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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Bateira «Zé Gato» - Lagoa de Mira - II

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(Cont.)
 
Como vai sendo nosso hábito, fomos fazer a sessão fotográfica e cavaquear, para ver se algo de interesse se poderia acrescentar ao post. E assim aconteceu.
Segundo a opinião de Senos da Fonseca, in Embarcações que Tiveram Berço na Laguna, p. 99, nota 163, esta pequena bateira será, na realidade, uma réplica muito semelhante, mas de menores dimensões, do «bateirão» denominado «esguicha». Será? Admitamos a hipótese.

  
Esguicha no areal

Ver aqui:
http://www.arquitecturanavallagunar.blogspot.pt/2011/09/cont-embarcacoes-lagunares-bateiras.html
(imagem e medidas da bateira da Barrinha)
 
http://www.arquitecturanavallagunar.blogspot.pt/2011/09/cont-q.html
(referência à «esguicha», no final do texto)

As «esguichas», termo de certo modo pouco conhecido, eram assim denominadas na praia da Trafaria. Segundo a equipa de investigadores de H. M. Seixas, eram provenientes da Ria de Aveiro, donde vinham para trabalhar na embocadura do Tejo. Em 1938, apenas existiam duas «esguichas» na Trafaria, segundo a mesma fonte (Catálogo da Exposição de Homenagem a H. M. Seixas, Museu de Marinha, Lisboa, 1988, p. 209). 
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Imagens – Arquivo da autora
 
Ílhavo, 19 de Fevereiro de 2013
 
AML
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sábado, 16 de fevereiro de 2013

Bateira «Zé Gato» - Lagoa de Mira - I

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Com a vinda inesperada do Amigo Marques da Silva a terras da Gafanha, pelo Carnaval, veio mais uma «prenda» para a colecção que já vai muito encorpada – Barcos/bateiras da ria, em modelos. Com ela, o plano e o pequeno texto:
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Há dias um amigo que conhecia a minha colecção de modelos de bateiras da ria de Aveiro, perguntou-me se eu sabia da existência das que se usam na Lagoa de Mira.
Não sabia.
Na realidade, embora tendo ido várias vezes à praia de Mira, nunca havia prestado atenção às embarcações da lagoa. No meu subconsciente, entendia que deviam ser iguais às que eu conhecia no sul da ria e sendo assim, nunca lhes tinha dado a atenção que agora entendo merecida.
Este amigo informou-me também que naquela altura, tinha visto uma em seco, talvez para ser pintada, e que portanto era boa ocasião para eu ir lá dar uma espreitadela.
 
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Assim fiz e como de costume levei papel, lápis, uma fita métrica e os costumados companheiros que vão tendo paciência para me ajudar.
Realmente lá estava a bateira, num local público e muito acessível, que tornou esta pesquisa uma viagem de recreio. Tratava-se de uma embarcação construída segundo os preceitos utilizados em todas as zonas da ria, com algumas pequenas alterações certamente necessárias à especificidade da sua função de pesca na lagoa.
 
 
Digo função de pesca, por ser essa a utilização que para ela me pareceu apropriada e por ver atracada no canal próximo uma outra igual, ainda com aprestos de pesca a bordo.
A principal diferença que se notava era a falta do coberto de proa. É totalmente aberta de fora a fora, mas conserva os braços do forcado de proa alongados, formando os golfiões.
Tem duas chumaceiras com «escalamões» para remar numa bancada bastante a vante e mais uma do lado de estibordo para ser utilizada numa bancada a meio. Não tem ferragem para leme, nem enora ou carlinga para mastro.
Chamava-se “Zé Gato” e o número de registo era C- 0623.
Fiz o plano para construção do modelo, na escala de 1/25, como vem sendo meu hábito.
 
 
Construí esta bateirinha como de costume com cavername de limoeiro e forros de choupo. Os remos construi-os de tola e procurei pintá-la com cores muito parecidas às originais.

 
 
As medidas reais encontradas são:
 
Comprimento………. 5,85 metros
Boca…………………1,40 metro
Pontal………………. 0,38
Nº de cavernas……….11
Escala………1/25
Caxias, 15.1.2013
A.Marques da Silva
(Cont). 

