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domingo, 25 de julho de 2010

A matola ou ladra - Bateira da Ria de Aveiro




Em maré de preciosos modelos de pequenas embarcações tradicionais da Ria de Aveiro, cá vai mais uma:

A matola ou ladra é a mais pequena das bateiras aplicadas nos trabalhos da Ria.

Matola, na anterior Sala da Ria, no MMI – 1985


De construção muito simples e até pouco cuidada, utilizava-se principalmente como auxiliar dos moliceiros, quando recolhiam moliço em zonas inacessíveis.

Não tinha bancada, nem escalamões para aplicação de remos. Vinha a reboque ou dentro dos barcos e, por ser leve, facilmente era passada sobre os baixos, até aos lugares onde ia ser necessária.

Vi algumas vezes esta embarcação a trabalhar na limpeza dos viveiros das marinhas de sal. As algas que aí cresciam gadanhavam-se todos os anos na primavera, sendo depois transportadas nestas bateiras até aos esteiros e então carregadas nos moliceiros que as aguardavam.

O sobrenome de ladra, julgo que lhe foi atribuído por, às vezes, ser utilizada por pescadores e caçadores furtivos.

Na época em que apareciam os patos-reais nos viveiros das marinhas, os melhores lugares de caça estavam facilmente ao alcance durante as noites de luar, transpondo estas pequenas embarcações sobre as barachas* até à posição pretendida para a caçada.

Para executar o meu modelo, fiz o levantamento cuidado do exemplar que se encontra na
Sala da Ria do Museu Marítimo de Ílhavo.


O modelo

Utilizei madeira de tola e de choupo nos costados e fundo. Nas cavernas e nas rodas de proa e popa, apliquei ramos de limoeiro.

Pintei o costado e o fundo com tinta preta para imitar a cor do breu, com que as originais eram protegidas.

A escala utilizada foi de 1/25, por ser a mais apropriada.

As medidas habituais:

Comprimento………………..4.25 m
Boca…………………………1.25 m
Pontal………………………..0,40 m

* Muretes feitos de lama, que, no mandamento das marinhas, dividem os compartimentos dos caldeiros.




Lisboa, 30 de Junho de 2010
António Marques da Silva



Fotografias da autora do blog

Ílhavo, 25 de Julho de 2010

Ana Maria Lopes


sexta-feira, 20 de março de 2009

A matola



Não foi engano, não – a matola. A “língua portuguesa é muito traiçoeira” e, no domínio das embarcações, não foge à regra e também faz “jus” à sua diversidade e ambiguidade.
É, pois, a exígua matola, também com direito a ser vedeta.

E, quanto à preservação, teve mais sorte que o matola, pois um exemplar do princípio do século XX é exibido na Sala da Ria do MMI, tendo sido incorporado no espólio do museu, por essa data, segundo informações fidedignas.
Como era? E para que servia?
Ei-la, nas instalações do MMI., anteriores às actuais, em exposição.

A matola


Também conhecida por ladra, esta singela embarcação, de fundo chato, media 4 metros de comprimento, 1,20 m. de boca e 0,35 m. de pontal . Manejada à vara, com seis cavernas e toda embreada a negro, utilizava-se na recolha do moliço, em locais em que o barco moliceiro não podia chegar, devido à pouca profundidade das águas. Seguia, a reboque, da elegante embarcação lagunar.

Apanhava, normalmente, o arrolado, isto é, o moliço que escapava dos ancinhos de arrasto, ficando a boiar, ou o que se desprendia pela agitação das águas, indo dar às praias.
O arrolado servia para cama de gado, usava-se para caldear no moliço verde e era arrematado, todos os anos, na Capitania. Nos locais onde não era arrematado, apanhava-se livremente e “monteava-se” na praia.

Fotografia – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 20 de Março de 2009

Ana Maria Lopes

quinta-feira, 5 de março de 2009

O matola



Das embarcações que, em tempos, se dedicaram à apanha do moliço, na nossa ria, posso afirmar que todas estão completamente extintas, com excepção de alguma bateira mercantela, lá para o lado norte, e de alguns, poucos, barcos moliceiros, que sofreram adulterações e já não se dedicam à sua labuta principal – a apanha do moliço.

Que o moliceiro é capaz de ser conhecido no litoral, de norte a sul do país, acredito. Mas… e o matola?
Não teve a mesma sorte. Caiu mais no esquecimento. Não terá ultrapassado a esfera regional.

No entanto, quem toda a vida veraneou pela Costa-Nova, tem, forçosamente, dele, uma imagem forte.
Espanejavam-se na ria de lés-a-lés, apanhavam e transportavam moliço e toda a família do proprietário, para as romarias setembrinas lagunares. Era vê-los na Senhora da Saúde, no último fim-de-semana de Setembro, na Costa-Nova.
....

Senhora da Saúde de antigamente


Semelhantes aos moliceiros e também conhecidos por mirões ou mirantes, praticavam a mesma faina.

Tinham cerca de 13,59 metros de comprimento, 2,50 m. de boca e 0,40 m. de pontal, proa mais baixa que os seus “irmãos” norteiros e completamente embreados a negro.


Um matola junto ao Triângulo – 1961


Normalmente, os donos eram dos lados do Areão e Mira (nomeadamente, Carapelhos, Gândara, Corticeiro, Ramalheiro, Parada e Fonte de Angeão) e utilizavam como cais de carga e descarga o Poço da Cruz, o Areão e a Quintã.

Eram construídos nos estaleiros dos Colaços, em Portomar, e nos dos irmãos António e João Pimentel Loureiro, por alcunha, os Gadelhas, do Seixo de Mira. O Ti João Gadelha, até aos 40 anos também apanhou moliço, pelos lados da Murtosa, Torreira e Ovar, chegando a andar por lá, cerca de um mês.
Construía mais no tempo do defeso, tendo-me ainda recordado as principais fases da construção, o uso de moldes ou formas, do pau de pontos e outros pormenores.

Os barcos, quando novos, eram “pintados de loiro”, mas, posteriormente, levavam só breu preto, que curava muito bem a madeira – dizia-me.


A vara auxiliava a propulsão à vela – 1930


Os donos não se preocupavam com as pinturas dos barcos, nem queriam gastar dinheiro nisso e os construtores também não usavam qualquer marca, sigla ou divisa, no leme.

Não possuíam a graça, a leveza, a policromia, a harmonia de linhas dos barcos norteiros e os “murtoseiros” até os achavam mal amanhados, imperfeitos e feitos à miroa. Mas tinham a sua graça, modéstia e simplicidade!

Moliceiro norteiro e matola – 1961


Os camaradas, profissionais do mesmo ofício, apesar disso, conviviam em sã harmonia e salutar companheirismo.
A memória dos matolas perdura na mente de quem os “fotografou”, ad aeternum.
.
Não esquecer, porém, que os matolas eram também os bairradinos que vinham a banhos para a Costa-Nova, em Outubro, pelos anos 50 e seguintes, depois das vindimas, com os seus hábitos muito próprios.

Cliché de João Teles – 1930
Restantes fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 5 de Março de 2009

Ana Maria Lopes