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domingo, 31 de maio de 2015

Apresentação de «Uma Janela para o Sal», por Senos da Fonseca

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Há textos que gostamos de guardar, partilhar e exibir no Marintimidades. E este, com que o Amigo Senos da Fonseca nos brindou na apresentação do nosso último livro, no MMI, é um deles. A saber:
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De Sal, pouco conhecimento tenho para além do seu ajuste ao tempero. Dizem ter mão pitosa.
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O sal materializado ou imaterializado, está permanentemente na vida de cada um. Alguém que ame sem sal qb, não ama: vive de tédio. Alguém que sonhe sem sal qb, não sonha: vive na glória da desilusão…
Ai de quem não dê pela sua presença. Sal da vida, sal da alma, sal dos olhos. Sem o sal qb, não há objectividade no sentir, não há clareza no mundo externo.
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De sal, observo as doutas palavras desse príncipe de letras portuguesas: – Padre António Vieira. Há sal que não salga…
Ou porque o sal não salga; ou porque a terra não se deixa salgar, ou porque quem prega diz uma coisa e faz outra.
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Haveria, pois, mil e uma maneiras de abordar ao que vim…ora o que me foi pedido é bem mais simples.
Do sal que salga mesmo…
Mas, lembrei-me, então…
Certo (e quem sabe ter sido esse o motivo) ter em tempo publicado o título «O Homem e o Sal». E aí ter dito (permitam-me citar o dito, que fez parte de setenta títulos publicados).
(…) Há vários milhares de anos, caíram as janelas do Palácio do Céu… Ficaram intactas as vidraças nos respectivos caixilhos, porque as janelas caíram sobre o terreno macio. Hoje são as salinas… (Almada Negreiros)
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O Homem aqui venceu…
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Delas disse Unamuno: são, de facto, como que exemplares de uma espécie, em outras partes, já extinta.
Seja qual for o motivo por que estou aqui a perorar, espero não vos maçar.
Entremos, pois, na curiosa história de «A Janela para o Sal».
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Aqui há uns anos, não muitos, a Ana Maria cirandou em minha volta quando me fazia companhia para os minhas inquirições do livro Bateiras & Artes, tentando-me engajar para um plano conjunto, de trabalho sobre o Sal.
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Era minha opinião: sobre o sal e a sua feitura, do ponto de vista técnico, era matéria esgotada. Depois de o nosso conterrâneo, Manuel da Maia Alcoforado, ter publicado o seu rigoroso tratado sobre o ouro branco retirado da Laguna de Aveiro.
Do sal, tempero de vitualha, procurado desde a mais longínqua e profunda noite dos tempos, para simples sobrevivência, ou tempero de povos mais adocicados, celebrado por reis, consagrado aos deuses, credor de vassalagem de povos e imperadores antiguidade.
Sobre o Sal, outros trabalhos (livros e álbuns) foram sendo por aqui publicados. Parecia-me (a mim!), pois, esgotado o filão salícola para o prelo. Como morta estava desde há muito a sua produção por estas bandas. O Sal desde o século passado desapareceu na planície alagada lagunar; que não da nossa mesa, vindo de outras paragens onde a extracção dispensa o esforço braçal humano. E onde a máquina, substituiu o ugalho; e o comboio, o burrico do almocreve: o saleiro, logo na pia baptismal, ajoujado de sal – não o da sabedoria, mas o do carrego. 
Do Sal, da sua dorida e suada feitura, pouco mais resta que a lembrança registada em esses inúmeros trabalhos, alguns já repetitivos, já gastos ao nascer para o relembrar. Mas, sim! – é verdade. Há a Troncalhada, Marinha- museu para o mostrar aos turistas. Ao longo do tempo recuperou-se o léxico decalcado da «bíblia» de Maia Alcoforado; métodos e glossário, quase sempre, pouco ou nada acompanhados do exercício de um metódico trabalho de campo.
E aqui faço um parêntesis, para me dirigir às autoras; o glossário n’ «A Janela para o Sal» contradiz a intenção de que falaremos adiante. Era perfeitamente dispensável (em nossa opinião).
Outros livros dados à estampa, insistiram nas fotos «mudas», quase sempre bem felizes – é facto – pois as cãs e as rugas provocadas pela desaforada faina salícola, a isso bem se prestam. Mas de todo pobres no texto que não ultrapassa a simples legenda.
