quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Consequências do Ti Tainha...


Esteja lá onde estiver, o Ti Tainha, mal ele imagina o que dele se tem falado na Costa-Nova e arredores…
Estou convencida que foi um post que sensilizou algumas pessoas, pelos rumores que me chegaram em e-mails e pelos comentários editados nos quatro capítulos da curta narrativa.
Também fui surpreendida pela publicação do artigo (I), no jornal “O Ilhavense”, pressupondo que os restantes se seguirão.
Agora, pela noite, fui agradavelmente surpreendida pelo post de SF, in Terra da Lâmpada.

O Autor, além de dar um relevo especial à qualidade da linguagem entabulada entre mim e o Ti Tainha, incita-me a que vá deitando cá para fora outros registos que, eventualmente, tenha feito pelas mesmas épocas. Vou fazendo os possíveis, pois trabalhos deste género sempre me estiveram na massa do sangue.
- Será que nunca fez jornalismo? - interpelou-me outra pessoa amiga, com formação jornalística.
- Tem muito jeito para estabelecer diálogos...Claro que, afinal, toda a sua vida, pelo que sei, fez entrevistas. Os seus trabalhos mostram isso mesmo...

Gaba-te cesta, que amanhã, vais para a vindima!...
digo de mim para mim…. Influências da ria, que apesar de menos perto da minha casa que antigamente, ainda me alimenta a inspiração através do reflexo trémulo, oscilante e cintilante das luzes, que prolonga das Gafanhas, até à beirada da Costa-Nova.

Apetecia-me responder, que não, que não tive formação jornalística, mas que tive um iniciação e aperfeiçoamento, em pesquisas de campo, até à exaustão, sempre com objectivos etno-linguísticos, que me levaram, em casos específicos, à transcrição fonética dos diálogos em causa.
É um tipo de trabalho que me encaixa perfeitamente, me seduz, apaixona e me dá fôlego…
Sosseguem, pois, há mais algum material em stock, de há 25 anos. Assim vá tendo saúde, disposição e coragem de o voltar a trabalhar, de modo a divulgá-lo em blog… que para isso, não tinha nascido ele.

A técnica da apanha da tainha a partir da sombra que uma esteira reflecte na água, conhecia-a, mas não tido a ideia de falar, por ora, nela. Ainda bem que os gostos e os saberes, muitas vezes, se completam e se complementam. Todos lucramos.
Obrigada, pois, a todos os Amigos, pelas palavras de incentivo.


Costa-Nova, 27 de Agosto de 2009

Ana Maria Lopes

domingo, 23 de agosto de 2009

O "saltadouro" do Ti Tainha - IV


Aí, ensarilham-se nas malhas sobrepostas, de onde por mais que esbadanem, não se conseguem esgueirar. E com os esforços que fazem para se libertar, no estertor da morte, ficam cada vez mais emalhadas, ensarilhadas, na rede aérea de três panos.

Tainhas emalhadas…

Depois de dar o tempo suficiente à captura do peixe, o velho pescador, de botas de borracha de cano alto e avental improvisado, começa a alar toda a arte, no sentido exactamente inverso ao da montagem, tendo o cuidado, sobretudo no salto, de unir os dois cabos das tralhas, para não fugir nenhum peixe.

Ala o salto…

Processo arcaico, imutável, a requerer técnica, jeito e argúcia, que nos dias de hoje só o Ti Manel detém, ainda. Há-de morrer com ele. Santo Deus! Abeira-se da margem para nos deixar e safa a rede, desemalhando o peixe.

Desemalha as tainhas

A captura não foi brilhante, mas ainda deu para me oferecer dois dos melhores exemplares. Que ia eu fazer às tainhas? Não aprecio o peixe na travessa. Aprecio, sim, entusiasmada, a sua vitalidade, o seu saltear, a sua meia volta no ar quando parece querer despegar e refrescar-se; e depois o cachapuz quando se estatela de encontro à ria, para logo mais adiante ressurgir a esvoaçar, deixando-nos no adivinhar da quantidade de saltos que dá.

Já no quete da bateira...

