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domingo, 15 de janeiro de 2017

AMI enriquece espólio pictórico do MMI

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Ontem numa frígida noite de 14 de Janeiro, em que o Museu Marítimo de Ílhavo anunciou o programa de eventos comemorativos do seu octogésimo aniversário (com o seu ponto alto a 8 de Agosto), a Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo (AMI) teve o prazer de enriquecer a colecção de pintura, que, desde há três anos, se exibe em sala apropriada para o efeito, – o melhor dos nossos maiores e não só…. temas marítimos ou lagunares, dentro de determinadas correntes que se consideram essenciais na colecção.
Este ano, nos seus 80 anos, o que lhe teríamos reservado? Um achado…uma pérola… que vinha enriquecer o espólio museal.
Aqui atrasado, foi a leilão no Palácio do Correio Velho, uma aguarela intitulada Marinha, de pequena dimensão, 12,5 cm. x 25,5 cm, assinada por T. Mello, não datada. O preço não era assim muito ousado, até porque o suporte apresentava leves sinais de pigmentação, fáceis de atenuar, por restaurador perito.
Marinha de T. Mello

Marinha pode designar muita coisa, mas, neste caso representava duas bateiras ílhavas, na praia, muito provavelmente, em Cascais, com alguns pescadores ílhavos. Depois de observar o quadro, on-line, o entusiasmo apoderou-se de mim. Parece que tinham sido feitas de encomenda. As «nossas tão faladas ílhavas», de uma beleza, elegância e cromatismo extraordinários. Que belíssimo bocado de papel aguarelado documental!....
Depois de umas peripécias leiloeiras, a aguarela era pertença do MMI, pelas «mãos» da AMI.
Ao vê-la ao vivo, os olhos caíram-me nela e dela não se queriam distanciar. Todo o conjunto – aguarela, passepartout e moldura eram trespassadas por uma patine encantadora, que o tempo confere aos documentos.
T. Mello (Thomaz de Mello) foi um autor luso-brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1906 e falecido em Lisboa, em 1990.Viveu quase toda a vida entre Cascais e Sintra, tendo-se dedicado a vários meios gráficos, desde a pintura ao desenho, passando pela BD, caricatura e tapeçaria, estudados pelo crítico de arte José Augusto França. Pertenceu à segunda geração de pintores modernistas.
Ílhavo, 15 de Janeiro de 2017
Ana Maria Lopes
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terça-feira, 8 de março de 2016

Manuel Tavares - um aguarelista a fixar...

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Não passei estes dias de Carnaval cinzentão, pelo menos por cá, só a dar-me o prazer de me rever mais jovem e a desfilar em corsos. Águas passadas não movem moinhos – diz o povo e com razão.
Também «escodrinhei o baú» da pintura. Depois de ter terminado um sucinto post sobre o aguarelista ilhavense Hipólito de Andrade, vieram-me à mente, também umas aguarelas de Manuel Tavares, que não sendo ilhavense nem aveirense plasmou a nossa bela região lagunar com pinceladas muito «suas». Manuel Tavares conhece-se à distância, mas muito pouco de concreto de sabe da vida dele.
Em 1979, na então galeria Grade, sob a tutela de Zé Sacramento, houve, entre 19 de Maio e 3 de Junho, uma exposição de homenagem a Manuel Tavares.
Neste pequeno catálogo, depõem algumas pessoas que o conheceram, de que respiguei algumas palavras, mas muito pouco se continua a saber sobre o artista.
Nasceu em Oliveira de Azeméis em 1911 e morreu em 1974 (?).
Pintor e aguarelista, pai de Manuel Ferreira, nascido em Aveiro, também pintor, de um hiper-realismo estonteante, residente pelos Estados Unidos – soube-o numa galeria do Porto.
Porquê interessar-se o Marintimidades por Manuel Tavares? A ver vamos.
Autodidacta, com tendência para a vida boémia, saltitou de terra em terra, esquissou aguarelas em varadíssimos lugares. Segundo Mário de Oliveira, crítico de arte, o artista foi dos maiores aguarelistas nacionais, pincelando a aguarela, com espontaneidade e grande impulso emocional.
Tem lugar ao lado dos grandes aguarelistas nacionais tais como Alberto de Souza, de quem foi grande admirador e de que são visíveis algumas influências.
Aguarelista de ambientes rurais, foi dos ambientes urbanos (Lisboa, Porto Aveiro), que nos deixou os melhores clichés. E, para mim, é o pintor da água, de céus azuis que nos retrata as marinhas de Aveiro, os moliceiros lagunares, os saleiros no canal de S. Roque e as redes a secar na Costa Nova, que mais me encanta. Tinha de ser.
O «nosso» Cândido Teles, referindo-se a Manuel Tavares, disse que foi ele o primeiro aguarelista que vi interpretar os motivos da nossa ria, facto que me causou forte impressão e constituiu grande incentivo no começo da minha vida artística.
Na altura, MT já trabalhava com certa desenvoltura os temas que vieram a ser a sua predilecção: os palheiros do bairro piscatório do sul da Costa Nova, as bateiras da chincha e os moliceiros afundados nas águas calmas.
Mas, o que mais impressão me causou era o modo como o pintor conseguia obter os seus céus tão luminosos e as suas águas tão transparentes.
Mais do que dizer mais, mais vale contemplar alguns exemplares, que tenho à mão:

Marinhas de sal. MMI. 1941

Secando as redes. MMI. 1941

Moliceiros na Ria de Aveiro. 1960
(em leilão)
 
Aparecem com alguma frequência quadros de Manuel Tavares, em antiquários ou leilões.
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Ílhavo, 9 de Fevereiro de 2016
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Hipólito Andrade - pintor da Ria e mestre da aguarela

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Nascido em Ílhavo, no ano de 1933, tendo residido em Ovar, Hipólito Andrade foi designado como «pintor da Ria de Aveiro e mestre da aguarela».
Soube, há tempos, no Leilão de obras de arte para o jornal O Ilhavense, que faleceu, em 2015, em Ovar, e que havia sido colega na fábrica da Vista Alegre do Mestre Alberto Capucho.
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Amaro Neves, historiador aveirense, escreveu um artigo na revista Patrimónios, nº 9, 2011, intitulado HIPÓLITO ANDRADE – «mestre da aguarela e pintor da Ria», comunicação apresentada às Jornadas de História Local, em 25 de Novembro de 2011.
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O artista iniciou a sua carreira na escola de desenho, pintura e escultura da Vista Alegre. Ainda jovem, emigrou para Luanda, cidade onde a sua veia artística começou a ser notada com a realização de algumas exposições individuais, iniciando também uma colaboração profícua com a imprensa, como ilustrador. Durante a sua permanência em Angola, na década de 60, foi distinguido com alguns prémios de pintura.
De regresso ao continente, e com o reconhecimento artístico já granjeado em Angola, Hipólito Andrade afirmou-se como um dos nomes incontornáveis da aguarela portuguesa, entre as décadas de 1970 a 1990, tendo ainda deixado uma obra notável ao nível da pintura, do desenho e da caricatura. Fez 115 exposições individuais, em Portugal, tendo também exposto no estrangeiro, com destaque para França.
Nos seus quadros, alguns dos quais também a óleo, o artista demonstrou a sua grande capacidade para o desenho, arte que aperfeiçoou ao limite, com trabalhos notáveis na área da paisagem, da ria e do meio rural, tendo transposto para a tela as mais diversas paisagens de Portugal, do Minho ao Algarve, e do litoral ao interior serrano.
Nos anos 80, visitei algumas exposições dele em Coimbra (Galeria Primeiro de Janeiro) e em Leiria.
Os seus quadros de temática lagunar eram os mais cobiçados e daí, nunca ter conseguido nenhum. 

Nas traseiras da Vista Alegre. 1971

Satisfiz-me com uma aguarela relativa aos pescadores da Nazaré, que sempre também apreciei muito.
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Pescadores nazarenos.1980

Hipólito Andrade era filho de Armando Andrade, um antigo mestre escultor cerâmico que se notabilizou na fábrica de porcelanas da Vista Alegre.