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Ao meu desinteresse, a Ana não desistiu.
E ainda bem...Como lhe costumo dizer: ouve o que Te digo, mas não faças o que Te digo... Hoje, constato, o SAL, foi nela motivação obsessiva, motivação que teria de ser cumprida. Como o fazer (?!)..., creio, ser essa a sua dificuldade.
Tinha consigo um fantástico acervo fotográfico (que seu filho então um jovem entusiasta do registo na caixa impressiva, acompanhante da mãe nas deambulações pelo salgado lagunar, fixou com mestria). Hoje aqui bem patente. Fotografias onde os artifícios hoje permitidos pelos hi-techs digitais, ainda não existiam. Fixadas nos velhos diapositivos, sem acesso a photoshopadas que hoje permitem inserir um pôr de sol em dia tristonho, uma alegoria de estranhos tons, numa exultante sinfonia de cor roubada às quatro estações de Vivaldi. Ana Maria era fiel depositária desse minucioso espólio – um tipo de herança a funcionar ao contrário – sem dúvida lauto e esgotante cardápio de momentos escolhidos, fixados para perdurar (ou renascer, um dia, como foi aqui o caso). Descritivo em imagens, «vitualhas», que marcam cada momento alto do bodo sensorial que é a fazedura da marinha, por entre perfumadas maresias de flores silvestres a povoarem os ares, desde o nascer do sol até ao encharcado crepúsculo nocturno.
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Um belo dia chegou-se e deu-me conta:
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  Já arranjei companheira de jorna: – a Etelvina...
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E, passo a passo, fui acompanhando o início do escufenar da marinha, o risco dos vieiros, depois a entre safra...as molhaduras, e a botadela etc, etc.
Rapidamente me dei conta de que o trabalho ganhara um cariz muito diferente do modo como até aqui se tinha falado do sal. O trabalho da parelha (duo) Ana/ Etelvina, tinha escolhido, não o Sal como figuração central do seu livrinho, mas sim, fixado e eleito, o marnoto, como figura central da dorida feitura do sal. E deu a este quase todas as páginas. O trabalho (hoje aqui livro) ganhou justificadas alvíssaras, pelo profundo humanismo que espelha.
Uma apreciação mais cuidada permitiu-me verificar 3 ou 4 singularidades que afastam «As Janelas» do que foi feito até aqui. Note-se, não estou a dizer para melhor, mas diferente. E isso é bastante para merecer elogio.
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Primeira singularidade:
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A começar pelas imagens, e a prolongar-se num texto que está lá, para as servir. E não como habitualmente, ao contrário. Creio não me enganar se disser que alinhadas antes de tudo, as imagens, catalogadas de acordo com os pontos marcantes da safra, só depois se contextualizaram as mesmas. O texto não é pois uma descrição consecutiva. Corre como de acordo com a imagem. Com liberdade diria: estamos perante uma banda desenhada poética. O que por norma é, exactamente, o contrário, do que é costume fazer nestes trabalhos.
E conta-nos, gota a gota o desalmado bulício do marnoto.
Não me afasto muito da escriba, se o descrever a meu jeito:
Logo que a ria punha a descoberto uma ruga, logo ele se lhe atirava sob torreira que lhe ressumava o rosto em bagas de suor salgado. Pernas de ceroulas enroladas, camisa arregaçada até aos sovacos, atira-se, sol a despontar, a um bulir esfalfante. Figura central dos clichés (na sua quase totalidade) este era o irredutível marnoto... Que só tem medo que amanhã, numa volta de vento, imprevisível, o céu, em vez de lhe cair em cima – coisa habitual do seu dia-a-dia – comece a chorar copiosamente. E lá vai a sua esfalfadela. Quase que me atreveria a dizer: a janela do livro por onde somos convidados a espreitar, com um certo pudor, centra-se e elege como a figura suada, por vezes quase mortificada. Um dos demiurgos lagunares: o criador do sal. Que sem sudário que lhe acalme a aspereza da torreira do vento aquilão (o seu sudário é a sua pele brochada pelo iodado braseiro que o fustiga), leva a canastra ao calvário. Que é aqui o cone alvo do malhadal...
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(Cont).
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quarta-feira, 13 de maio de 2015

