sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Óleo Costa-Nova, de Fausto Sampaio, enriquece o MMÍ.

O passado 15 de Outubro foi dia de ansiedade para os Órgãos Directivos dos Amigos do Museu! Telefonema sobre telefonema!... Consulta sobre consulta!... E-mail sobre e-mail!...

Avisada, na véspera, por Amigos do Museu, residentes em Lisboa, que andam sempre em cima do acontecimento, a Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo teve que agir rapidamente – um óleo do pintor Fausto Sampaio, conhecido pelas suas notáveis interpretações da Costa-Nova, ia a leilão, nessa noite, na conceituada leiloeira Palácio do Correio Velho, em Lisboa.

Depois de bem aconselhados por perito de Arte e antiguidades, deveríamos ir no seu encalço, pois, já há tempos, perseguíamos a aquisição de um Fausto Sampaio, deste género.

Tomadas todas as precauções, ponderado o “esquema conceptual” da colecção a ampliar, e, após troca de impressões com o Sr. Director da Instituição e com o Sr. Presidente da Câmara, restava aguardar, ansiosamente, o desfecho.
Pelas 23 h e 30, fez-se “luz verde” – o quadro Costa-Nova, de Fausto Sampaio, adquirido em parceria com a CMÍ, era“nosso”!

Costa-Nova, de Fausto Sampaio, 1933



Belo óleo sobre madeira, 50 x 62 cm, datado de 1933, retrata a Costa-Nova antiga, zona de palheiros e ria, que nos sensibiliza a todos, mesmo que não a tenhamos conhecido tanto assim! É um trabalho posterior à primeira exposição do Artista.



Fausto Sampaio (1893-1956), natural de Anadia, surdo-mudo desde a infância, notável pintor contemporâneo, foi discípulo de Jules Renard, tendo frequentado as academias de Paris. Expõe, pela primeira vez, em Lisboa, no ano de 1930.
Fausto Sampaio distinguiu-se como grande paisagista. Exprimia profundos sentimentos pela natureza, brilhou pelo uso apurado da cor e pela predominância das atmosferas embaciadas ou luminosas. Foi inexcedível na representação das terras do Vale do Vouga e foi um dos mestres do pintor ilhavense Cândido Teles, a partir de 1939, que dele terá perfilhado o gosto pelas representações pictóricas dos coloridos moliceiros da Ria de Aveiro. Está representado em vários museus nacionais e famosas colecções particulares.

Esta pintura vai aumentar o espólio do MMÍ., no que concerne a Fausto Sampaio, pois vai associar-se a quadro do mesmo autor, já existente há uns anos no Museu, e restaurado em 2005, também intitulado Costa-Nova, óleo sobre tela, de 1939, 78x83 cm, em tons róseos inebriantes e luzentes, que retrata a zona lagunar e os sempre elegantes e cromáticos moliceiros, que ressurgem da neblina.


Costa-Nova, de Fausto Sampaio, 1939



Por curiosidade, também exactamente há um ano, a AMÍ. enriqueceu o espólio pictórico da instituição, com a oferta de “duas pequenas relíquias”, exactamente, no dia 21 de Outubro de 2007, dia em que o Museu festejou o 6ºaniversário da ampliação e remodelação do edifício, a saber:

- “Marinha – Barcos na Ria de Aveiro”, de Cândido Teles (1921 – 1999), óleo sobre madeira, assinado e datado de 1941, um dos melhores períodos da obra do” nosso” pintor. Dim. – 17x 12 cm

-“Barco à vela “ de João Vaz (1859 – 1931), grande marinhista, aguarela sobre papel, assinada. Dim. – 23x11 cm

Na esperança de que todos os trâmites legais, burocráticos e económicos, relativos ao levantamento da “peça” estejam resolvidos até domingo, dia 19, em que se assinalará o 7º aniversário da ampliação e remodelação do edifício do MMÍ, cá estamos, desta vez, para lá depositar o raro e valioso Costa-Nova de Fausto Sampaio, com a devida apresentação pública a que tem direito.

Imagens – Arquivo da leiloeira e do Museu Marítimo de Ílhavo

Ílhavo, 17 de Outubro de 2008

Ana Maria Lopes



segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Através da objectiva de Rui São Marcos...






