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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

São Gonçalinho - padroeiro das gentes da Beira-Mar

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Estão a decorrer em Aveiro, as festas de S. Gonçalinho, desde hoje a 12 do presente mês de Janeiro.*
É uma oportunidade para expressar a alegria da fé e, ao mesmo tempo, apelar à partilha e solidariedade.

Barracas de doces regionais

Segundo Conceição Lopes, professora na Universidade de Aveiro, que se tem dedicado ao estudo das festividades do Santo, trata-se de uma festa de celebração sagrada da humanização do humano. Os rituais presentes na festa, as rimas, a subversão do tempo significam um corte no dia-a-dia dominado pela racionalidade lógico-financeira. O São Gonçalinho rompe com o estigma do quotidiano e os celebrantes, de um modo genuinamente singular, reagem à estigmatização instrumental e mercantil da existência humana.
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A docente da UA destaca os rituais de S. Gonçalinho, o carácter alegre do santo, o ritual das cavacas e das danças – jovialidade e tipicismo que apreciamos.
Casamenteiro, tocador de viola, dançarino, milagreiro, resolve os encravanços do peito e limpa as verrugas da alma e outras maleitas do corpo. Enfermeiro, médico, criador de vida, contemplativo e perdoador, curador de ossos, no amor e desamor, com o seu sorriso a todos acolhe e num abraço a todos envolve.

Arranjo interior do altar
 
Crentes ou descrentes, numa altura destas, é do que estamos mesmo a precisar… São Gonçalinho nos valha. E com amigas de Aveiro, marcámos mesmo um encontro na porta lateral do templo hexagonal, para irmos atirar cavacas do cimo da capela. Uma experiência nova…oxalá corra bem e não nos lesionemos.

Encontro de amigas
 
 
O atirar das cavacas…


Inventam-se distintos versos folgazões e divertidos relativos a S. Gonçalinho:

Brincalhão e galhofeiro
Vós fostes das velhas
Devoto casamenteiro.

Ó santinho milagroso
Dai também às raparigas
Um noivinho bem formoso.
 
No lançamento das cavacas do alto da capela, «meio de pagar promessas ou encomendar alguma graça», guardadas durante o ano como símbolo de protecção, Conceição Lopes vê um símbolo de fertilidade.
Sobre a dança dos mancos, realizada secretamente no interior da capela, a professora afirma: Tomando nela parte homens saracoteando os corpos em festa, em desequilíbrios possíveis que as supostas dores de ossos e pernas soltas causam, pede-se protecção antecipada contra a doença.
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Um dos hábitos mais vincados, como já se referiu, é o pagamento de promessas ao padroeiro, sendo atirados quilos de cavacas doces do cimo da capela para o público. E, então, há que fugir delas para não ficar com a cabeça rachada ou tentar apanhá-las com variados e inventivos processos, desde capacetes, guarda-chuvas voltados ao contrário, até armadilhas de redes diversas encimadas em altas varas. Camaroeiros (ou capinetes), enxalavares (ou xalabares), nassas, são os mais engenhosos processos e os que proporcionam à assistência um mais divertido espectáculo, junto à Praça do Peixe.
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E, caros amigos, com o recurso a tantas e variadas armadilhas de pesca, não me digam que os festejos do Santo da Beira-Mar aveirense estão fora da temática do Marintimidades.

Assistência «à pesca»

É de louvar o brio com que os mordomos, todos os anos, encaram, decoram e festejam o santinho de sua grande devoção – briosa armação de ruas, concertos, fogo-de-artifício e tradicional entrega do ramo.
São sempre um marco neste Janeiro soalheiro, mas gélido, os festejos ao S. Gonçalinho.
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Fotos  da autora do blogue
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Ílhavo, 12 de Janeiro de 2013
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*Atenção, este texto e imagens são mesmo relativos à festa de 2013.
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 7 de outubro de 2014

Romaria da Nossa Senhora das Areias. 2014


São Jacinto, 5 de Outubro de 2014. Em plena romaria do primeiro fim-de-semana de Outubro, sentada no murete de uma fonte frente à Capela da Senhora das Areias, alinhavo estas linhas, antes que a memória me atraiçoe. Além de tudo, tem mais sabor…
Com algum sacrifício, alvorei cedo, para, no «Pardilhoense», atravessar para S. Jacinto – percurso frente à entrada da Barra, sempre mágico e nostálgico.
Apesar de não ser perita em hagiologia – longe disso –, preocupei-me com a identificação correcta dos santos, nos seus andores, superlativamente decorados com alguns frutos e flores distintas: antúrios rosa, brancos, verdes, vermelhos, botões de rosa de cores diversas, gladíolos, esterlitzias, gerberas, malmequeres, verduras variadas, etc., etc., etc.
Depois da Eucaristia dominical festiva, na característica capela hexagonal (posteriormente ampliada), assisti à formatura da procissão, este ano com um percurso mais complexo, devido a obras na marginal.

