Mostrar mensagens com a etiqueta Navio bacalhoeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Navio bacalhoeiro. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O encalhe do lugre Neptuno Segundo

-
Na senda de alguns navios e não foram poucos que encalharam à entrada da barra de Aveiro, também tive conhecimento do acidente do Neptuno II, mas porque não consegui imagem, foi ficando, foi ficando para trás, até hoje…que vem a lume.
O que se passou, então?
-
Valendo-nos do jornal O Ilhavense de 20 de Outubro de 1948, ficámos a saber que o lugre Neptuno II, de regresso da pesca do bacalhau, em 16 do corrente mês, rebocado pelo vapor Neiva, ao passar na pancada do mar, bateu num baixio, partindo-se a amarra que o ligava ao rebocador.
 
Feitas manobras de emergência, o Neptuno entrou o porto impelido pela corrente de água e foi parar a uma restinga, do lado do canal que vai para S. Jacinto. Não houve acidentes pessoais.
 
Depois da descarga de algum peixe, e quando o navio começou a aliviar, as bombas acusaram água no porão.
A descarga foi sendo feita com regularidade, mas imaginou-se que o navio teria um rombo no costado, tendo-se safado na maré da tarde do dia 22, e ancorado já na Gafanha.

 
 
Embora o jornal Comércio do Porto de 17 de Outubro de 1948 (acima) noticie que o navio poderia ser salvo, sabemos que a vistoria que, entretanto, a autoridade marítima fizera ao casco, considerara o navio inavegável, o que o obrigou ao abate e desmantelamento.
 
O navio de madeira Neptuno, de três mastros, tem uma longa história para contar.
O amigo Reimar, que colabora comigo, sempre que me vejo atrapalhada nestas barafundas marítimas, enviou-me, passados uns dias de pesquisa, um histórico do navio, «de luxo».
 

Dele respiguei aqueles pontos que imagino que os meus leitores apreciem mais, embora lhe esteja extremamente grata por todos os preciosos dados que me forneceu.
O lugre Neptuno Segundo construído em Vila do Conde, pelo mestre construtor Manoel Gomes Rodrigues, em 1873, como patacho, foi baptizado com o nome Mariana 1ª, com cerimónia de bota-abaixo no dia 9 de Setembro, ficando matriculado na Capitania do Porto de Lisboa.
 
Sem se conseguir identificar o armador, o patacho Mariana 1ª devia fazer parte duma frota que incluía a barca Mariana 3ª, o patacho Mariana 4ª, a galera Mariana 5ª, a galera Mariana 6ª e a barca Mariana 7ª, daí poder concluir-se pertencer a firma de considerável dimensão ou proprietário abastado.
 
Depois de alguns saltos em listas de navios portugueses até ao ano de 1897, o patacho ainda com as mesmas características, foi transferido para a Parceria Geral de Pescarias – ano em que deve ter efectuado a primeira campanha ao bacalhau, embarcando 32 tripulantes com 29 dóris.
 
Na lista de navios de 1925, o navio manteve ainda os mesmos atributos, julgando ser fácil averiguar na documentação dos Mónica, a grande reparação e transformação do navio para lugre, que teve lugar na Gafanha da Nazaré, em 1926. Depois da reconstrução nesse ano, mudou de nome para Neptuno Segundo, alterando a mastreação e as características. Efectuou uma nova matrícula em Lisboa, durante 1927, ano em que foi avaliado em 480.000$00 escudos, passando a navegar com os seguintes detalhes principais:
 
Nº Oficial: «357-F» – Indicativo internacional: «H.N.P.S.» – Registo: Capitania do porto de Lisboa
Arqueação: Tab 243,80 toneladas – Tal 170,50 toneladas.
Dimensões: Comprimento entre perpendiculares, 36,72 metros – Boca, 7,90 metros – Pontal, 3,82 metros.
Propulsão: Continuou a navegar à vela.
Navio com três mastros com proa de beque e popa redonda.
 
Em 1934 actualizou o indicativo internacional e em 1939 foi vendido à Empresa de Pesca de Portugal de Ílhavo, pela quantia de 245.000$00 escudos. Em datas posteriores, o lugre ficou matriculado inicialmente com o nº oficial «G-395» e depois «LX-7-N», em 1944.
 
Após 1934, embarcaram nele os seguintes capitães, alguns deles muito conhecidos na «nossa terra»:
 
Adolfo Simões Paião Júnior (1934 a 1936), Augusto S. Labrincha (1937 e 1938), Manuel Lourenço Catarino (1939 e 1940), António Andrade Rainho (1941), Samuel H. Damas (1942), Mário Paulo do Bem (1943), Manuel Paulo do Bem (1944), José Silva Rocha (1945 e 1946), Luiz Capote Teiga (1947) e José Simões Negócio, 1948, ano em que encalhou.


 
Em tempo da Segunda Grande Guerra, na época dos comboios

 

Fotografia – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 6 de Novembro de 2012

Ana Maria Lopes
-

domingo, 12 de junho de 2011

O lugre Maria das Flores - Que surpresa!

-
Que delicioso presente de domingo! Muito o agradeço.

Suspendo, hoje já, os meus retratos do litoral português com o que não deixa de ser também um óptimo e inédito retrato do litoral português, em 1946, do estaleiro do Bico da Murtosa onde foi construído o lugre Maria das Flores, de cuja construção, bota-abaixo e desencalhe me ocupei há pouco tempo, no Marintimidades. São estas surpresas que, por vezes, me recompensam de todas as horas de pesquisa que o Marintimidades me rouba. Valem a pena.

Recebi um e-mail de Paulo Carinhas, natural da Murtosa, com duas fotografias, uma das quais, neste caso, vale mais do que mil descrições, que quero partilhar com os apreciadores do meu blog.

Dixit:

Sou Paulo Horta Carinha, nascido e criado na freguesia e concelho da Murtosa, e um apaixonado por esta terra em particular e pelo ambiente em torno da maresia em geral.

Venho por este meio dar-lhe os parabéns e agradecer-lhe o seu artigo sobre o “Lugre Maria das Flores”, história(s) que recordo de os meus pais contarem.

Com este seu excelente trabalho de pesquisa dá-lhe outra dimensão histórica, para a qual eu só tinha fotografias da sua construção que tenho a satisfação de lhe enviar.

Cumprimentos

Paulo Horta Carinha

Vista aérea do Estaleiro do Bico da Murtosa


Edito as fotos, sobrevalorizando, inegavelmente, todos os dados informativos que a primeira nos faculta.


Cadaste do navio, em segundo plano


A segunda é uma daquelas recordações de época que todos gostamos de ter, mas, que, neste caso, é veículo de um excelente registo.