Nós, ilhavenses, de uma maneira geral, ficámos satisfeitos com os resultados da Regata dos Grandes Veleiros, mas andávamos sequiosos de apreciar velas ao vento, velas enfunadas, velas desfraldadas, velas içadas…
Velas latinas, “armações redondas” e tantas eram, que satisfariam a avidez do espectador, sedento de navegação à vela – sensação de liberdade, rumo ao futuro, não tão alvo, como as velas.

Em comentários estabelecidos em blogs anteriores, eis que o Comandante Rui São Marcos e eu…entabulámos conversa.
Meu conterrâneo, ilhavense, com o privilégio de ter nascido na Costa-Nova, fez “gala” em deslocar-se no seu belo iate “Quero-Quero”, do Funchal, onde reside, até cá, para integrar a Grande Regata, de Ílhavo ao Funchal, arvorando, com orgulho, a bandeira do município e uma enorme bandeira nacional.

Marinheiro não “velho”, mas “usado”, como ele se considera, já avô, somos desta mesma equipa.

Enviou-me belíssimas imagens, conseguidas pela sua objectiva de participante intrínseco.

Escolhi algumas que partilho com os meus “virtuais” leitores.



Creoula, em mar aberto…



Tal cisne branco, de uma elegância e alvura resplandecentes, entre os azuis de céu e mar. Mais parece uma aguarela ou melhor, um óleo, saído da paleta de artista consagrado. Qual marinha de Noronha da Costa! Que regalo para a vista e que lenitivo para a alma!




Veleiros na noite?...

Que beleza! Magia da noite? Ou truque de fotógrafo? Seja o que for, é notável!




Na senda dos russos…



O “Quero-Quero” tenta “caçar” os veleiros russos “Sédov” e “Mir”, duas das mais imponentes presenças na Tall Ships Falmouth, Ílhavo, Funchal 2008. Espero que gostem!

Imagens – Gentil cedência do Comandante Rui São Marcos

Ílhavo, 13 de Outubro de 2008

Ana Maria Lopes




quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O "velhinho" Novos Mares





É minha intenção falar do bota-abaixo do navio-motor Novos Mares, não sem antes “dar” umas palavrinhas sobre o Novos Mares que o antecedeu.

O velho lugre-motor, de madeira, de quatro mastros, Novos Mares, fora construído no ano de 1938 por Manuel Maria Bolais Mónica, nos seus Estaleiros na Gafanha da Nazaré para a Empresa Testa & Cunhas, Lda., que desde 1927, se dedicou à faina do bacalhau.


O Novos Mares, na carreira, em vésperas de bota-abaixo


O Novos Mares era um navio de quatro mastros, de formas muito finas e elegantes. Embora mais tarde com motor-auxiliar, os seus capitães consideravam-no muito bom de vela.

Pormenor do convés – 1938



Caso curioso o facto de ter sido o meu Avô Pisco (Manuel Simões da Barbeira) a estreá-lo, tendo feito uma viagem, pelo menos, nesse mesmo ano, à Terra Nova e Groenlândia, só à vela. Que perigos esforçados não representaria uma viagem só à vela, naqueles tempos? Os riscos, as tempestades, os ciclones, os gelos, a falta de mantimentos, as notícias que não se recebiam… O velho Gil Eanes começara só a dar apoio à frota em 1937, interrompendo-o em 1941… Em 1942, o meu Avô deixou definitivamente a pesca do bacalhau. Ainda bem; quando eu nasci, já ele se pôde dedicar a mim, quase em exclusivo.


O Novos Mares, acostado junto à Empresa, faz prova de pano – 1938


O Novos Mares, na Groenlândia, com mar de senhoras…



Serviço da escala, a bordo do Novos Mares, durante a viagem de 1938



Depois de 18 anos sofridos de mar, naufragou com incêndio a bordo, sob o comando de João Fernandes Matias, em 21 de Julho de 1956, no Virgin Rocks, tendo sido salva a tripulação pelo lugre Maria das Flores.

Resolveu então o seu armador construir um novo Novos Mares, no mesmo estaleiro, mas já com formas diferentes, seguindo os moldes da época, de acordo com a política que há cerca de 30 anos vinha operando no país.

Era este navio de construção mista, pois embora a madeira fosse básica (na sua construção), aplicada no forte casco na qualidade e forma tradicionais, era reforçado com uma sobrequilha metálica. Tinha fortes sicordas longitudinais e anteparas transversais, também em chapa de ferro.

