de memórias, já que apesar de a viagem ser pequena em distância e tempo, foi muito grande em emoção e oportunidade.
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Chegámos ao porto de pesca da Gafanha da Nazaré ainda na noite de sexta-feira, com intenção de dormir a bordo, para não chegarmos atrasados para a partida, no dia seguinte, de manhã cedo. Aquele recanto em frente à empresa Pascoal parecia ter saído de um filme dos anos 50, com dois lugres reflectidos nas águas espelhadas da ria. Via-se que o Santa Maria Manuela estava à espera de qualquer coisa. Talvez soubesse que no dia seguinte iria partir para uma pequena aventura. O Argus ainda espera melhores dias.
Tivemos oportunidade de observar o navio com alguma atenção, sobretudo por dentro e, em particular, o camarote de "instruendos" que nos estava destinado. Não era propriamente um quarto de hotel de 5 estrelas. Mas, comparando com muitas fotografias antigas que em tempos me passaram pelas mãos, estará a grande distância do "rancho" que possuía quando era novo, sobretudo no que a espaço e a conforto diz respeito. Agora, a mesa de refeições já não fica junto ao beliche... Mas também não somos propriamente pescadores nem moços de convés. Temos o privilégio de embarcar como turistas de luxo.
Não me refiro propriamente ao tipo de luxo de massas dos grandes paquetes, quais Titanic modernos. É difícil de explicar. Talvez no fim deste relato se perceba a que me refiro.
Para alegria e gáudio nossos, era a primeira vez que iriamos navegar neste belíssimo navio e também a primeira vez que sairíamos a barra de Aveiro mais de 5 milhas mar adentro. Claro que havia o medo de passarmos enjoados toda a viagem, mas as previsões meteorológicas eram favoráveis. O tempo previa-se bom e o mar previa-se calmo. As condições seriam ideais para quem fazia uma primeira viagem deste género num veleiro desta dimensão.
A manhã estava calma e nublada, típica dos meses de Verão nesta região, com a sorte de não termos sido visitados por nenhum nevoeiro traiçoeiro, que normalmente impede a vista de alcançar o horizonte.
Ao chegarmos ao canal de saída da barra, sente-se alguma emoção. As pessoas que se encontram na margem acenam e tiram fotografias. O navio retribui com um apito estridente da sua ronca, apito esse que também serve para espantar as dezenas de barcos apinhados na boca da barra, local muito apetecível para a pesca desportiva.
A maioria dos pescadores que aí se encontrava também saudava o navio, mas algumas ovelhas negras, armadas em piratas das Caraíbas, que ocupavam ostensivamente o canal de navegação, desdenhavam da sua passagem. Alguns até chamavam nomes feios, porque eram obrigados a sair do supostamente fantástico local em que se encontravam. Em particular, um deles quase era abalroado pelo navio, se não tivesse conseguido manobrar o seu barquinho depois de ter levado um berro do mestre que vigiava a proa... Depois de se ver o seu pequeno barquinho a salvo, o seu pequeno comandante só teve tempo de dizer qualquer barbaridade, que na minha cabeça ficou registada como "para a próxima desvia-te, ó sua... sua... sua baleia branca sem dentes". E eu acrescento... Mas com mastros.
 
 

Bem, 10 minutos passados, já estávamos em mar aberto, numa calma absoluta, que contrastava bastante com as pequenas zaragatas da boca da barra, que mais pareciam saídas de um bando de gaivotas nervosas, em permanente discussão à volta do seu cardume. Tudo isso ficou rapidamente arquivado nas nossas memórias mais longínquas, sobretudo depois de tudo o que se ia seguir.
O curioso da navegação marítima é que tanto faz navegarmos num pequeno barquinho a motor, como num grande veleiro ou no maior dos petroleiros. Todos eles são obrigados a ter uma bússola tradicional e a carta de navegação da zona em que navegam, por mais sofisticados que sejam os instrumentos de navegação que tenham ao seu dispor. E em todos eles se calcula a posição, se define um rumo e se repete este binómio (calcular posição, corrigir rumo) vezes sem conta, sempre corrigindo o rumo que é alterado pelo vento e pela corrente, até chegarmos ao destino pretendido.
Claro que, no caso do Santa Maria Manuela, não só estão lá a bússola tradicional e a carta de navegação, mas também equipamentos de topo, como o GPS incorporado num sofisticado programa de navegação, onde aparece a derrota real do navio marcada sobre uma carta de navegação electrónica, dois potentes radares, uma girobússola, equipamentos de comunicações e o piloto automático, entre outros que não consegui fixar. Todos estes equipamentos fazem com que já não seja necessário marcar na carta linhas de posição (como por exemplo, azimutes ou enfiamentos). Basta olhar para o GPS e sabemos onde estamos. Mas mesmo assim, a posição era marcada na vulgar carta de navegação em papel, o que certamente será muito útil, na eventualidade de avaria de algum desses equipamentos.
Alguns colegas de viagem referiram que esta era mesmo a viagem ideal. A título de comparação, explicaram que, no ano anterior, em Setembro, fizeram uma viagem diabólica. O navio atingia inclinações de 45º – diziam. Não sei se seria assim tanto, mas não deve ter sido fácil. Descreveram que não se conseguia comer porque tudo andava de um lado para o outro. Era muito difícil dormir, porque mal se conseguiam segurar para se manter em cima do beliche, quanto mais dormir...
No fim da viagem, o saldo foram muitos enjoos, uma vela rasgada, copos e pratos partidos, mas com vontade de repetir, se possível um bocadinho mais calma. Era, sem qualquer dúvida, o caso desta viagem que relato.
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Foi com grande prazer que “abri” o Marintimidades à colaboração do meu filho Paulo Miguel Godinho, dono de uma grande sensibilidade perante as “coisas do mar e da ria”.
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Costa Nova, 10 de Agosto de 2013
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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Uma Aventura no Museu