O espectáculo que tinha acabado de presenciar prendeu-me os sentidos às belas, raras e inesquecíveis imagens, saciando-me a curiosidade. A idade avançada do pescador e a extravagância da arte fizeram com que me detivesse com tanto pormenor, na sua descrição.
O Ti Manel já não existe e o saltadouro também não. Morreu com ele, na ria da Costa-Nova.
Que se salve a memória… e se transmita de geração em geração. Não é fácil.

Nota – O Relatório da Ria de Aveiro de 28. Dez. 1912 de Augusto Nobre, Jaime Afreixo e José de Macedo refere que o salto, parreira ou peixeira é talvez o mais engenhoso dos aparelhos de pesca interior. Só se conhece o seu uso na ria de Aveiro, onde foi inventado, haverá meio século, por um pescador de Esgueira, sendo logo adoptado pelos da Murtosa, em cujas mãos se tem conservado quase exclusivamente.

Fotografias – Cedência de Paulo Miguel Godinho

Costa-Nova, 23 de Agosto de 2009

Ana Maria Lopes

domingo, 16 de agosto de 2009

O "saltadouro" do Ti Tainha - III



Toda a nossa atenção é pouca. É necessário estarmos atentos a muitos pormenores. Pare ele, parece que tudo é feito mecanicamente.
Cada estaca é espetada no sítio certo, cada nó é dado no sítio certo; só a arte, a perícia, a destreza de quem pratica estas acções ininterruptamente no tempo, há cerca de sessenta e cinco anos, o justificam.

Aos dois primeiros espaços de rede branqueira, colocados, verticalmente, entre três varas, dá-se o nome de arinques. A seguir, sempre, verticalmente, entre varas, seguem-se os cinco adagues.

Após o 1º adague, o Ti Manel monta o segundo…


Entra o salto em cena, rede também de três panos, aérea, mas apenas com tralha de chumbo, que fica por cima dos 5 adagues. Fixa também em varas colocadas mais altas, com uma inclinação de 35 a 45 graus, relativamente à superfície da água.

Talvez este esquema ajude quem não assistiu, em directo, à montagem de uma das mais engenhosas artes da ria de Aveiro.

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Esquema da arte


Terminados os cinco adagues, o Ti Manel inicia o lançamento à tona de água de uma rede singeleira (de um só pano), também chamada peixeira, rabeira ou rede de cerco, já que a sua função é cercar e conduzir o peixe até à parte central da rede, que passa por fora das quatro varas primeiramente espetadas e que pode flutuar, junto à praia.
Está montada a arte.

Aspecto geral e exterior da armadilha


Entretanto, o Ti Manel começa a bater na água, com uma vara, em movimentos certos, fortes e ritmados para afugentar o peixe em direcção ao salto.

O bater da vara


As tainhas encontram a passagem interrompida, e seguem guiadas pelo cerco para ver se encontram alguma abertura, até à espiral, onde se introduzem.
Aí, a sombra da rede, o bater da vara, fazem-nas saltar de susto e eis que caem na armadilha, armada fora da água.

O primeiro peixe preso…


(Cont.)

Costa-Nova, 16 de Agosto de 2009

Ana Maria Lopes
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domingo, 9 de agosto de 2009

O "saltadouro" do Ti Tainha - II

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– Então só utiliza esta arte?
– Só!; e gosto dela. É uma arte antiga. Qu’inté a tenho, também tenho a selheira, mas não a achapo.

– Há muito tempo que a põe?
– Já o meu pai empalmava c’o ela, aqui, no Verão, saiba a senhora.

– E, nessa altura, havia muitos saltos?
– Vai um par de anos, ósque vinte ou trinta, ali p’ró sule espetavam-se muitos; mas agora, só escasseia o meu.

– Para si, o que é o Verão?
– Abotámo-lo em Março e lá íamos até Outubro ou Novembro. Sabe?!, esses tempos eram esgalmidos, havia por cá muita fome e abotei-me durante 50 anos para a Foz do Arelho, p’rá chincha, na lagoa d´Óbidos. Como senhor meu pai que fazia o mesmo.

– Que maré e tempo são os melhores para esta arte?
– Tem de haver paração (água não agitada). Bota-se a calquer hoira, inté de noite c’o luar.