Fotografias gentilmente cedidas por Paulo Carinha


Ílhavo, 12 de Junho de 2011

Ana Maria Lopes
-

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O lugre Maria das Flores - o desfecho - 4

-
Um navio que passa por estas tormentas ainda em seco estará condenado a não durar muito.
E foi o que aconteceu.

Quando, em Lisboa, foi sujeito a doca seca, verificou-se estarem erradas as marcações dos seus calados, indicando menores imersões, acusando diferenças na proa e na popa.

Ora, esta lamentável circunstância ocasionou, no processo de desencalhe, esforços, contrariedades e preocupações que não teriam existido, se as marcações estivessem correctas.

O navio foi entretanto adquirido pela Empresa Comercial & Industrial de Pesca (Pescal), de Lisboa.


O Maria das Flores, já no activo


E, embora com ligeiro atraso, ainda participou na campanha de 1946. Refere-nos o Jornal do Pescador nº 91 que no dia 15 de Junho largou o Tejo, com destino à Groenlândia, o novo lugre bacalhoeiro Maria das Flores, não sem antes ter proporcionado, no dia 11, um passeio no rio a diversas autoridades navais e aos dirigentes corporativos da pesca, para festejar o desfecho feliz do desencalhe do navio, na Ria de Aveiro, num tempo record.

Manteve-se sob o comando de Manuel P. Teles, desde o bota-baixo, em 1946, até à campanha de 1954, ano em que foi substituído pelo também nosso conterrâneo Manuel de Oliveira Vidal Júnior.
Teve uma existência mais ou menos normal.


Outro aspecto do mesmo navio


Pelo ano de 1958, já haviam naufragado quatro navios da frota bacalhoeira, quando comunicação feita pelo GANPB, deu o navio como perdido, no dia 18 de Setembro, com água aberta, no banco Eastern Shoals (Terra Nova), tendo completado o carregamento, pelo que deveria regressar a Portugal.
Não resistindo aos ciclones que sopraram por aquelas paragens, deu baixa ao número de navios utilizados naquela faina.
A tripulação salvou-se, tendo sido recolhida pelo navio/motor Lousado da mesma empresa.

E assim termina a saga do Maria das Flores que ficou na história marítima, pelo invulgar e engenhoso processo de desencalhe, junto ao estaleiro do Bico da Murtosa, onde fora construído em 1946, sem acesso a águas com boas condições de navegabilidade.
-
Imagens gentilmente cedidas pelo Comandante António Bento, a quem muito agradeço.

Ílhavo, 23 de Maio de 2011

Ana Maria Lopes
-

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O lugre Maria das Flores - o desencalhe - 3

-
As contrariedades e complicações continuaram: dificuldades em pessoal, especialmente e concretamente do que movimentava a areia.
As indicações das calas (profundidades) da ria, apesar de terem sido calculadas por um suposto perito e prático, não foram, de início, as mais correctas.

As manobras apresentavam-se muito difíceis e com muito poucos resultados à vista.
O processo ia sendo repetido, mas as condições de avanço eram sempre diminutas, com um grande desgaste dos trabalhadores, acidentes pessoais, bastante mau tempo, perda de material e muitas avarias.

Curiosidade – Apesar de hospedados na Pensão Costeira de Pardelhas, compraram-se dois colchões, quatro mantas e cabeceiras de palha, para se poder dormir a bordo e estar presente ao trabalho, quando necessário, por 969$00.

Algumas autoridades, por vezes, visitavam o local para observação dos trabalhos e exultação dos ânimos.
Tornava-se cada vez mais árduo ir descarregando os batelões, devido à muita altura para a areia ser descarregada à pá.

Vento fresco de noroeste e maré desfavorável fizeram interromper os trabalhos.

Testadas as dragagens, referenciadas as marcas do calado, revisto todo o escoramento e estropos, insistiu-se no processo e assim ia avançando o Maria das Flores, de 30 em 30 metros, de 60 em 60 metros, até que no dia 12 de Abril, se deslocara cerca de 200.

A dragueta da JAPA continuava a dragar junto à Ribeira de Pardelhas.
Tempo de aguaceiros e vento de refregas de W NW, com frequência…

A 20 de Abril, sábado de Aleluia, a tripulação do navio foi autorizada a ir a casa passar a Páscoa, ficando a vigilância do navio, estropos e escoramentos, a cargo dos rapazes da AGPL.


Aspecto lateral do conjunto


Curiosidade – Veio a bordo uma senhora fotógrafa de Estarreja, que tirou algumas fotografias ao navio.

Se não fosse este procedimento, talvez, hoje, nem uma imagem houvesse desta aventura – um primor de engenho.

Devido a grande avaria na draga, os serviços só foram retomados a 26 de Abril.
Perante uma tentativa de paragem de trabalho do pessoal das barcas que conduziam as lamas, por cansaço excessivo e falta de pagamento de horas extraordinárias, foi necessário fazer ver ao pessoal a gravidade da situação, com promessa de gratificação, depois de safo o navio.


Sempre com muitas interrupções devido às marés inadequadas, ao frequente mau tempo e a avarias no material, lá o Maria das Flores, foi avançando em direcção à Gafanha da Nazaré.

Pelas 15 horas do dia 29, chegaram as lanchas a motor, Mina e Gafanha, dos estaleiros de S. Jacinto, que juntamente com a da Junta Autónoma, colaboraram no trabalho.


Saída do Maria das Flores do Bico da Murtosa


Curiosidade – Na noite de 30 de Abril, por estarem totalmente molhados, mandaram vir de Pardelhas um automóvel para conduzir a equipa técnica à pensão, voltando a utilizá-lo no dia seguinte para o regresso ao Bico da Murtosa.


Pelas 16, 45 h do dia 2 de Maio, chegou junto do navio o rebocador Vouga, que lhe passou o cabo de reboque. A chegada à Gafanha deu-se pelas 9 h do dia 3, tendo-se seguido a amarração, frente à Delegação da CRCB.

Procedeu-se então, com todo o cuidado à desmontagem do sistema, que incluía os batelões, tendo sido estes, despachados para Leixões.

A 5 de Maio, depois da desmontagem e arrumação de todo o material, ficou o navio liberto, para poder seguir viagem para Lisboa, em conformidade com as exigências legais recomendadas pelas autoridades marítimas.
Depois de vistoriado, do recebimento de tanques, de vários equipamentos (dóris) e da matrícula da tripulação, o navio lá esperou que o mar abonançasse para seguir o seu destino, a reboque do Oceania.