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Amanhã, 8 de Agosto, os 76 anos do MMI
Uma Aventura no Museu – parece nome de filme –, mas, não, não é, nem sequer Uma Noite no Museu, passado no Museu de História Natural, em Londres. Quando muito, uma curiosidade de que os espólios são feitos…
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Motivada pelo acompanhamento do restauro de uma peça, fiz uma incursão pelas reservas de um museu. Há muito conhecia uma pintura que me encantava e que queria fotografar. Ainda não acontecera! Foi nesse dia.
Às vezes, não chego para as encomendas, tantos entusiasmos ganho, e não consigo dar aviamento a tudo quanto penso.
Tanta parra para tão pouca uva, dirão! Mas, olhem que não! Coincidências!...
Óleo empastelado, sobre madeira, sem data, de 260 por 188 mm, assinado no canto inferior direito, com as iniciais MF.
Não chego lá! Quem me ajuda? Socorri-me de documentação da época.
Mas, não é Manuel Tavares nem Carlos Fragoso. Tem o M do primeiro e o F do segundo, mas não é, não pode ser, de nenhum deles. Pintor regional? Será…
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Quanto à data, «atirá-lo-ia» aí para os anos 30 do século XX. Teria estado exposto na Semana de Arte Ilhavense, em 1932? Vou coscuvilhar. Mas, certamente. Seria daquelas peças que os Amigos do Museu, à época, teriam ido juntando para o tal desejado Museu dos Ílhavos, sob a batuta e o entusiasmo de Américo Teles?
Talvez a correspondência trocada entre a CMI, Rocha Madahil e Américo Teles esclareçam o nome do autor, o tal MF.
Baseado num postal, também não datado, edição de Victor Ferreira – cliché de Paulo Namorado – foi pincelado com as inebriantes cores da nossa ria. Comparem e sonhem. Espevita os sentidos e faz bem à alma.
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A ria da Costa Nova deixou-nos pérolas destas, pela paleta de alguém sensível e de fino gosto.

Labrega na ria – postal

versus


Óleo com acabamento a pastel

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Costa Nova, 7 de Agosto de 2013
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Uma janela para o sal - IV

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A pôr vieiros...


É com precisa geometria de saber feito, que se traçam os meios, ao eixo, num riscado de torrões de lama, velha e ressequida das anteriores safras.
 
 
 
 
Põem-se os vieiros, enchem-se com novas areias, alisam-se, calcam-se, endurecem-se...
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Gente do sal retira e acarreta tudo o que restou e se criou no alagamento, para depois repor areias novas.
E num corridinho de homens e mulheres, de canastra à cabeça, equilibrando-se por estreitas tábuas, carrega-se a tão almejada areia do malhadal para os vieiros.
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A areia, essa, espalha-a, a jeito, o robusto moço, a mesma que o marnoto, com o seu saber, alisa e calca.
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Marnoto que labutas  na marinha, e que fastidioso trabalho é o teu!
Ora  cortas e remexes, ora rapas e carregas, para depois encheres, alisares e endureceres os vieiros por onde os rapões passarão vezes sem conta, juntando, sem misturar, o puro ouro branco.
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Nota – Para esclarecimento de linguagem técnica, consultar GLOSSÁRIO de Diamantino Dias.

Imagens | Paulo Godinho | Anos 80

05 | 06 | 2013

Texto | Etelvina Almeida |Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Uma janela para o sal - III

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Lamas novas...