No convés, tinha igualmente instaladas amplas casarias metálicas para alojamento dos oficiais e espaçosa casa de navegação. Como já não usava velas, os motores instalados eram de potência suficiente para lhe garantir uma boa marcha.

(Cont.)

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 9 de Outubro de 2008

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O lugre bacalhoeiro Golphinho




No Inverno de 1991, faziam-se obras de restauro na casa da Costa-Nova e, sobretudo, era o fim das tradicionais recoletas, que, devolutas há uns anos, já só se degradavam com o correr dos anos. Da época do palheiro original (anos 30), não tinham condições mínimas de habitabilidade.
Com o previsto aumento da família, também convinha pensar num espaço traseiro de lazer para os pequenotes, que, entretanto, chegariam.
No meio daquele mobiliário característico das recoletas da Costa-Nova, salvaram-se umas camas e lavatórios de ferro, bem bonitos.
E da parede? – uma fotografia de um elegante e esbelto lugre, em dia de bota-abaixo…Mesmo sem identificar o navio à primeira, mais valia, desmontar o quadro, limpar a fotografia amarelecida pelo tempo, e guardá-la com carinho. Um lugre a decorar a parede de uma recoleta que pertencera ao Avô Pisco, só poderia ter a ver com a vida dele: - ou navio da empresa, ou navio que teria comandado. Conclui, de facto, que capitaneara o Golfinho de 1912 a 1914, teria então 27 anos.
A vida do meu Avô, que fizera mais de quarenta anos de mar, despertava então o meu interesse para o modo singular e estranho da vida destas gentes que labutaram na faina maior: os perigos das viagens naquele tempo, feitas só à vela; as condições sofridas e precárias daquele tipo de vida, por vezes certamente angustiantes pelas poucas ou nenhumas notícias da família; “as ralações que a minha Avó sofrera com coisas que nunca chegaram a acontecer”, como ela me dizia.

Mais: – a tal fotografia também se revelaria de valor museológico, aquando da aturada e entusiástica pesquisa, ao tempo, da preparação da exposição de fotografia A Frota Bacalhoeira, durante Maio/ Junho de 1999.
O saudoso Francisco Marques e eu parecíamos dois putos radiantes a olhar os cromos, quando tínhamos a sorte de encontrar um navio (em fotografia), que ainda não constasse das nossas aquisições.
Não é que a amarelecida relíquia encontrada na recoleta da Costa-Nova, era, nada mais, nada menos, que o lugre Golphinho, da praça da Figueira da Foz?

O Golphinho, em dia de bota-abaixo



Tivera uma existência muito efémera, mas digna de se recordar.

Segundo consta do Catálogo da referida exposição, o Golfinho foi construído por José Maria Bolais Mónica, nos estaleiros da Murraceira, na Figueira da Foz, para a Empresa de Pesca da Foz do Mondego. Fora, então, considerado o melhor e maior navio do seu tempo.
O seu bota-abaixo tivera lugar a 3 de Março de 1912; porém, quando começou a deslizar, saiu da carreira e enterrou o cadaste no lodo. Só depois de porfiados esforços e aproveitando outras marés vivas, foi possível pô-lo a flutuar. A terceira viagem, tendo saído de Lisboa a 6 de Maio de 1914, fora de um adeus sem fim…

Londres, 30 de Maio de 1914. Um radiograma do paquete Corinthian dizia que o Corinthian teria salvo o capitão e a tripulação em número de 45 homens, pertencentes ao navio de pesca Golfish da Figueira da Foz. O Golfish bateu contra uma montanha de gelo devido ao denso nevoeiro que caiu às 3 horas da madrugada, sendo abandonado em chamas.

Quadro num restaurante da Gafanha da Nazaré



Não fora outra coincidência, e nada mais saberia, para lá do que ouvira do meu Avô.


Em meados dos anos 80, fizeram-me chegar às mãos cópia do Boletim Mensal da Liga dos Oficiais de Marinha Mercante, ano I, nº 5 de Agosto, de 1914, intitulada Naufrágio do “Golfinho” que expunha o Protesto e relatório do naufrágio e abandono do lugre português “Golphinho”, feitos a bordo do vapor inglez “Corinthian”, de cinco páginas.