Ílhavo, 16 de Fevereiro de 2013

AML

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Barco do Mar, pelas mãos de Marques da Silva - 2

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Nesse momento, todo o pessoal da companha do mar saltava a borda, agarrava-se aos remos e, aguardava a onda certa. À ordem do arrais a companha de terra empurrava a grande muleta e com a força das duas juntas de bois ainda ligadas às ferragens de ré, ele escorregava nos últimos rolos e começava a nadar.



Falta-lhe a braveza do nosso mar…mas



A segunda vaga chegava e embatendo nos delgados da proa abria para os lados, deixando que aquele que agora já parecia um grande cisne, sentisse o impulso dos quatro remos e iniciasse a sua viagem. Mesmo só em pensamento ouvia-se “Deus te guie”!



Largadas as guias dos golfiões e as da bica da ré que o tinham mantido perpendicular à linha da costa, o lanço começava, pois o reçoeiro deixado preso pelo chicote a um bordão ferrado na areia, ia escorregando por cima da borda, até que chegasse ao fim.

Era então largada a rede em arco, e começava o regresso, deixando correr a mão da barca. Este segundo cabo, passado para terra, depois do barco ter chegado à praia, iria permitir que a rede fosse apraiada pelas duas mangas que tinham conduzido para o saco o peixe encontrado pelo caminho.



Ao fim de quatro longas horas em que os bois tinham arrastado a grande rede, avistavam-se os calimotes, barris que indicavam as extremidades. Eram eles o sinal que ia apressar homens e bois, para que o saco ao apraiar viesse seguido, sem deixar fugir o peixe ou enroscar-se com o partir do mar na praia. Como recordo toda esta luta!




De regresso (simulação) …


Agora, completado que está o meu plano para a construção do barco do mar “Sto. António”, são estas memórias que me vão fazendo companhia, enquanto preparo os pequenos pedaços de madeira que irão formar o meu barquinho.

As principais medidas que encontrei foram:



Comprimento ………….15,90 m
Boca……………………..4,39 m
Pontal…………………....1,25 m
Número de cavernas………....26


Respeitando todos os pormenores de construção, utilizei madeira de tola para o fundo, choupo para os costados, limoeiro para as cavernas, rodas de proa e popa e para os remos apliquei uma vez mais a tola.

Nas varas e nos rolos, usei ramos de ameixieira, nas ferragens, arame de cobre e para os cabos da rede, fio de linho.

Procurei fazer a pintura nas cores o mais possível semelhantes à do velho Sto. António e, no final, resolvi aparelhá-lo para a pesca como deve ser.




Reprodução do cromatismo…


Caxias, 20 de Março de 2012
António Marques da Silva



Fotografias – Arquivo pessoal da Autora

Ílhavo, 18 de Maio de 2012

Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 19 de março de 2012

Moliceiros - A Memória da Ria - 3

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E que tal, lembrar, hoje, um pouco, a decoração do moliceiro?

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É um barco garrido, polícromo, desconcertante e único. Quase de uma beleza comovente.

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Barcos há ao longo do nosso litoral que ostentam ou por embelezamento ou superstição (invocação ou magia) alguns signos pictóricos interessantes: pinturas de olhos, cruzes, signos-saimões, emblemas, pequenas figuras masculinas e femininas, etc.

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Mas os moliceiros com as suas quatro iluminuras de uma diversificação estonteante fizeram da nossa Ria uma galeria de arte fluida, em que todos estes elementos estéticos foram mergulhando.
Onde está ela?
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É destes barcos magníficos, os moliceiros, que este livro se ocupa.


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Com o andar dos tempos em que apenas se insinuavam, algumas brejeirices, que flutuaram na nossa laguna, foram-se apimentando, às escâncaras.
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Vejamos e levantemos o véu, sorrindo.














Fotos do Arquivo da autora

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Ílhavo, 19. 3. 2012

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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O Matola - 2

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Digo ser este desenho que efectuei o possível plano de formas do barco matola, porque na verdade foi o resultado da pesquisa que se efectuou e que nos parece a mais verdadeira. É este pois o nosso matola.



O modelo, à borda de água



Concluído o plano, dei início à construção do modelo na escala de 1/25 como é meu costume, e à medida que o barquinho aparecia, ia saltando à vista como era elegante a sua imagem.



Em situação de trabalho…



Pensei então, como tinham razão as pessoas de Mira que deles se recordam com tanta estima e saudade.
Os seus barcos, não sendo vaidosos nas cores, eram correctos de formas e bons para o trabalho que executavam devendo ser sempre recordados com o respeito que merecem.