 
A Banda dos Bombeiros Voluntários de Estarreja na sua musicalidade compassada, abria o cortejo eclesiástico, logo seguida, caso curioso, de uma miniatura do barco do mar N. S. das Areias, endeusada em andor. Recordaria as «companhas da arte», que laboraram em S. Jacinto no século XVIII, antes de se transferirem para a Costa Nova do Prado, após a abertura da Barra, em 1808.

 
O estralejar do foguetório anunciava a saída, indiciada por diversos estandartes, em chão pontilhado de plantas verdejantes e pétalas de rosa, que mostravam a rota da procissão, que tem sempre uma paragem obrigatória frente às «Portas de Armas» da Base Aérea Militar. Aí se dá o encontro entre as duas divindades – a Senhora do Ar, padroeira dos aerotransportados, vem saudar a Senhora das Areias, orago de S. Jacinto.

Senhora do Ar
 
Senhora das Areias

Ao mesmo tempo, enquanto anjinhos e santinhos «ao vivo» se divertiam à brava, brincando com os seus «bonecos/meninos», um sacerdote pregava o sermonário, numa varanda arredondada, enfeitada de colgaduras adamascadas, coloridas, no redondo que dá para a base militar e para a ria.

A saudação

Como romaria lagunar que é, o elemento água não podia faltar.
Uma simbólica largada de pombos homenageia o elemento ar, como meio ambiente libertador da terra, em direcção à independência cerúlea do céu. Vivas, palmas e chuviscos de pétalas de flores completaram a saudação, em ambiente religioso e tradicional.
Chamaram-me a atenção aquelas divindades que me são menos familiares – o S. Pedro Velho.
De grande chave na mão direita, será ele que nos abrirá a porta do céu?

S. Pedro Velho
 
 S. Miguel Arcanjo, com a balança justiceira, era suportado devotamente por militares.
 

S. Miguel Arcanjo

São Jacinto, pouco visto, segura ao colo a Senhora das Areias, tendo esta nos braços o Menino Jesus. Que paternalismo e que cruzamento de santidades…

São Jacinto

Depois de demorado almoço em restaurante da marginal, ao sabor de brisa suave, fizemos em grupo, uma incursão pela «ditas» tendas. De tudo se vendia, com ordem e organização – desde brinquedos, chapelaria, atoalhados, calçado, lingerie, até à doçaria tradicional, frutos secos, queijos e enchidos de toda a espécie.

Fumeiro Regional de Lamego

À tarde, no largo da capela, ressaltava um ambiente festivo tipicamente popular, animado por um conjunto com música ritmada, melodiosa e animada, que não nos estourava os tímpanos. Dava vontade de acompanhar o ritmo, enquanto escrevinhava o relato.

Outros «romeiros», entretanto, bebiam cerveja fresquinha ou uma ginjinha, enquanto saboreavam pão com chouriço ou pão na pedra. Novidade?

E o bailarico da praxe prolongava-se tarde adentro.

É que até o tempo pactuou com a romaria, que encerrou a «rota das festividades lagunares». Não esteve de excessos.

O sentimento religioso e a fé deste povo das areias reflecte-se como se mostrou no fervor presente nas procissões.
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Imagens da autora do blogue e do amigo J. Colaço (São Jacinto).
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S. Jacinto, 5 de Outubro de 2014
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Ana Maria Lopes
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domingo, 14 de setembro de 2014

Ida à Nossa Senhora da Maluca. 2014

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Costuma ter sempre lugar no 2º domingo de cada mês de Setembro, a romaria da Senhora da Encarnação, também conhecida por Senhora da Maluca. Quase sempre a passei aqui pela Costa Nova, apreciando o possível, desta margem. Em dia antecedente, quando havia barca da passage, uma banda de música atravessava a ria, vinha cá dar um ar da sua graça e atirar uns foguetes. O fogo-de-artifício de domingo à noite, também o apreciava cá de casa, quase mesmo que não quisesse.
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Barca com a música a bordo. Anos 80

Hoje, pelas 9 h, uma arruada cujos músicos se identificavam por tee-shirts verdes, também nos visitou, em peditório e foguetório, como que numa chamada de atenção, para a festa, na outra margem.
Na rota das romarias setembrinas, partimos no moliceiro Pardilhoense do Jardim Oudinot, em direcção à Gafanha da outra banda, a que faz uma falta inconcebível o seu cais de atracação que sempre conheci e que fazia parte integrante da paisagem.