A 23 de Maio, no final do “Relatório dos serviços prestados no levantamento do lugre Maria das Flores na Ria de Aveiro, do Bico da Murtosa para a Gafanha”, a equipa de trabalho agradece a diversas entidades e instituições:

- Capitão do porto de Aveiro, Comandante Duarte de Almeida Carvalho;
- Junta Autónoma da Barra e Ria de Aveiro, na pessoa do Eng. Manuel Matias;
- Piloto-mor da Barra e Ria de Aveiro, Capitão Samuel Maia.

Concluem que a abundante chuva que esteve ocasionou uma apreciável subida das águas, o que muito contribuiu para o êxito do empreendimento.

Não vos faz lembrar nada esta história? E por que não o salvamento da Nau Portugal, em menor dimensão e com menos espavento?
-
(Cont.)

Ílhavo, 16 de Maio de 2011
-
Ana Maria Lopes
-

domingo, 8 de maio de 2011

O lugre Maria das Flores - o desencalhe - 2

--
O encalhe (ou melhor, o desencalhe do navio) é que constituía a minha grande dúvida, sobretudo depois de alertada em Pardilhó por descendentes dos interessados, que me haviam contado uma versão que não me convencia cem por cento, embora com relatos parcialmente correctos. Fotografias do acontecimento, nunca me tinham chegado às mãos.
-
Eis senão quando o Sr. Comandante António Bento, através do Amigo Tito Cerqueira, simpaticamente me procurou para me entregar, com destino ao Arquivo do «nosso» Museu, elementos e fotos que dilucidam sobre o que teria na verdade acontecido, e os trabalhos de monta, necessários para resolver o magno problema de safar o navio.

Seu Pai, Oficial da Marinha Mercante, à época, Comandante Manoel Bento, fora o superintendente desses mesmos trabalhos.

Perante a leitura e análise do material entregue (pormenorizado relatório de 30 páginas, dois planos, um do próprio desencalhe do navio e sua condução para a Gafanha da Nazaré, outro geográfico, da ria, relativo ao local em causa e oito fotografias), consegui fazer uma ideia mais perfeita, que espero transmitir, da empreitada em causa. Mas não é fácil. As imagens ajudam.

Foi uma difícil e árdua tarefa, que contou com a boa vontade e diligência de várias entidades, para lá do recurso a diverso material de salvamento vindo da capital, já que em Aveiro não existiriam meios suficientes para os esforços que se impunham.

Durou a empreitada, desde o dia 23 de Março de 1946, até 10 de Maio, dia em que o Maria das Flores saiu a barra, com destino a Lisboa, a reboque do Oceania.

Ainda fez essa campanha de 1946.

As peças chave em todo o processo do desencalhe da embarcação foram dois batelões vindos de Lisboa, o Ota e o Jamor.

Carregados de areia, em maior ou menor quantidade, solidamente ligados ao navio, um a cada bordo, por uma habilidosa estrutura composta por cabos de aço, escoras de ferro e vigas de madeira. E por um cabo de arame, que com dificuldade (devida ao lodo e vegetação do fundo da ria), foi passado por baixo do navio. Os batelões, de braço dado com o lugre, impulsionando nas vigas ligadas ao convés e pelos cabos abraçados, formavam com o navio um todo flutuante. O poder de flutuação, podia, pois, ser aumentado (elevando o navio) conforme se ia baldeando a areia dos batelões (tarefa extremamente penosa, que todos recusavam).
-

Conjunto de batelões e navio, visto de popa


Pelas 9 horas do dia 6 de Abril (sic), depois de tudo preparado e de ser tirada mais alguma areia dos batelões, com o Maria das Flores no calado de 5’- 04’’ à proa e 6’- 06’’ à popa, começou-se a puxar por ele com duas lanchas a motor e com âncoras espiadas, mas sem resultado. O navio apenas se deslocou 4 metros, apesar das sondagens à sua volta acusarem 7’.

No dia seguinte, novamente se tentou fazer deslocar o navio só com a tripulação e pessoal dos batelões, tendo-se obtido muito pouco resultado. Garrou a âncora (ferro de cepo com o peso aproximado de 500 quilos).

Espiaram-se também as âncoras dos batelões, obtendo-se um considerável esforço, pelo que se conseguiu que o navio andasse cerca de 30 metros.


O mesmo conjunto observado de proa


Auxiliava uma dragueta da JAPA no aprofundamento do canal, e as duas lanchas a motor já referidas, que rebocavam todo o conjunto, em marés adequadas.


A estrutura vista do convés
-
Seguiram-se imensos contratempos: o tempo incerto e imprevisível, a chuva, a falta de perícia e de vontade do pessoal trabalhador, com excepção da tripulação do navio, conduziram a algumas peripécias, onde se inserem acidentes e ferimentos a que se juntaria a dificuldade de abastecimentos, que ocasionavam deficiente alimentação ao grupo de salvamento.

(Cont.)

Ílhavo, 8 de Maio de 2011

Ana Maria Lopes
-

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O lugre Maria das Flores - 1

-
A construção do lugre Maria das Flores, no Bico da Murtosa, sempre me despertou bastante interesse. Havia, porém, pormenores, que me escapavam. Que procurei esclarecer antes de fazer a abordagem do acontecimento, apesar do empenhamento posto na acção.

Acreditava que, mais tarde ou mais cedo, viesse a descobrir a «chave» que me faltava. Assim foi. Veio-me praticamente parar às mãos. Partilhá-la com os interessados talvez não seja má ideia.

Segundo notícias do jornal da época, O Ilhavense, no dia 18 de Fevereiro de 1946, pelas 16 horas, num estaleiro do Bico da Murtosa, ter-se-á consumado o bota-abaixo do lugre de três mastros, com motor, construído em madeira, Maria das Flores.

Foi construído por José Maria Lopes de Almeida, construtor de Pardilhó, proprietário do referido estaleiro, para João Carlos Tavares, (de alcunha, João da Albina), residente em Estarreja.

O novo lugre tinha cerca de 50 metros de comprimento, por 10,30 m. de boca e 4, 85 m. de pontal. Deslocava cerca de 700 toneladas. A capacidade dos seus porões permitir-lhe-ia armazenar 10 000 quintais de bacalhau. Alojava 50 pescadores, servidos por 57 dóris, mais 11 tripulantes. Estava equipado com um motor de propulsão de 340 H. P. e mais dois motores auxiliares: um para a câmara frigorífica, e um outro para a produção de energia eléctrica.

Há muito tempo que no Bico não acontecia nenhum bota-abaixo de construção com envergadura. O último teria sido o lugre Maria da Conceição, em 1922, obra de mesmo Mestre Lopes de Almeida, e igualmente destinado à pesca do bacalhau (irá naufragar com água aberta, em 1929).

Por isso, segundo a mesma fonte, o acontecimento revestiu-se da maior solenidade.

