Mostrar mensagens com a etiqueta Miniaturas em garrafas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miniaturas em garrafas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Miniaturas de veleiros em garrafas - II



Quem havia dado ao Sr. Samuel as primeiras dicas e lhe havia ainda mais estimulado o gosto fora o Capitão Weber Bela, há pouco falecido (1925 - 2008), seu parente, extremamente habilidoso também, amante da mesma arte.
Para meu espanto, um belo dia, numa das suas vindas de Lisboa a Ílhavo, o Capitão Bela ofereceu-me várias garrafas com miniaturas diversas, entre elas, uma do navio-escola “Sagres”. Aqui está:



O Sr. Samuel sorria com satisfação, ao dizer-me que o genro, José Alberto Ferreira Malaquias, apesar de, na altura, andar embarcado, lhe ia seguindo as pisadas. Hoje, depois de ter abandonado a actividade marítima, tem continuado e aperfeiçoado a sua técnica, desenvolvendo-a de forma mais activa.
Participa em várias feiras de artesanato da região de Aveiro e exemplares da sua obra podem ser encontrados por variadíssimos locais.

O primeiro barco que Samuel Corujo construíra fora uma réplica do Anfitrite I, em que andou, com 15 anos, seguido do Patriotismo, onde naufragara (1941).

Recordou-me, várias vezes, nas nossas conversas, o acidente que sofrera, a bordo do Santa Mafalda, em 1958, enquanto 3º motorista. Episódio esse, imortalizado pela pena de Bernardo Santareno, ao tempo, médico no Gil Eanes, em “Nos Mares do Fim do Mundo”, que me abalanço a transcrever:

Alô! Alô! O “Santa Mafalda” chama urgentemente o médico! Alô! Alô! Médico! Médico!...


Eu estava no “Bissaia Barreto” (…). Foi então, à hora do jantar, que, aflitivamente, este S.O.S. rasgou os ares: o terceiro maquinista do “Mafalda” tinha uma mão esmagada, por acidente de trabalho!
Era preciso intervir e quanto antes.
E os dois navios navegaram ao encontro um do outro.
O enfermeiro, o Lourenço, a voz trémula de emoção, deu-me pela”fonia” mais pormenores: um dos dedos, preso à mão por escasso retalho de pele, estava sem dúvida condenado; e além deste, dois dos outros dedos desta mesma mão, com fracturas múltiplas e expostas, teriam provavelmente a mesma sorte.
Era preciso ver as lesões, mas como chegar ao “Mafalda”? O mar, agora, estava bravo como eu ainda não o vira: vagas apocalípticas cruzavam o “Bissaia” em todos os sentidos, o vento levava pelos ares madeiras e cordame, a névoa tornara-se impenetrável. Como? Como passar?! (…)
… Era impossível tentar a minha passagem. Ai, o alívio que eu nesse momento senti! (…)
Em todo o caso e sempre pela telefonia, lá fui dando instruções de que me lembrei ao pobre Lourenço.
Era desesperante.
O mar atingira o auge da fúria: rasgava tudo; vencia, com o seu clamor monstruoso, os pobres gritos humanos; lavava, com a espuma claríssima das suas ondas, a sangrenta nuvem daquela hora.
(…) Mas aquele ferido, tão novo, um rapaz… ai, aquela mão! E se fosse possível salvar-lhe os dedos lacerados? Bem bastava o outro, o que já tinha sido amputado (…).
E mandei seguir o “Santa Mafalda” para terra.


*****

Recebi hoje – oito dias sobre este acidente – uma notícia admirável: o terceiro maquinista, apesar da brutalidade das lesões, ficará com os seus dedos!
Tudo valeu a pena: a angústia daquela hora, a raiva humilhante da minha impotência, o suor de sangue e fel do Lourenço, o desespero dinâmico do comandante do “Mafalda”.
Valeu a pena, valeu a pena!


Com a forte e bela narrativa de Santareno, ficou Samuel Corujo imortalizado na nossa literatura náutica e com os “seus barquinhos”, lembrado nas colecções de miniaturas de veleiros em garrafas, espalhadas por todo o mundo.

Imagens – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 15 de Janeiro de 2009

Ana Maria Lopes

domingo, 11 de janeiro de 2009

Miniaturas de veleiros em garrafas - I




Um dos entreténs dos marítimos habilidosos a bordo, desde longa data, era, em dias de mau tempo, a construção de pequenas miniaturas de barcos, que poderiam, eventualmente, transformar-se em objectos votivos.
Outra, e não menos interessante, eram as miniaturas de barquinhos inseridos em garrafas.
O nosso museu marítimo deve ter uns quatro a cinco exemplares doados pelos autores, já de fins do século XIX, que, entretanto, recolheram a reservas.