Antigo Cais da Bruxa. 2011

O tempo incerto deste Verão mais uma vez nos fez antecipar a ida de domingo para sábado e, assim, não presenciámos a procissão, nos seus pormenores característicos – irmandades, andores prodigamente floridos, ingénuos anjinhos de asas leves e brancas e bandas de música – que é domingueira.
Depois de uma aproagem do barco, a sul da ria, para os mais corajosos tomarem um banho ou molharem os pés, numa água morna e cativante, rumámos, com vento favorável, à outra banda.

A segurar o moliceiro

Com um dia extremamente quente e abafado, por entre atalhos sufocantes, chegámos aos arredores da capela, recebidos por foguetório entre milheirais. Os mais acalorados assaltaram as tasquinhas de cerveja e água fresquinha, enquanto as tendas de gelados, bolos festivos, e algodão doce faziam nascer água na boca aos mais lambareiros.
 
Resolvi entrar na capela, que tem a curiosidade de ter sido construída, lá pelo século XIX, em terrenos da sua quinta oferecidos pela benfeitora Joana Rosa de Jesus, de alcunha, Maluca. Daí o nome por que é conhecida a Gafanha e a sua padroeira – Nossa Senhora da Encarnação (Maluca).
Apesar de ser uma capela reconstruída várias vezes e modernizada, tem um ambiente singelo e acolhedor, em que os forasteiros se sentem bem. Alguns devotos enfeitavam os seis andores, com flores coloridas e diversificadas, artisticamente colocadas, que ultimavam para a procissão do dia seguinte – a Santa Padroeira, o S. José, a Senhora de Fátima, a Senhora de Lourdes, o Santo António e o Sagrado Coração de Maria – informaram-me.
De volta à ria, os mais galhofeiros iam brincando e bailando, completamente suados, enquanto outros apreciavam os montes de junco, de onde a onde distribuídos, para juncar a estrada no percurso da procissão, em sinal tradicional de fé e respeito. Ainda se viviam muito os preparativos.

Nossa Senhora da Encarnação

Sequiosos e exuberantes, fizemos um ataque ao ANGE, para saborear alguns petiscos, a «empalhada» e o «cervejão». Ninguém parecia ter pressa em regressar, mas as nuvens já iam toldando o céu e encobrindo o sol que começava a aproximar-se da linha do horizonte.

De chegada ao Oudinot, despedimo-nos até uma próxima romaria, se o tempo consentir.

Eu, aqui do meu poiso – a minha janela, na Costa Nova, virada para a ria –, quer o tempo consinta quer não, apreciarei logo à noite, o espectáculo pirotécnico da Senhora da Maluca, lá do outro lado da ria, como é hábito, todos os anos.
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Fotos cedidas gentilmente pela Etelvina Almeida.
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Costa, Nova, 14 de Setembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Senhor Jesus dos Navegantes, em Ílhavo - 2014

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Realiza-se anualmente a festa do Sr. Jesus dos Navegantes, no primeiro domingo de Setembro. Esta é, talvez a de maior tradição, e a que se mantém mais viva de entre as festas de Ílhavo.
A imagem do Senhor Jesus, um Cristo crucificado (…) desce do altar (na sexta-feira anterior) para incorporar o andor, com a miniatura do lugre bacalhoeiro “Navegante” do seu lado direito, num mar de lona pintada, dando mote ao que é a sua denominação popular: Senhor Jesus dos Navegantes.
Ílhavo, terra de porto de mar, onde existem registos de pesca longínqua desde finais do séc. XVI, reza em devoção, lembrando seus marinheiros e embarcações naufragadas, vidas de esforço feitas de água salgada e peixe.