Pormenor do interior…



Na construção do modelo deste moliceiro, como habitualmente, utilizei madeira de tola para o fundo, choupo nos costados e limoeiro no cavername, rodas de proa e de popa, bancadas e porta do leme. Fiz o mastro, a verga e os cabos dos ancinhos de ramos de ameixeira, a vela, de pano de algodão e as ferragens e fateixa, com arame de cobre. Pintei todo o costado e dragas com tinta preta sem brilho e apliquei sobre ela serradura.






Como dimensões principais temos:
 

Comprimento………. 13,50 metros

Boca………………..... 2,50 metros

Pontal……………… .. 0,45 

Número de cavernas      21



António Marques da Silva

Caxias, 24.12. 2011

Escala 1/25


Fotos – do arquivo da autora do blog 


Ílhavo, 26 de Janeiro de 2012


Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Matola - 1

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Era vulgarmente denominado matola, o barco moliceiro construído e usado na parte sul da Ria de Aveiro.
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No livro Moliceiros – A Memória da Ria, de Ana Maria Lopes, na pág. 63, pode ler-se que estes barcos eram construídos nos estaleiros dos Colaços de Portomar e de António Pimentel Loureiro e seu irmão João Pimentel Loureiro, por alcunha o Gadelha, nascido em 1912 no Seixo de Mira.
Hoje já não constrói, mas um seu filho que trabalhava com ele, Evangelista Santos Loureiro, nascido em 1944, estabelecido como construtor naval no Seixo de Mira, dedica-se sobretudo a bateiras e chatas para pesca.



Na traseira da Vista Alegre


Embora fosse possível estes moliceiros exercerem a sua actividade em qualquer zona da ria, era mais comum vê-los à vara ou à vela, arrastando os seus grandes ancinhos na Cale de Mira, desde as praias da Marinha Velha, Praião e Gramata, passando pela Costa Nova, Vagueira, Areão e Seixo de Mira.


Restos de um dos últimos matolas



Sendo muito parecidos com os moliceiros da Murtosa, saltava logo à vista uma principal diferença, por não terem as caras da proa e da popa decoradas.
Eram totalmente breados, tornando-se assim muito mais tristonhos aos olhos de quem os observava. Contudo na sua missão, eram tão capazes como os do norte e como eles bons de vela sendo muito frequente a competição quando seguiam nas suas grandes viagens para descarregar nas folsas de Vagos.
Além da cor, notava-se alguma diferença no lançamento da bica de proa mais alteada e na volta do papo que parecia um pouco mais alargada.
Pelas dimensões de registo que recolhemos, verifica-se que tinham normalmente menos um metro e meio de comprimento e quinze centímetros de boca. De pontal eram iguais aos seus irmãos do norte.
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Ao moliço, sem data


Para desenhar o seu possível plano de formas, utilizei além destas medidas, o maior número de fotografias que com a ajuda da boa amiga Ana Maria Lopes me foi possível observar. Além destes elementos, foi a nossa memória visual que nos deu a melhor ajuda para este trabalho.

(Cont).
Ílhavo, 16 de Janeiro de 2012

Fotos – do arquivo da autora do blog
Ana Maria Lopes
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sábado, 5 de novembro de 2011

O Barco Mercantel ou Saleiro - 2

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À medida que o barquinho ia crescendo, a minha caixa de memórias deixava escapar lembranças que nem eu sabia que lá estavam guardadas.
 
Primeiro apareceram os barcos da passagem da Bestida para a praia da Torreira. Como os recordava grandes e altos que até me faziam pôr em bicos de pés a espreitar por cima das falcas para ver correr a água! Depois vieram as viagens à Senhora das Areias em São Jacinto, nos barcos do Sr. Henrique Ramos, com música, cantadores e muitas cestas com merendas.
 
Entretanto, também lembrava os que chegavam cheios de cacos de telhas e de tijolos das fábricas de Aveiro, para descarregarem ao longo das secas da Cale da Vila desde os estaleiros até ao esteiro do Oudinot. Foram eles que pavimentaram o que seria a marginal limitada pela muralha que chegou depois, feita com pedras que os mercantéis igualmente iam buscar algures lá para o norte.


Mas, havia ainda o torrão e o saibro com que os lavradores da Marinha Velha e da Cambeia fizeram dos caminhos de carro as estradinhas, que hoje são algumas das ruas da cidade da Gafanha da Nazaré.

