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domingo, 19 de dezembro de 2010

O lugre Silvina

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À laia de Boas-Festas para todos os meus Amigos, leitores e apreciadores, vou hoje explanar o lugre Silvina, para lembrar o bacalhau do Natal. Escolham-no, pois, directamente da seca, para a noite de Consoada.

O lugre Silvina, registado em Aveiro, foi construído na Gafanha da Nazaré, em 1919, por Manuel Maria Bolais Mónica, com o nome de Águia, para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, tendo sido o bota-abaixo a 4 de Outubro de 1919. Era um lugre com três mastros, de madeira, proa de beque, popa de painel e um pavimento.


Dia de bota-abaixo do lugre Águia (1919)

Media de comprimento, entre perpendiculares, 35,50 metros, 8,80 m. de boca e 3,60 de pontal. Tinha uma arqueação bruta de 212, 33 toneladas e líquida de 169,88.
Não tinha motor auxiliar e a tripulação era, em média, de quarenta homens.
Em 1920, foi comprado por 75 000$00, pelo Sr. João Bola, para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, em Aveiro, para quem já efectuou a campanha em causa, com o nome de Silvina.

Surge com características ligeiramente diferentes: 40, 42 metros de comprimento, fora a fora, 34,67, entre perpendiculares, 8,92 m. de boca e 3,62 de pontal. A arqueação bruta era de 207,76 toneladas e líquida de 152,65.

Foi vendido à empresa Agualuza & Batata, Lda., de Aveiro, em 1927, ficando este contrato anulado, face à compra da totalidade dos bens do armador pela firma Testa & Cunhas, ainda durante o ano de 1927, tendo-lhe sido atribuído o valor de 250 000$00 (escritura em 20.12.1927).

De 1920 a 1926, foi comandado por Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco, de alcunha) e em 1927, por António de Souza.
Já na posse de Testa & Cunhas, foi capitão em 1928, Ambrósio Gordinho, e em 1929, António de Souza (ou, eventualmente, Manuel dos Santos Labrincha).

Curiosidades:

Nos anos de 1928, 1929 e 1930, o navio foi à Terra Nova com 37, 37 e 36 tripulantes, respectivamente, tendo utilizando sempre 32 dóris. Nestas campanhas de fracas capturas, foram apurados apenas 1.148, 1.400 e 835 quintais de peixe e 1.100, 2000 e 1.200 kgs. de óleo de fígado de bacalhau. O valor conseguido com a venda foi de 140.000$00, 172.000$00 e 102.000$00 (escudos), certamente muito abaixo das melhores perspectivas, resultando daí um considerável prejuízo.

Daí resultou o navio não ter feito as viagens seguintes.
Na acta de 7 de Dezembro de 1932 da firma Testa & Cunhas, Lda., os sócios resolveram quais os navios que deviam ir à pesca do bacalhau nas futuras safras de 1933 e 34, tendo assentado apenas na ida do Ernani e Cruz de Malta.

Decidiram ainda anunciar a venda do navio Silvina, entendendo que o podiam dispensar. Todos concordaram, desde que se pudesse efectuar em boas ou regulares condições, ficando a gerência autorizada a promover a sua venda.

Segue:
Depois de elaborado o presente relatório (acta de 11 de Agosto de 1934), chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre Ernani nos bancos da Groenlândia. Ignoramos pormenores. Uma dificuldade surge.

Como suprir a baixa daquela unidade?
Três soluções se apresentam:

1ª – Reparar e apetrechar o Silvina
2ª – Adquirir um navio já feito
3ª – Mandar construir um navio novo

Resolveu-se reparar o lugre Silvina, de modo a estar pronto para a futura safra (para o que foram gastos cerca de 50 contos), obtendo a Gerência informação dos barcos que se ofereçam em boas condições, quer no país, quer no estrangeiro e ainda de um orçamento para um barco novo.


Foto do Silvina, frente à seca


Acentuava-se na empresa, a necessidade de procurar uma nova unidade. Segundo acta de 28.11.1936, deram-se início a todas as diligências para a aquisição de um novo lugre. Quem oferece melhores garantias de técnicas é o Senhor Manoel Maria Mónica, que tem dado provas da sua competência e idoneidade. A proposta foi construir um lugre segundo o modelo do Brites (1936), com a introdução de algumas alterações, com empreitada de lavôr e materiais com o construtôr, pelo preço de 640 contos. A aquisição do motor Diesel ficaria a cargo da gerência.

 

Encomendado em fins de 1936, o Novos Mares, de quatro mastros, beijou as calmas águas da ria, para satisfação de todos, a 16 de Abril de 1938, na Gafanha da Nazaré.