Andor, com o Altar como fundo, antes da Procissão

Cumprindo uma tradição centenária, é exactamente, neste fim-de-semana, de 5 a 8 de Setembro que se realiza a festa, o que nem sempre aconteceu, tendo-se já efectuado, em anos transactos, em Novembro (1941, 54 e 55) e até em Dezembro, em 1956, com a frota bacalhoeira já no ancoradouro.
 

Procissão numa das ruas de Ílhavo – Anos 60

O modelo do lugre “Navegante”, com três mastros e velas latinas, foi construído pelo marinheiro ilhavense José Domingues Pena, nascido em 1902.

Lugre Navegante, em pormenor

Ao começar a sua miniatura, o autor teria 17 anos, levando peças para bordo para ir trabalhando em dias de temporal, como, aliás eram hábito dos marítimos habilidosos. Quando naufragou na pesca do bacalhau, prometeu ao Senhor Jesus dos Navegantes que, se a acabasse, lha ofereceria e assim o fez, em 1919. A miniatura esteve na Igreja Matriz algum tempo, passou a ficar guardada na casa de uma irmã de José Pena, ficando mais tarde definitivamente na Igreja. Tem sempre figurado na procissão, no andor do Senhor Jesus, tendo sofrido alguns restauros conservativos, que eu saiba, em 1992 pelas hábeis mãos de José Alberto Malaquias e, outro, em 2007, pelo Capitão Francisco Paião, dada a sua fragilidade, os efeitos do tempo e a saída agitada no andor, difícil de transportar pelo peso excessivo e demasiada altura.

Do programa religioso são de destacar a Sagrada Eucaristia, na Igreja Matriz, pelas 11 horas de domingo, bem como a saída da Procissão em honra do Santo Padroeiro, pelas 17 horas, tendo lugar, no cais da Malhada a bênção das actividades marítimas, com a presença da Banda dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo, Banda Filarmónica Gafanhense e Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Famalicão.

Na segunda-feira, dia 8, último dia das festividades, pelas 19 h, terá lugar na nossa Igreja uma Missa de sufrágio pelos marinheiros falecidos e são muitos! Segue-se a entrega dos ramos da mordomia.

Quem não rema, já remou!” – diz a tradição e a Igreja costuma ficar repleta, pois a maioria das pessoas tem raízes ligadas ao mar.

Outros e variados eventos de carácter profano completam a Romaria, no Jardim Henriqueta Maia.

A escultura do “nosso” Senhor Jesus e a miniatura do “Navegante” foram integrados com todo o aparato na Bênção dos Lugres Bacalhoeiros, em Belém, no dia 12 de Abril de 1953, há 61 anos.


Bênção dos Lugres Bacalhoeiros, em Belém

Não foi a única saída que teve, a miniatura. Depois da festa de 1992, até finais de 1993, a miniatura teve uma guarida diferente. Foi albergada e acolhida afectuosamente numa vitrina do MMI, integrada na exposição Faina Maior, Pesca do bacalhau à Linha, no painel Ex-Votos. Curioso que no ano de 1993, o modelo foi transferido do museu para os festejos religiosos e ao museu voltou, visto que a exposição, em princípio, temporária, ainda não tinha alcançado o seu término.
FontesSenhor Jesus dos Navegantes – Mar e Devoção de Hugo Cálão e Isabel Cachim Madaíl. Agosto de 2007.
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Folha de Sala Ex-Votos, de Ana Maria Lopes. Novembro de 1992.
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Imagens – Arquivo pessoal da autora
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Ílhavo, 5 de Setembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Em honra da Senhora dos Navegantes - 2013 - na Ria

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Mais um ano, em Setembro, lá vamos à romaria lagunar! Tanto quanto me recordo, da minha meninice, a Festa da Senhora dos Navegantes tinha a marcá-la, como pormenor típico, uma procissão até ao mar, para além do que era habitual em festas, com uma mistura de religioso e de profano.
Celebrava-se na última segunda-feira de Setembro, depois do domingo da Senhora da Saúde, uma das festas lagunares mais concorridas, a seguir ao S. Paio. Já foi! Nunca troquei uma boa segunda-feira da Senhora da Saúde pela festa dos vizinhos, mas, notava a falta de algumas tendas de bugigangas que já tinham «levantado ferro», para estarem presentes na festa da Barra (assim se dizia).
Depois de algumas alterações e interregnos, a procissão lagunar em honra da Senhora dos Navegantes é uma iguaria a não perder, aproveitando, ao mesmo tempo o grande prazer que é marear na laguna, de moliceiro. A noite foi agitada, com a preocupação da alvorada e com receio do tempo nebuloso anunciado.
E, pelas 8 horas, o dia acordou sonolento e embrumado. Uma cortina cerrada, qual pano de cena, completamente corrido, impedia-nos de ver a paisagem, Vida de marinheiro é assim!
 
