quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Painéis de Moliceiros - Espreita aqui!




Alertada pelo Diário de Aveiro, resolvi dar uma saltada ao Museu da Cidade, para lá espreitar uma exposição de painéis brejeiros de moliceiros.
Estive como peixinho na água. Hei-de revisitá-la com mais tempo.

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Em primeiro lugar, os meus parabéns à organizadora e autora da Folha de sala, Andreia Figueiredo, pela criatividade e inovação com que apresenta o tema. Convida o visitante a uma interacção com os ditos painéis brejeiros, à semelhança do que se passa na própria cena real, em que as personagens principais da narrativa interpelam o observador, muitas das vezes.

O próprio nome da Exposição “espreita aqui, painéis brejeiros de moliceiros” é criativo, porque, ao usar um apelo, com o verbo, no modo imperativo, fá-lo ao jeito de muitas das legendas que conheço:

AFINA-ME. BEM. ESSA. VIOLA
NÃO.ME.FUJAS.EM MARE.DE.FESTA
SALVA-ME=SE=EU=MERSER

Umas boas centenas, não as contei, de painéis, são o suporte técnico de toda a mostra.
E a tal criatividade, não a revelo, pois mataria a surpresa. Destapem a ponta do véu!

Muitos dos quadros são-me extremamente familiares, pois também fazem parte da “minha colecção particular”, que venho conquistando desde os anos 70. Melhor seria, se tivesse começado mais cedo, mas não deu. Rondarão o milhar? Talvez.

Também algum material de construção de embarcações lagunares proveniente do estaleiro de José Agostinho Henriques de Miranda, enriquece a mostra: banca de carpinteiro com numerosa ferramenta, uma molhada de paus de pontos, alguns moldes de construção (leme, braço de caverna, vertente, papo da proa, etc).

A curiosidade despertada pela visita obrigou-me a vir para casa consultar os canhenhos, para tirar algumas dúvidas.

Cheguei à conclusão que José Agostinho Henriques de Miranda, do Monte, Murtosa, viveu entre 1910 e 1996. Era conhecido pelo Ti Preguiça, cuja sigla foi um rectângulo formado por triângulos encaixados, coloridos a vermelho e verde. Já fora também a de seu pai.

Um aspecto de que gostei menos foi a exibição de um meio moliceiro, “ um moliceirinho”, pertença da CMA, que se encontra num estado de degradação desastroso.
Conheci-o, há uma boa trintena de anos, numa sala do Museu de Aveiro, aquando da realização da exposição filatélica Lubrapex 72. Nessa altura, fresquinho e cuidado. De morrer!

Lubrapex 72, no Museu de Aveiro

Agora, é lógico que não tinha cabimento no espólio do referido Museu (por onde teria andado ele?), uma desgraça! Sem mastro, nem vela, nem leme, nem qualquer tipo de palamenta, de pintura lixada, de painéis praticamente ilegíveis, lá flutua, meio abandonado.

A má percepção das legendas ainda deu para recordar que teria sido um barco moliceiro (mini, nos seus 7.50 metros de comprimento, mas rigoroso) construído em 1962, pelo Mestre Manuel Lopes Conde (1919 – 1991), cujo estaleiro, já inactivo, ainda visitei, na Gafanha do Carmo.
Restaurem-no, por favor, se ainda forem a tempo!
E chega de considerações. Não mais me calaria!

Só mais um pequeno contributo. Da minha colecção, apreciem e sorriam!

«ELA GUIA E EU TOCO AS BUZINAS»

ESPETA MANEL QUE É BOM PEIXE!

O.AMORE.E.COMO.UM.FÓSFRU.
SÓ.DURA.ENQUANTO.Á. PAU.
“A MENINA QUER QUE EU LHE TAPE O BURACO?”

«NÃO BOTES A MÃO NA BICHANA.»


E fiquemos por aqui! Espreitem lá!

Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 8 de Outubro de 2009

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bateira do Tejo de Marques da Silva



Na continuação da nossa “parceria”, mais um belíssimo e delicado trabalho do Capitão Marques da Silva.
Sempre que faz uma curta estadia na Gafanha da Nazaré, traz uma novidade, com texto e todos os aprestos. Fico encarregada da reportagem, depois de uma troca de impressões, sempre enriquecedora.

A bateira do Tejo, que, como sabemos, é uma filha das bateiras da Ria de Aveiro, levada para sul pelos pescadores ílhavos e varinos, por lá se tem conservado. Continuando a ser construída nos mesmos moldes, pouco alterou a sua forma original, muito bem adaptada pelos avieiros, que a aplicam na pesca do rio, com a arte de emalhar (tresmalho) e os galrichos, para as enguias.

Aspecto geral


Em certas épocas do ano, por necessidade de pesca, usam a bateira como casa. Arrumam as suas roupas na proa, onde se abrigam com o auxílio do tolde, esticado pelas varas e suportado por um arco de vime que fixa nas sarretas.