Marinhas que renascem do negro invernoso para o veraneio salgado…
Fundos enlameados, ainda salgados, encamisados e areados, são fundos de parcel ainda em limpeza, em preparação para a seca da estrangedura e para a cura.


 
São estes homens, marnotos, que labutam nos meios da marinha, entre sol e vento.

 
 
Que brilho é esse a teus pés, homem de sal, homem de lama? Que brilho é esse que te reflecte num mar de carvão? Ai tanto, para ganhar o pão...
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Com o teu ugalho, estranges o fundo ao parcel e repetes esses movimentos vezes sem conta, até que as lamas se vão, até que o chão endureça, seque e cure para receber a nova água que dará o branco cristal.
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Do negro do fundo ao branco profundo, vão dias, semanas, de lamas, de sol, de água e vento, de mãos e pés calejados…

 
 
Pés de criança, que puxa e repuxa o rodo de lama com força redobrada...
Já são tuas pernas e braços um instrumento de trabalho, e é entre areias, sal, lama e água, que moldas o teu corpo ainda tão tenro e curtes a tua pele aveludada.
 
 
 
Marnoto atento, caminhas pelo macho da marinha e regressas a casa já cansado, afeito ao trabalho, curvado pelo peso do ugalho – esse que já se tornou no prolongamento do teu próprio corpo.
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Nota – Para esclarecimento de linguagem técnica, consultar GLOSSÁRIO de Diamantino Dias.
 
Imagens | Paulo Godinho | Anos 80

30 | 05 | 2013

Texto | Etelvina Almeida |Ana Maria Lopes
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domingo, 7 de julho de 2013

Uma janela para o sal - II

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Limpeza de lamas e moliços
É o início do árduo sustento desta gente, que vive do salgado labutar entre a ria e o mar.
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No seu pequeno mundo de contrastes entre o negro e o branco, a marinha renasce do espelhado alagado e desperta de uma longa entressafra, para a safra, no meio de grande azáfama.
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Com as marinhas alagadas por processo natural ou «por mãos criminosas», após os rigores da invernia, a safra começa entre Abril e Maio, quando a mãe-natureza providencia.
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Para o marnoto, são meses de «negro sal» de calor e de frio, do escuro azul das águas, do verde amarelecido das algas e moliços, do negro das lamas escorregadias...
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Nestes trabalhos preparatórios, homens, mulheres, rapazes e raparigas, em família ou em contrato, trabalham em prol de um sustento comum.
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Desses pequenos «cristais brancos», que temperam, à mesa, depende o alimento de marnotos, moços, barqueiros, armazenistas e comerciantes – esse sal, que é condimento para todo o alimento e alimento para a todas as bocas.

 

Moços ainda, tenros rapazes filhos de pai marnoto, aprendem e sentem o tempero do sal e o ardor do sol nesse corpo imaculado, antes de serem homens.
 
 
 
Ágeis, mas já fortes, acarretam verdes e negros restos de algas e de lamas, nas suas canastras de sonhos, sobre rodilhas de anelos que ainda pairam sobre as suas cabeças inocentes.
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Percorrem, correm e jogam no equilíbrio de seus corpos leves e lestos, o jogo dos «tabuleiros», como sói chamar-se-lhes, por finos e grossos liames, das barachinhas aos machos.
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Marnotos e moços descascam, ressecam, remexem, estrangem com pá cova e com forquilha, bimbam as beiras e acarretam da marinha os restos da entressafra, que no alagamento ficaram e se criaram – são algas, são moliços, são negras lamas.
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Entre a marinha velha e a marinha nova, velhos e experientes marnotos ensinam os moços novatos a estranger os meios, a recuperar muros e barachas, a tirar o entraval, limpando-o das lamas, que acarretadas para montes, ressecam ao sol... para futuros consertos.
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Nota - Para esclarecimento de linguagem técnica, consultar GLOSSÁRIO de Diamantino Dias.
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Imagens | Paulo Godinho | Anos 80
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21 | 05 | 2013
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Texto | Etelvina Almeida |Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Recriação da «pesca do chinchorro» na Torreira

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A ria, na zona norte têm andado muito activa. E andarilhámos para lá.
Vimos publicitado, há uns dias. Não podíamos faltar: recriação da pesca do chinchorro, «com lanços para a borda», na praia do Monte Branco, Torreira – Murtosa, pelas 9 h e 30.

 
Não podíamos faltar e assim foi. Que grande madrugada! Mas que belo dia de calor estival, ao sabor da brisa lagunar e do pé na areia e na água.
Ao chegar, quando se começa a sentir aquele odor a maresia, numa comunhão de céu, água e serranias longínquas envoltas em neblina, o espírito brilha, em fulgor, tanto quanto a laguna espelha a luz do sol, que, de ter acordado, ainda se espreguiça.
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Toda a embarcação que navegue na ria, para quem está na borda, tem um efeito de contraluz, que seduz os espíritos mais sensíveis.