É evidente que não vou editar todo o relato, mas apenas respigar o seu texto, recuperando algumas passagens que me parecem dignas de nota, respeitando a ortografia da época.


Por amável deferência de nosso presado consocio Ex.mo Sr. Manoel Simões da Barbeira publicamos o singelo e bem elaborado relatório de mar relativo á perda do seu belo navio que… abalroou com um iceberg na noite de 29 de Maio p.p. O “Golphinho” que pertencia á praça da Figueira era propriedade da Sociedade de Pesca da Foz do Mondego e era talvez o melhor navio português que ia á Terra Nova.
O capitão Barbeira e piloto sr. Arthur Oliveira da Velha são oficiais distintos da especialidade a que se dedicam e foi devido á sua muita perícia que, habilmente obstaram a que o navio sossobrásse, dando tempo a que conseguissem passar para bordo do “Corinthian”, que tomou todos os tripulantes, entre os quais José Pedro Martins em estado grave e que infelizmente foi morrer ao hospital de Havre.
Só quem anda nesta vida do mar, vida de constante combate contra inimigos traiçoeiros e poderosos, pode avaliar o que seja pelo meio duma noite escura sentir de repente o navio abalroar contra um obstáculo invisível e inesperado, ouvir o ranger do cavername, o esfacelar do costado, o estalar dos mastros partindo-se e a derrocada dos mastaréus, das enxárcias, dos cadernais, dos estais, por entre o bater de pano, os gemidos dos feridos e os grito de todos! Quanto animo e sangue frio precisa então ter o capitão para, pensando por todos, os serenar e lhes salvar as vidas em perigo! Aí então sobressai a grandesa da sua missão e a nobresa desta vida feita toda de dedicações obscuras e de brilhantíssimos feitos quasi sempre ignorados!
Foi de noite e com nevoeiro que o “Golphinho” bateu na ilha de gelo que por ali vinha no seu deslisar funesto, sem que nada a denunciasse. (…)
Serenados os animos o capitão, que modestamente no seu relatório nunca fala em si, fez tudo por salvar o navio, mas reconhecida a impossibilidade pelo péssimo estado em que ficou após o abalroamento, tratou então de salvar as vidas confiadas à sua guarda.
Felizmente quando ia tomar a resolução de mandar abandonar o navio entregando-se e aos outros a uma sorte incerta em pequenos botes, apareceu o paquete inglez “Corinthian” da Allan Line, em viagem de Montreal para o Havre, que prontamente se aproximou e os recebeu a bordo. O seu Comandante fora de uma bondade extrema, deixando os náufragos no porto de Havre e d’aí vieram num paquete para Lisboa.


Segue-se um excerto do protesto em si, documento com o grafismo e o estilo formais da época:


Era assim a vida do mar em 1914.


Manuel Simões da Barbeira – Avô Pisco


Mas as coincidências não ficam por aqui. Entre este naufrágio, suas causas e condições de salvamento, há muitas semelhanças com o desastre do famoso e mítico Titanic, a que um dia hei-de voltar.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 3 de Outubro de 2008

Ana Maria Lopes



domingo, 28 de setembro de 2008

Biografia de Jorge Godinho




Lançamento da biografia de Jorge Godinho, por Ana Maria Lopes, na Galeria Santa Clara, em Coimbra, no próximo sábado, dia 4 de Outubro, pelas 17 h e 30. Diário de Coimbra (Suplemento), de 19 de Setembro de 2008.
Texto de Joana Martins.


Actuação do Grupo de Fados Raízes de Coimbra, Luís Góis, Jorge Tuna, Durval Moreirinhas e outros.


Sobre o mesmo assunto, poderá consultar Livro Jorge Godinho.

Ílhavo, 28 de Setembro de 2008

Ana Maria Lopes



quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Memórias da Romaria da Senhora da Saúde





Cá, para nós, a festa dos Grandes Veleiros, grandiosa, mesmo com alguns boas perturbações atmosféricas, já acabou. Agora, vem aí a romaria…p’ra te comprar uma flor…

A minha mais antiga recordação desta romaria é uma fotografia, no terraço da minha casa, em que tenho dois anos, com um grande laçarote na cabeça. A armação da festa comprova a data – fins de Setembro de 1946. Vivia no “coração” da romaria.