O Silvina foi prosseguindo a sua difícil missão, capitaneado por Joaquim F. Agualuza (de 1935 a 1937) e José Cachim Júnior (de 1938 até 1941), até que viu o seu fim em trágico incêndio, no Grande Banco da Terra Nova, a 25 de Maio de 1941.

Quem quiser recordar, pormenorizadamente, este acidente, poderá ler as páginas a ele dedicadas (103 a 116 da reedição de 2007), escritas por Jorge Simões, em prosa da época, «O Silvina em chamas», no livro Os Grandes Trabalhadores do Mar. O jornalista fez a campanha de 1941, a bordo do «Groenlândia», para a observação da faina e recolha de dados.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 19 de Dezembro de 2010

Ana Maria Lopes

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Homens do Mar - João Firmeza - 46


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Cap. João de Sousa Firmeza

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As conversas são como as cerejas, e entabulei conversa virtual com o João Paulo Firmeza, acerca da carreira marítima do seu Avô paterno. Navios para cá, navios para lá, naufrágios para cá, naufrágios para lá, arrastões para cá, arrastões para lá, fotos para cá, fotos para lá, não havia nada como marcar um encontro para degustar uma boa posta de bacalhau, depois de uma boa «chora», saborosa, aprimorada e quentinha. A conversa frente a frente desabrocharia naturalmente, evidentemente, em pleno ambiente que respirávamos. Era de interesse de ambos restaurar a vida marítima do Capitão João Firmeza, mas os dados eram escassos, havia vários hiatos, a família era pequena e quem poderia fornecer mais alguns dados, também já tinha desaparecido. Mas, não vamos desistir. Se hoje, ainda chegamos a alguns relatos, mais tarde, a muito menos chegaríamos e mãos à obra…

Segundo a ficha do Grémio, João de Sousa Firmeza era natural de Ílhavo, da Rua Dr. Samuel Maia, filho de João de Sousa Firmeza e de Maria Victoria Tourega, nascido a 26 de Janeiro de 1896. 
Do casamento com Maria Razoilo Senos, a 29 de Julho de 1920, nasceram os filhos Maria Rosalina Razoilo Firmeza, João Francisco de Sousa Firmeza, e Paulo Manuel de Sousa Firmeza, sendo o João Francisco de Sousa Firmeza, já falecido, pai do João Paulo com tive o prazer de conversar. Mais uma vez, esta nossa moda ílhava – nomes muito parecidos, senão repetidos e, por vezes, os sobrenomes dos filhos diferentes. Esclarecido, na questão familiar. Parece-me.
João Firmeza era portador da cédula nº 9107 passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 25 de Janeiro de 1916, o que prova que, a partir desta data, já poderia navegar, mas nada nos aponta nem quando, com que cargo, nem onde, salvo algumas excepções.
É algo estranho que o seu nome, mesmo em registos jornalísticos, apenas apareça, em 1927, 1928, 1929 e 1930, de piloto, no lugre Silva Rios, da praça do Porto, nas safras de 1927 e 28, sob o comando de João Francisco Corujo, no lugre Senhora do Carmo, da praça da Fuzeta, na safra de 1929, sob o comando de Zacarias Mendes Correia, natural da Fuzeta e na safra de 1930, no lugre São Paulo, com sede na Figueira da Foz, sob o comando de António Augusto Marques (Marcela).
Em anos de forte crise, é possível que tivesse viajado no Brasil, em viagens do comércio, o que aconteceu com alguns ílhavos. O neto, residente no Brasil, por razões profissionais, já tentou seguir o rasto do apelido Firmeza, abundante em terras de Cabral, mas não chegou a nenhuma conclusão segura. Fica como hipótese.
Na campanha de 1939, portanto com 43 anos, ressurge como piloto do lugre Santa Quitéria, da praça de Aveiro, sob o comando de João Nunes de Oliveira Sousa, seu conterrâneo. Como já referido, este lugre-motor, ex-navio dinamarquês Vénus, construído em 1919, iniciou a pesca do bacalhau na campanha de 1935, propriedade da Empresa de Pesca Lavadores, Lda., com instalações de secagem, na Barra.
Eu e os registos fotográficos…uma imagem a bordo do D. Denis com alguém que não me era totalmente desconhecido, levou-me à Gafanha da Nazaré, num ápice, pensando que o amigo Marques da Silva seria o informador ideal. E acertei! Há uns dias, no Museu, tinha falado do Cap. Firmeza com grande à-vontade, tendo eu conhecimento que o conhecera com cerca de nove anos e que a diferença de idades era, consequentemente, grande. Mas, nessa meninice passada na Nazaré – que sorte me bafejara!–  convivera paredes meias com o capitão Ferreira da Silva, com o armador Manuel Pascoal e familiares de ambos. Então, em pormenores mínimos diferenciadores dos lugres D. Denis e Rainha Santa Isabel, dava gosto ouvi-lo. Era esta a foto:
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Em 1940, o capitão Ferreira da Silva (à esquerda e o piloto João Firmeza, à direita-