PARDILHOENSE

Entre céu e ria, de um acinzentado uniforme, o PARDILHOENSE, vaidoso, espelhava, nas águas a sua esbelteza polícroma, na marina do Oudinot.
As deambulações marítimas incluíam um almoço em restaurante ribeirinho de São Jacinto, e, aí, então, o sol já tentava espreguiçar-se entre nuvens, espraiando-se. Acordara, de vez, e inundara a paisagem de um cerúleo meigo e escaldante.
Tinha já acabado o agradável repasto, quando uma imagem, em andor de ria de tule rosa, adornado de flores rosa e branco, entre verdes contrastantes, surdiu de uma ruela, que corria do mar, acompanhada de pároco, acólitos com lanternas processionais e alguns devotos.
 
Senhora das Areias

O que seria? Sabia que a procissão em que nos íamos incorporar passava por S. Jacinto, mas desconhecia que havia um encontro formal entre as duas virgens – Senhora das Areias, a de S. Jacinto, a residente e a passante, Senhora dos Navegantes.
De máquina minúscula em punho, esforcei-me q.b., para recolher o melhor testemunho. Uma bateira tradicional, embandeirada, com um ar festivo, posicionada à beira-ria, estava preparada para hospedar a imagem.

Senhora das Areias

Já estalejava, ao longe, foguetório… Sinal de que o desfile religioso já saíra do local acordado, na Gafanha da Nazaré? Nada de atrasos. Não convinha perder pitada. E lá partimos, ao seu encontro, numa ria sedutora, prateada e cativante, quase outoniça.
Chegados mais ou menos às instalações da antiga EPA, posicionámo-nos, para apanhar o melhor ângulo de visão! Quando se transportam fotógrafos, a responsabilidade é acrescida!
Já se fazia sentir a marola forte, neste caso fruto dos motores das diversas embarcações e da força da maré e de uma aragem amena. Manter a posição a bordo, num misto de equilíbrio e agilidade não era «mel». Mas valia a pena. Ao longe, já se avistava a começo do cortejo divino.
O barco dos pilotos ESPINHEIRO, com pompa e circunstância, com Virgem, irmandade, estandartes, lanternas e muitos devotos, abria o caminho. Seguidamente, um pouco ao molho e fé em Deus, salve-se quem puder, mas com cuidado e responsabilidade, outros sucediam-se.

Barco dos Pilotos

A motora TRAVESSO transportava o andor da Senhora da Nazaré, que não podia deixar de estar presente na festa.

TRAVESSO

Entre diversas embarcações de recreio acompanhantes que se ultrapassavam umas às outras, seguia, como vem sendo tradição, na traineira JESUS NAS OLIVEIRAS, a imagem da Senhora dos Navegantes, a padroeira, com banda gafanhense a bordo, muitos crentes, autoridades e enfeites diversos, desde palmas hirtas ou vergadas em arco, muitas, muitas flores, código de sinais, algumas insígnias clubísticas até à bandeira nacional. Tudo isto, sobre uma ria que faiscava prata, cegando-nos.

 
JESUS NAS OLIVEIRAS
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Como os homens não se medem aos palmos, como sói dizer-se, também a devoção não se mede pelo tamanho das embarcações – a pequena bateira de pesca, OS MANOS, transportava, numa proa de flores, uma minúscula Senhora de Fátima e ocupantes, pejados de brio e fé.
 
Brio e devoção...

Como a turbulência não era assim tanta, o «nosso arrais», este ano, propiciou-nos a volta por S. Jacinto, seguida de uma visita à Praia Velha, do Farol, em que veraneantes e pescadores aproveitavam as delícias de um sol incandescente e candente de fim de Verão.
Entretanto, o desfile religioso também seguiu o seu percurso até à Meia-Laranja, onde retornou, para dar início à recta final, entre paredões carregadinhos de mirones.
Encerrava o desfile religioso, uma embarcação majestosa, pelo seu tamanho, de colorido apelativo – o rebocador MONTE DO LEÇA.
 