UMA JANELA PARA O SAL

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No próximo sábado, dia 16 de Maio, pelas 18 horas, integrado nas comemorações do Dia Internacional dos Museus, a Alêtheia Editores convida-vos para o lançamento do livro Uma Janela para o Sal com texto de Ana Maria Lopes e Etelvina Almeida e fotografia de Paulo Godinho.
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A obra será apresentada por Senos da Fonseca.  

Convite

Referem as autoras, na contracapa do livro, em sinopse:
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E finalmente, se abre uma janela para o sal...
Fruto de um antigo propósito, o de trazer à luz e à escrita um acervo de imagens das salinas, recolhidas nos anos 80, alusivas a um património que se tem vindo a extinguir, repescaram-se apontamentos não só imagéticos, mas também escritos e confirmados no local, que agora renascem das lamas negras das marinhas e dos brancos cristais desses tempos, trazendo a saudade e o labor de outras fainas.
E assim se retomou a «safra» e se verteu sobre o papel a escrita que os aguardava. E, a outros olhos, outros pensares, em duplo sentir, suavemente se foi tecendo homenagem a uma profissão, actividade e tradição, a do marnoto, que já morre na alma de muitos, porque os que a lembram já poucos são.
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Trata-se de um património que faz parte da identidade de uma região que bem aconchegava esta actividade no seu seio, tal foi a sua importância desde sempre.
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Acompanhou-se, registou-se, descreveu-se e contou-se, «cantando» e exaltando o homem do sal, que foi, é, e será o único sabedor e conhecedor de tão árduo trabalho, o de amanhar a marinha, desde a rudeza à beleza do sal.
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Com a percepção de que se trata de uma maneira diferente de abordar o sal lagunar, com alguns laivos poéticos, fomos escrevendo esta pequena monografia Uma Janela para o Sal, acrescentando frescura ao tema e enaltecendo o Homem, o território lagunar e as marinhas. É aprazível, esclarecedora e sedutora, quer para um leitor conhecedor, quer para um leitor interessado.

Capa do livro


Amigos/as, compareçam no Museu Marítimo de Ílhavo, para darem uma espreitadela para o sal. Não se arrependerão.

Ílhavo, 13 de Maio de 2015

Ana Maria Lopes
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domingo, 8 de março de 2015

O litoral e eu


O litoral e eu temos uma história de vida…
Desde moçoila que o palmilhar as praias piscatórias marítimas, se revelou, para mim, uma delícia. O mar, na sua imensidão, em tons de azul e espuma branca, enrolava-se e espraiava-se na areia cálida e macia, num vaivém constante e sempre surpreendente.
Os cenários eram deslumbrantes a qualquer hora. Desde o alvorecer ao anoitecer, homens e mulheres em alarido, guiavam bois, ajudavam barcos a varar, remendavam redes, corriam com cabos às costas, enquanto, à margem, se faziam lanços no areal cálido e amplo.
Dirão…ou pensarão: convenceu-se que conhece alguma coisa de marítimo e que apanhou essa paixão pelas embarcações tradicionais assim sem mais nem menos. Não foi moda, não. Nem delírio. Também não. Foi gosto, dedicação, observação e estudo.
Finalista de Filologia Românica na UC, defendia a tese O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterraneísmos, quando a vida me desafiou para mudar e, de solteira, passar a casada, tomando outro rumo familiar.
Sucedeu que a dita «lua-de-mel» foi feita litoral abaixo, entre Cascais, Sesimbra e baía da Baleeira, passeando mesmo até ao sotavento algarvio.
Palmilhávamos as praias, calcorreávamos areais, sentávamo-nos em rochas. Eu, alcandorada, em embarcações, adorava assistir directamente na beira-mar às lotas de peixe prateado e saltitante. O movimento, o alarido, o colorido, o vaivém de barcos e artes entontecia-me apaixonadamente.
Pelos anos 60, continuava o estertor das embarcações tradicionais e da navegação à vela, a que fui assistindo com alguma mágoa. Mas todo aquele movimento, essa balbúrdia, esse bulício, momentos de extrema beleza, ficaram no meu gosto pelo «marítimo».
 
Em Sesimbra. A lota do peixe-espada, na praia. 1965
 
Ao final da tarde, o peixe prateado estrebuchava na areia, no estertor da morte. Vários lanços decorriam em simultâneo, enquanto aiolas se aquietavam em terra e chatas, grosseiras e pesadonas regressavam ao mar prateado…
Anotei, apontei, fotografei, escrevinhei, voltei várias vezes a vários pontos litorâneos, sempre numa perspectiva etno-linguística, até que em 1971, a tese ficou pronta.
Estas imagens dos anos 60 falam mais do que «mil palavras».

P. de Varzim. Barquinhos com muregonas
 
Embarcações diversas na praia da Nazaré
Barco do mar na Caparica
 
 Sines. Lota na praia
 
Albufeira. Vai um bote à água

Lancha da sacada. Albufeira

Monumental calão. Quarteira

O gosto não esmoreceu. Pelo contrário
Pelos anos 80, visitei todos os locais já então percorridos, para fazer uma avaliação entre o que a história tinha feito desaparecer e o que ainda perdurava. Esta comparação gorou as minhas expectativas, quanto ao que ainda havia de tradição.

