domingo, 6 de julho de 2008

Exposição João Carlos e Cândido Teles (Parte I)


A Exposição João Carlos e Cândido Teles, ontem inaugurada na sala de exposições do Centro Cultural de Ílhavo, prolonga-se até ao dia 28 de Setembro como exposição temporária, para ser refeita como espaço permanente, na ala direita da mesma sala, depois de repensada, melhor organizada, amadurecida e melhor seleccionada, suponho.
Congratulo-me, pois, com o cumprimento de uma promessa da CMI, com mais de quinze anos, pelo menos, no caso de Cândido Teles, e com bastante mais tempo, relativamente aos Familiares de João Carlos.
Orgulhemo-nos pois de poder visitar e admirar a obra de dois notáveis Artistas da nossa terra.

JOÃO CARLOS Celestino Pereira Gomes nasceu em Ílhavo, a 5 de Outubro de 1899 e morreu em Lisboa, a 11 de Novembro de 1960, estando sepultado em Ílhavo, conforme desejo por si formulado.
João Carlos, figura multifacetada, foi médico, escritor, pintor, entalhador, ilustrador, desenhador e xilógrafo. Tentou também a cerâmica, a escultura, o ferro e o mosaico, onde deixou curiosos e interessantes exemplares. Pena é que, nesta exposição, com tanto espaço disponível, demais, alguns destes aspectos não tenham sido contemplados!
Ao reler, minuciosamente, um texto que Frederico de Moura lhe dedica na “Evocação” do Catálogo João Carlos – Retrospectiva, 1991, não resisti à tentação de transcrever este excerto:
(…) A altura em que o seu lápis e o seu pincel eram tocados de poesia, era quando ondulava o tronco duma peixeira de Ílhavo, quando individualizava a musculatura dum pescador da Costa Nova, quando catava motivos decorativos na proa dum moliceiro, quando se auto-retratava, ainda menino, com a opa vermelha da Irmandade do Senhor, ao lado de seu avô, ou quando aparecia com um moinho de papel da romaria da Senhora da Saúde. Tinha Ílhavo no coração e a sua obra é a tradutora mais rica da sua ambiência e da nossa etnografia. Por isso, merece a gratidão da gente da sua terra, da gente que o seu lápis e o seu pincel acarinharam numa obra perene de beleza e muitas vezes marcada de sentido humano (…).

Em vez de tecer considerações relativamente à obra exposta ou aos critérios seguidos na sua selecção, o Marintimidades, hoje, aconselha os leitores a visitar a exposição e fornece-lhe mais alguns dados de reflexão.

Obras de João Carlos que apenas estiveram expostas em Ílhavo uma vez, porque de uma Retrospectiva se tratava, em Abril /Maio de 1991, são aqui recordadas. Já lá vão 17 anos.
De posse de alguns desses dados, não os quero reservar só para mim, receando que os mais novos os não conheçam. Adoptando um critério cronológico, ei-las:

Ceifeiros, 1934
Técnica mista, 42x35 cm
Col. Feverónia Mendonça, Lisboa

Caminhos do Sangue, 1942
Nanquim, 24x20 cm
Col. Moreira das Neves, Lisboa

A Ceia, 1951
Óleo sobre tela, 200x300 cm
Col. Seminário dos Olivais, Lisboa


Flor de Plástico, 1959
Óleo sobre cartão, 56x45 cm
Col. Feverónia Mendonça, Lisboa

Lisboa, 1959
Óleo sobre tela, 81x65 cm
Col. M. Luisa C. Saldanha Q. R. dos Santos, Lisboa



Curioso que a presente Exposição, bem como o Catálogo, apresentam um pequeno Apontamento para “Lisboa”, desenho a tinta-da-china sobre papel, sem data. Constata-se que, de facto, se trata da mesma obra e, belíssima obra, que ela é.