Carga de moliço. Ovar. Anos 80

Apesar de uma carreira notável nas artes plásticas, Hipólito Andrade é praticamente desconhecido em Ílhavo, tal como o pai.
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Tento assim, dá-lo mais a conhecer com estes singelos apontamentos.
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Ílhavo, 8 de Fevereiro de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 9 de agosto de 2015

AMI enriquece espólio pictórico do MMI

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Neste 8 de Agosto, em que o Museu de Ílhavo cumpriu as suas 78 primaveras, a AMI teve o prazer de enriquecer a colecção de pintura, que, desde há dois anos, se exibe em sala apropriada para o efeito, – o melhor dos nossos maiores e não só…. temas marítimos ou lagunares, dentro de determinadas correntes que se consideram essenciais na colecção.
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Em dia de Documentário sobre varinas, o que havia de ser?
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A lembrança foi um interessante original a tinta-da-china, de Arlindo Vicente, adquirido em leiloeira, de temática regional, datado de 1928, cheio de varinasGente da Barra e da Ria de Aveiro. O traço lembra, em muitos aspectos, o nosso João Carlos.
Personalidade multifacetada, advogado e pintor autodidacta, militante antifascista, Arlindo Vicente saltou para a ribalta, quando, em 1958, disputando a campanha para Presidente da República, desistiu a favor da candidatura de Humberto Delgado.
Em 1970, trocou a advocacia pela pintura, tendo levado a efeito a sua primeira exposição individual de pintura, na SNBA.

Tinta-da-china de Arlindo Vicente

A cena parece situar-se junto do Canal Central, em Aveiro, em que o bico de uma gaivota em voo alado, como que em bailado, tenta beijar a bica de um moliceiro, de velas prenhes e remendadas.
Em primeiro plano, embeleza a cena um casal de pescador e varina.
Ele, figura alta e esguia, descalço, veste calça branca, com camisa quadriculada e, na cabeça, barrete negro, terminado pela tradicional borla.
Sobre o pé, de chinelinha abicada de verniz, das varinas, bate-lhes saia rodada riscada ou quadriculada, salientando-lhe as ancas bamboleantes. Cinta ou faixa iça-lhe a saia, mais ou menos, consoante o necessário. Sobre a cintura fina, assenta um avental claro, por onde espreita a tradicional algibeira, para os trocos. Blusa branca de manga comprida e decotada salienta-lhes o peito roliço e sedutor.
Sobre o rosto esguio, assenta-lhes lenço de estampados diversos, ora caído para trás, ora envolvendo o rosto, encimado por chapéu de feltro de aba baixinha e copa mediana. Sobre este, a típica rodilha em que assenta a canastra alongada que expõe o peixe prateado aos passantes.
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 – Quem quer sardinha vivinha a saltar? – apregoam.
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 E são assim as varinas de Arlindo Vicente, na sua desenvoltura e elegância.

Costa Nova, 9 de Agosto de 2015
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Ana Maria Lopes
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sábado, 8 de novembro de 2014