Como encontrei no Museu de Marinha um bom plano (vélico e de formas), resolvi fazer um modelo desta linda embarcação que representa fielmente a bateira do Tejo, de nome MARIA JOSÉ e matrícula L1431F, de cor azul.

Pormenor da proa


Pormenor da ré


Construi-o em madeira de choupo e tola e para o cavername e bancadas, usei a madeira de limoeiro.
Tem remos e vertedouro em madeira de tola, vela e toldo, em tecido de algodão.
Apliquei a escala de 1/25.
Plano de arranjo geral de José Pecegueiro Gonçalves, 1922; plano vélico de Luís Marques, 1989, ambos à escala de 1/25.

Características da bateira Maria José:
Comprimento – 8.00 metros
Boca – 1.65 m.
Pontal – 0,50 m.


António Marques da Silva

Mais uma para a colecção de bateiras, a que o hábil Amigo Marques da Silva se vem dedicando ultimamente. E não será a última.
Pensa fazer uma, bem da nossa Ria, que me “fala” especialmente. Aguardemos.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 2 de Outubro de 2009

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Romaria da Senhora da Saúde - 2009



Foi esta a machadada quase mortal que nos levou a ria para longe, sem grandes consequências benéficas, penso.

Dia de Festa em 1973


Se estiverem interessados, procurem mais dados, de romarias anteriores!

Para não deixar passar a Festa, em branco, recordo, em imagem, a primeira romaria da Senhora da Saúde, em 1973, em que a ria quase se não via, mesmo das varandas. Para os que já não conheceram como era a paisagem lagunar, a nossa ria espreguiçava-se até nós, nas suas águas calmas e mansas, numa quietude brilhante ou num farfalho inquietante e espumante provocado pela nortada fresca, até à vala, junto à muralha.

Os arcos da armação de há perto de 40 anos, à esquerda, e, no redondo do largo central, um dos últimos coretos, são os poucos testemunhos desta situação.

Mais um apontamento…

No Diário de Aveiro de 27 de Setembro de 2008, lia-se a seguinte notícia:

– Iniciados os festejos em honra da Nossa Senhora da Saúde, em 1837, vieram substituir a primitiva Festa de S. Pedro, em Ílhavo (que se tornou na Festa das Companhas), passando a ter data fixa, no último domingo do mês de Setembro.
Competia em popularidade com o S. Paio ou com o S. Tomé, na grandiosidade da animação dos festejos lagunares, no corrupio de gentes e na algazarra. Do norte do “Bico” ao sul da “Mota”, a Costa-Nova engalanava-se com o “estendal” de moliceiros.

Um bando de moliceiros! – 1933


Que beleza!...Só podem dirigir-se à festa!... Actualmente, nem um!...

Imagens – Arquivo pessoal da autora

Costa-Nova, 25 de Setembro de 2009

Ana Maria Lopes

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A casa da Costa-Nova, através dos tempos...IV

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11. Singular fotografia de Fernando Zé Morgado, que espelha, espelhando, uma cena vulgar pelos anos 80 e 90, em que a Ria teimosamente e, não concordando com o afastamento a que foi votada, continuava a querer beijar-nos os pés, em alturas de preia-mar.

12. Os candeeiros Tampax e o piso empedrado não enganam – 2005 – ano da inauguração da Calçada Arrais Ançã.

13. Aspecto actual da zona em que a casa se insere, vista da Fonte Luminosa, em 2008 (Centro).
Eu, na qualidade de bisneta da Arraisa Joana Càlôa, tinha de ter uma casa com alguma história, graças sobretudo à localização.

A venda do livro Costa-Nova-do-Prado – 200 Anos de História e Tradição, de Senos da Fonseca, onde encontrará toda a história deste belo recanto entre o mar e a ria, apresentado por Zita Leal, no passado dia 19, reverte a favor do CASCI., de Ílhavo.


Imagens – Arquivo pessoal da autora, com a colaboração de várias pessoas amigas, que emprestaram ou ofereceram fotografias.

Ílhavo, 23 de Setembro de 2009

Ana Maria Lopes


sábado, 19 de setembro de 2009

A casa da Costa-Nova, através dos tempos...III

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8. O palheiro do meu Avô, riscado de azul no 1º andar, com rés-do-chão em alvenaria, antes de se ter tornado na casa descaracterizada que hoje é. Esta foi concebida pelo desenhador Bernardes, pai do Arquitecto Pedro Corujo Bernardes.

9. Primeira foto que me chegou às mãos da actual moradia, semi-encoberta pela remendada vela latina, quadrangular, da barca. Datada, provavelmente, de 1952, ano em que foi construída, frequentava eu, com 8 anos, a terceira classe, na Escola Primária da Costa-Nova.