Cartão para figurino dos Pajens de Santa Joana, 1959
Nanquim e gouache, 33x33 cm
Col. Paço Episcopal de Aveiro


D. João II, 1960
Nanquim, 56x43 cm
Col. Museu de Marinha, Lisboa

Para terminar, apreciemos a capa de uma Revista editada pela C.M.I., em 1932, em que a Costa-Nova, publicitada por uma banhista escultural e naïve, daria um dos melhores cartazes para a nossa praia. É uma sugestão.
É pena que alguns dos ingredientes apregoados já não sejam os mesmos: a ria a beijar as casas, as bateiras atracadas aos moirões em frente aos palheiros, o barco do mar com toda a beleza e empolgamento da arte que praticava.

COSTA-NOVA, 1932

(Continua com Cândido Teles)


Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 6 de Julho de 2008

Ana Maria Lopes




segunda-feira, 30 de junho de 2008

O meu homónimo - o ANA MARIA


Sempre tive uma predilecção muito especial pelo lugre Ana Maria, porque, de facto, tem o mesmo nome que eu, porque foi dos mais antigos da nossa frota pesqueira, porque era muito elegante e porque a ele associo um oficial de cá de Ílhavo, de quem era conhecida e amiga – o Capitão José Fernandes Pereira ( Lau), muito sui generis.


Em bom andamento…
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O Ana Maria – o ex-Argus, construído em Dundee, em 1873, era um veleiro elegantíssimo. Adquirido à Parceria Geral de Pescarias pela Firma Veloso, Pinheiro & Companhia, da Praça do Porto, participou na campanha de 1939 e seguintes.
De exíguas dimensões, cerca de 40 metros de comprimento, de 8 de boca e 4 de pontal, tinha uma capacidade de pesca de apenas 5.000 quintais.
Curioso, as rectas finais de vida do Ana Maria e do Capitão Zé Lau confundiram-se.
No Jornal do Pescador de Outubro de 1955, é dada a grande notícia de que, num belo dia do anterior mês de Setembro, o primeiro navio da pesca do bacalhau à linha a entrar no Douro, foi o lugre Ana Maria.
Em viagem directa da Terra Nova, chegou ao Douro o navio Ana Maria, tendo fundeado junto do cais do Bicalho.

O Ana Maria entra no porto de Leixões…pelos anos 50
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Foi com grande júbilo que a gente ribeirinha da capital do norte aguardou a chegada do veleiro. As famílias dos pescadores mostravam a sua impaciência, enquanto se procedia à manobra da atracação.
Logo foram beijos, risos, abraços, recordações evocadas e notícias trocadas, numa demonstração de ternura entre pessoas queridas que não se viam há seis meses.

Entretanto, o capitão do barco, também de Ílhavo, Sr. José André Alão deu as boas notícias de que o seu barco se portara maravilhosamente e estava apto para continuar na faina do bacalhau. A viagem fora óptima e os porões vinham completamente carregados. Foi também do Ana Maria que se lançou o alarme à navegação sobre o fogo do Ilhavense Segundo, quando se encontrava a 60 milhas do lugre incendiado.
O Capitão Zé Lau, assim era conhecido, nasceu em Ílhavo a 5 de Dezembro de 1879, tendo ido para o mar aos catorze anos, como era normal, à época.
Deixou o mar em 1958, dois meses antes de completar a provecta idade de 79 anos.
Entre os postos de moço, piloto, imediato a capitão, lá foi sulcando os mares, no meio de muitas peripécias e alguns naufrágios, em tempos bastante difíceis, passando por navios bem antigos como o Lusitânia III (futuro Terra Nova), o Maria Preciosa, o Paços de Brandão, o Alcion, o Silvina, o Delães (torpedeado e afundado por submarino desconhecido, em 1942), o Labrador, o Oliveirense, o Infante de Sagres III e o Paços de Brandão. De 1952 até 1958, ocupa o cargo de imediato no Ana Maria, ano em que o velho lugre do Porto naufragou, com água aberta, a 7 de Setembro.