A esposa do Sr. João Carlos Tavares deu-lhe o nome, e a filha mais velha partiu a simbólica garrafa de espumante, no costado do barco, após a bênção dada pelo Padre Miguel Henriques.

Tudo parecia decorrer dentro da normalidade.



O Maria das Flores na carreira


Mas, cortado o cabo da bimbarra, o navio, porém, não deslizou imediatamente, procedendo-se então aos trabalhos próprios de emergência, até que 45 minutos depois, o Maria das Flores deslizou na carreira para ir encalhar no lodo da ria.
A multidão, cerca de 2000 pessoas, aplaudiu, entusiasmada, acenando com lenços e batendo palmas de regozijo.
Mestre e proprietário foram muito felicitados; seguiu-se o habitual porto de honra servido aos convidados.

Foi primeiro comandante do Maria das Flores o Sr. Manuel Pereira Teles, imediato o Sr. Francisco Soares de Melo, contra-mestre, o Sr. Manuel Pires Júnior, motorista o Sr. José Pereira e cozinheiro, o Sr. Manuel José Rodrigues da Preta, todos de Ílhavo.

Houve grande cobertura jornalística relativamente ao evento, apresentando os principais jornais nacionais algumas disparidades no seu relato.

(Cont.)

Ílhavo, 2 de Maio de 2011

Ana Maria Lopes
-

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O palhabote Orion

-
Sempre me despertou a atenção o nome do lugre Orion, pela beleza da denominação (na mitologia grega, foi um gigante caçador colocado por Zeus entre as estrelas na forma da constelação, Orion), pela elegância das imagens conhecidas do navio e pela curiosidade do lugar em que foi construído, um estaleiro em Aveiro, exactamente junto à ponte da Dobadoura, no lado oposto ao Rossio, em pleno coração da cidade, onde hoje se encontra o monumento à Aviação Naval. É agradável por lá passar, reconhecer as casas, ainda pertencentes à época e imaginar a azáfama que teria caracterizado o local, enquanto estaleiro.
Excerto curioso da notícia dada pelo jornal «O Democrata» de 31.7.1920, com respeito pela ortografia da época:

«(…)A operação, que foi observada por milhares de pessoas estendidas pelas duas margens da ria, que ofereciam espectáculo na verdade admirável, correu perfeitamente, entrando o barco na agua entre estrepitosas palmas, vivas, entusiasmo que avassalou toda a gente a maior parte da qual se descobriu acenando com chapeos e lenços para bordo do barco onde eram queimados inúmeros foguetes.
Pouco depois a empreza recebia os seus convidados a quem ofereceu um abundante copo dagua, levantando-se por essa ocasião vários brindes, calorosamente correspondidos (…)».


O palhabote Orion, em dia de bota-abaixo


O palhabote Orion, construído por José Maria de Lemos, de Aveiro, para o armador Lemos, Sobreiro & Cª, Ldª, também de Aveiro, teve o seu bota-abaixo no dia 25 de Julho de 1920.
Com um comprimento entre perpendiculares de 30, 80 metros, boca de 8, 34 m. e pontal de 3, 40 m., tinha uma tonelagem bruta de 183,32 e líquida de 130,83 toneladas.
Não possuía motor auxiliar.

Durante os anos de 1921 e 22, foi governado pelo capitão ilhavense Aquiles Gonçalves Bilelo (1887 – 1962).


O Orion atracado no Cais das Pirâmides

O elegante navio, de dois mastros, nos anos 1923 e 1924, passou a pertencer ao armador Bagão, Nunes & Machado, Lda., de Lisboa, continuando a ser comandado pelo saudoso Capitão Aquiles Bilelo.
Entre os anos 1925 e 1934, pertença ainda do mesmo armador de Lisboa, a estrutura do Orion alterou-se, tendo-lhe sido aplicado um terceiro mastro, com o objectivo de lhe melhorar a velocidade, pois continuava sem motor auxiliar.
Surgiu, então, o lugre Orion, também com modificação de dimensões: comprimento entre perpendiculares de 34, 20 metros, boca de 8,40 m. e pontal de 3,40 m.

O capitão Aquiles continuou a capitaneá-lo até 1929. Em 1928, foi piloto o oficial José Vaz.

Lugre Orion


Em 1934, passou a pertencer ao armador Amândio F. Matias Lau, de Aveiro, tendo sido empregue na pesca costeira.
Entre 1935 e 45, esteve na posse da Sociedade de Navegação Costeira Nossa Senhora da Agonia, Lda., de Viana do Castelo. Sempre sem motor auxiliar e com uma tripulação de 9 tripulantes, foi utilizado no tráfego costeiro internacional.
Manteve-se em serviço activo e regular até naufragar em condições de grande temporal, a cerca de 10 milhas de Alger, em 19. 12. 1945.

A tripulação conseguiu salvar-se nas baleeiras do navio.
-
Fotografias – Arquivo H. Ramos, Arquivo Digital de Aveiro, espólio de Morais Sarmento, e a do lugre, amavelmente cedida pelo MMI.

Ílhavo, 28 de Dezembro de 2010
-
Ana Maria Lopes
-

domingo, 19 de dezembro de 2010

O lugre Silvina

-
À laia de Boas-Festas para todos os meus Amigos, leitores e apreciadores, vou hoje explanar o lugre Silvina, para lembrar o bacalhau do Natal. Escolham-no, pois, directamente da seca, para a noite de Consoada.

O lugre Silvina, registado em Aveiro, foi construído na Gafanha da Nazaré, em 1919, por Manuel Maria Bolais Mónica, com o nome de Águia, para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca, tendo sido o bota-abaixo a 4 de Outubro de 1919. Era um lugre com três mastros, de madeira, proa de beque, popa de painel e um pavimento.


Dia de bota-abaixo do lugre Águia (1919)

Media de comprimento, entre perpendiculares, 35,50 metros, 8,80 m. de boca e 3,60 de pontal. Tinha uma arqueação bruta de 212, 33 toneladas e líquida de 169,88.
Não tinha motor auxiliar e a tripulação era, em média, de quarenta homens.
Em 1920, foi comprado por 75 000$00, pelo Sr. João Bola, para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, em Aveiro, para quem já efectuou a campanha em causa, com o nome de Silvina.

Surge com características ligeiramente diferentes: 40, 42 metros de comprimento, fora a fora, 34,67, entre perpendiculares, 8,92 m. de boca e 3,62 de pontal. A arqueação bruta era de 207,76 toneladas e líquida de 152,65.

Foi vendido à empresa Agualuza & Batata, Lda., de Aveiro, em 1927, ficando este contrato anulado, face à compra da totalidade dos bens do armador pela firma Testa & Cunhas, ainda durante o ano de 1927, tendo-lhe sido atribuído o valor de 250 000$00 (escritura em 20.12.1927).