– Acha que o lance, hoje, vai ser bom?
– Num me p’rece, pois é um mês de muita influência (afluência) e há muito imbalo (agitação das águas motivada por crianças e banhistas). A tainha é esconfiadona, assacanada, afoge com calquer espirração.

– Onde costuma fazer a venda do peixe?
– Se dá pouco, até 5 ou 10 quilos, vendo aqui às peixeiras, no mercado. Mas, se é muito, bou bendê-lo à lota.

– Então, Ti Manel, hoje faz aqui o lance e quando volta ao mesmo local?
– Vão 15 dias; o local tem de folgar. E aboto d’emposta inté ao Areão na enxerga de melhores sítios, pois é uma arte muito saltareca.

Lá para o meio-dia, o Ti Manel espeta as primeira quatro varas, perguntando-me se eu sabia para que serviam. Perante a minha falta de conhecimento, explicou-me que servem para o redame num ser lebado; para o saltadoiro, as águas num podem ter muita força.

A arte, também denominada peixeira ou parreira, é uma arte de tresmalho, fixa, parcialmente. Em projecção horizontal, toma o aspecto de um caracol ou uma espiral constituída por três tipos de rede: a branqueira, o salto (ou manta) e o cerco da rede. E muitas, muitas varas, para a manter e lhe dar forma.

O Ti Manel começa por separar o salto ou manta, que pousa no cagarete da bateira.

Pousa o salto no cagarete da bateira ...


– Na deslocação da embarcação, só usa a vara…
– No trabalho, é sempre a bara, nas biages, é que é o motor ou a bela.

A branqueira, além de fazer parte do saltadouro, também pode ser usada só por só.
É uma rede de três panos, de cerca de um metro e meio de altura, cujo pano interior é três vezes mais alto do que as albitanas (panos laterais).

Mostra a branqueira ...


A maré botou para mais tarde do que o Ti Manel pensava, que entretanto, esperava, imóvel, à proa, como se, para ele, o tempo não contasse. Perfil curioso! Figura característica! Vive da Ria e na Ria!

É uma hora e meia. A maré ainda enche, mas já puxa p´ró lance!

(Cont.)

Costa-Nova, 9 de Agosto de 2009

Ana Maria Lopes

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O "saltadouro" do Ti Tainha - I

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Costa-Nova, 2ª feira, 12 de Agosto de 1985

De entre as artes – a pesca sempre foi produto de engenho, arte e esforço – que antigamente se praticavam ao longo dos canais da ria, senti desde muito nova uma atracção pela arte do saltadouro. Impressionava-me a complexidade do enredado e do capricho posto na sua botadura, como que construindo um caracol para onde as tainhas espavoridas pelo batuque do maço no fundo da bateira, ou pelo espalmar das varas chicoteando a mansidão das águas, as obrigava a entrar na sua bocarra, enfeixadas no anel, até que, procurando a fuga, saltavam espavoridas aterrando nas abas da caracoleta, entrelaçadas nas malhas que as prendiam, à medida que estrebuchavam para se libertar. Menina e moça, quando ainda havia muitos saltadouros na ria, à hora do jantar, na sala da frente quase debruçada sobre a ria, ouvia-se distintamente aquele som ritmado, rufado, como que chamando a dança ritual.

Nesse tempo, a ria quase beijava o degrau da porta do palheiro; agora que a levaram para longe, para beber com os olhos e encher os sentidos com a sua serenidade encantadora ou apreciar os seus arrufos embravecidos, somos nós que temos de andarilhar para ir ao seu encontro.

Naquele dia, perguntava-me se ainda haveria alguma dessas artes em vias de extinção com o andar dos tempos.

Recebi com agrado a notícia de que o Ti Manel das Tainhas ainda usava o saltadouro.

