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quarta-feira, 17 de junho de 2009

O lugre ERNANI

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Por ser um dos lugres de Testa & Cunhas de que se conhecem menos dados, e de que não existem fotos, isoladas, tentei recolher os que encontrei em diversas fontes, alargando, ao máximo, a sua história. Quem, porventura, souber mais e queira contribuir, pode participar. Aceitam-se, de bom grado, informações.

Soube, com a colaboração do Amigo Reimar, que o lugre Ernani, de madeira e de três mastros, foi construído na Gafanha da Nazaré, por Manuel Maria Bolais Mónica e lançado à água a 26 de Dezembro de 1918, com o nome de Estrella do Mar, para o Armador Santos, Moreira & Cª., de Aveiro, na posse do qual se manteve até 1920.
Foi pertença da Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, Lda., de Aveiro, entre 1920 e 1921, tendo navegado com o nome de Apollo.
Passou a chamar-se Ernani, aquando da venda, em 1921, à Empreza de Navegação e Exploração de Pesca, também de Aveiro, à qual Testa & Cunhas o adquiriu, em 20 de Dezembro de 1927, com o mesmo nome. Simpatizou com a designação e manteve-a, até porque havia um conceituado familiar de um sócio, assim chamado.

O Ernani media 37,10 metros de comprimento, fora a fora, 8,90 m. de boca e 3,85 de pontal.
Com arqueação bruta de 256,70 toneladas e arqueação líquida de 182,92, não tinha, nem nunca veio a ter, motor auxiliar.
Depois de vendido, manteve as mesmas características.

Foram seus capitães: Augusto Fernandes Pinto, (1922 a 1924), Júlio Fort’ Homem (1925), Júlio António Lebre (1925 a 1930) e Joaquim Fernandes Agualuza, pelo menos, em 1934, segundo pesquisa feita no jornal “O Ilhavense”.

Na campanha de 1928 o lugre navegou com 44 tripulantes, dispondo de 39 dóris. Pescou 1446,7 quintais de peixe, que renderam 173 600 escudos. Na de 1929, com o mesmo número de tripulantes e de dóris, pescou 1 503,3 quintais que renderam 180 400 escudos. Na de 1930, com 43 tripulantes e o mesmo número de dóris, pescou 1 105,7 quintais que renderam 132 680 escudos. Na campanha de 1933, o lugre navegou com 42 tripulantes, dispondo de 40 dóris; registou, nesse ano, a magnífica captura de 4 560 quintais de peixe, tendo ainda produzido 2 000 quilos de óleo de fígado de bacalhau. O valor do pescado rendeu 548 000 escudos.

Com algum encanto e fascínio que atenuam um pouco o cansaço da visão, tenho consultado as actas da Empresa proprietária do Ernani e na de 11 de Agosto de 1934, encontrei alguns dados que passo a resumir:
(…) Depois de elaborado o presente relatório, chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre Ernani, nos bancos da Groenlândia. Ignoramos pormenores, nem sabemos como se liquidarão os seguros efectuados. Uma dificuldade nos surge.
Como suprir a baixa daquela unidade?
Três soluções se apresentam:
1ª – Reparar e apetrechar o Silvina, há uns anos desactivado;
2ª – Adquirir um navio já feito;
3ª – Mandar construir um navio novo.
Um só navio não defende a sociedade das suas despesas.
Há falta de informações acerca da ocorrência e está ausente o capitão Manuel Simões da Barbeira, cuja opinião técnica convém apreciar (…).

A falta de informação e de notícias que sabemos ter existido, naqueles anos difíceis, é prova da crueldade, desumanidade e dureza de tal vida!...

Pequenos fragmentos vão engrossando o relato e no nosso Jornal de 19 de Agosto de 1934, o título Lugre Hernani chamou-me a atenção:

Como é sabido, êste navio bacalhoeiro foi pasto das chamas na Groenlândia, onde estava pescando.
Sabia-se que a tripulação se havia salvo, mas ninguém tinha conhecimento do seu paradeiro.
A Empresa Testa & Cunhas enviou dois telegramas a saber dos náufragos, que ficaram sem resposta.
Teve, então, que apelar para o Ministério da Marinha que, por sua vez, reclamou do Ministério dos Estrangeiros, providências, no sentido de saber do paradeiro do lugre Hernani.
A resposta veio, por fim, que eles se encontram distribuídos pelos vários pesqueiros que estão naquelas paragens.