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O lugre-motor de madeira D. Denis fora construído para a Pascoal & Filhos Lda. por António Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1940, tendo feito já essa campanha, uma estreia, sob o comando do Capitão Ferreira da Silva, também gafanhão, tendo levado como piloto, João Firmeza. São os tais «puzzles» de temática marítima, que adoro compor, uns mais fáceis, outros mais difíceis, consoante o percurso e os contornos.
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Em 1941, de «enxoval» às costas, mudou para o convés do lugre de madeira Rainha Santa, como capitão, tendo como piloto, Francisco Fernandes Mano.
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O ano de 1941 em que se tinha perdido o lugre Silvina, por incêndio, despertou-me interesse, tendo ido reler o capítulo O Silvina em chamas, da obra de Jorge Simões, Os Grandes Trabalhadores do Mar, que na campanha de 1941, tinha sido integrado na nossa frota, no lugre Groenlândia, para observação dos nossos homens, em perigos, nevoeiros, brisas, trabalhos, gelos e tudo o mais que viesse a surgir. Rebusco, então, alguns parágrafos desse capítulo:
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(…) Subitamente, soou pela rádio uma voz que traduzia espantosa aflição e angústia, uma voz que gritou enrouquecida:
«Chamada geral! Chamada geral a todos os navios!... Daqui o Silvina, o capitão do Silvina!... Tenho o navio a arder!... E não tenho posição!...»
O que isto significa para um navio com fogo a bordo, debaixo do nevoeiro, só pode ser verdadeiramente compreendido por quem se encontra nestas paragens. Um pavor!... (…) Ao angustioso apelo do capitão do Silvina responderam numerosos barcos:
«Vamos suspender, vamos em teu socorro. Vamos todos, todos os navios de motor. Mas diz-nos alguma coisa. Vibravam os amplificadores: «Atenção! Chamada urgente!... Chamada geral!...O Silvina está a arder!»
«Suspendam, suspendam todos, vão acudir ao Silvina, ao capitão José Cachim!...» (…)
Às oito horas e dez minutos, voltou a soar a voz, cada vez mais enrouquecida e entrecortada pelos soluços do capitão do lugre que o azar transformara numa fogueira gigantesca a baloiçar ao cimo das vagas:
«Toda a companha está nos botes. O navio, ai o meu rico navio, está pronto. Eu estou sozinho a bordo.»
Aconselharam do Santa Princesa: Deixe o motor do transmissor da rádio a funcionar. Salte para os botes! Não se afastem muito. Vão todos os navios à vossa procura!»
Em onze dorys aguardavam os náufragos, desde as oito e um quarto da manhã, que os fossem buscar. Diversos navios viram passar destroços, junto dos costados. Mas chegou a noite e os lugres tiveram de fundear, sem nada haverem descoberto.
Quando às quatro horas e quarenta minutos da manhã, o velho capitão João de Sousa Firmeza, veterano da pesca do bacalhau, comunicou que os náufragos, num clarear súbito do tempo, tinham descoberto o seu navio, o Rainha Santa, mesmo junto deles, a alegria foi indescritível (…).
O Groenlândia dirigiu-se também para lá. E a tripulação foi distribuída por vários lugres, entre eles o Groenlândia, que levava, a bordo, o jornalista. Desceram o bote já comigo (Jorge Simões) para o outro lugre, o Rainha Santa, de que o capitão lhes fez um acolhimento cordial.
Assim se perdeu o Silvina, no meio de chamas, no dia 25 de Maio de 1941.
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E neste belo e verídico relato, encontrámos referências elogiosas ao velho capitão Firmeza.
O Rainha Santa Izabel, como já referido, ex-Rainha Santa, foi construído para a firma Pascoal & Cravo, Lda., na Gafanha da Nazaré, em 1929, por José Maria Lopes de Almeida. Por dissolução desta empresa, em 1937, o navio alterou o nome para Rainha Santa Izabel, tendo sido, então, propriedade de Pascoal & Filhos, Lda. Foi seu capitão João de Sousa Firmeza, nas safras de 1942 e 43, tendo sido seu piloto João Juff Tavares Ramos, em 1942 e imediato, em 1943.
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À direita, João Firmeza e a meio, o armador, Manuel Pascoal. Entre 42 e 43
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No Rainha Santa Izabel, à nossa direita, o Cap. João Firmeza