Efeito de contraluz
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A belíssima, colorida, e elegante bateira da chincha (ou chinchorro) e os seus camaradas já treinavam, fazendo exercícios de aquecimento e encadeando os assistentes, ao rasgar com seus longos remos, o brilho estonteante das águas.
Ambiência e cenário não nos faltavam.
Com maré cheia, em acolhedora baía em que a água banha a areia, em seis ou sete lanços, os «artistas» e embarcação recriam o espectáculo.
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Quis olhar com outros olhos, pois ainda me lembro de se pescar à chincha, na Costa Nova, alando a rede para a borda, para as coroas ou para a própria bateira. Mais tarde, alguns grupos de veraneantes amigos também promoviam, para seu deleite, as próprias chinchadas (uma, pelo menos, por ano, em meados de Agosto, era designada a chinchada monumental). Dia de arromba para esses pescadores por um dia, em contacto directo com a ria, de calção ou calça arregaçada – daí a expressão de «ir à chincha».
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A arte do chinchorro, maior que a da chincha é uma arte lagunar de arrasto. Duas mangas de cerca de 25 metros conduzem à bocada, onde se insere o saco de cerca de 4.50 m, que vai adelgaçando, em direcção ao fundo. As mangas terminam pelos paus de calão, a que se prendem os cabos que manuseiam a rede – o do reçoeiro, que fica em terra e o da mão de barca, que regressa à borda, depois de largada a arte. A tralha das pandas, actualmente formada por pequenas bóias de esferovite atijolada, debrua a parte superior da rede, enquanto a tralha dos chumbos constituída por pequenas malhas de cerâmica de dois furos, os pandulhos, fazem mergulhar a rede, bordejando-a, inferiormente.
Explicada no essencial a arte, vamos à faina.


Impulsionada a bateira…
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Impulsionada a bateira, dois ou três homens ficam com o cabo de terra, nas mãos, aguentando-o fortemente, de água pela cintura.


Seguram o reçoeiro

Num remar batido, lesto e ritmado, com dois longos remos, terminados pelas macetas, junto ao punho, a bateira afasta-se.


A bateira lançando a rede
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Vai lançando a rede em arco, até que abica e dois ou três camaradas saltam para a água, sustendo o cabo da mão de barca.
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Seguram o chicote da mão de barca…
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Entregam-se atentamente ao alar das redes, puxando as mangas, deixando-as descair uma sobre a outra e, ao mesmo tempo, fechando o cerco.
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Alam a rede, fechando o cerco
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Hoje, o resultado da pescaria não foi nada animador – nada mais que uns peixitos prateados e saltitantes, umas enguiazitas serpenteantes e, que se visse mesmo, uma solha maior, espalmada. Caranguejos, de várias espécies, esses, eram mesmo em abundância. E os lanços repetiram-se as vezes necessárias à observação dos mirones e até que a caldeirada, a preparar na praia, lhes compensasse o esforço. Putos de ontem, homens de hoje! Homens da ria, habituados a tirar dela o seu sustento! Grande gente, experiente, sabedora e trabalhadora! Dignos de apreço! Desejarão, porventura, outra vida para seus filhos!
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E eu, tão, tão encalorada, calcava a areia escaldante. Face afogueada e brilhante, olhos ardentes e lábios salgados, desejava mesmo uma sombra pacificadora e uma aguinha fresca.
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E aí me estatelei na areia, ao abrigo do excesso de sol, mas não da paisagem – pinos e arbustos verdejantes, recortados no azul do céu, reclinavam sobre a areia que a água lambia, na sua languidez habitual.
E ao longe, observava os preparativos da caldeirada à moda antiga. Com um tacho pendurado numa vara enterrada, em diagonal, na areia (o vasculho, auxiliar da arte), e uma fogueira improvisada com umas ramagens e uns gravetos, o que dava mesmo nas vistas era o colorido dos «pozes de enguia».
E entretida a olhar as bandeiras novinhas em folha que flutuavam, plasmadas no azul do céu, do que me lembrava mesmo é que faz muita falta, na nossa Costa Nova, uma praia fluvial protegida, com condições adequadas, uma praia mesmo AZUL.
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Quem se lembra do que sobrou do Bico, saboreou e viveu os prazeres da ria, das embarcações e das barracas riscadas da Biarritz e até de San Sebastian, sente-lhe mesmo muito a falta, sobretudo para os jovens de agora.
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Imagens – AML
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Praia do Monte Branco, 29 de Junho de 2013
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Ana Maria Lopes
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