De 1920 a 1926, foi comandado por Manuel Simões da Barbeira (Capitão Pisco, de alcunha) e em 1927, por António de Souza.
Já na posse de Testa & Cunhas, foi capitão em 1928, Ambrósio Gordinho, e em 1929, António de Souza (ou, eventualmente, Manuel dos Santos Labrincha).

Curiosidades:

Nos anos de 1928, 1929 e 1930, o navio foi à Terra Nova com 37, 37 e 36 tripulantes, respectivamente, tendo utilizando sempre 32 dóris. Nestas campanhas de fracas capturas, foram apurados apenas 1.148, 1.400 e 835 quintais de peixe e 1.100, 2000 e 1.200 kgs. de óleo de fígado de bacalhau. O valor conseguido com a venda foi de 140.000$00, 172.000$00 e 102.000$00 (escudos), certamente muito abaixo das melhores perspectivas, resultando daí um considerável prejuízo.

Daí resultou o navio não ter feito as viagens seguintes.
Na acta de 7 de Dezembro de 1932 da firma Testa & Cunhas, Lda., os sócios resolveram quais os navios que deviam ir à pesca do bacalhau nas futuras safras de 1933 e 34, tendo assentado apenas na ida do Ernani e Cruz de Malta.

Decidiram ainda anunciar a venda do navio Silvina, entendendo que o podiam dispensar. Todos concordaram, desde que se pudesse efectuar em boas ou regulares condições, ficando a gerência autorizada a promover a sua venda.

Segue:
Depois de elaborado o presente relatório (acta de 11 de Agosto de 1934), chega-nos a notícia infeliz do desaparecimento do nosso lugre Ernani nos bancos da Groenlândia. Ignoramos pormenores. Uma dificuldade surge.

Como suprir a baixa daquela unidade?
Três soluções se apresentam:

1ª – Reparar e apetrechar o Silvina
2ª – Adquirir um navio já feito
3ª – Mandar construir um navio novo

Resolveu-se reparar o lugre Silvina, de modo a estar pronto para a futura safra (para o que foram gastos cerca de 50 contos), obtendo a Gerência informação dos barcos que se ofereçam em boas condições, quer no país, quer no estrangeiro e ainda de um orçamento para um barco novo.


Foto do Silvina, frente à seca


Acentuava-se na empresa, a necessidade de procurar uma nova unidade. Segundo acta de 28.11.1936, deram-se início a todas as diligências para a aquisição de um novo lugre. Quem oferece melhores garantias de técnicas é o Senhor Manoel Maria Mónica, que tem dado provas da sua competência e idoneidade. A proposta foi construir um lugre segundo o modelo do Brites (1936), com a introdução de algumas alterações, com empreitada de lavôr e materiais com o construtôr, pelo preço de 640 contos. A aquisição do motor Diesel ficaria a cargo da gerência.

 

Encomendado em fins de 1936, o Novos Mares, de quatro mastros, beijou as calmas águas da ria, para satisfação de todos, a 16 de Abril de 1938, na Gafanha da Nazaré.

O Silvina foi prosseguindo a sua difícil missão, capitaneado por Joaquim F. Agualuza (de 1935 a 1937) e José Cachim Júnior (de 1938 até 1941), até que viu o seu fim em trágico incêndio, no Grande Banco da Terra Nova, a 25 de Maio de 1941.

Quem quiser recordar, pormenorizadamente, este acidente, poderá ler as páginas a ele dedicadas (103 a 116 da reedição de 2007), escritas por Jorge Simões, em prosa da época, «O Silvina em chamas», no livro Os Grandes Trabalhadores do Mar. O jornalista fez a campanha de 1941, a bordo do «Groenlândia», para a observação da faina e recolha de dados.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 19 de Dezembro de 2010

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Atlântico - Navio perdido e imagem encontrada

-
Repescando…O lugre Atlântico naufragou por encalhe a sul da barra de Aveiro, em 30 de Outubro de 1925, por motivo de avaria no leme, tendo sido salvos todos os tripulantes.
Quando em post de 12 de Maio de 2009, AtlânticoNavio Perdido…, narrei o acidente, recordando o ex-Dolores, lamentei o facto de não ter encontrado nenhuma foto do encalhe.

Com a vazante da maré, iniciaram-se os trabalhos de recuperação dos salvados e de grande parte da carga, constituída por 2 200 quintais de bacalhau.

Ao local acorreram milhares e milhares de curiosos, de Ílhavo, Aveiro, Gafanhas, Costa-Nova, para verem o navio naufragado.

Pena é que entre tantos “mirones”, nenhum tivesse feito disparar a objectiva, de modo a que um documento visual tivesse chegado, hoje, até nós, para enriquecer a narrativa, já por si, tão forte e impressionante! – manifestava eu.

Eis que há dias o Amigo Reimar me presenteou com uma foto surpresa com o Atlântico encalhado. Quem espera sempre alcança.


In O Comércio do Porto


Fotografia amavelmente cedida por Reinaldo Delgado
-

Ílhavo, 26 de Novembro de 2010
-
Ana Maria Lopes
-

domingo, 21 de novembro de 2010

A bordo...

-
Pelos vistos, a bordo, também se brincava… Para a época (entre 1952 e 70), esta menina tão «sexy», pintada em vela de dóri, a bordo do Capitão João Vilarinho, não estava nada mal – atractivo decote, arrojada mini-saia e bota alta preta!!!!!!!!!!!!!

Que frio!!!!!!!!!!!!!!!

A bordo…

Fotografia – gentil cedência de J. P. Andrieux

Ílhavo, 21 de Novembro de 2010

Ana Maria Lopes
-

domingo, 10 de outubro de 2010

Lembranças de um pescador do lugre Milena

-
A Net tem destas coisas.

Boa tarde Sr.ª D. Ana Maria:

Desde já, agradeço todo o conteúdo fotográfico e informativo, que com prazer deixa ao encontro de qualquer " navegador " via Internet.

Passo à minha apresentação:

O meu nome é Ana Margarida Belo Rebelo. Sou da Praia da Torreira e desde tenra idade convivo com as mais maravilhosas histórias da arte piscatória.

Fiquei extremamente comovida ao encontrar o seu blog. Ao relembrar as histórias que o meu avô contava do "seu Milena".

O meu avô (Joaquim António da Silva Belo) fez a última viagem do Lugre.
Era um Homem feliz ao falar do seu " barquinho " de eleição.

Confidenciou várias vezes, que o Milena era o mais esplêndido de todos os seus " irmãos".

Para além das histórias, vivem também, quadros a óleo e miniaturas do Milena (Envio, em anexo, algumas fotos).