O Capitão, Sr. Joaquim Agonia Vieira, de Vila do Conde, e o “nosso imediato”, entre os seus quarenta tripulantes, foram salvos pela escuna costeira norte-americana “Spencer”, que os entregou posteriormente a um navio espanhol. O velhinho Zé Lau, pelos seus quase 79 anos e pernas enfraquecidas, já teve de ser auxiliado, nestas andanças e mudanças de embarcação para embarcação. Abandona, então, a vida do mar.
O lugre cumprira o seu destino com 85 anos e o imediato contava menos seis.
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Em primeiro plano, o lugre Paços de Brandão e o Ana Maria; pela popa, o Aviz e, semi-encoberto, o lugre de quatro mastros, que sabemos ser o Senhora da Saúde (in A Campanha do Argus, de A. Villiers)

Em terra, ainda duraria até aos 91 anos (até 1971), a saborear o aconchego do lar e de seus familiares, com invejável memória e vivacidade inusitada.


Capitão Zé Lau, já de idade avançada

O Capitão Zé Lau tinha um temperamento muito impetuoso, o que sempre o prejudicou na sua vida profissional, mas era amigo do seu amigo e por ele os colegas tinham grande estima.

Na última viagem que efectuou, numa entrevista que deu a um repórter do “Primeiro de Janeiro”, em 14 de Abril de 58, contou as suas histórias de mar, revelando: – o veleiro mais antigo da frota portuguesa é o Ana Maria e eu o tripulante mais antigo.E assim o Ana Maria e Capitão Zé Lau ficaram na memória dos illhavenses.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora e gentil cedência da Família do Capitão

Ílhavo, 1 de Julho de 2008

Ana Maria Lopes


terça-feira, 24 de junho de 2008

Encantador modelo do barco do mar



Não resisti à tentação de fazer deste lindíssimo modelo de barco do mar o actor principal da edição de hoje.

Conforme imagem abaixo, fez parte de uma montagem, em miniatura, das companhas da borda do mar, da Costa-Nova, exibida durante muitos anos no nosso Museu, muito seguramente, desde a sua abertura oficial, em 8 de Agosto de 1937.



Montagem, em escala, de um palheiro, barco do mar das companhas e carro de bois de transporte de peixe – enxalavar –, M.M. e R. de Ílhavo, 1937


Através da leitura de correspondência de Américo Teles, tive, em tempos, conhecimento da encomenda (entre 1934 e 1937), por parte dos Amigos do Museu de então, de um conjunto de peças ao artesão aveirense, Porfírio da Maia Romão, exímio miniaturista: vinte e duas alfaias de amanho das marinhas, em dimensão real, e ainda uma maqueta de uma marinha, em miniatura pormenorizada, oito miniaturas de embarcações da Ria, que têm lugar digno na Sala da Ria e este modelo de barco do mar, também à escala.

Material perecível como é, esteve sujeito aos efeitos do tempo e às condições de exposição, que nem sempre têm sido as melhores.

Até para se ser miniatura, é preciso ter sorte!

Tendo-se disponibilizado o Sr. Capitão Marques da Silva, com as mãos, o saber e paciência que lhe são reconhecidos para restaurar alguns modelos necessitados de intervenção, este foi o escolhido para início de tão meritória como exigente tarefa.

Em que mãos extraordinárias ele foi cair!

Tive a sorte, graças ao bom relacionamento com o Amigo Marques da Silva de ir acompanhando o processo de restauro.

Toda a embarcação foi limpa cuidadosamente, zelada e tratada. Marques da Silva fez os possíveis por manter a decoração das quatro caras de proa e ré, por estar magnífica, e ser feita com tintas envelhecidas, hoje muito difíceis de imitar. Interveio com muita habilidade e leveza num ou noutro pequeno troço mais degradado, sobretudo da cercadura. Esta, constituída por bordadura de motivos campestres, repetidos, é clássica, neste tipo de decoração. Na cara da proa, a estibordo, a cruz de Cristo; a bombordo, a cabeça de um arrais, talvez o arrais Ançã, ambos os motivos envoltos em círculos.