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Nos anos de 1945 e 46, servira a empresa Testa & Cunhas no elegante lugre-motor de quatro mastros, que o meu avô estreara em 1938, o Novos Mares, como capitão, levando como imediato, em 1945, Francisco José Campos Evangelista, de Esposende, e Carlos Veiga Correia de Oliveira, em 46, natural de Setúbal.
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À entrada de Leixões, o Novos Mares. Fotomar.
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Na safra de 1948, o naufrágio do lugre Gaspar estava guardado para a responsabilidade do Capitão João Firmeza, já que durante vários anos anteriores, navegara sob o comando do nosso conterrâneo Manuel Mendes, falecido em 1947, na cidade de Viana. Segundo O Ilhavense de 20 de Setembro e o Comércio do Porto de 17 de Setembro de 1948, estando quase finda a época piscatória nos mares gelados da Groenlândia e Terra Nova, o destino não quis deixar de assinalar com mais uma tragédia a sua louca sofreguidão.
O lugre Gaspar, açoitado violentamente pelo vendaval que pairou, durante horas, em todo o Atlântico Norte, correra risco grave, ao ser abatido a tiro pelo cutter da Guarda Costeira Americana «Bibb», mas felizmente, o seu apelo fora captado.
O capitão lançou um SOS e logo em seu socorro rumou o navio-hospital «Gil Eanes», que saíra há dois dias de St. John’s, bem como a fragata americana
«Cecil N. Bean», o navio «Tropero», o cruzador «Albany» e o contratorpedeiro «Purdy», além de dois bombardeiros americanos e um hidro-avião de vigilância da costa, que procuraram localizá-lo, bem como recolher os seus tripulantes. Foram distribuídos por outros lugres, com excepção de Salvador Gonçalves Vieira, de Viana do Castelo, que fora levado por uma vaga que varrera o convés do navio, na véspera do acidente.

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O lugre Gaspar, em 1947
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O lugre Gaspar, ex-Sarah, construído em 1919, na Figueira da Foz, por Manuel Maria Bolais Mónica, foi comprado para a campanha de 1921 pela Empresa Novas Pescarias de Viana, Lda. Embora construído em madeira, estava revestido a chapas de ferro e era equipado com um motor de propulsão.
Uns anos mais tarde, o Cap. Firmeza retomou a pesca do bacalhau, mas, desta vez, no arrasto. Na safra de 1954, no arrastão João Álvares Fagundes da SNAB, na 1ª viagem, de imediato, sob o comando de José Nunes de Oliveira e, na segunda, de capitão.
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Na ponte do arrastão João Álvares Fagundes
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Após alguns hiatos, em que não se encontram referências, na safra de 1958, foi de imediato no arrastão Águas Santas, na 1ª viagem, sob o comando de Manuel Lourenço Catarino, também de Ílhavo. Este arrastão de aço foi construído para a Empresa Comercial e Industrial de Pesca, no estaleiro T. Van Duijvendijk’s Scheeepswerf em Lekkerk, Holanda, em 1949.
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Arrastão Águas Santas. Foto de autor desconhecido
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Depois da aposentação, integrou-se no grupo de oficiais com quem se dava, aparecendo em algumas fotos de grupo, já apresentadas, noutros locais, em conversas pelo jardim, em jogos de cartas no Sindicato dos Oficiais no segundo andar do edifício do Illiabum Clube e em almoços/encontros de circunstância, cá em Ílhavo, em Lisboa ou de visita a Évora.
Em 21 de Setembro de 1968, deixou-nos, depois de grande parte da vida passada sobre as salsas ondas do oceano, entre perigos, nevoeiros e gelos traiçoeiros, com 72 anos de idade.
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Fotos cedidas pelo neto João Paulo Firmeza.
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Ílhavo, 17 de Abril de 2018
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Homens do Mar - Joaquim Fernandes Agualuza - 23