No primeiro decénio do século XXI, eis-me de novo ao terreno, de norte a sul do país. E o resultado foi o livro REGRESSO AO LITORAL, dado ao prelo pela Comissão Cultural de Marinha, em 2008, que muito me orgulhou.

O tempo foi passando, as embarcações tradicionais e as minhas forças atingiram o seu crepúsculo. Poderia ter sido um pouco antes, mas considero que ainda o fiz a tempo de me ter deixado a alma cheia.
Neste dia dito da mulher, que não aprecio, poderei dar a mim própria a prenda de escrever de mim e para mim, recordando o «tal passado à beira-mar».
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Ílhavo, 8 de Março de 2015
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Os Talheres Mágicos do Titanic

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Dirão: – mas será que «ela» ainda não se calou com os talheres do Titanic?
Já estavam adormecidos e recatados, mas, neste caso, vieram desafiar-me a mim e a eles. E, quando a participação me entusiasma, singela que seja, não a recuso. E, aceitei-a com entusiasmo.
Partiu de Paulo Trincão, na altura, Professor da UA., que tinha em mãos um projecto financiado pelo programa COMPETE-QREN, que tinha a ver com a acção «Biodiversidade nos Supermercados».
Escrever um livro tendo como público-alvo crianças dos 4 aos 8 anos, com o objectivo de as levar a aceitar uma alimentação saudável, fazia parte do projecto.
 

E neste caso, a história dos talheres do Titanic, os da «estrelinha» no cabo, ajudariam com a sua magia a convencer a menina, a comer peixinho cozido acompanhado de batata e couve-flor. E enloilada pela história, o prato ficou rapadinho e muitos conceitos apreendidos.
E onde entro eu? – exactamente no final. Os autores deste livro infantil, Paulo Trincão (texto) e Cristiana Sampaio (ilustração) vieram a saber que uma das donas de colheres do Titanic era uma pessoa conhecida e amiga.
O Prof. Paulo Trincão também quis quebrar a tal magia, ver as colheres, fotografá-las e pedir-me se eu contava em linguagem infantil, tudo quanto sabia acerca delas e o que tinha feito mais para as tentar identificar. E mais uma vez, a história aqui vai, um pouco mais ficcionada, visto que se destina ao nível etário em causa.

Noite de consoada do Natal de 2012…

Em redor da mesa, familiares reunidos, aquecidos pelo calor humano e pela fogueiraça, que reluzia, crepitando, na lareira. Três gerações em volta da mesa. Dos mais velhos às crianças.
Ia ser servida a canja, quando a minha netinha de nove anos, a Beatriz, me retorquiu:
Ó Avó, não tens talhares do Titanic? Vimos-te, há tempos, na televisão com eles… e também já os conhecíamos. Podíamos comer a sopinha com as colheres da estrelinha, as do Titanic…
Ó querida, tenho sim e gosto muito delas, mas, agora, a Avó já não as tem, ali, na vitrina, e estão longe, num cofre-forte, guardadas. Vamos marcar isso para a próxima vez.
O Jorge, o irmão mais velho, para «picar» a irmã, interveio:
Ah, eu já comi sopa com a Avó com as colheres do Titanic.

E assim tinha acontecido.