O modelo visto de cima



As diversas ferragens foram igualmente aprimoradas e substituídas ou refeitas.

Segundo atentamente me informou pelo telefone, o que mais parece ter emocionado Marques da Silva, ao lixar cuidadosamente a tinta ressequida do costado, foi verificar que a feitura do “barquinho” não utilizava cola e tinha um tabuado extremamente perfeito, cavilhado a madeira de mangue, para cavernas inteiras e alternadas – palavras do próprio. Por isso, resolveu não pintar o costado, mas apenas dar-lhe uma espécie de bondex para tratamento da madeira, deixando à vista aquela obra de arte.

Visto de estibordo


A sua intervenção foi mais profunda, a nível do aparelhar do barco – isto é, arte e aprestos, adequados.
Concluída a recuperação – confessa-me Marques da Silva – resolvi aparelhá-lo para a pesca: os remos com os seus cambões e arreatas, os caibros com as estribeiras, o cabo do reçoeiro sobre a rede arrumada à ré, com as suas pandas de cortiça devidamente empilhadas e o cabo da mão da barca arrumado a vante. Com os dois calimotes (barris) para as bóias das mangas, ficou pronto para ir ao mar.


Pormenor do aparelho, à popa


Todos os ilhavenses devem ficar muito gratos ao Capitão Marques da Silva, porque este tipo de trabalho é muito ingrato, já que até há dificuldade em conseguir, no mercado, materiais para estas tarefas. Pequenas inconfidências que me foi relevando – segredos do ofício de modelista – levaram-me a saber como ultrapassou esses contratempos: o cabo dos rolos, à ré (imagem de pormenor), foi feito manualmente, a partir de fio fino e a rede não é mais do que gaze encascada e cuidadosamente seca. Que paciência, engenho e arte!

Nem o sistema de varar ao mar foi esquecido, constituído por uns tantos rolos, sobre os quais o barco desliza, assentes em varas compridas, perpendiculares à linha da praia, sendo puxado, nesse tempo, por juntas de bois.

Para terminar, porque fé e devoção são apanágio do pescador, pintado, no arco da coberta da proa, NOSSA SENHORA DA SAÚDE, que a nós, ilhavenses, muito nos diz, por ser a Santa Padroeira da Costa-Nova do Prado.

1ª Imagem – in M. M. e R. de Ílhavo – Memória descritiva pelo Director António da Rocha Madahil, 1965
Fotografias – Ana Maria Lopes

Ílhavo, 24 de Junho de 2008


Ana Maria Lopes


sábado, 21 de junho de 2008

Livro "JORGE GODINHO"

Desculpem os amantes do mar e da ria, mas abro uma excepção. Hoje, as minhas intimidades não são marítimas, pois tenho outras – que também íntimas, desejo partilhar com outros, nesta hora.

Dizem que os Jovens mortos vivem Junto das Fontes. Arrefeceu a Guitarra, quebrada foi a obra, ficou o amor e os frutos, única perenidade possível, mas, mesmo assim, também dão de beber a quem passa.
Manuel Louzã Henriques, Coimbra, 2008

O livro biográfico – JORGE GODINHO –, em jeito de in memoria, que hoje me chegou da gráfica, nasceu de um desejo que se sobrepôs ao recato e virou necessidade de partilha.

O Jorge teria feito, neste ano de 2008, 70 anos, no dia 5 de Janeiro.

Dedico a biografia, se não tanto aos nossos filhos, sobretudo aos nossos netos.

Ao meu rapazito mais velho, o Jorge, há já uns anos, uma guitarra/bibelot, pousada, estática, abandonada a um canto em minha casa, e na qual ninguém toca, parece estar à espera de alguém que lhe desperte a sonoridade escondida no seu interior.