No cafezito dos meus pais, estão expostas todas estas recordações, para manter viva a lembrança.


Miniatura do lugre Milena


Miniatura de um dóri do Milena


Representação pictórica «naïf»


Muito obrigada.

Atenciosamente,

Ana Belo

6. 10. 2010

São escritos salutares como este que nos incentivam a procurar mais e mais, e sempre, histórias da Faina Maior.

Sabendo nós o que foi a dureza da pesca à linha do bacalhau, ainda existiu quem tivesse tido gratas recordações dos seus lugres, conservando-lhes a memória. Nem a agrura do naufrágio (1958) do Milena por que passou este antigo pescador, o desalentou!

Para de algum modo agradecer a atenção desta leitora, lembrei-me de procurar no MMI, nas fichas vindas do Grémio, a de seu avô, e fazer-lhe a surpresa de lha dar a conhecer por este meio.

Ficha do GANPB

E quem sabe? Enviar-lha,  para que, emoldurada, possa acrescentar as recordações do cafezito de seus pais, na Torreira. Envie-me o seu endereço, por favor.

Obrigada, Ana Belo, pelo seu sincero testemunho.
-
Ficha do Grémio gentilmente cedida pelo MMI.

Ílhavo, 10 de Outubro de 2010

Ana Maria Lopes
-

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Nos Mares da Terra Nova - A Saga dos Bacalhoeiros


-
Na Costa Nova, em Agosto, tive conhecimento da existência do livro Nos Mares da Terra Nova – A Saga dos Bacalhoeiros, de Anselmo Vieira, editado em Junho de 2010 (muito recentemente), pela Editorial Presença. Adquiri-o. Consegui o último exemplar na Bertrand. Ainda não o conhecia? Até parece impossível!



Na contracapa, pode ler-se:

Este livro reconstitui sob a forma de romance a última viagem bem sucedida do bacalhoeiro Júlia IV, que o autor acompanhou pessoalmente, em 1948. Naqueles anos, a frota portuguesa era a única que ainda comparecia nos mares do Árctico com veleiros quase medievais, entre as frotas mecanizadas de espanhóis, franceses e russos. Narrada como um diário de bordo, em grande parte acompanhando a perspectiva de Telmo, um alter-ego do autor, a obra caracteriza magnificamente estes homens rudes e ingénuos, inconscientes da sua grandeza, recriando a sua linguagem, o seu quotidiano, a camaradagem bem-humorada e os conflitos, sempre solidários nas horas de perigo. De certa forma uma celebração à virilidade e espírito de aventura, esta narrativa tinge-se de poesia e emoção que nos arrebatam e comovem. Nos Mares da Terra Nova é também um documento de inestimável valor histórico.

Devorei-o, mas mais, li-o, reli-o, meditei-o, sublinhei-o. As agruras, todos os perigos da Faina Maior, em que muitos dos «nossos homens de Ílhavo» foram actores, desfilavam-me incessantemente pela mente, bailavam-me no imaginário, criado pelos genes…imagino… e fruto do conto e reconto de muitos…muitos dos seus heróis.


A narrativa não é romanceada e muito menos ficcionada; retrata fiel e dramaticamente o que era a vida de um bacalhoeiro: (…) cada dia uma chaga de cansaço, o frio, os remos, a saudade, o gosto de sal, um montão de aborrecimentos e, às vezes, de pesca, nem vê-la! Raio de vida, a do bacalhoeiro! – dando especial relevância à parte humana de cada marinheiro.
O tema absorvia-me. A narrativa forte, dramática e bela prendeu-me, tanto mais quando se conheceram pessoas e locais lá retratados.

Ílhavo – Telmo pensava que talvez repetisse a aventura dos lugres bacalhoeiros, porque o fascinava a navegação de vela. Mas não tencionava fixar-se toda a vida naquela actividade da pesca longínqua como os oficiais de tradição de Ílhavo.

Costa NovaSem ser propriamente um lugarejo aquático, Ílhavo, fica situada a cerca de cinco quilómetros da praia da Costa Nova; dá para respirar a brisa marítima sem se molharem os pés, a não ser na estação de veraneio.

O Capitão Vitorino Parracho (1906 – 1991), de que bem me lembro, no seu rosto cheiinho, luzidio e arredondado, olhos muito azuis/esverdeados, sabedor e bondoso, era o capitão da viagem em causa (ano de 1948), no lugre Júlia IV.
Achei por bem consultar a sua ficha de inscrição no Grémio, existente no MMI, para me situar e aí, cheguei à conclusão que o seu verdadeiro nome era João Fernandes Parracho. Complicado, hein? Ílhavo tem coisas destas. Victorino vinha da madrinha Victorina…E descobrir? Não há dúvida, era ele.

Ficha do Grémio


O lugre, o Júlia IV, que comandava, construído por António Bolais Mónica na Figueira da Foz, em 1914, para a «Atlântica Companhia Portuguesa de Pesca», participou na campanha de 1915.
Naufragou, por incêndio, no Virgin Rocks, na campanha seguinte, a de 1949.

O Júlia IV


Doutros lugres que me foram familiares, o Autor fala – o Ana Maria do Capitão Joaquim Agonia, o Ana I do Capitão João Grilo, o Creoula do Capitão Francisco Paião, o José Alberto do Capitão José Vaz, o São Ruy do Capitão Aquiles Bilelo, o D. Dinis do Capitão Ferreira da Silva, o Milena do Capitão Tude Namorado, o Cruz de Malta do Capitão Ponche, o Lousado do Capitão Carlos de Castro, o Maria das Flores do Capitão Manuel Teles, o Maria Frederico do Capitão Vidal, o Paços de Brandão do Capitão João C. Pereira e outros…Faziam parte da mesma saga e viviam sobre as mesmas águas e sob o mesmo céu.
O Gaspar do Capitão João Firmeza, esse, lá ficará; naufraga, nesse ano, com água aberta.


Mais uma vez encaixa bem, de facto, aqui, a célebre frase de Anacarsis, filósofo grego do séc.VII a. C., que o próprio Autor também cita «Há três espécies de seres: os vivos, os mortos e os marinheiros».

Comprem o livro, leiam-no e divulguem-no, pois vale a pena!
Prometo que dentro em breve estará disponível, para venda, na loja do Museu.

Fotografia do Júlia IV de Arquivo.
Ficha do Grémio gentilmente cedida pelo MMI.

Ílhavo, 17 de Setembro de 2010

Ana Maria Lopes
-

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Creoula - 1973, através da objectiva de António São Marcos - 3



O Creoula saiu de Lisboa para mais uma viagem de treino de mar a 31 de Agosto último, desta vez, rumo a Ceuta.
Na sua actual missão, leva a bordo um grupo de jovens de ambos os sexos à descoberta do mar e do prazer que proporciona uma viagem neste veleiro.