Final do desfile

O momento alto, em que as embarcações acostavam em ancoradouro junto do Forte da Barra, em frente à capelinha, para apear as divindades e irmandades, aproximava-se.
Não faltaram também à chegada as sirenes, as gaitadas agudas, o estridente ribombar dos foguetes, que nos envolviam e estremeciam a alma.
Tudo isto com um não sei quê de devoto, místico, profano, folclórico e etnográfico que se entrelaça e confunde!!!!!!!!!!!!!!!!!
 
A chegada da padroeira
 
 
Senti a falta de o Santo Amaro oriundo da Capelinha da Costa Nova, altaneiro no seu meia-lua, num mar de flores. Faltou à chamada, pareceu-me.
Chegados à marina do Oudinot, degustámos uma saborosa merenda, enquanto os fiéis presentes participavam na divina Eucaristia, transmitida por ruidosos altifalantes. Festa é festa, romaria é romaria. E o Setembro já vai a meio. De meados de Setembro ao Natal, é um saltinho de pardal – adaptemos.

Imagens – Fotos da autora do blogue

Ílhavo, 17 de Setembro de 2013

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Regata de Moliceiros do S. Paio - 2013

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Hoje, sábado, dia 7, o PARDILHOENSE repete a dose e traz outro grupo de romeiros às festividades do S. Paio – é a regata dos moliceiros. Quantos estarão presentes?
À chegada, a maré não nos possibilita a atracação no Cais do Guedes e vemo-nos obrigados a amarrar na cais dos pescadores, de «braço dado» com O MARNOTO. Um pouco mais atrasado, chegou O INOBADOR.
O SÃO SALVADOR, da Junta de Freguesia de Ílhavo, já lá residia há uns dias para ser aparelhado com tempo. O arrais seria murtoseiro de gema – o Marco Silva.
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Barcos moliceiros de tamanho vernáculo, apenas se apresentaram dez, mais algumas amostras, com as quais embirro e que só atrapalham na fotografia. A regata dos moliceiros, ainda sublime, tem vindo a perder o brilho, pela diminuição consecutiva de embarcações presentes. Fica a interrogação – até quando teremos moliceiros na ria?
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Cansada de ontem, hoje, não deixarei mais que um relato dos acidentes e incidentes e registo das classificações para memória futura…
A moldura humana não tinha o mesmo fervor da véspera. Eu também apenas segui a corrida, da margem, que não é, de modo algum, tão emocionante!
Dada a partida, ei-los que largam tal cisnes brancos de asas iluminadas ao vento, tirando partido da posição na saída, da sabedoria e sorte dos arrais e da superfície dos panos, que a meu ver, deveria estar regulamentada.
Fugindo àquela imagem mais habitual de moliceiros certinhos, quase em posições paralelas, de velas incandescentes, em diagonal, focarei outros aspectos.
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Uma «molhada» de moliceiros

Os primeiros quatro…, cinco…, foram-se destacando, parecendo querer definir posições. Eis senão quando, de repente, avisto uma embarcação das que iam destacadas a querer tombar, ai!, ai!, ai!, e já está!... que emoção!... completamente adornada, fazendo da ria o seu leito.
Fotografias de pessoa amiga, ajudam-me posteriormente a ter uma perspectiva mais próxima do sucedido, em sequência.
Qual foi? Qual foi? Ainda por cima, ia em terceiro lugar… Ninguém sabia…Havia alguns moliceiros com costados da mesma cor. Só no final, a nossa curiosidade foi satisfeita – tinha sido o MANUEL SILVA.
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MANUEL SILVA - 1.
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MANUEL SILVA - 2.
 
MANUEL SILVA – 3.
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Imaginamos que terá sido dramático para a tripulação, que, fisicamente, nada sofreu. Houve alguma dificuldade no processo de remoção, tendo a embarcação sofrido alguns danos – constava.
Bem, não fora o PARDILHOENSE, constatámos, por exclusão de partes, caso contrário, teríamos de fazer uma maratona a nado, até ao Oudinot, vá lá, com água e vento a favor.
Também houve algumas desistências, mas a brisa, que até ia «caindo» não justificou mesmo estes desaires. Acontecem ao mais «pintado».
Classificação:
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1º - SÃO SALVADOR – Arrais Marco Silva
2º - ZÉ RITO – Arrais Zé Rito
3º - A. RENDEIRO – Arrais Zé Rebeço
4º - CÂMARA MUNICIPAL DA MURTOSA – Arrais José Caneira
5º - INOBADOR – Arrais Pedro Paião
 
O Ti Zé Rebeço em prova

De regresso, ultrapassámos O MARNOTO, na sua imagem fascinante. Não foi propriamente premiado, mas teve uma presença brilhante e digna, como a imagem denota, no seu porte elegante.
 