Era a guitarra do Avô Jorge – explica a Avó Ana, talvez deixando para uma altura mais conveniente a tarefa de contar a história do instrumento, que outrora vibrante, jaz ali ao canto, como que abandonado, à espera, sabe-se lá (!) que outras mãos lhe voltem a dar vida e canto.

De curiosidade em curiosidade, dos quê e dos porquês, nasceu uma montanha de perguntas, insistentes e curiosas, a que tentei, comovidamente responder sem, contudo, conseguir satisfazer a curiosidade insaciável do neto.
Talvez o esquema conceptual deste livro, pequeno em tamanho mas grande de alma, tenha, então, a capacidade de fazer o que, na altura, não fui capaz de explicar. E quem sabe, venha despertar a resposta genética capaz de voltar a dar vida à guitarra triste, a um canto abandonada.
O Inverno, com os meses mais rigorosos a castigar-me com maior dose de solidão nos dias mais frios, mais cinzentos, mais pequenos e menos luminosos, provocou-me o bastante para lhe dar corpo. Aqui fica, pois, a biografia de Jorge Godinho.


Era uma tarefa a cumprir. Se eu não o fizesse, provavelmente mais ninguém o faria: senti, e ainda sinto, no íntimo, a tragédia plasmada na história da vida, tão repentina e dolorosamente atingida com o desaparecimento do Jorge. Tinha em casa os documentos necessários (fotografias, recortes de jornais, discos, memórias…) e senti a obrigação e a devoção, de os legar aos nossos netos, que o Jorge adoraria ter conhecido e acarinhado.

Quem foi Jorge Godinho?

De uma maneira simples e despretensiosa, aí têm a sua biografia, curta, mas autêntica, a sua discografia e os depoimentos dos Amigos que, de mais perto, lidaram com ele, sobretudo, na fase mais intensamente artística da sua vida.

Está feito.




Esta biografia nasceu para ser integrada no blog – Guitarra de Coimbra (Parte II), de Octávio Sérgio, onde foi postada, por amabilidade do Autor.

No entanto, muito embora aderente às novas tecnologias, que têm virtudes mas e também defeitos, continuo a achar que um livro é sempre um livro. E por isso, passei as notas biográficas ao papel.

Será distribuído aos familiares, aos nossos amigos, aos seus antigos alunos. Uns e outros, estou certa, com fortes razões para desejarem dele ter uma grata recordação, como bom amigo e excelente pedagogo que foi.
No início do Outono, será apresentado numa Galeria de Arte, em Santa Clara, Coimbra, pelo Dr. Louzã Henriques, médico psiquiatra e teorizador do Fado, no seio de uma reunião familiar, que contará com a presença simpática e adequada, do grupo Raízes de Coimbra.


O fado e a guitarra não podiam faltar.


Era o mínimo que podia fazer pela memória de Jorge Godinho, no intento de a avivar e transmitir às gerações vindouras.

Fotografias: Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 21 de Junho de 2008

Ana Maria Lopes


segunda-feira, 16 de junho de 2008

Na Escola Primária da Costa-Nova


A sessão cultural a que ontem assisti “Entre Pedras, a Ria e o Mar”, na Bruxa, na Gafanha da Encarnação, mexeu comigo. A Costa-Nova antiga é sempre agradável de ver, se bem que prefira a imagem fixa, que me permite explorar e saborear melhor o conteúdo.
O Labareda, nascido do fértil imaginário de Senos da Fonseca, numa noite luarenta e calma de Agosto, na Costa-Nova, além de lhe ter dado um enorme prazer a arquitectar, tem o mérito de registar vocábulos e expressões do linguajar local, que, se não forem registados, se perdem.
As Pedras Férteis do meu Amigo Zé Paradela são fortes e até comoventes e constituem uma realidade que, às vezes, nos passa um pouco ao lado.
As memórias e, sobretudo, a história da Costa-Nova, estão muito bem entregues e todos ficamos à espera do anunciado livro. Apesar de ter aderido às novas tecnologias, para mim, o papel ainda é o papel.
A propósito: – um capítulo da minha vida escolar também tem lugar nas minhas memórias da Costa-Nova.