Mas havemos todos de saborear esse momento, noutro dia. Está bem?
Os talheres mágicos, salvados do Titanic, também a mim me encantaram e seduziram toda a vida.
Existem nesta casa, desde que me lembro, seis colheres sóbrias e pesadas, de prata, com a estrela relevada, no cabo, logotipo da WSL, companhia a que o Tinanic pertenceu. Desde sempre o meu Avô me contou a história deles, repetida mais tarde pela minha Avó, após a sua partida.
O Titanic, paquete colossal e luxuoso, naufragara contra um malvado e gélido iceberg, na sua viagem inaugural, quando saiu de Southampton (Reino Unido) em direcção a Nova Iorque, na madrugada do fatídico dia 14 de Abril de 1912.
Por essa altura, costumavam os veleiros portugueses da pesca do bacalhau partir dos diversos portos que os apetrechavam, em direcção aos Grandes Bancos, de onde voltavam por meados de Setembro a Novembro. Ora, consta que, em Ílhavo, algumas famílias possuem talheres provenientes do Titanic, mas todos com a mesma origem. E o que nos dizia a tradição?
Na primavera de 1912, ao dirigirem-se para a pesca, pescadores do lugre Trombetas, da praça da Figueira da Foz, «pescaram» uma cómoda que boiava, mais ou menos no sítio, um pouco mais a norte, onde tinha naufragado o luxuoso paquete. Era seu capitão, à época, o ilhavense João Francisco Grilo, de alcunha, Frade, casado com a irmã Rosário da minha bisavó, a «arraisa» Joana Caloa. Nesse mesmo ano, o meu Avô, Manuel Simões da Barbeira, mais conhecido por Capitão Pisco, sobrinho e afilhado do achador, capitaneara o lugre Golfinho, também da mesma praça da Figueira da Foz. Entraram essa barra, ambos, a 27 de Outubro de 1912, testemunha o jornal «A Voz da Justiça», da Figueira da Foz.
O capitão, à chegada, deu contas do achado ao seu armador, da Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca, mas, talvez, tendo este ficado com alguns talheres, não deu grande importância ao assunto e aconselhou o Capitão Frade a trazê-los para Ílhavo, ficar com alguns e distribuir os restantes por familiares e amigos. Foi esta a origem das minhas, hoje, seis colheres de prata, com a estrela relevada da WSL.
Esta história mítica, mas «com pernas para andar», porque as coincidências e probabilidades são mais que muitas, manteve-se dezenas de anos no seio destas famílias ilhavenses que não gostavam muito de falar do assunto – fui constatando.
Nos anos oitenta (1985), a descoberta e localização dos despojos do Titanic, no fundo do mar, e as diversas explorações subsequentes, trouxeram de novo «o navio ao de cima».
Também o grandioso filme, em 1997, Titanic, empolgou os espectadores e fez dos actores Leonardo di Caprio e de Kate Winselet, um par romântico do cinema, bem como a música, que enleva e inebria.
O interesse pelas colheres mágicas ressalta-me, e, na qualidade de Directora do Museu Marítimo de Ílhavo, na década de noventa, tinha gosto em certificar mais esta tradição. Eis que o National Maritime Museum – Greenwich – Londres, em 1994, em grandes parangonas, anuncia a exposição – The Wreck of Titanic. Sorvi a informação e pus-me lá, em dois tempos. Mas, embora tenha apreciado muito, talheres iguais não eram apresentados. Desconfiei…, mas, o peso da tradição ilhavense tinha mais força.
Dez anos após, o Mercado Ferreira Borges, no Porto, exibiu uma exposição idêntica, que também não me elucidou completamente. Foi preciso chegar a uma terceira exposição apresentada na Estação do Rossio, em 2009, em Lisboa, quando, ao visitar a secção de objectos de cozinha, da baixela e faqueiros da sala de jantar, não me contive que não soltasse uma exclamação de alegria e espanto. Disse para o meu neto, que me acompanhava.
Jorge, aqui estão talheres (eram vários) do Titanic iguaizinhos às colheres que temos lá em casa. Sorriu com um brilho nos olhos. Pois, pudera, já tinha comido sopa com elas!!!!!!!!!



Constatei que o Catálogo desta exposição, que guardo com carinho, tem fotografado o cabo de uma colher igualzinha às referidas. Muito forte razão para o comprar de imediato.
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Ílhavo, 30 de Novembro de 2013
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Ana Maria Lopes
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Nota – o livro, pelo menos esta edição, não é vendável. Imagino que seja divulgado pelo Departamento de Biologia da UA, em acções formativas.
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Ílhavo, 4 de Junho de 2014
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Impressões sobre o «Amores de Ria»

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Do que gostei mesmo, ontem, na Costa Nova, alongada no sofá, ao ler a nova novela, foi que o livro Amores de Ria, com a sua capacidade de ficção, conseguiu fazer-me visualizar o que teria sido uma viagem de moliceiro com pai (arrais) e filho (moço) desde as Folsas do Boco, pelos anos 50 do século XX até Ovar, cais da Carregueira, onde fora descarregar umas pipas de vinho, que tinha embarcado no entreposto da Ponte de Fareja, o que, às vezes, também costumava ser tarefa de o moliceiro. O João da Vaca, como era conhecido, arrola, pormenorizadamente, todos os entrepostos do antigamente por onde passava, as obsoletas pontes até Ovar – o que o obrigava a arriar e a içar  vela e  mastro – e, depois, o retorno, de novo, até ao Bico da Murtosa, onde, pacatamente viviam a Cristina (sua querida mulher) e uma ranchada de filhotes pequenos. O Tonito, nos seus débeis 11 a 12 anitos, para auxílio da família, já era moço do pai, já tinha preocupações de homem feito.
 