Pelas 10 horas da manhã, numa segunda-feira de Agosto, fui ao encontro do Ti Manel das Tainhas. Não é muito comunicativo, mas é simpático, afável e lá vai dando algumas explicações. Tem 78 anos, nasceu na Murtosa, mas vive na Costa-Nova, desde criança. Alto, magro, tisnado do sol, um pouco curvado, pelo mister e pela idade, mora, agora, numa recoleta de um palheirinho riscado de azul e branco, na Lomba, de onde desce, todas as matinas, invariavelmente, as escadas do lado sul, que desembocam no largo Arrais Ançã. Com facilidade persigo-o da minha casa, andando no seu encalço e escolhendo o momento mais oportuno para o interpelar.

Veio da Murtosa, com barco e redes, e aqui, na «nossa» ria, sempre se dedicou ao saltadouro. Já o seu pai se dedicava a esta arte, no Verão.

Tinha sabido pelo Miguel que a bateira do Ti Manel, a velha e inconfundível bateira, de bica bem levantada, a Preta, por ser embreada a negro, não estava amoirada no local habitual.
Procurámo-la e, um pouco mais a sul, encontrámo-la. Ao nosso chamamento, libertou a Preta da estaca e com um leve impulso abicou à margem, para nos falar.

O Ti Manel recebeu-nos afavelmente. Muito embora inquisilando o meu interesse pelo assunto, pôs-se inteiramente à minha disposição para me elucidar sobre a técnica e as manhas postas na arte de empalmar as tainhas saltadoras.

O Ti Manel tinha saído de casa às seis da manhã e ia esperando pela maré, como se as horas, para ele, não contassem. Batiam as dez, na torre da Igreja da Gafanha do Carmo.

O Ti Manel e a Preta eram um estático e belo contra-luz inserido na paisagem.


– Então, Ti Manel ?!… Hoje vai botar o saltadouro?
– Inda num sei, istá uma arage. Bamos a ber se ela não enrija, se não bota a norte. A auga ainda está muito baixa, bai botar só lá p’rá uma hora.

– Se Vossemecê não se importasse, poderíamos voltar aqui, para irmos consigo na bateira?
– A Senhora banha lá p´ró meio-dia, pois se a auga estiver mais calma, eu boto o saltadouro.

Esperámos – eu e o Miguel –, mesmo que para tal deixássemos de ir à praia. A minha ansiedade de conversar com o Ti Manel, de ver e apreciar o saltadouro era tal, que não podia perder a oportunidade.
E voltámos. O sol ia a pino, a água corria para sul e o sol acalmara adoçando a superfície da ria. Chegados à sua beira, aproou, de novo, para embarcar os novos tripulantes, na bateira.

(Cont.)

Costa-Nova, 5 de Agosto de 2009

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 31 de julho de 2009

E o mito do Titanic continua... II



Então, o que mais me impressionou?

O ambiente lúgubre e escuro criado, a meu ver, apropriado ao ambiente que pretende retratar.
Os painéis expositivos são apresentados continuamente, em andares diversos, separados por escadas metálicas, que simulam o interior de um navio. Bancos de convés, criteriosamente colocados, permitem o descanso dos visitantes e a observação rigorosa das peças.
O ruído de fundo imita o barulho surdo das caldeiras a vapor, que, pela força da rotina, se deixa de ouvir!
Sempre que possível, há um apontamento referente aos passageiros, donos das peças em exibição:

- objectos íntimos, desde óculos, lorignons, lâminas e pincéis da barba, botões de punho, alfinetes de senhora e outras jóias mais requintadas;
- peças de vestuário, desde meias, papillons, um casaco de empregado de mesa, uma cartola de tecido acetinado;
- peças do próprio navio, como ornamentos luminosos, um querubim de bronze, suportes metálicos de bancos de convés, candeeiros em pêndulo, sinos que deram o alarme do acidente, telégrafo da casa das máquinas, telefones com altifalantes, megafone com que o Capitão Smith terá dado a última ordem para abandonarem o navio, coletes salva-vidas, manivelas de turco, etc…
- entre os objectos de cozinhas e diversas salas de jantar, conforme as classes, podiam apreciar-se grandes caçarolas e panelas, peças de louça e as tais “pratarias” decorativas funcionais, que englobavam os serviços de faqueiros.
Ainda nos foi dado observar garrafas de champagne, néctar da melhor qualidade, garrafas de cerveja e botijas de cerâmica.
Se citasse tudo, a enumeração seria infindável.