Um pouco da história…

A miniatura de barco mais antiga que se conhece está guardada no Museu do Louvre, em Paris. Trata-se de um modelo duma embarcação funerária que dispunha de vários remadores e que foi encontrado em 1922 no túmulo do faraó Tutankhamon (1354-1346 A.C.). Sendo mais um objecto de culto do que um modelo de barco em miniatura, transmite-nos conhecimentos sobre a marinha daquele tempo e sobre os hábitos religiosos, as crenças e os rituais da época. Também nos ajuda a formular a eterna pergunta: porque é que o homem faz miniaturas de barco? A primeira resposta que ocorre é: por gosto.

Temos que confessar que estas miniaturas exercem um verdadeiro fascínio. Adoramos examinar o velame e o cordame e enumerar as antenas sucessivas de mastro em mastro. Pequenos ou grandes, os barcos têm sempre um grande encanto. No cais, convidam-nos à partida, à viagem. Instalados numa prateleira ou no tampo de uma cómoda fazem-nos sempre sonhar.

Os maiores criadores de modelos reduzidos, são os marinheiros, impelidos numa primeira fase por razões sentimentais. Fabricadas por prazer, estas miniaturas começaram por ser recordações. São testemunhos disso os ex-votos.
Velhas ou novas, estas miniaturas são o testemunho vivo do gosto eterno do homem pelo mar, pelas viagens e pelos sonhos. São antes de tudo mais, belos objectos carregados de emoção e de história. Através delas, podemos escrever um pouco da história da navegação... que é justamente outra história.

Texto (on-line) de Pierre Faveton

A pessoa mais conhecida em Ílhavo, como fazedor deste tipo de trabalho era Samuel Corujo.

O Sr. Samuel (1922 – 2005) e eu, vizinhos de rua, visitávamo-nos com frequência, para tratar dos “nossos negócios” e, sobretudo, para eu o ver trabalhar e ouvir as suas histórias.

Extremamente afável e delicado, sempre me recebia bem e falava dos seus “barquinhos” com muito carinho. Tinha uma lista de espera, nas encomendas, infindável!
Como me dizia, dormia mal, acordava cedíssimo e sentava-se a trabalhar, colocando uma prancheta com os materiais e singelo instrumental, sobre os braços do cadeirão. Os utensílios eram poucos e rudimentares, mas a habilidade e paciência eram imensas.

Escolhida a garrafa com que ia trabalhar, começava por talhar o casco do lugre escolhido a canivete, afagando-o com doçura. As madeiras utilizadas eram o pau de bambu e a balsa, fácil de trabalhar. Sobre o convés, não lhe faltava a gaiuta, o restante casario, os albóis, o molinete e as pilhas de dóris.
Seguiam-se os mastros, delicados quanto baste. Tinham de ser móveis, para se poderem aninhar, ao entrar na garrafa. Todos os cabos, finíssimos exigiam um pormenor estonteante. E o velame? De pano latino ou armação redonda, era feito de mortalhas de cigarros. Estava pronto o barquinho, mas repleto de fios à proa.


Começava a preparar o mar, dentro da garrafa: de lado, ia ajeitando uma massa abetumada, que pintava de azul e que introduzia no fundo da garrafa, sem esquecer o pormenor da ondulação. Havia compassos de espera, para secagem de materiais.

Quando chegava a fase final, avisava-me para eu ir ver. Truque de ilusionista: todo aninhadinho, mastros deitados, velas dobradas, lá entrava o lugre, na boca da garrafa. Depois da secagem que possibilitava a fixação ao mar, havia que puxar todos os fios, para erguer mastros, cabos e velas. Ao deixarem de ser necessários os fios auxiliares, eram atados e invisivelmente colados à proa, normalmente no pau da bujarrona e, posteriormente, cortados por uma lâmina, na ponta de um pauzinho.


A garrafa era hermeticamente fechada por uma rolha onde assinava e datava o minucioso trabalho, lacrada com cera derretida pelo calor da chama de uma vela. Estava pronto. Cada exemplar demorava-lhe cerca de 24 horas a ser construído e o dinheiro que levava, mal pagava os materiais.
O “seu figurino” eram fotocópias do conhecido, mas raro, álbum organizado pelo Grémio, “Frota da Pesca do Bacalhau”, de 1946.

Novos Mares


Começou a trabalhar em 1983, após a aposentação e desde essa data e até 1999, já haviam “nascido” das suas mãos cerca de 1700 barquinhos. Tinha uma variante interessante que ainda era mais detalhada: a garrafa do Farol, do Forte e palheiros da Costa-Nova, por onde passava, normalmente, o Gazela, só com mastros, para não encobrir a paisagem. Ei-la:

Gazela Primeiro


(Cont.)

Imagens – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 11 de Janeiro de 2009

Ana Maria Lopes