Pressuponho que era a vida desse tempo, que também não vivi, mas de que tive «ecos nos olhares». O autor tem o perfeito conhecimento do vocabulário técnico da embarcação e seus aprestos, o que nem sempre acontece, da vida de bordo, das suas manobras, do que é apanhar uma maré de moliço, sem esquecer as rudes ementas desses parcos tempos, cozinhadas nas painas da proa, em tosca e negra panela de ferro, e dos sentimentos que perpassam no coração daquela gente – pai, mãe, Tonito, irmãos, irmãs, vizinhos, amigos. De volta a casa, encontrando a sua Cristina doente, como todo o homem de mar e ria, crente fervoroso, promete a oferta  de uma barriga de cera, à Senhora da Saúde, que estava próxima, se a sua cara mulher se curasse. E assim foi – deu-se o milagre – e a sua amada ficou boa. Mais um pretexto agradável para o autor nos recontar a festa, evocando uma romaria da Senhora da Saúde daqueles tempos, meados do século XX, com todas as privações e sacrifícios, mas belezas e satisfações a que tinha direito, num hino ao amor à família.
 
E são assim os Amores de Ria, entre um velejar de feição ou ziguezagueado, não sem evocar, de passagem, a arte da xávega, na Costa Nova, as marinhas da Malhada com a sua actividade dos barcos saleiros, bem como algumas bateiras de pesca com que se iam cruzando. Espero com este meu sincero «opinar» não tirar o interesse a futuros e possíveis leitores, mas sim despertá-lo ainda mais. Parabéns ao autor, sem esquecer a beleza e a propriedade das aguarelas, bem como da capa do livro, entre tons de verdes, azuis alilasados e róseos, que traduzem toda a magia da transformação da ria, pela paleta de Adélio Simões.

Sessão de autógrafos

 

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 3 de Junho de 2013

Ana Maria Lopes
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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

GRANDES NAUFRÁGIOS PORTUGUESES - 1194-1991

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O caro Amigo Comandante José António Rodrigues Pereira reuniu os acidentes marítimos que marcaram a História de Portugal, num só volume, a lançar, amanhã, dia 23 de Janeiro, às 18h e 30, no Espaço de Autor da Bertrand Chiado, em Lisboa.
A obra, edição de A Esfera dos Livros, será apresentada pelo Professor Francisco Contente Domingues.
O prefácio é da autoria do Prof. Dr. Adolfo Silveira.
A ler...




Ílhavo, 22 de Janeiro de 2013
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AML
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domingo, 30 de dezembro de 2012

«Faina Maior» apresentada em Bruxelas

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Último registo de 2012…

Teve lugar no passado dia 11 de Dezembro de 2013, na Orfeu-Livraria Portuguesa de Bruxelas, a apresentação do livro Faina Maior. A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova, da autoria de Francisco Correia Marques e de Ana Maria Lopes, publicado pela primeira vez em 1996 e reeditado em 2011 pela Associação de Amigos do Museu Marítimo de Ílhavo. A apresentação esteve a cargo do Dr. Fernando José Correia Cardoso, Assessor Jurídico na Direcção-Geral «Assuntos Marítimos e Pescas» da Comissão Europeia.
 
 
A apresentação consistiu em três partes distintas, assim se tendo proporcionado um enriquecimento do âmbito desta iniciativa. Previamente, foram divulgadas algumas notícias relativas ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no quadro do Centro de Investigação e Empreendedorismo do Mar do Município de Ílhavo e do Museu Marítimo desta cidade.
 
Na primeira parte da apresentação, foram apontados os dados biográficos dos Autores, salientados alguns pontos do Prefácio e realçados, entre outros, os seguintes aspectos do conteúdo do livro: a estrutura da obra, com um historial condensado da actividade até aos anos cinquenta do século passado e com elementos muito precisos sobre as operações de pesca e respectivas condições (aparelhamento dos navios e dos espaços a bordo; verificação das condições de navegabilidade; preparativos da pesca; alimentação a bordo; condições atmosféricas; actividade das mulheres; evolução tecnológica dos navios). Trata-se, no seu conjunto, de descrições muito coloridas, eivadas de um estilo realista, com apontamentos muito humanizados e uma observação extremamente perspicaz de todos os elementos materiais e simbólicos. Além disso, pode denotar-se uma escrita relativamente «codificada», pela utilização de expressões próprias da actividade, que transportam o leitor para uma ambiência particular. Daí o grande interesse do Glossário incluído na parte final do livro.