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Era pois, minha intenção dedicar umas palavras ao Sr. Capitão Quim da Graça, de quem me lembro relativamente bem, com moradia na dita Avenida dos Capitães. Não só dele, como de sua esposa, Senhora D. Albertina, com quem a minha Avó conviveu, tendo chegado a ir os três para as termas, várias vezes.
O Sr. Capitão Joaquim Fernandes Agualuza, muito conhecido pelo nome de Capitão Quim da Graça, nasceu em Ílhavo, na Rua Nova, em 12 de Janeiro de 1901 (-1983).
Era possuidor da cédula marítima 15291, tendo sido passada a segunda via na Capitania do porto de Aveiro, em 6 de Abril de 1931.
Era filho e neto de pescadores que se dedicavam à pesca de arrasto costeiro (a dita arte de xávega), na praia da Costa Nova do Prado. O seu Pai até teria falecido ainda jovem, em consequência de uma infecção tetânica provocada por uma patada de um boi, no decurso de um arrasto da rede.
O Quim da Graça, nome de sua Mãe, Rosa da Graça, foi um homem modesto, embora austero, por profissão, mas muito carinhoso com a Família, com uma superior paixão pelo mar, vinda de seus antecessores.
Familiar chegado informou-me que começou por fazer o Curso da Escola Náutica, após o qual foi colocado como Piloto da Barra, primeiro na Figueira da Foz e, posteriormente, na Barra de Aveiro.
Poucos anos depois, nas safras de 1923 e 25, comandou o lugre Laura, pilotado por João dos Santos Labrincha (23). Este lugre foi construído em 1921 na Gafanha da Nazaré sob o risco de José Soares. Propriedade da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., participou nas campanhas de 1921 a 26. Tendo imobilizado em 1927, virá a ser o Cruz de Malta, em 1928, propriedade da Empresa Testa & Cunhas, Lda.
 
Lugre Laura entre 1921 e 26
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Na campanha de 1929, foi piloto estreante, sob o comando de Manuel dos Santos Labrincha, do recente lugre Santa Izabel, mandado construir pela Empresa de Pesca de Aveiro, no mesmo ano.
Na famosa campanha de 1931, – a da pesca do bacalhau nos mares da Groenlândia, continuou piloto do mesmo lugre, sob o comando do mesmo capitão.
Com algumas lacunas de informação e, em tempo de crise, comandou o lugre Ernâni, pertença de Testa & Cunhas, Lda., pilotado por Manuel Gonçalves Viana, na campanha de 1934, ano em que o navio naufragou, pasto de chamas, por incêndio despoletado na fritadeira do fogão. O capitão, ao contar a tripulação na hora do salvamento, deu por falta de um homem – era o mestre, que, no rancho, chorava a perda do «seu» navio, que estava a arder por sua culpa. Lá foi o capitão arrastar o desgostoso mestre, para que uma vida se não perdesse em vão – «estória» oral contada mais tarde por um familiar do mestre.
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Lugre Apollo, em 1921, futuro Ernâni
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Por acta da empresa de 15 de Agosto de 1935, apercebi-me que a empresa ia preparar o Silvina para a próxima safra, em parte, para substituir o Ernâni repasto de chamas. O lugre Silvina, há bastantes anos parado e algo deteriorado, foi reparado, tornando-o navegável, no que foram gastos cerca de 50 contos, importância que não podendo, de momento, ser amortizada, deveria ser levada à conta do respectivo lugre.
Nas safras de 1935, 36 e 37, o Capitão Quim da Graça comandou o lugre Silvina renovado, pilotado, por Alexandre Simões Ré (36) e Manuel Gonçalves da Silva, de alcunha Paroleiro. (37). Na campanha de 38, transitou para o lugre Cruz de Malta, pertencente à mesma empresa, pilotado por Manuel Pereira da Bela (Violante).

Lugre Silvina, em frente à seca
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Lugre após lugre, de três mastros, de madeira, que se deslocavam aos Bancos da Terra Nova e da Groenlândia na quadra mais quente, foi ascendendo de imediato a capitão, tendo-se transferido, posteriormente, para a praça de Viana do Castelo.
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De 1939 a 1951 (inclusive), estreou, no comando, o navio-motor de ferro Santa Maria da Madalena, construído em 1939, nos estaleiros da CUF, para a Empresa de Pesca de Viana.
Teve como imediatos, os ilhavenses Francisco Fernandes Mano (39 e 40), Manuel Pereira da Bela (Violante) (41 a 44) e Armando Pereira Ramalheira (47 e 48). Como pilotos, Manuel Pereira da Bela (Violante) (39 e 40) João Simões Ré (41 e 42), Weber Manuel Marques Bela (47) e Carlos Alberto Pereira da Bela (49, 50 e 51), também nossos conterrâneos.
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De 1952 a 61 (inclusive), inaugurou, no comando, o navio-motor de ferro Rio Lima, construído nesse mesmo ano nos estaleiros Navais de Viana do Castelo, para a mesma empresa. Após a viagem de 1961, transformou para arrastão clássico.

O navio-motor de ferro Rio Lima
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Trabalhou como seu imediato, o ilhavense Manuel dos Santos Malaquias. (53, 54, 55 e 56). Como piloto, o nosso conterrâneo António Manuel de Oliveira Gordinho (53 e 54). Nos restantes anos, quer os imediatos quer os pilotos não foram de Ílhavo. 