Entretanto, saboreemos, virtualmente, a agrura de vida do mesmo, na última viagem à pesca do bacalhau, em 1973, em diversas situações acrobáticas de manobras de pano.


Manobras de pano, a bordo…

Acautelando o pano de proa.

Para içar a estênsula, alguns homens subiam a enxárcia para melhor fazerem força e não se molharem.

No pesqueiro, o pano era amarrado a «ficar», suspenso da carangueja.


Com vento fresco da popa, largava-se o pano redondo.

Em primeiro plano, à esquerda, o grande cadernal da escota. Pequenas reparações no pano faziam-se a bordo.


Na reparação do pano, uns trabalham e outros aprendem.


(Cont.)

Fotografias – Gentil cedência do Comandante António São Marcos

Costa Nova, 3 de Setembro de 2010

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Creoula - 1973, através da objectiva de António São Marcos - 2



Hoje, é a vez da escala:


No Creoula, armavam-se cinco mesas de escala de cada bordo.


O peixe escalado passava pelo escorredor antes de ir para o porão.


Cada mesa de escala tinha: troteiro, parte-cabeças e escalador.


Na escala, havia trabalho para todos.


Dóris içados, terminada a refeição, iniciam os pescadores, por equipas, as fases de preparação do bacalhau – trote, evisceração, decapitação, escala – nas quais cada um tem a sua função definida.


O troteiro trabalha junto ao topo do quete, donde tira o peixe. Munido de uma faca de lâmina direita, em forma de punhal, a faca de trote, dá-lhe um golpe transversal profundo na garganta seguido de um golpe vertical sobre o ventre até ao umbigo, terminando com dois ligeiros golpes no pescoço de forma à região céfalo-branquial ficar somente agarrada ao resto do corpo pela coluna vertebral e, assim, facilitar a evisceração e decapitação, colocando o peixe sobre a mesa.


O parte-cabeças, afastadas as paredes do abdómen, retira o fígado através do buraco da mesa de escala para um cesto; em seguida, arranca a partir do umbigo todas as vísceras até ao pescoço, separando com uma pancada, na quina da mesa, a cabeça do peixe que lhe fica segura na mão esquerda, atirando-a para o convés, a fim de se lhe aproveitar a cara ou a língua.
Com a mão direita, coloca o peixe ao alcance do escalador. Este homem não dispõe de qualquer instrumento auxiliar de corte.

O escalador vai dar ao bacalhau a forma espalmada que todos conhecem, que tem por fim aumentar-lhe a superfície ventral, permitindo que a salga se faça numa maior extensão e de uma forma mais uniforme. Depois de ter encostado o peixe a um barrote oblongo, com a faca de escala na mão direita, começa por dar um golpe pela parte superior desde o cachaço ao rabo, fazendo uma deslocação do bacalhau para a sua esquerda, enquanto prolonga o golpe. Em seguida, colocando o bacalhau com a região do umbigo sensivelmente no extremo direito da mesa, mas com a mão esquerda agora na espinha, dá-lhe um segundo golpe pela face interior da espinha, no sentido contrário, isto é, do umbigo ao cachaço, cortando, finalmente com um terceiro golpe, o vértice da espinha. É atirado para a selha, sobre a qual se apoia a mesa de escala.

Na selha, o peixe é lavado em água salgada aspirada do mar por uma bomba. Após a lavagem, o bacalhau é retirado pelos garfeiros e lançado num escorredouro.

Finalmente, depois de escorrido, é lançado através de mangueira de lona para o porão, onde sofre a última fase de preparação – a salga, não menos dura tarefa.

Algumas imagens fortes da escala revelam a rudeza do trabalho, em que todos os marítimos se ocupavam, em série, sem parar, até conduzirem o peixe à tal dita salga.

Fonte – Adaptação da Folha de sala A escala, escrita à época, 1992, para a Exposição FAINA MAIOR, Pesca do bacalhau à linha.


(Cont.)

Fotografias – Gentil cedência do Comandante António São Marcos

Costa Nova, 13 de Agosto de 2010

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Creoula - 1973, através da objectiva de António São Marcos - 1



Nunca é demais recordar o navio de pesca do bacalhau à linha que o Creoula foi:

Dóris


O nome do navio era escrito nas alhetas dos dóris.

As pilhas de fora peavam para a borda.

As bancadas e os quetes dos dóris também eram lavados e arrumados, para servirem na campanha seguinte.

O dóri à borda, com o tripulante dentro, está pronto a arriar.

-

Muito agradeço ao Sr. Capitão A. Marques da Silva (que comandou o Creoula nas campanhas de 1968 a 1972 e supervisionou a recuperação do navio e sua adaptação a UTM), o grande auxílio que me deu na identificação das fainas do mar e de alguns tripulantes seus conhecidos, captados pela objectiva do então Imediato António São Marcos, na última campanha do Creoula, em 1973, sob o comando do saudoso Capitão Francisco Marques.

(Cont.)

Fotografias – Gentil cedência do Comandante António São Marcos

Costa Nova, 6 de Agosto de 2010

Ana Maria Lopes

domingo, 1 de agosto de 2010

Santa Maria Manuela anima o paredão da Barra...



O Santa Maria Manuela saiu, hoje, pelas 16 horas do primeiro de Agosto, a barra do Porto de Aveiro, com destino a Inglaterra, para se mostrar ao mundo. Viagem «muito exigente, já que envolve a participação na North Sea Tall Ships Regatta e a presença no Sail Amsterdam (de 19 a 23), e no Sail Bremerhaven (de 25 a 29)».
Espera-se que venha a ser visitado por milhares de pessoas em Hartlepool, na Inglaterra, e, mais tarde em Ijmuiden, na Holanda, onde se aguarda nova afluência de visitantes.
A sua saída proporcionou-me uma agradável tarde de Agosto, de férias, soalheira e de suave brisa.
Tendo sabido, logo de manhã, pela notícia do Diário de Aveiro, «Santa Maria Manuela parte hoje para Inglaterra», pensei imediatamente aproveitar a oportunidade para ir de bicicleta até à Barra (ao domingo, com o trânsito, era o mais viável) para o ver e fotografar, tendo ainda sido acicatada, mais tarde, por telefonema de Aníbal Paião.
Além do espectáculo, o convívio também foi agradável, porque os mais «íntimos» do Manuela, amigos, familiares e armadores, lá se encontraram, com boa vontade, já que a notícia só circulou muito em cima da hora, devido à grande morosidade do seu processo de certificação.
Além do mais, o veleiro para fazer «jus» à sua qualidade de antigo lugre, saiu a barra, à vela, como poderão constatar pelas imagens. Aqui, foi a primeira vez.
Belo espectáculo!!!!!!!