Na segunda parte foram avançados, de forma geral, elementos relativos à caracterização do sector da pesca no contexto da economia nacional e ao lugar que, nesse enquadramento, reveste hoje esta espécie piscícola, o bacalhau, tão apreciada no nosso País, em termos de fluxos comerciais, de processamento industrial, de inovação de imagem e de consumo. E foi também mencionado que muitos outros povos consomem hoje, e em grandes quantidades, esta espécie, para depois se indicar dois grandes factores diferenciadores a nível nacional: o apuramento da técnica de secagem e a extraordinária inventiva, não igualada, da gastronomia.


 
Na terceira parte foi desenvolvida a tese das «três sagas do bacalhau»: a saga do passado, a do presente e a do futuro. Desde logo, poderá afirmar-se que todas são percorridas por um elemento comum e constante constituído pela tripla realidade «produção – transformação/comercialização – consumo». Em relação à primeira, ela fica extremamente bem documentada no livro que foi apresentado. No que diz respeito à segunda, referiram-se os aspectos ligados à complexa teia de negociações internacionais necessárias à obtenção de possibilidades de pesca, bem como as relações que, no âmbito do comércio internacional, determinam os fluxos de importação e de exportação. A terceira passará por uma afirmação crescente das mais-valias a incorporar na qualidade e imagem do produto e pela conquista de nichos de mercado exigentes, associando um produto de alta qualidade ao 'saber-fazer' português. E passará ainda por uma ligação fecunda, que já se vem a verificar, entre as instâncias de investigação científica e o mundo empresarial no sentido de descobrir caminhos de diversificação em termos de utilização do produto em diversas áreas de actividade (nomeadamente a medicina e a biotecnologia).

Depois da apresentação houve um debate que se revelou muito profícuo e esclarecedor, tendo em conta a qualidade das contribuições efectuadas. Finalmente, teve lugar um cocktail com produtos confeccionados à base de bacalhau. Além disso, esteve patente uma exposição bibliográfica. Esta exposição incluiu obras e documentação sobre as diferentes facetas da actividade que incide sobre esta espécie: os aspectos da história económica ligados à captura e à comercialização; o valor nutricional da espécie; o aproveitamento em termos gastronómicos; as iniciativas de valorização da imagem do produto (marketing e merchandising).
 
 
A obra em apreço está à venda nas lojas do Museu Marítimo de Ilhavo, do Museu de Marinha e do navio-museu Gil Eannes, em Viana do Castelo, na Casa Garraio e na Livraria Ferin, em Lisboa e em algumas livrarias de Ílhavo, Aveiro e Gafanha da Nazaré. O número de exemplares ainda disponíveis, contudo, é já muito limitado.
 
Fotos de Friedrich W. Baier


Ílhavo, 30 de Dezembro de 2012
 
AML
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

«Faina Maior», apresentado na Livraria Portuguesa Orfeu, em Bruxelas


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No próximo dia 11, terça-feira, pelas 18 horas e trinta, vai ser apresentado na Livraria Portuguesa Orfeu, em Bruxelas, o livro Faina Maior, a Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova, de Francisco Marques e Ana Maria Lopes.
 
 

Ao valorizar culturalmente a 'grande faina' e ao recriar uma ligação sentimental à actividade marítima, está também a contribuir para estimular a reflexão sobre o almejado 'regresso de Portugal ao Mar', à luz de novas perspectivas. (Mário Ruivo).

O livro foi reeditado em 2011 pela Associação de Amigos do Museu Marítimo de Ílhavo. Será apresentado por Fernando José Correia Cardoso.

Do site da livraria Orfeu, em Bruxelas

Ílhavo, 6 de Dezembro de 2012

AML
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sábado, 24 de novembro de 2012

Milena - 1948 | Memórias de uma campanha


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No ano de 2010, através do Marintimidades, foram-me solicitados alguns dados sobre o lugre Milena por familiares de dois tripulantes que nele fizeram algumas viagens e que, por coincidência, ambos naufragaram com o navio (em 1958) – a saber, Joaquim António da Silva Belo, da Torreira e o avô de um tal Emílio Gomes do Novo. E assim, com singelos episódios, se vai fazendo a história dos lugres, recorrendo a pequenos /grandes «puzzles».
 
Situar o navio, convém sempre – o imponente Milena, lugre de madeira de quatro mastros, foi construído na Florida, E.U.A., em 1918. Foi o ex “Burkeland”, pertencente a J.A. Merritt & Co., Pensacola, Florida, entre 1918 e 1935. Adquirido em Génova pela Indústria Aveirense de Pesca, Lda., (IAP), de Aveiro, iniciou a actividade de pesca em 1936. Durante os anos de 1940 e 1941, o navio efectuou viagens de comércio, tendo regressado à pesca na campanha de 1942.
Acabou por naufragar, por motivo de alquebramento, no Virgin Rocks, Terra Nova, a 7 de Agosto de 1958.
 