Outra, bastante mais forte e de que ainda hoje me recordo vivamente, foi a minha integração na procissão, “vestida de anjinho” – a primeira e a única vez. Cá perdurou “o boneco” tirado “à la minuta”, como mandava a tradição. Só que foi uma procissão complicada e agitada, porque durante o seu trajecto, deflagrou um forte incêndio na, à época, Pensão Pardal, na esquina norte da Estrada do Banho.

Alterado o percurso, o susto apoderou-se de todos, crianças, jovens e adultos. As chamas lambiam as outras casas e todos temiam que se propagassem às casas vizinhas. Foi um alvoroço. Postos a par da ocorrência por residentes, lá vieram os Bombeiros de Ílhavo acudir ao sinistro que poderia ter alcançado proporções gigantescas, dado que as casas da proximidade eram palheiros de madeira ressequida.
Depois de tamanha confusão, felizmente sem consequências de maior, lá chegou o “anjinho” assustado, a casa. Na ausência de data na fotografia, lá fiz algumas diligências para situar a ocorrência no ano certo – foi no domingo da Festa de 1951 (in O Ilhavense de 10 de Outubro de 1951).

Anjinho “à la minuta”


Naquela idade os meus avós faziam-me as vontadinhas todas e eu lá tinha os meus rituais.

A minha primeira compra era um “chapelinho de papel” muito frágil e gracioso, que habitualmente estavam à venda numa tenda, que montava arraial em frente à Vivenda Quinhas.

Quando chegavam à minha porta, a ti Adelaide Ronca com as flores de papel e ventarolas, e a ti Caçoa, com o baú das doçarias tradicionais, entre as quais sobressaíam os melosos e açucarados suspiros e os bolinhos brancos, logo as boas festeiras tinham em mim uma das primeiras freguesas; uma mão para erguer o moinho à procura do vento, até que zunisse, e logo a outra atascada com doçarias para secar a água que me crescia na boca, só de vê-las.

Seguia-se a visita à Vida de Cristo, em movimento, descrita em voz roufenha, rouca do publicitador, tornada ensurdecedora pela ampliação conferida pelas cornetas do altifalante, que tentavam sobrepor-se ao anúncio das cadeiras voadoras ou da casa do espelhos ou do comboio fantasma, itens do arraial que se iam visitando, vez à vez, até que esgotados na segunda-feira do fim de festa.

Incluída no programa das visitas, não podia faltar uma ida às barracas de loiça de Barcelos, para “puxar” , de um molho de argolas, uma, presa a um fio, que erguia o número correspondente ao prémio, que calhava em sorte.
Tem muita sorte, a menina – comentavam outros forasteiros, com os olhos caídos nas belas peças, vistosas, muito toscas e coloridas que me calhavam. Certo é que eu tirava tanta rifa, que uma ou outra, a insistência fazia com que a sorte caísse para o meu lado. O meu grande prazer residia, mesmo, em escolher uma argola, no meio do tal molho delas, puxar ao calha e ver o que a sorte me reservava. Trazia as figuras todas para casa e dispunha-as à varanda.
Assim ia gozando a festa naquela idade da criancice e inocência.

Os restantes apontamentos fotográficos são bastante mais tardios, de 1960, ano em que as minhas amigas e eu, já espigadotas, no esplendor da nossa juventude, combinámos viver a Senhora da Saúde, à moda antiga. Tinha 16 anos.

Os primeiros sinais da romaria eram dados pela chegada e montagem da armação. Depois, a vinda das primeiras tendas. Mas quando os primeiros moliceiros chegavam do norte e do sul da ria, os norteiros e os matolas e atracavam mesmo aqui pertinho de mim, então a festividade estava próxima.


Experimentámos de tudo um pouco. Depois de um belo passeio num Vouga, estava na hora de começar a reinar: andámos de carrocel, de carrinhos eléctricos, de cadeirinhas voadoras, integrámo-nos nas danças sobre a proa dos moliceiros, subimos aos vistosos e animados coretos, tirámos a sina numa boneca de tecido peludo preto, com uma grande cabeçorra, normalmente em frente do palheiro dos Senhores Moura, apreçámos toda a quinquilharia possível, desde os toscos brinquedos de lata e madeira aos ferros forjados mais elaborados. E o café de “apito”? Eu é que nunca fui amante de café.