Desfraldada à popa, a bandeira nacional…


O navio ia muito lindo – não se cansava de expressar o Capitão Marques da Silva, apreciador avalizado.
Em comunicação para familiar, explicava o Comandante do navio – não houve tempo para a mezena.
Apesar disso, proporcionou um notável espectáculo.
Mais uma vez, para quem não pôde ver, aqui fica o registo escrito e imagético.

Escoltado… por embarcações de recreio…


Terminada esta fase de treino, adiantou a Pascoal que o navio começará a realizar viagens temáticas «de participação activa e de cariz comercial» (o chamado turismo de vocação marítima).

Ultrapassada a Meia-Laranja…

…dirige-se a Inglaterra.

Ler mais no Diário de Aveiro de 2. 8. 2010.


Fotografias – Ana Maria Lopes

Costa Nova, 1 de Agosto de 2010

Ana Maria Lopes

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Faina do Creoula em 1973, através da objectiva de António São Marcos

-
Para poder saborear os prazeres da Costa Nova, durante o mês de Agosto, sem despender muito tempo nas pesquisas do Marintimidades, resolvi lançar mão de umas famosas e belíssimas fotos amavelmente cedidas pelo Comandante António São Marcos, em que pôs à prova a sua paixão por este género artístico, durante o regresso da última campanha do bacalhau do navio Creoula (1973).

Foram muito utilizadas na ilustração de diversas publicações e estiveram também na base de uma impressão de seis selos que os CTT editaram, em 24 de Junho de 2000, sobre A Faina Maior – a pesca do bacalhau.
Com tantas cedências, empréstimos e mudanças de «mãos», as imagens não tiveram grande destino e acabaram por se extraviar, primeiro, as películas e, mais tarde, as próprias fotos.

Quando me haviam passado pelas mãos, dada já a inexistência de negativos, encarreguei-me de lhes mandar fazer umas reproduções, em que perderam alguma qualidade, mas que são o que delas resta.

Demasiado contrastadas, com ausência de cinzentos, não estão tão boas como eram os originais, pois os meios de que dispúnhamos, à época (1991), não eram os de agora.
As minhas desculpas, pois, ao Autor e leitores, mas, mesmo assim, creio que irão ser bastante apreciadas pelos apaixonados por esta «rude e cruel aventura», que atrai muitos admiradores.
E, de post em post, ir-se-ão sucedendo, organizadas por temas.
Espero não ter dado por mal gasto o tempo despendido na sua organização e identificação.

O Creoula fotografado de bordo de uma baleeira.


(Cont.)

Fotografias – Gentil cedência do Comandante António São Marcos

Costa Nova, 29 de Julho de 2010

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Porto de St. Jonh's em 1958


Pessoa amiga, que viveu a situação, deu-me a conhecer esta imagem, que vai fazendo história (actualmente, tudo também faz história, é moda…). Ei-la, a frota portuguesa, a famosa White Fleet, recolhida no porto de St. Jonh’s, em Outubro de 1958 (vão lá 52 anos), do ciclone Helena (identificado sempre por nome feminino, cuidado)!


Não desaproveito, pois, a oportunidade de a divulgar…

Ílhavo, 16 de Julho de 2010

Ana Maria Lopes


domingo, 27 de junho de 2010

Amigos do Museu visitam o Santa Maria Manuela


-
Ontem, lá foi a visita dos Amigos do Museu ao mui nobre lugre Santa Maria Manuela. Pretendia-se uma visita informal, mas organizada e esclarecedora, sobretudo, para quem, pela primeira vez visitava o navio. E julgo que assim foi.

Boas-vindas a bordo…


Depois das boas-vindas de Aníbal Paião aos visitantes, estes foram divididos em pequenos grupos, acompanhados por cada um dos oficiais. À medida que a visita se desenrolava, fomos ouvindo os pormenores e as valências de cada um dos espaços: de uma simplicidade luxuosa e confortável, com um equipamento do mais moderno e sofisticado, com bom gosto e funcionalidade.

Assistência interessada…


O convés, praticamente, fiel reprodução do navio genuíno, construído em 1937, nos estaleiros da CUF., em Lisboa, está notável.

Tem 73 anos de história, o velho lugre. Presente esteve um dos seus capitães mais emblemáticos, nos anos de 1966 a 1969, o Amigo Vitorino Ramalheira, imortalizado no admirável documentário The White Ship, realizado por Hector Lemieux, na campanha de 1966.

Depois de visitarmos o salão dos oficiais, com a mesa original e cadeiras também reproduzidas através de uma igualmente original, seguimos para os diversos tipos de camarotes (do Comandante, de duas pessoas, de quatro e de seis, com casas de banho privativas), com adereços de cama e atoalhados sóbrios e personalizados.

Curiosidade: Falta ainda no salão dos oficiais a fotografia da Senhora D. Maria Maria Manuela, tradição à época, esposa do armador, Sr. Vasco d’Orey, de Viana do Castelo, santa Senhora, que a família fará todo o gosto em oferecer. Fica assim esclarecido o nome de SMM e da existência ou não de uma Santa Maria Manuela, que não era conhecida.

Seguiu-se a exploração da moderna casa das máquinas, bem como da zona polivalente, onde descansámos um pouco, ouvindo pormenores do investimento, da reconstrução, da construção original, das teimosias, ajudas e dedicação da geração dos «velhos» capitães, Vitorino Ramalheira, Marques da Silva e Francisco Paião.

A zona nobre do navio…


Num discurso dinâmico, entusiasta e com visão de futuro, como sempre, Aníbal Paião, deu-nos conta das perspectivas que tem para esta unidade para cerca de meia centena de passageiros, que servirá diversos fins, desde o cultural (promovendo viagens de lazer e turismo), ao educacional (permitindo a aprendizagem náutica), e o científico.
Apesar de receoso, esperançado e desafiador.

Foi merecidamente destacado o empenhamento do Comandante António São Marcos, que, com a sua paixão e saber, se dedicou plenamente a esta causa.

Para já, está prevista a apresentação internacional do navio, com a presença na Regata da STI 2010, na segunda quinzena do mês de Agosto, em Amsterdão.

Do êxito da exploração do navio, dependerá a reconstrução do Argus, que, por enquanto, inveja a sorte do seu companheiro já recuperado.

Em segundo plano, o Polynésia, ex-Argus


Oxalá o investimento tenha o retorno desejado.
Ventos favoráveis e boas marés para a Pascoal, para o Santa Maria Manuela e para o Argus.

Fotografias – Paulo Godinho e J. Reinaldo

Ílhavo, 27 de Junho de 2010

Ana Maria Lopes
-