Uma «Costa Nova» de Eduarda Lapa, no MMI

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Um óleo Costa Nova saído da paleta de Eduarda Lapa valoriza o espólio pictórico do Museu Marítimo de Ílhavo.
Pintora contemporânea, distinguiu-se, essencialmente, como intérprete de flores, mas é a faceta de pintora da nossa ria que, sobretudo, me atrai.
Recordo-me, quando criança, de a ver pintar, da varanda da minha casa na Costa-Nova, protegida do sol, pelo seu chapeuzinho branco, de pano, de olhos fixos na ria de então, bem diferente da de hoje: grande variedade de barcos em que os moliceiros eram os senhores da laguna e dos seus quadros. Memórias da juventude…
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A 21 de Outubro, em que o edifício do Museu de Ílhavo cumpriu 13 anos de renovação, a CMI enriqueceu a colecção de pintura, com a entrada de um quadro Costa Nova de Eduarda Lapa.
A sua ida a leilão na leiloeira Veritas, Lisboa, foi-nos dada a conhecer por Zé Sacramento, galerista conhecido da «nossa praça». Da licitação se encarregou, tendo a AMI (Associação dos Amigos do Museu) contribuído para a sua compra com uma forte participação.
A obra, pintura a óleo, empastelado, sobre platex, de 33 por 43.5 cm, está assinada e não datada, o que é frequente, na autora.
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É uma romântica Costa Nova, pincelada com aquele timbre naturalista de quem pinta o que vê, dando a artista, natural relevo ao que mais a toca.
Temos elementos de sobra que nos permitem com alguma segurança, arriscar uma data para o óleo em causa.
A pintora estaria posicionada um pouco a sul da lingueta frente ao antigo mercado (1º plano), donde observava com pormenor, a 2ª mota que houve na praia, de 1932. Por outro lado, não existia ainda o edifício da Mota, com a sua pala característica, construído pela JARBA, em 1942. Por outro lado, também não há um apontamento da famosa esplanada, cuja construção andou ali por 1934/35.
Todas estas datações bem conhecidas levam-nos a situar o óleo, com segurança, entre 1932 e 35.
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Que imortalizou Eduarda Lapa? A ria junto à estrada, a sul, a mota com o seu vaivém intenso de passageiros, peixeiras, para as duas barcas de passage, acostadas à rampa, a ria a lamber a estrada, a norte, num contacto directo e poético, com o casario riscado e não riscado, de frente para a água. Que belo espectáculo!

 
Costa Nova de Eduarda Lapa

Era o quadro que faltava à colecção do MMI. De posse de alguns simpáticos registos de autores regionais, do princípio do século XX, sem esquecer Cândido Teles, com dois óleos de Fausto Sampaio, um de 1933, o casario sobre a ria, noutra perspectiva e uma neblina majestosa, sobre a ria, de 1939, o nome e a arte de Eduarda Lapa vieram completar a colecção de registos da nossa praia e da nossa ria.

Apontamentos biográficos:
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Eduarda Lapa nasceu em Trancoso em 1895. Algum tempo depois foi viver para a capital, onde a sua veia artística desabrochou. Foi discípula de Emília dos Santos Braga, que a introduziu no naturalismo, ao integrá-la nos estudos ao «ar livre».
A «embaixatriz da cor», como foi chamada, passou a viver em Paris, a partir de 1930, onde conviveu com os melhores artistas entre os quais se contavam a pintora brasileira Helena Pereira da Silva, Waldemar da Costa, Arpad Szènes e Maria Helena Vieira da Silva, colega do atelier de pintura, em Lisboa.
Detentora de uma capacidade para revelar e demonstrar quer o ritmo, quer a harmonia das coisas, a pintora especializou-se em naturezas-mortas e principalmente em flores, sendo considerada, quer pelos colegas quer pelos críticos, uma das melhores neste género, «a grande pintora de flores do nosso país»
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Porém, Eduarda Lapa não se dedicou só às flores. A sua obra apresenta, também com êxito, paisagens rústicas, magníficas marinhas, em especial trechos ribeirinhos. A zona de Aveiro e da Praia da Areia Branca proporcionavam-lhe os motivos referentes às gentes do mar, como os pescadores ou os barcos moliceiros da ria de Aveiro, as praias da Torreira, da Costa Nova e da Nazaré.

Foi uma das pintoras mais apreciadas pela crítica da época, juntamente com Alda Machado Santos, a aguarelista Raquel Roque Gameiro, Maria de Lurdes Mello e Castro, Adelaide Lima Cruz e Clementina Carneiro de Moura.
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Eduarda Lapa foi sócia efectiva da Sociedade Nacional de Belas Artes, tendo sido a primeira mulher a fazer parte da Direcção desta Sociedade.
Durante mais de vinte e cinco anos, Eduarda Lapa orientou cursos de desenho e pintura, tendo como objectivo desenvolver as capacidades das suas alunas, despertando-as para o conhecimento da beleza, da forma e da cor
A sua obra encontra-se representada em Câmaras Municipais, em diversos Museus e em outras instituições de arte. Está igualmente representada em colecções estrangeiras.
Faleceu em Setembro de 1976, em Lisboa, na sua residência, onde foi descerrada uma lápide alusiva, pela Câmara Municipal, que atribuiu também, o seu nome, a uma rua.