Vou para lá desde que nasci, sempre para a mesma casa.


O bonito palheiro…
Antes de ter a arquitectura actual, era um bonito palheiro de rés-do-chão em adobe, com varanda, o terceiro da Calçada Arrais Ançã (lado sul), a partir do actual Largo da Marisqueira, de onde se usufrui uma paisagem inebriante e mutante, de dia e de noite, ao amanhecer e ao entardecer. Era esta a vista da minha casa, até 1973, inserida num horizonte sem fim.



Mota actual – 1942
Com o aterro parcial da laguna (seria necessário?), foi-me roubada.
Costa-Nova dos meus encantos!!!!! Adeus bateira Namy atracada ao moirão multicolor, em frente à casa! Adeus serventia do embarcadouro da barca! Adeus pesca ao caranguejo da muralha, com fio, pedra ou concha e uma lasquita de bacalhau! Também passaram à história as belíssimas atracações da barca, ao perto, em dias de nortada ou de inverno, com marola forte e vento rijo, não sei se à Labareda nem se não. Mas lá que eram bonitas, certeiras e arrojadas, eram.


Era este o cenário em 1973…
Mas, voltando à história, frequentei a 1ª e 3ª classes da Escola Primária, nesta linda praia, entre ria e mar situada.


Escola Primária – No rés-do-chão
Foi minha professora a Senhora D. Palmira, de quem guardo gratas recordações, bem como de algumas colegas que ainda hoje reconheço.
O “lugar” para a Escola Primária que frequentei foi criado em 1930, na então Avenida Boa-Vista, a norte.
Um belo dia, a Senhora Professora informou a minha Mãe que eu, com 5 anos, chegava demasiado cedo à escola. Gostava sempre, antes das aulas de ir ver o mar. Vem de longe, esta tendência…
Chegado o final do ano lectivo de 1950-51, o exame da 3ª classe estava à porta. O meu primeiro exame. E onde fazê-lo? Tinha de ser na Escola da Gafanha da Encarnação. Ainda ontem lá passei e, sempre que lá passo, me lembro.
Claro, tínhamos que ir de barca, à vara, tão calmo estava o dia de Julho, e, a pé, até à escola. Vestido novo… toda enfeitada.
Uma nova escola, novos professores, novo ambiente…algum nervosismo.
O texto que me calhou foi “A libelinha e as folhas de nenúfar”. Correu bem e, no final, bom resultado.

Voltámos. A minha Mãe e Avó esperavam-me…com ansiedade. A sua menina a chegar do primeiro exame… e de barca!!! Quem se gaba do mesmo?

Um pequeno percalço, no regresso: escorregou-me um lápis novinho em folha, costado abaixo e enfiou-se debaixo dos pesadões paneiros da embarcação.
Por mais que pedisse, lamuriosa, ao barqueiro, ele não se compadeceu da minha pena. Será que um insignificante lápis merecia o trabalhão de levantar um ou dois paneiros da grande barca?... Lá ficou, mas não me esqueci…
O que interessava é que estava na 4ª classe, com as férias à porta…

Mota – Cliché João Teles
Restantes fotografias – Arquivo pessoal da autora



Ílhavo, 15 de Junho de 2008

Ana Maria Lopes

domingo, 8 de junho de 2008

Memórias do lugre-motor Creoula

Na Costa-Nova, enquanto se vão fazendo as limpezas e preparando a casa para o Verão da criançada, fui escolhendo umas revistas e deparei com uma pequena brochura – Creoula.
Folheei-a, recordei as últimas vindas do Creoula aqui à Gafanha e fui salpicando a leitura.