E o mito das “ditas colheres do Titanic” que, por Ílhavo existem, continua.


Exactamente iguais às que conheço, apenas com a estrela relevada da WSL, no cabo, só agora me foi dado observar.


Além das colheres de sopa, também de doce, garfos de servir, de dentes tremidos e concha de sopa, em plaqué, com o mesmo motivo.
Curioso! Os bilhetes de acesso à exposição são uma cópia fiel do acesso à viagem inaugural do barco, com o preenchimento de dados do/a passageiro/a.


Já que estava disponível, escolhi o bilhete de Millvina Dean, a última sobrevivente do naufrágio, que, há meses, morreu num lar de Southampton, com 97 anos de idade, a 97 anos da data do acidente. Como a sua morte sucedeu com a exposição já montada, o bilhete ainda não tinha actualizado o seu desaparecimento..--------------------------------------------------------------
A recriação da cena do iceberg, que pretende ser a mais forte, nem sempre é bem conseguida. No entanto, ao tocar a frigidez da falsa parede gelada, percebemos quão frias estavam as águas do Atlântico Norte, na noite do afundamento do Titanic, provocando muitas mortes por hipotermia, além do pânico e do afogamento. Fui informada de que a Exposição está patente ao público, ainda durante todo o mês de Agosto. Se puderem, não deixem de visitar!
Imagens – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 31 de Julho de 2009

Ana Maria Lopes

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domingo, 26 de julho de 2009

E o mito do Titanic continua ... I



Visitei a exposição Titanic The artifact exhibition, em Lisboa, no espaço Rossio, no mês passado.
É a terceira vez que visito exposições sobre o Titanic:
Em 1994, no Museu de Greenwich; no Mercado Ferreira Borges, no Porto, em 2004 e, agora, no Rossio, em Lisboa, em 2009.
A emoção, pela terceira vez, já não foi a mesma, mas, lá, tive oportunidade de apreciar muito mais peças do que em 1994, porque as expedições ao local do Titanic, para estudos e recolha de peças, foram-se sucedendo.
E aprende-se sempre mais. A meu ver, a exposição está dignamente montada, de uma forma séria e criteriosa.

Modelo do Titanic, à escala de 1/350


Resume, um pouco, a história do navio desde o nascimento da lenda da construção (1907), do design naval rigoroso, criado em 1908, do início da construção em Março de 1909, do dia do lançamento à água, em 31 de Maio de 1911, do seu acabamento até Março de 1912, da viagem inaugural com partida de Southampton, em 10 de Abril de 1912, até ao desfecho dramático do Iceberg à vista!, pelas 23 horas e 40 minutos de 14 de Abril de 1912.

A RMS Titanic tem-se empenhado em reunir, preservar e restaurar o máximo possível de objectos.
A história já foi contada e recontada, mas nunca de uma forma tão intensa e apaixonante como o fazem os artefactos diversos apresentados nesta exposição.
Os objectos estavam lá, na hora, pertenceram ao navio e às pessoas que navegaram nele. Não pretendem afastar a dor da perda dos passageiros, mas demonstram a importância de recordar e celebrar todos aqueles cujas vidas desapareceram com o naufrágio.

O achamento do Titanic contou com a colaboração de cientistas, aquanautas, historiadores, arqueólogos, engenheiros marítimos, arquitectos navais e conservadores de todo o mundo.
Antes da recuperação dos artefactos do Titanic, não havia uma especialização na conservação de materiais, retirados de uma profundidade de 3800 metros e sujeitos a uma pressão colossal!
Cada objecto exige um tratamento especial e a enorme variedade de materiais impõe a intervenção de especialistas não só em papel, mas também em têxteis, madeiras, metais, cerâmica, couro, etc.
Infelizmente, não existem técnicas de preservação do próprio navio, que está lentamente a ser consumido por micróbios que comem ferro. Parece impossível como a opulência do Titanic alimenta a sofreguidão de micróbios exíguos…

O que mais me impressionou?

(Cont.)

Costa-Nova, 26 de Julho de 2009

Ana Maria Lopes