Ílhavo, 8 de Novembro de 2014
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Ana Maria Lopes
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domingo, 10 de agosto de 2014

AMI enriquece espólio pictórico do MMI

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A 8 de Agosto, em que o Museu de Ílhavo cumpriu as suas 77 primaveras, a AMI teve o prazer de enriquecer a colecção de pintura, que, desde o ano passado, se exibe em sala apropriada para o efeito, – o melhor dos nossos maiores e não só…. Temas marítimos ou lagunares, dentro de determinadas correntes que se consideram essenciais na colecção.
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Retrocedendo no tempo, sabemos que o Museu possui dois óleos que representam camponesas de Ílhavo, no seu trajar.
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O primeiro, de J. P. Ribeiro, pintura a óleo sobre madeira, Camponesa de Ílhavo, assinado, datado de 1869 (no reverso), 39x29 cm. Ei-lo:

Camponesa de Ílhavo, 1869

O segundo, Camponesa de Ílhavo (o mesmo título), revela-nos também o rico traje tradicional da camponesa de Ílhavo, em finais do século XIX. Esta mulher também enverga um chapeirão de feltro preto debruado a cetim, de abas bastante largas, soerguido por um lenço vermelho lavrado. Camisa branca de mangas folgadas, saia e colete, escuros. Este, de fazenda ou até mesmo de veludo, prende no peito por abotoadura de prata, de par.
Bonita algibeira debruada e brincos compridos de ouro dão um último toque ao vestuário que enobrece a camponesa, que, no entanto, se apresenta descalça. Cordão de filigrana ao pescoço completa o adereço.
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Camponesa de Ílhavo, 1875*
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É um óleo sobre metal de 1875, assinado, datado, 42,5x32 cm., da autoria de Francisco José Resende (1825 - 1893). Foi adquirido em 1958 pela CMI ao Sr. Albano Pinto da Cunha Ferreira, do Porto, por 2.500$00.
Pelo início dos anos 90, o Arquitecto Quininha, de quem fui amiga, trouxe-me, carinhosamente, um postal da Camponesa de Ílhavo, também reprodução de óleo de F. José Resende, que encontrara à venda no então MNAC. Guardei-o, mas agora, aprecio-o mais. O tal quadro vem citado, verifiquei, no Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses de F. de Pamplona.

Postal do MNAC

Este óleo sobre tela, de 66x47 cm, datado de 1867, representado no postal, que é suposto estar nas reservas do actual Museu do Chiado, enriqueceria um pouco mais a nossa colecção, mas as pertenças de cada museu são para serem respeitadas, salvo raras excepções de depósito ou cedência. Algumas semelhanças e algumas diferenças.
Talvez pelas cores empasteladas de uma luminosidade sombria, e pela elegante posição da figura em causa, é de uma nobreza e beleza extraordinárias. Parece demasiado rica e nobre para camponesa. No entanto, também está descalça… trajando de modo perfeitamente idêntico.
O grande pintor Francisco José Resende interessava-se mesmo pelo traje da camponesa de Ílhavo – pelo menos, são-lhe conhecidos três quadros, sobre o mesmo tema…
Até agora, tudo esclarecido, quanto às camponesas… Qual terá sido, então, a surpresa dos AMI, pra o MMI?
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Recuemos a Dezembro de 2013… Ali pelo dia 13, fui informada por uma mensagem privada de FB, por alguém sabedor, que a pintura de José F. Resende intitulada Costume de Aveiro-Vareiro ia ser vendida no lote nº 146, na leiloeira Cabral Moncada Leilões, no pretérito dia 16 do referido mês. Com as dimensões de 55 x 40,5 cm., é assinada e datada do Porto, Fevereiro de 1863. A base de licitação oscilava entre os 1.800 e os € 2.700.
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O informador, sabedor, mais dizia que se tratava de uma pintura iconograficamente importante para a região, vendo-se um homem com o tradicional gabão e barcos moliceiros na ria (?). Mais dizia que existiam pinturas do mesmo autor Camponesa de Ílhavo-Vareira, no Museu do Chiado em Lisboa e no Museu Marítimo de Ílhavo.
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E tudo isto era verdade. Mas, que fazer?
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Sozinha, diante do computador, nem tugi nem mugi. Entupi. Não disse nada. Quem não tem dinheiro não tem vícios, como sói dizer-se, e a situação económica da AMI, às voltas com a vinda da bateira ílhava para o museu, da sua oferta e do seu pagamento não era das mais folgadas. Pensei «cá com os meus botões» – talvez não se venda e volte a ir a leilão, numa altura mais solta, para nós, Amigos do Museu.