Eram igualmente estes barcos que os descarregavam ao longo da borda nos locais das margens da Ria onde podiam chegar os carros de bois.

Para todos os lados se avistavam os mercantéis, incansáveis trabalhadores da Ria. À vara, à vela e até à sirga, acarretavam tudo o que era necessário à vida dos povos que cercavam este grande espelho de água e que para seu uso diário os idealizaram e construíram.


À vela, à sirga ou à vara…


Esguios e fortes, mas ágeis e bons de vela, quando governados pelas mãos práticas dos seus arrais, sulcavam não só os esteiros das salinas, mas ainda os estreitos canais da cidade.
 
Sem dúvida, era no trabalho das marinhas, carregando o sal que lhes deu o nome, que melhor se identificavam e se embelezavam com aquelas cargas cintilantes.



Postal – Ao serviço do sal…



Nasceram com esta missão específica e foi durante a faina da descarga do sal, feito pelas salineiras no canal de S. Roque, que os olhos perspicazes dos artistas os imortalizaram em telas por todos conhecidas.


Óleo de Cândido Teles


Foram estas memórias que fui revivendo durante as horas da construção do modelo que me fizeram ver como era notável a dignidade que transparecia desta embarcação. Não era vistoso o seu aspecto, mas irradiava segurança, força e altivez.

Na verdade foi um senhor da nossa Ria.

As suas medidas principais eram:

Comprimento……………..18.00 metros
Boca…………………....…..03.28 m
Pontal……………………...00.73 m
Escala………………………1/25

30.9.2011

António Marques da Silva


Imagens – Da autora do blog

Ílhavo, 5 de Novembro de 2011

Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Barco Mercantel ou Saleiro - 1

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Mais uma vez, aproveitando a onda dos modelos, tentei o amigo MS a miniaturizar a maior embarcação da laguna, e, eventualmente, uma das mais antigas (das maiores), que ainda faltava na sua colecção.

Acedeu com gosto à minha proposta e aproveitou, para base de trabalho, o barco mercantel, construído pelo Mestre António Esteves de Pardilhó, em 2001, que a Sala da Ria do MMI exibe.
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Tirou minuciosamente os seus apontamentos, por meados de Maio, estando pronto de casco, em bruto, em fins de Agosto. Pintura e vela, concluiu-as até agora, meados de Outubro.
E fotografá-lo tão dignamente como merecia? Sem estúdios, nem condições profissionais, nada como ir ao terreno e dar-lhe a provar o sabor da água da Ria.

Aproado na borda, espera a carga


Lá fomos até à Praia dos Tesos, no Jardim Oudinot, com todo o cuidado, fazer os «clichés» que nos aprouve. Abicou à borda e a suave aragem outonal encheu-lhe o pano, a nosso agrado.
E o Marintimidades não podia deixar de acolher este senhor da Ria.

Refere Marques da Silva:

Completada a pesquisa que efectuei acerca das bateiras da Ria de Aveiro, entendi que esse trabalho ficaria valorizado se, para termo de comparação de dimensões e formas, efectuasse um levantamento rigoroso do barco mercantel ou saleiro.

Aproveitando a oportunidade de ter na sala da Ria do Museu Marítimo de Ílhavo um magnífico exemplar destes barcos, recolhi em óptimas condições todas as medidas e pormenores de construção, necessários ao trabalho que me propunha executar.
Tal como fiz para as bateiras, desenhei com rigor um plano de formas do casco e um plano vélico, de modo a ter possibilidade de construir um modelo completo, seguindo as regras usadas pelos construtores, aplicando a escala de 1/25, como tinha feito para as anteriores.

Utilizei balsa para o fundo e madeira de choupo para os costados. Para o cavername, roda de proa, cadaste e bancadas, serrei ramos de limoeiro. No mastro, verga e varas, apliquei ramos de ameixieira. Na vela usei pano de algodão e nas ferragens do leme e na fateixa, arame de cobre.
Como acabamento apliquei bondex no costado e tinta branca nas caras de vante e de ré. A cobertura da casa da proa, a draga, a cinta e a porta do leme, pintei-as com tinta preta sem brilho e espalhei serradura fina nos locais adequados, simulando o que era costume fazer para dar aderência aos pés do barqueiro quando trabalhava com as varas.