Capitão Quim da Graça, em navio de Viana
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Segundo informação do Jornal do Pescador de Maio de 1960, p. 23, na Bênção dos Bacalhoeiros de 1960, a três de Abril, foi condecorado por sua Exa. o Presidente da República Américo Thomaz, com o grau de Oficial da Ordem de Mérito Industrial.
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E de navio em navio vianense, foi vivendo as suas safras, nos mares longínquos e gélidos. Passou a comandar o navio-motor de ferro São Ruy nos anos de 62 e 63, com Francisco Correia Marques como imediato, tendo dado por encerrada a sua actividade marítima.
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A bordo de navio de Viana do Castelo…
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Familiar próximo contou-me que o nome de Agualuza terá vindo de um comentário feito pelo Pai, exactamente com o mesmo nome. Quando na praia da Costa Nova, a rede de arrastar estava a ser puxada pelas juntas de bois, terá dito para os camaradas de pesca: – Hoje a rede vai trazer pouco peixe, porque a água está luza (leia-se luzente). E assim passou a ser tratado pelo  Agualuza.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiares
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Ílhavo, 24 de Outubro de 2016
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Ana Maria Lopes
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sábado, 12 de março de 2011

Faina Maior - Para memória futura...no MMI - 3

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Tendo oportunidade de ler atentamente algumas actas, da mesma época, de Testa & Cunhas, criada em Dezembro de 1927, a partir da aquisição dos bens da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca de Aveiro (todos os aprestos, extenso secadouro e os lugres Hernâni, Silvina e Cruz de Malta), constatei que os tempos de crise, escassez de peixe, dureza de vida, dificuldades financeiras, eram comuns às empresas do sector. E o meu Avô, o Capitão Pisco, por lá andava.


Vista aérea de Testa & Cunhas, nos anos 30


Em acta de 7 de Dezembro de 1932, os sócios resolveram quais os navios que deviam ir à pesca do bacalhau nas futuras safras de 1933 e 34, tendo assentado apenas na ida do Ernani e Cruz de Malta.

Decidiram ainda anunciar a venda do navio Silvina, entendendo que o podiam dispensar. Mas…

Depois de elaborada a acta de 11 de Agosto de 1934, (sic) chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre Ernani nos bancos. Ignoramos pormenores – causas e paradeiro dos tripulantes. Só mais tarde se soube que a causa tinha sido incêndio e que os tripulantes haviam sido distribuídos por navios dos pesqueiros próximos, onde se revelaram muito úteis no auxílio das penosas tarefas.

Toda esta falta de notícias, em 1934,  é um testemunho da rudeza desta vida.


Incêndio a bordo


Para suprir a baixa daquela unidade, resolveu-se reparar o lugre Silvina, de modo a estar pronto para a futura safra, para o que foram gastos cerca de 50 contos.
Acentuava-se na empresa, a necessidade de procurar uma nova unidade. Segundo acta de 28.11.1936, deram-se início a todas as diligências para a aquisição de um novo lugre. A proposta foi construir um, segundo o modelo do Brites (1936), com a introdução (sic) de algumas alterações, com empreitada de lavôr e materiais com o construtôr, Mestre Manuel Maria Mónica, pelo preço de 640 contos.
Encomendado em fins de 1936, o Novos Mares, de quatro mastros, beijou as calmas águas da ria, para satisfação de todos, a 16 de Abril de 1938, na Gafanha da Nazaré. O meu Avô capitaneara-o na primeira viagem, só à vela, à Groenlândia, já que o motor não havia chegado a tempo da viagem.

O Silvina foi prosseguindo a sua difícil missão, até que viu o seu fim em trágico incêndio, no Grande Banco da Terra Nova, a 25 de Maio de 1941, narrado por Jorge Simões em Os Grandes Trabalhadores do Mar.

(Cont.)


Imagens – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 12 de Março de 2011

Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

De novo, o livro «Faina Maior»...