Assistimos respeitosamente ao desfile da procissão, apreciámos o fogo de artifício, assustando, conforme podíamos e sabíamos os forasteiros, especados, de olhos pregados no céu.

Foi assim a nossa festa setembrina de 1960, em homenagem à Senhora da Saúde, em que se concentrava grande número de devotos.

Nas belas proas dos moliceiros…

No coreto…

No carrocel


A ler a sina



As participantes na folia eram Maria Manuela Vilão, Rosa Maria Moura, Eneida Viana e eu.

E hoje, o que é que temos? A procissão, o fogo de artifício, uma feira infernal e pouco mais. Por vezes, com a intervenção aparatosa da A.S.A.E.
No entanto, ainda se vai passar à Costa-Nova a Senhora da Saúde. Nem gosto, sequer, de ver a casa fechada. Tradição…apesar de já não ser o que era. É a que temos. É para respeitar e tentar transmitir…

Imagens – Arquivo pessoal da autora

Costa-Nova, 24 de Setembro de 2008

Ana Maria Lopes




quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O Creoula entre nós - há 15 anos



Em tempo de Regata…Faz hoje 15 anos. O tempo vai passando quase sem darmos conta. Era sempre um prazer ter o Creoula entre nós18 e 19 de Setembro de 1993.
E mais uma vez nos deu o prazer da sua visita, proporcionando-nos agradáveis estadias a bordo e trabalhos em conjunto.

Creoula atracado, na sua elegância…



Os objectivos, dessa vez, no dia 18, foram uma visita especial da tripulação à Exposição Faina Maior, o lançamento de uma colecção limitada, de três pratos comemorativos da Exposição, em porcelana Porcel, com os motivos: Lugre “Creoula”, Alando o Trol e Clareando Cabos.

No dia 19, foi a entrega da palamenta de um dóri, preparada por uma equipa do “Museu”, tendo-nos sido muito úteis para tal trabalho o saber e prontidão de Francisco Ramos e Manuel Chuvas (Rupio). Eram impecáveis, sempre que os seus serviços marítimos artesanais eram solicitados. Nenhum pormenor era esquecido.

O Creoula tinha dóri, mas faltava-lhe toda a palamenta: remos, com as respectivas forras de couro e pinhas de anel, um par de forquetas com os respectivos estropos, os quetes da proa e da ré, alças da proa e popa, alça da escota, mastro, vela, vertedouro, búzio, foquim, faca e balde de isco, gigo, linha de mão, rile, linha da zagaia, nepas, pino, tortor, bicheiro, desmbuchador, trol e respectivo cesto, grampolim, balão, ferro, polé e pingalim. Tudo isto, "o museu conseguiu" com maior ou menor esforço, para aparelhar o dóri do Creoula, fielmente, a preceito e “à moda antiga”. Nada podia faltar.



A destreza dos dois “velhos lobos-do-mar” o Chico Ramos e o Rupio, ao manusearem a linha, estralhos e anzóis, não fazia crer que tantos anos já haviam passado. Saber de experiência feito, que não esquece…

Além disso, a tripulação teve o prazer de conviver com antigos oficiais do navio, num encontro emotivo de gerações distintas, vocacionadas para o mar.




Da esquerda para a direita, em planos alternados: João Sílvio, José Leite, João Fernandes Matias, José Negócio, Elmano da Maia Ramos, Francisco da Silva Paião (Capitão Almeida), Francisco Marques, Comandante Sá Leal e Marques da Silva.


Mais uma vez, os oficiais de Ílhavo estiveram grandemente presentes no comando deste navio emblemático, enquanto lugre da pesca do bacalhau.


O Comandante Sá Leal aprecia a “obra”



Dado o bom relacionamento entre o navio Creoula e o museu, este aproveitava a itinerância do navio para a divulgação do nome desta instituição museológica. Acordou-se, então, preparar uma exposição para bordo do Creoula, a ser inaugurada no porto da Gafanha da Nazaré, no ano seguinte.
Desta empatia nasceu o bom relacionamento que subsiste entre Creoula e Ílhavo/Museu.
Tal como hoje, por coincidência, o Creoula também se encontra cá, chegado de Lisboa, para sair no dia 23 e se integrar na Regata dos 500 Anos do Funchal. Bons ventos e boa viagem!

Fotografias – Arquivo pessoal da autora


Ílhavo, 19 de Setembro de 2008

Ana Maria Lopes