Na acta de 15 de Agosto de 1935, lê-se:
(…) A empresa tinha dois navios em safra, que tiveram de ser totalmente apetrechados. Devido ao lamentável sinistro que incendiou o Ernani, só tirámos resultado da safra do Cruz de Malta.

Entre o prejuízo da perda do Ernani e o respectivo pagamento do seguro, a empresa teve um prejuízo efectivo de cerca de 80 contos (…), que têm de ser suportados pelos lucros desta safra, e que foi levado, na devida proporção, às contas de prejuízos dos sócios (…).

Importa-nos comunicar aos dignos sócios que é de salientar o acto de solidariedade dos capitães dos demais navios pesqueiros e a actividade do nosso capitão (Joaquim Fernandes Agualuza) e demais pessoal do lugre Ernani, quando do seu incêndio, que, recolhendo a outros veleiros onde produziam serviço, evitaram à nossa Empreza, despezas de repatriação, que importariam em cifra superior a um cento de contos.

Segundo informação oficial (Lista de Navios Portugueses, secção dos naufrágios), o incêndio deflagrou a partir da cozinha, propagado por uma porção de azeite que estava a ser utilizado para fritar peixe.

É caso para repetir que a história da Faina Maior nunca estará acabada…

Ílhavo, 17 de Junho de 2009

Ana Maria Lopes
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domingo, 7 de junho de 2009

Memórias... de Testa e Cunhas - II



Em “O Ilhavense” de 18.12.1927, quase que obtinha a resposta, mas quem seriam “ alguns dos nossos patrícios” citados?


Pela coincidência das datas e dos navios, fácil era concluir que a formação da firma Testa & Cunhas teria sucedido como consequência da aquisição dos bens da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca de Aveiro. Mas devia ter na minha posse um documento que mo garantisse, e não apenas basear-me em suposições…

Rumei ao ADA (Arquivo Distrital de Aveiro), um pouco incrédula, disposta a consultar os Livros de Actos e Contratos da Comarca Notarial de Aveiro, do ano de 1927.
Com alguma sorte, as dúvidas ficaram sanadas.

Sempre associara o Avô Pisco (Manuel Simões da Barbeira) só a Testa & Cunhas e, passada uma vida, vim a descobrir que, antes disso, ele já fora armador da Empreza de Navegação e Exploração de Pesca Lda., que Testa & Cunhas, recém-formada, comprara, quatro dias depois da sua formação.

Cabeçalho da escritura da compra – 20.12.1927


Na folha 75 (verso), da escritura acima referida, de que possuo cópia, se escreve (…) que Manuel Simões da Barbeira, também pertencendo à sociedade vendedora, faz também parte da sociedade compradora (…).

Compra do Silvina, Ernani e Laura20.12.1927


E, na representação abaixo, se exibem, garbosos, os lugres, apesar de não terem mastaréus, na única foto que conheço, pelo menos, do Ernani.


Vista aérea do secadouro – anos 30


Nesta imagem, já o Laura, após reconstrução, tinha dado origem ao Cruz de Malta.


Fotografia – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 7 de Junho de 2009

Ana Maria Lopes

terça-feira, 2 de junho de 2009

Memórias ... de Testa e Cunhas - I


De post em post, de consulta em consulta, de arquivo em arquivo, de jornal em jornal, tenho descoberto algumas “novidades” da história da formação de Testa & Cunhas, que achei bem divulgar pelos interessados.
Tinha conhecimento, por razões pessoais, de que Testa & Cunhas lembrara os seus 50 e 75 anos com medalhas alusivas e comemorativas, em Dezembro, respectivamente, de 1977 e de 2002.

Medalha dos 75 anos – 2002


Reverso da medalha – 2002


Quase centenária, nascera em 16 de Dezembro de 1927. Era um dado adquirido. E estava convencida de que Manuel Simões da Barbeira teria estado entre os sócios fundadores. Confirmei-o, ao revisitar a escritura da constituição da Sociedade:


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As minhas conjecturas estavam confirmadas.

Durante os dias chuvosos, pesados e frios deste inverno, fui consultando, sistematicamente o jornal “O Ilhavense”.
Eis que, logo a 4.12.1927, deparei com este anúncio que, de alguma maneira, mexeu comigo:



Idênticos anúncios, creio sabê-lo, foram inseridos pelos fins de Novembro de 1927, em alguns jornais nacionais.

O nome dos navios- Silvina, Ernani e Laura, pelo menos, era-me muito, muito, familiar… Teria sido vendida a sociedade publicitada? Quem a teria comprado?

(Cont.)


Ílhavo, 2 de Junho de 2009

Ana Maria Lopes

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