Porte elegante…

E mais um dia bem passado na ria, em são convívio, ambiente único, natural, sadio e festivo.
Grande gente, a gente da ria, «mai-las» suas embarcações, as que vão restando.
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Imagens da autora do blogue. As do MANUEL SILVA, gentilmente cedidas por Mariano Zé
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Algures na ria, 7 de Setembro de 2013
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Ana Maria Lopes
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domingo, 8 de setembro de 2013

«Durante» o S. Paio - 2013

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Como escrevinhei o «antes» do S. Paio, há quem espere pelo «durante». Ei-lo, aí vai ele, antes que seja tarde e se perca a emoção.
Um grupo de amantes da ria organizou-se e foi no moliceiro PARDILHOENSE, com a mira do S. Paio – a maior das romarias lagunares setembrinas de fim de Verão. Objectivo – assistir à regata de bateiras à vela e à corrida dos chinchorros – programa imperdível! Acompanhar as embarcações, apreciá-las, sorvê-las, admirá-las e divulgá-las.
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Mas o tempo promete, não promete?
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Nem chuva, nem sol, nem relâmpagos, nem trovões, nem calor, nem frio. Uma calmaria podre. A ria, um espelho, que a ausência de sol não valoriza. Mas, aguardemos!....
Os «nossos» romeiros vêm chegando, com entusiamo, farnéis diversos (chegou-me aos ouvidos…) e cheios de desejo de viver um dia na ria, à moda antiga. Dos 40 anos aos 70… com boa vontade, ou dos anos 40 aos 70?
Desvendem o trocadilho.
O astro-rei parece querer trespassar a camada de nuvens para nos aquecer a alma e encharcá-la de luz.
Muitos conhecidos, muitos amigos, muitos fotógrafos, boa disposição e cordialidade a bordo. E a tripulação vai aparelhando o PARDILHOENSE.
A viagem como de outras ocasiões, desta vez, a motor, por imperativos de horário, começa e prossegue sem incidentes.
Uma linha do horizonte mais escura divide dois mundos, ambos cinzentos, mas etéreos – o céu e a água.
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Linha do horizonte
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Muitas câmaras, mais ou menos pomposas, muitas objectivas poderosas, tripés, monopés, um «cardápio» de material fotográfico… A ria merece.
A luz tenta penetrar e aureolar a paisagem, facilitando os reflexos.
 
Reflexos em S. Jacinto
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Lembrou-me a descrição de uma ida ao S. Paio, em mercantel, relatada por Egas Moniz, em seu livro de memórias, A Nossa Casa.
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«Na festa de S. Paio, a grande romaria da gente ribeirinha, a ria coalha-se de barcos que provêm de todas as freguesias marginais. Abundam os moliceiros lindamente embandeirados, com sinais distintivos para que os tripulantes os reconheçam quando, encostados uns aos outros, formam na Torreira a frota da alegria.
São as famílias e amigos do proprietário do barco que o enchem de raparigas airosas, de olhos escuros e tez morena, e de rapazes desempenados e garbosos, tisnados pela maresia (...)».
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O ambiente à chegada já era bem festivo, mas faltávamos nós, logo que tínhamos decidido degustar uns pitéus a bordo. Nada faltou. Vitualhas em abundância…desde rojões, sandes de queijo e fiambre, pataniscas de bacalhau, quiche, broa com azeitonas, queijo… a chouriço preto e vermelho, assados a bordo, quentinhos, a sair, por assador perito e gafanhão orgulhoso, da Gafanha de Baixo! Tudo bem regado por um vinho alentejano branco Porta da Revessa, por um tintol adequado e por «água fresquinha», para os mais imaculados.
Para quem não dispensa a fruta, uva saborosa e graúda, melão aquoso e figos apetecíveis, acabadinhos de arrancar da árvore, a gosto.
Claro, não podia deixar de ser, mesa posta em toste do moliceiro, coberta por toalha colorida.
Ou não tenha servido esta embarcação de casa – dizia Raul Brandão.