10. Postal em longo formato, dos anos 60. Todas as casas, à direita do Cais da Mota, mantêm o aspecto definitivo, menos o palheiro dos herdeiros do Capitão Francisco Calão – riscado de verde e branco – e o de Rosa Tavares (de alcunha, Taranta), hoje, por venda, propriedade de Maria Carlota Moreira da Graça – riscado de vermelho e branco. Aqui, se podem ver, em primeiro plano, os barcos de aluguer do Sr. Francisco Tainha, que fizeram as delícias de muita gente. As bateiras, pesadonas e nada elegantes, eram a Miúda, a Tininha, a Maria Fernanda e a Kiss me, se a memória não me atraiçoa. Os Vougas, mais tamancos que Vougas, eram os Navegador I, II, III e IV. Apesar das suas formas desajeitadas, permitiam belos passeios pela ria, àqueles que não tinha a fortuna de possuir uma embarcação à vela, mediante o seu aluguer, com timoneiro e tudo… o que, hoje em dia, parece que não acontece com as instituições clubísticas com que lidamos, salvo o aluguer de algum catamaran, lá para o sul da praia.

(Cont.)
Ílhavo, 19 de Setembro de 2009

Ana Maria Lopes

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A casa da Costa-Nova, através dos tempos...II

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4. Continua a ser a terceiro palheiro, depois do largo. O primeiro corresponde ao edifício em alvenaria, em que hoje funciona o Talho Carlos Real. Ao fundo, a antiga Marisqueira, ainda sem o prolongamento exterior coberto, sobre a praceta, mais tarde, Arrais Ançã (1932). Na muralha, distingue-se, à esquerda, o gradeamento conducente à segunda mota (1932).

5. Festejos motivados pela inauguração dos candeeiros a querosene (1926).
6. Pormenor da imagem anterior (aqui é o segundo palheiro que se vê).




7. O talho (primeira casa, à direita da praceta) já está no actual edifício. Aparece, pela primeira vez, a Mota actual (desactivada), construção levada a efeito em 1941, pela JARBA., Junta Autónoma da Ria e Barra de Aveiro.

(Cont.)

Ílhavo, 16 de Setembro de 2009

Ana Maria Lopes

sábado, 12 de setembro de 2009

A casa da Costa-Nova, através dos tempos...I

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O livro Costa-Nova-do-Prado – 200 Anos de História e Tradição, de Senos da Fonseca, virá a lume, lá para o próximo sábado, 19, algures, na Calçada Arrais Ançã, sita na tal praia que fez História. No mesmo dia, correspondendo ao desejo antigo manifestado por várias gentes ribeirinhas, uma placa evocativa do Desertas será colocada no local onde o mar uniu à ria, em 1919, para o Desertas passar…

Para já, para já, e por antecipação (talvez sirva de motivação), vou dando conta da evolução da minha casa na Costa-Nova, antes e depois da sua construção e, finalmente, remodelação, até à actualidade. Uns carolas pela sua praia, adoram-na. Outros, nem por isso. Ou até a desconhecem! E há ainda quem a considere pertença do Município de Aveiro… O seu a seu dono!

A história é narrada, de forma sui generis, apelativa, castiça e cativante, até 1970... E depois? Muito bem, ficarão a saber porquê, se ainda não sabem! De aí para cá, a Costa-Nova , depois de ter sido ferida de morte, sobretudo, pelo esconder da ria do olhar do passante, perdeu grande parte dos seus encantos, embora ainda continue a ter algo de singular e característico, na opinião do Autor.

Quem quiser ficar a saber tudo sobre os 200 Anos da referida praia, terá mesmo de esperar por que o livro esteja disponível, se bem que um blog, com o título os 200 Anos da Costa-Nova tenha já sido postado por SF, entre 15 de Abril e 30 de Junho de 2008, à disposição de quem o quiser ler.

Já, então, me “preocupava” a história da evolução e datação do meu palheiro/casa, mas esse gosto foi grandemente aguçado pelo blog que ia sendo, entusiástica e periodicamente, construído em fascículos.
No dia 19, terei, pois, o prazer de (ab)sorver o livro, de um trago, como a aguardente do Arrais Ançã, com o interesse de quem viveu 65 prolongados verões na Costa-Nova, e até dois invernos, frequentando, na primeira e terceira classes, a Escola Primária daquele pedaço de terra único, daquela lingueta de areia, entre a ria e o mar, numa situação privilegiada.


1. O primitivo palheiro ainda não estava construído. Corresponderia ao espaço que fica por trás da vela da embarcação (primeira década do século XX).


2. É o terceiro palheiro que se vê. Antes dos anos 20, pela ausência do eucalipto, que data de 1920.

3. Continua a ser o terceiro palheiro que se vê, mas depois dos anos 20, datado pela presença do tal eucalipto.


(Cont.)

Ílhavo, 12 de Setembro de 2009

Ana Maria Lopes