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O meu blogue, além de muito mais, não deixa de fixar as minhas explanações, aquando da apresentação de livros. E esta, não sei bem porquê, não tinha sido registada. Ainda vai a tempo, agora a propósito da 3ª edição do livro Faina Maior – A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova. Faina Maior, um título forte, belo, feliz e sugestivo, que sai uma vez na vida, muito mais forte que a «Grande Pêche» dos franceses. Alimentou muitíssimos conteúdos expositivos e continua a ser um entretém de muito mais estudiosos e evocadores. Ainda bem. A semente deitada à terra germinou com fervor. Quem, antes de 1992, ouvira falar da Faina Maior?
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Caros Amigos/Amigas, porque de um encontro de Amigos se trata…
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Não venho propriamente apresentar a Faina Maior. Foi mais que apresentada, há 15 anos.
Em primeiro lugar, o meu agradecimento à Associação dos Amigos do Museu, da qual faço parte, por ter levado a bom porto a reedição do livro Faina Maior – A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova, publicado pela primeira vez em 1996. O tempo foi passando e…
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…a minha história de «vida em comum» com o saudoso Francisco Marques, associação irrepetível, é, ou deveria ser sobejamente conhecida. Já tem sido contada. Mas nunca será demais.
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Foi o gosto pela pesca do bacalhau que nos uniu. Encontrámo-nos na antiga Escola Preparatória em actividades culturais e por aí começou a nossa cavaqueira.
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Primeira realização: o documentário À Glória desta Faina, que foi visionado neste Auditório do Museu, nos dias 4 e 11 de Novembro de 1989 – duas enchentes a que se não estava habituado. Os nossos homens do mar mereciam essa «homenagem», se assim lhe quisermos chamar.
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Entre mim e o Francisco surgiu a ideia de construir uma cozinha de bordo no Museu, se eu viesse a ser Directora…como constava. E atrás da cozinha, vieram a escala, o porão, o convés, o convés da popa, o beliche e rancho e o salão de oficiais, a começar pelo dóri, o pequeno/grande herói da pesca à linha, com o seu único ocupante, o homem do dóri.