O Homem do Gabão, 1863

A preocupação e a azáfama com a bateira eram grandes e, olha…, o quadro ficava entregue ao destino – é que o «homem de gabão» não era mais nem menos do que um ílhavo e os barcos que se viam eram tão só umas silhuetas de umas ílhavas (a situada em último plano, com pormenores de velame muito curiosos) brochadas a negro pelo pincel do pintor de oitocentos.
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Com as contas mais revigoradas, por Fevereiro, soubemos, com enorme surpresa, que o quadro tinha sido retido, para uma aquisição posterior. E assim foi, mais um rombo na economia da associação, mas o homem de Ílhavo, de gabão castanho, de barrete escuro, de manaias e de camiseta esbranquiçadas, era «nosso».
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Além do mais, iria acasalar com a mulher de Ílhavo, há décadas, celibatária.
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* Entretanto, o óleo em causa recolheu a reservas, para ser sujeito a um restauro minucioso, o mais brevemente possível, a expensas dos Amigos do Museu.
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Ílhavo, 10 de Agosto de 2014
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Uma Aventura no Museu

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Amanhã, 8 de Agosto, os 76 anos do MMI
Uma Aventura no Museu – parece nome de filme –, mas, não, não é, nem sequer Uma Noite no Museu, passado no Museu de História Natural, em Londres. Quando muito, uma curiosidade de que os espólios são feitos…
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Motivada pelo acompanhamento do restauro de uma peça, fiz uma incursão pelas reservas de um museu. Há muito conhecia uma pintura que me encantava e que queria fotografar. Ainda não acontecera! Foi nesse dia.
Às vezes, não chego para as encomendas, tantos entusiasmos ganho, e não consigo dar aviamento a tudo quanto penso.
Tanta parra para tão pouca uva, dirão! Mas, olhem que não! Coincidências!...
Óleo empastelado, sobre madeira, sem data, de 260 por 188 mm, assinado no canto inferior direito, com as iniciais MF.
Não chego lá! Quem me ajuda? Socorri-me de documentação da época.
Mas, não é Manuel Tavares nem Carlos Fragoso. Tem o M do primeiro e o F do segundo, mas não é, não pode ser, de nenhum deles. Pintor regional? Será…
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Quanto à data, «atirá-lo-ia» aí para os anos 30 do século XX. Teria estado exposto na Semana de Arte Ilhavense, em 1932? Vou coscuvilhar. Mas, certamente. Seria daquelas peças que os Amigos do Museu, à época, teriam ido juntando para o tal desejado Museu dos Ílhavos, sob a batuta e o entusiasmo de Américo Teles?
Talvez a correspondência trocada entre a CMI, Rocha Madahil e Américo Teles esclareçam o nome do autor, o tal MF.
Baseado num postal, também não datado, edição de Victor Ferreira – cliché de Paulo Namorado – foi pincelado com as inebriantes cores da nossa ria. Comparem e sonhem. Espevita os sentidos e faz bem à alma.
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A ria da Costa Nova deixou-nos pérolas destas, pela paleta de alguém sensível e de fino gosto.

Labrega na ria – postal

versus


Óleo com acabamento a pastel

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Costa Nova, 7 de Agosto de 2013
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Ana Maria Lopes
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