O Creoula é um lugre de quatro mastros. Construído no início de 1937 nos estaleiros da CUF para a Parceria Geral de Pescarias, o navio foi lançado à água no dia 10 de Maio e efectuou ainda nesse ano a sua primeira campanha de pesca. Um número a reter é o facto de ter sido construído no tempo record de 62 dias úteis.

Estas informações já são sobejamente conhecidas.
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Em 1979 o navio foi comprado à Parceria Geral de Pescarias pela Secretaria de Estado das Pescas, para nele ser instalado um museu de pesca.
Havia experiências anteriores muito negativas (o caso do Hortense), mas, tendo-se verificado o bom estado do casco, deliberou-se que o Creoula se manteria a navegar e seria transformado em Navio de Treino de Mar (NTM), para apoio na formação de pescadores e possibilitar a vivência de jovens com o mar. E assim foi.
Em 1 de Junho de 1987, por despacho oficial, o Creoula foi formalmente entregue ao Ministério da Defesa Nacional, passando a ser designado como Unidade Auxiliar de Marinha (U.A.M.) e classificado como navio de treino de mar.
Para tal, o navio sofreu algumas alterações de peso, tendo sido nessa recuperação muito importante o papel que desempenhou o Comandante António Marques da Silva, pelo seu vasto saber e conhecimento do navio, enquanto navio da pesca do bacalhau à linha, com dóris.

Termina assim a dita brochura:

Novas terras, novas gentes, usos e costumes diferentes a desvendar!
Novos conhecimentos a adquirir, experiências e desafios a vencer!
Um tempo para trabalhar – um tempo para lazer e divertimento!
…E, no fim, uma saudade nos olhos de quem parte e de quem fica.
É esta a magia de um navio carregado de história, no qual gerações de pescadores ganharam arduamente a sua vida, e onde hoje a juventude aprende a olhar o infinito do mar como só os marinheiros o podem fazer.

Bem-vindos a bordo!

Então, … parei as arrumações para respigar estas frases, só…, e mais nada?

Não, nem pensar! Algo “na manga” me fez meditar.

Tive a sorte de conviver de muito perto com dois dos actores do grande elenco que constituiu a última viagem aos Grandes Bancos do Creoula – 1973 – António São Marcos, o imediato, e o saudoso Francisco Marques, o comandante.

Melhor ainda, tive a sorte do António ter uma habilidade rara para fotografia, que pôs em prática nesta viagem, e eu possuir, por ele cedidos, uns tantos belos diapositivos desta epopeia, que ficou histórica.

Obrigada, António São Marcos, pois assim vamos surpreender e maravilhar os leitores deste blog, os amantes do mar e da aventura e os muitos apaixonados pelo Creoula, que já nele viajaram ou que gostarão de o vir a fazer.

Daqui ressalta, no meio de uma vida árdua, penosa e dura, o romantismo, o mito e a magia de uma lenda.

Saboreemos, pois.

Uma pilha de sete dóris com peia reforçada, para enfrentar temporal



Envergando uma nova vela latina, em viagem

Dóris a regressar junto ao navio


Dóris aguardam vez para atracar



Dóris à borda, a garfar peixe (descarregar com garfo)

Quetes do convés com peixe, antes da escala



Fotografias – Amável cedência do Comandante António São Marcos

Costa-Nova, 7 de Junho de 2008

Ana Maria Lopes



terça-feira, 3 de junho de 2008

Almoço-convívio do 7º Ano de 1959 - 60

No último sábado de Maio, é hábito fazermos o Encontro do 7º ano de 1959 – 1960, do então Liceu Nacional de Aveiro.

Este ano, o lugar escolhido foi a Estalagem da Pateira de Fermentelos. A maior lagoa da Península Ibérica é sempre local inspirador, agradável e evocador. Pensei…vou ter oportunidade de ver se ainda por lá existem algumas lanchas ou patachas.