Conferência de imprensa de apresentação da exposição
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Abriu em Outubro de 1992 a grande exposição A Faina Maior – Pesca do bacalhau à linha, que, de temporária, após um ano, passou a permanente.
De certo modo, marcou a evolução cultural da nossa terra, activando os sectores que com ela tinham ligações. Tem estado na base de muitos discursos expositivos, em volta do mesmo tema – basta recordar algum tipo de eventos…ou instituições – A Confraria Gastronómica do Bacalhau, As Tasquinhas do bacalhau, os vários livros da mesma temática que, posteriormente, têm vindo a lume, sob a chancela de diversas editoras…
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E o livro Faina Maior? Sim, este livro? Tendo uma equipa da Quetzal visitado a exposição em Maio de 93, havia-nos feito uma proposta de «pôr» a Faina Maior em livro.
Recebemos a proposta de braços abertos – foi o selar, por escrito, de uma grande Exposição, que, ainda hoje se mantém com melhoramentos.
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Assumimos ambos o compromisso, com os dissabores dos atrasos e as alegrias do sucesso. O texto veio a lume no Verão de 93, mas o lançamento, com as demoras habituais, teve lugar a 22 de Junho de 1996. Dividimos irmãmente os louvores, tanto que recebemos o Leme do Ano (ex-aequo), de reportagem, a 28 de Junho do ano seguinte. 
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Ao recebermos o Leme do Ano, 1997
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O livro, entretanto, esgotara e era um firme desejo da Associação dos Amigos do Museu concretizar a sua reedição.
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Por razões de vária ordem, ainda não tinha sido possível, mas, este Verão, ao arquitectarmos alguns posts do Marintimidades sobre «Creoula – 1973, através da objectiva de António São Marcos», conseguimos ultrapassar, através de um procedimento levado a efeito há vinte anos um problema técnico que existia com essas fotografias. Enfim, foi superado.
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Por outro lado, durante uns tempos, achei alguma piada a que dois dos livros em que mais me tinha empenhado estivessem esgotados, mas, com o andar dos tempos, passei a não achar tão curioso assim. Se, na realidade, não pudéssemos pôr as mãos à obra, não seria muito fácil reerguê-la. Gostava de deixar a Faina Maior, à venda
E esperancei os Amigos do Museu. Muitas voltas foi preciso dar para se alcançar o intento.
É que …
Entre as duas edições, decorreram 15 anos, o suficiente para que a técnica de «fabricar» um livro tivesse mudado como do dia para a noite. O texto, de dactilografado passou a digitado (processado), as imagens, de suporte em papel, passaram a ser digitalizadas, melhoradas, tratadas, photoshopadas q. b.
Sem esquecer, o principal – reencontrá-las, entre tantas mãos por que passaram. O nosso muito obrigada a quem no-las cedeu e ao meu filho Miguel, estou grata pelo apoio técnico dado, mesmo à distância.
Ganhámos uma ansiedade e uma paixão com a re-pesquisa
Era nosso desígnio, pela falta do saudoso co-autor Francisco Marques, manter o livro inalterável. E com perseverança, conseguimo-lo.
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O tema escolhido – a reportagem ou o relato – de uma campanha de barra a barra (neste caso, da de Aveiro), de um lugre da pesca do bacalhau à linha, dos anos 30/40, com toda a azáfama, dureza, angústia, saudade, sacrifício e empenho, era imutável.
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Quase ninguém andou lá, porque tivesse querido. A Faina Maior, com toda a sua austeridade, era um modo de vida…E estas memórias fazem parte de quem teve familiares ao bacalhau e quase todas as pessoas de Ílhavo os tiveram.
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Dentre os cerca de 13 capítulos que reescrevi, voltou a deliciar-me o depoimento ao jornal «Beira-Mar», de 30.11.1930, em que o Capitão Cajeira relata a sua primeira tentativa de chegar à Groenlândia.
No ano seguinte, 1931, três navios da Empresa de Pesca de Aveiro – o Santa Izabel, o seu «gémeo» Santa Mafalda e o Santa Joana – por ordem explícita do seu gerente, demandaram a Groenlândia.
Tendo oportunidade de ler atentamente algumas actas, da mesma época, de Testa & Cunhas, criada em Dezembro de 1927, a partir da aquisição dos bens da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca de Aveiro (todos os aprestos, extenso secadouro e os lugres Hernâni, Silvina e Cruz de Malta), constatei que os tempos de crise, escassez de peixe, dureza de vida, dificuldades financeiras, eram comuns às empresas do sector. E o meu Avô, o Capitão Pisco, por lá andava.
Em acta de 7 de Dezembro de 1932, os sócios resolveram quais os navios que deviam ir à pesca do bacalhau nas futuras safras de 1933 e 34, tendo assentado apenas na ida do Ernani e Cruz de Malta.
Decidiram ainda anunciar a venda do navio Silvina, entendendo que o podiam dispensar. Mas…
Depois de elaborada a acta de 11 de Agosto de 1934, (sic) chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre Ernani nos bancos. Ignoramos pormenores – causas e paradeiro dos tripulantes. Só mais tarde se soube que a causa tinha sido incêndio e que os tripulantes haviam sido distribuídos por navios dos pesqueiros próximos, onde se revelaram muito úteis no auxílio das penosas tarefas.
Toda esta falta de notícias, em 1934 é um testemunho da rudeza desta vida.
Para suprir a baixa daquela unidade, resolveu-se reparar o lugre Silvina, de modo a estar pronto para a futura safra, para o que foram gastos cerca de 50 contos.
Acentuava-se na empresa, a necessidade de procurar uma nova unidade. Segundo acta de 28.11.1936, deram-se início a todas as diligências para a aquisição de um novo lugre. A proposta foi construir um, segundo o modelo do Brites (1936), com a introdução (sic) de algumas alterações, com empreitada de lavôr e materiais com o construtôr, Mestre Manuel Maria Mónica, pelo preço de 640 contos.
Encomendado em fins de 1936, o Novos Mares, de quatro mastros, beijou as calmas águas da ria, para satisfação de todos, a 16 de Abril de 1938, na Gafanha da Nazaré. O meu Avô capitaneara-o na primeira viagem, só à vela, à Groenlândia, já que o motor não havia chegado a tempo da viagem.
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O Silvina foi prosseguindo a sua difícil missão, até que viu o fim em trágico incêndio, no Grande Banco da Terra Nova, a 25 de Maio de 1941, narrado por Jorge Simões em Os Grandes Trabalhadores do Mar.
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Deixemos as actas da Empresa e voltemos à «produção» do livro.
Teclámos o próprio texto, porque sabíamos parágrafos de cor e dominávamos com facilidade o tecnicismo dos termos, que nos eram familiares.
E a imagem? Como, no meio de tantas mais que foram achadas, repescar aquelas 142 fotos e aquelas mesmas, que, por tantas mãos andaram e tanto se dispersaram?
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Aos poucos fomo-lo conseguindo. Conhecíamos-lhe o tacto, o odor, o aspecto, o tamanho, as marcas do tempo, a grandiosidade.
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Preparativos do lançamento, à noite, no Museu
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Consumou-se o acto. A Faina Maior, livro, está de novo à venda, – era o nosso objectivo –, para uma outra geração, ou para aqueles que por descuido, o não tenham ainda adquirido.
Vamos tentar divulgá-lo, com fervor, por algumas das terras que forneceram homens para esta heróica labuta. Assim tenhamos apoios e algumas facilidades nessas presumíveis andanças.
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Caros amigos e amigas. Muito obrigada, sobretudo, pela vossa presença!
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Fotos – As duas primeiras de Carlos Duarte e a terceira de Fernando José Morgado
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Ílhavo, 19 de Fevereiro de 2011
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Ana Maria Lopes
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