O lugre Milena (Reimar)

 
Nele embarcaram os capitães António Augusto Marques, o Capitão Marcela (1936 até 1945), Tude Brito Namorado (1946 a 1948), João Fernandes Matias (1949 até 1951), Carlos Augusto Castro (1952 a 1955) e Joaquim Marques Bela (1956 a 1958).
 
Eis que um soberbo testemunho foi passado ao papel, num singelo mas caloroso livro, editado pelo jornal «O Ilhavense», que espero ler de uma golfada. Basta ser um relato na primeira pessoa, vivido, sentido, suportado, sofrido, experimentado e recordado. O ilhavense Armindo José Bagão da Silva, nascido em 7 de Julho de 1932, emigrado no Canadá desde 1970 até hoje, é o seu Autor.
 
Com 14 anos vai pela primeira vez ao bacalhau, em 1947, actividade que conserva até 1959, de moço de câmara, no Milena, tendo passado pelos navios Terra Nova, Estêvão Gomes, Pedro de Barcelos, Luiza Ribau, Condestável e Vila do Conde, entre os cargos de moço e de ajudante de cozinheiro.


 
Ficha do GANPB

 
Revelou-se bastante atribulada e flagelada aquela que seria mais uma viagem ao bacalhau, a campanha de 1948 do lugre Milena.
 
E entreguemo-nos à memória prodigiosa de Armindo Bagão, jovem autor de 80 anos, com apenas a 4ª classe da época.
 
Aconteceu de tudo um pouco naquela campanha de 1948, desde uma saída quase trágica da barra de Aveiro, até um temporal que atirou borda fora cinco homens, dos quais apenas quatro foram devolvidos ao convés. Uma vida perdida – o Guia, de Setúbal, como tantas… Vamos aguardar a leitura integral, com ansiedade…
 
Da mesma campanha de 48, do mesmo navio, estiveram presentes na apresentação deste livro, na nossa Junta de Freguesia, Júlio Manuel (n. em 1930), irmão do autor, ajudante de motorista, à época, e Luiz Franco Malta (n. em 1922), ajudante de cozinheiro. Também tivemos o prazer da companhia do Sr. Capitão António Morais Pascoal, com a respeitável idade de 89 anos, que foi piloto do Milena, mas nas campanhas de 1946 e 47. Já não entre nós, foi recordado o excelente contramestre Francisco Ramos (1915-2002), de quem tenho gratas recordações.

 
A bordo do Milena, em 1946 ou 47
 
A bordo do Milena, em 1946 ou 47. Quem?
 
Prefaciou o relato, o sobrinho do autor, João Bagão, e apresentou-o, emocionado, o irmão João António Bagão da Silva (n. em 1939), perante uma assistência interessada e calorosa, num ambiente simpático e salutar.
 
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Umas horas mais tarde…
 
Também com uma vida atribulada, aportei onde devia e, enquanto velava e acompanhava, lia sofregamente o registo há pouco chegado às minhas mãos. É uma pérola de um livrinho.
Embevecida, sorvi-o na clareza da sua linguagem técnico-marítima, que entendo e recordo com alguma facilidade, apesar de nunca ter embarcado.
Que prazer! Veio-me à lembrança o corre-corre das manobras apressadas da montagem da primeira Exposição Faina Maior, em que, aí era a «capitoa», bem escorada pelo grande Francisco Marques e pelos marinheiros, pescadores, contramestres, cozinheiros, ainda vivos, desta nossa terra. Vivi-a com PAIXÃO! Nunca o negarei ou não fosse neta do capitão Pisco e bisneta da arraisa Caloa.

Ecoam-me aqui aos ouvidos…umas vozes celestiais – e lá vem aquela com a Faina Maior, o que é que ela sabe?… nunca saiu a barra…Enganam-se. Olhem que saí, saí …
 
Curioso…quase 20 anos – a exposição inaugurou-se no dia 28 de Novembro 1992. Quase, quase coincidiu…Às vezes, acredito nas coincidências.
Perdoem-me alguma incorrecção – foi a pressa, que é inimiga da perfeição. Eu estava sôfrega por postar o blogue.
 
Imagens do Arquivo da Autora do blogue e ficha gentilmente cedida pelo MMI

 
Ílhavo, 24 de Novembro de 2012
Ana Maria Lopes
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