Claro, além de conviver com os colegas e amigos, recordar simpatias, paixonetas, derriços, “amores encobertos”, nunca revelados…, outros mal resolvidos, não sem todos sentirmos o peso, os efeitos e a experiência de mais quase cinquenta anos em cima. Meu Deus! Como o tempo passa, deixando marcas mais ou menos indeléveis!!!!

O tal passeio rentinho à Pateira aconteceu, como previa, cuidadosamente, não fosse algum de nós enfiar-se, inadvertidamente, naquela água semi-pantanosa.

Sendo-me conhecida a vertente marítima, foram-me pedidas explicações; não perdi a oportunidade de dar cartas no assunto, aproveitando para aprender mais algum pormenor com colegas oriundos daquelas bandas.

Já lá não ia desde Março/Abril de 2003, aquando da remodelação da Sala da Ria do M. M. de Ílhavo. Na companhia dos amigos Bizarro e do saudoso Francisco, o objectivo era escolher a bateira patacha que mais nos agradasse para integrar o espólio da dita Sala. E lá está, construída em 2001 por Fernando Ferreira Neves, e doada pelos Irmãos Vasconcelos.

Três lanchas – Anos 80

As ditas patachas, lanchas ou chatas são embarcações muito rudimentares, de fundo chato e costado baixo. Medem, sensivelmente, de bica a bica, 6,30 metros, 1,30 de largura no sítio da toste (banco) e 30 centímetros nas asas (tábuas do costado). O fundo é reforçado por 7 a 11 travessas a que chamam cavernas, com pequenos orifícios para esgotar a água. Podem ter meio solho móvel. Os meios de propulsão são a vara e os padejos (varas com um fundo de alcatruz aplicado em cada ponta). Transportavam pessoas, dedicavam-se à apanha de algas e ainda servem para a pesca desportiva. Há muito menos…estão a desaparecer. Também, durante o Inverno e com as chuvas que tem havido, mantêm-se submersas, pois conservam-se bastante melhor.

Dos chamados barcos, que apresentavam algumas diferenças notórias, relativamente às ditas patachas, nem um! Eram mais usados para os lados de Óis da Ribeira e Requeixo. Um pouco mais robustos que as lanchas, com um formato sensivelmente trapezoidal, rectos à ré, de proa em V aberto, já não se constroem.

Lanchas e um barco na Pateira de Fermentelos – Anos 80

Pelos anos 80, por volta do dia 25 de Agosto, recriava-se a apanha de algas na pateira, na Festa do Emigrante.
Ultimamente, tal festividade deixou de fazer sentido, assim como a recriação da apanha do moliço.

Este, como adubo de altas propriedades, e a fauna piscícola, há umas boas dezenas de anos, eram as duas grandes riquezas da pateira. Chegou a haver defeso do moliço com a duração de onze meses e cinco dias. A apanha reiniciava-se a 25 de Agosto. Há uns três anos, contou-me pessoa conhecedora, que uma praga de jacintos invadiu as águas, vendo-se a Câmara de Águeda obrigada a actuar através de uma espécie de draga sugadora, que continua a fazer a prevenção.

Quanta arte, equilíbrio e perícia eram necessárias aos seus tripulantes, para se aguentarem nestes barquinhos! Vazios…era o que era… e cheios de algas, por vezes, vinham ao charco e… que remédio senão arrastar a lancha!

Cuidado! Com carga, passageiro e tudo!

Por vezes, ia-se à água!

Foi um dia bem passado a recordar récitas, bailes, excursões, histórias e a "brincar" aos jovens, graças àquela pitadinha de criança que existe em cada um de nós.

Entretanto, apreciem bem as imagens, porque, embora não muito antigas, já pertencem ao passado.

Fotografias – Amável cedência de Paulo Miguel Godinho

Ílhavo, 3 de Junho de 2008

Ana Maria Lopes