A assar a chouriça, a bordo
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Algumas bateiras já vão ensaiando o pano, a hora da partida, 3 horas, aproxima-se. E nem milhares de  olhos conseguiriam captar tanta beleza.
De repente, aguarelas belíssimas saídas da paleta de pintor sublime, imaginário e criador, deliciam-nos.
É dado o sinal de partida, a brisa norte vai apertando, a marola sucede e a arte dos arrais é posta à prova.
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Aguarela surpreendente
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Um chamado «vento burro» (incerto) – refere o Ti Abílio Carteirista – faz «das suas». E uma boa meia dúzia de bateiras, entre as cerca de quarenta, concorrentes, virou. Nada de maior! «Quem anda à chuva, molha-se».
Junto das bóias, a ria lembrava uma pista de carros eléctricos de choque, em que cada um, neste caso, cada uma, lutava pelo melhor lugar.
As velas das bateiras, em competição, conforme a posição, ganham uma brancura que até fere a vista, tal qual um abat-jour iluminado por lâmpada poderosa.
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Abat-jours iluminados
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Neste dia, há pequenos/grandes pormenores, que completam e embelezam a «alma das bateiras»: a toste, o mastro e a vela, respectivos cabos e leme, por vezes, com sigla. O céu azul em que se empastelam, adornado de nuvens róseas acaramuladas, tal pedaços de algodão perdidos no infinito, completa o cenário.
Sinto-me encharcada de tanta beleza e quase não consigo ordenar as ideias e a prosa. Jorram!
Não conheci o proprietário da bateira vencedora, que tinha o casco beije, cor não muito usual para o costado desta embarcação. Prestou boa prova.

Bateira vencedora. Foto de TCS
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Em segundo lugar, o Marco Silva, que nos proporcionou belas imagens, a bordejar, com a borda debaixo de água e o camarada, em equilíbrio, em pé, sobre a falca. A serra como fundo, com casinhas brancas, soltas, incrustada no céu, qual pantalha azul, azul, azul…
 

A bateira do Marco, em 2º lugar
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Meu Deus! Que mais se pode exigir da natureza?
Foguetes e palmas para os primeiros classificados!...
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O intervalo entre corridas deu para ir a terra, esticar as pernas à borda-d’água, contemplar os chinchorros que se preparavam, visitar o café do Guedes e sentir a romaria.
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A travessia dos chinchorros é um espectáculo único, daqueles que nos faz ferver o sangue e que vale a pena vivenciar. Não possibilita grandes imagens, mas faz subir a adrenalina e o entusiasmo. Grandes homens e grandes mulheres! É a competição pura e quase feroz! Excitante, mas pacífica!


Chegada de chinchorros

Hora do regresso!
Meios chochos e cansados, «vimos da festa». A emoção gasta…
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Mas o lanche ajantarado preparado com desvelo pela Etelvina, com outras participações, «aqueceu a guelra». E, oh, oh, uma caipirinha, preparada a bordo, pela Lourdes, com todos, incluindo as muitas batedelas com o pilão, no meio de muito boa disposição, aqueceu a «malta». É que o vento norte soprava fresco e, então, o arrais, decidiu trocar o motor pela vela. Com maré e vento de feição, era um tal andar!...
No meio de grande azáfama e de alguns receios, era um tal obedecer a ordens:
 
- Pessoal para bombordo! Pessoal para estibordo! Tudo à proa! Mais gente para a ré!
- Caça o pano! Cuidado com as cabeças! Atenção à escota!
- Toste a bombordo! Toste a estibordo!
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Desligado o motor, é como que se apagou uma antiga máquina de petróleo.
E os barulhos naturais vêm ao de cima – o chape-chape da água da marola contra o costado, o ruído do vento, o panejar da vela, o piar de gaivotas e gaivinas – e são pacificadores!
Em frente à barra… entre o Triângulo e o Forte, à vista do porto de pesca costeira e do Sto. André, alguns chapiscos acordam-nos, no meio de tanta beleza.
Preparativos para a atracação – escota solta! Vela a panejar!
Chegada ao Oudinot e desembarque!
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Grande dia de ria, de romaria, de maresia e de agradável convívio. É de repetir!
Imagens da autora do blogue. A da bateira vencedora, gentilmente cedida por Teresa Cruz Santos
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Algures na ria, 6 de Setembro de 2013
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Ana Maria Lopes
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