Pormenor do interior da proa


(Cont.)

Ílhavo, 27 de Outubro de 2011
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A famigerada bateira erveira de Canelas... no MMI - 2

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(Cont.)

E, então, a embarcação que agora relembro ao Sr. Manuel Pires, que ainda fotografei semi-abandonada no esteiro de Canelas (anos 80)?



Esta seria mais a verdadeira bateira erveira de Canelas, já sabia, aceito. Mais barata, menor, utilizada exactamente para os mesmos fins: comprimento, 9, 40 metros 2 metros de boca e 14 cavernas, não contando com as dos golfiões duplos. Preparada com traste, para aplicação de mastro. O seu acesso às medidas, á época, não foi fácil.

Popa da bateira erveira e reflexo
(Anos 80)

As pessoas com mais posses, mais abastadas, preferiam mandar construir a primeira de que falámos, chamando-lhe barco, para distinguir.
Há pontos que lhes são comuns e de que não abdicavam: um par de golfiões à proa e outro à ré, bordo com cinta e draga, embreamento a negro, uso de casca de arroz a polvilhar os locais escorregadios, não sendo as pintas decorativas, obrigatórias.

Sondando o Mestre Pires relativamente a um convívio com os construtores de matolas, renegou-o, sul é sul e norte é norte, da Ria – revelou. Desconhecia onde o pai teria ido buscar os moldes de proa e ré, sobretudo, da famigerada bateira erveira de Canelas.
Tê-los-ia, muito mais idênticos, ali mais à mão, no estaleiros dos Mestres Garridos. Se não é bateira a nomenclatura mais correcta, mas poderá ser barco, matola é que nunca. Teriam de me convencer muito bem e, hoje, já não é fácil. Onde tem o matola, a elegância desta proa, além das outras diferenças já apontadas?
Pareceres...
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Sempre ouvi falar só num tipo de matolas, do que fui vendo há dezenas de anos pela Ria, e do que lia nos livros de registos da Capitania, que consultei na época. Eram-lhe atribuídas as seguintes medidas – comprimento, 13, 50 metros, 2, 50 m de boca, e de pontal 0, 45 m. E já mo confirmara o mestre do Seixo, ainda nos anos 80, conhecido carinhosamente por Mestre João Gadelha, pai do actual Evangelista Loureiro (também conhecido por Gadelha).

Este trabalho que agora reconheci em Canelas é para uma representação turística e sabemos que aí os barcos perdem alguma dignidade. Não vai ter mastro, nem vela, embora tenha  coicia, traste e uma minúscula enora. Não vai ter leme, nem fêmeas do leme tem, e a pá da borda não corresponde à traça correcta, pois não está ajustada para navegar.
Mantém as cavernas de arrancas de carvalho, como todos os barcos de Canelas, mais resistentes às águas doces e salobras da região.
Não teria sido mau que tivesse concluído que a embarcação em causa era um matola, mas não concluí. Serei livre de assim pensar, perante os diversos contextos por que fui passando.
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Foi frutuosa a visita ao galpão polivalente e improvisado de Manuel Pires: tinha de tudo que o tempo ainda não apagou: chão de terreiro, próprio para enterrar as estacas, teias de aranha pendentes dos travejamentos superiores, pipas de vinho, cabras à solta, moldes, paus de pontos, restos de madeira de pinho e de arrancas de carvalho. Fiquei razoavelmente elucidada, tendo gostado da clareza explicativa de Manuel Pires.

Imagens – Do arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 12 de Outubro de 2011
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Embarcações que Tiveram Berço na Laguna, no CVCN

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Amanhã, dia 18 de Agosto, em que o CVCN completa o seu trigésimo Aniversário, é apresentado o mais recente livro de Senos da Fonseca, Embarcações que Tiveram Berço na Laguna.

Eis o CONVITE.



Não se arrependerá, se aparecer a dar-nos o prazer da sua companhia, num encontro de Amigos.
 
Costa Nova, 17 de Agosto de 2011
 
Ana Maria Lopes
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terça-feira, 19 de julho de 2011

Retratos do litoral português - 3

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Nazaré. Anos 60


Homens e crianças varam um barco do candil, ao cair da tarde; mais ao longe, homens e mulheres de crianças ao colo, alam a característica rede da neta.

Era uma Nazaré pobre, mas autêntica. Alavam-se redes e varavam-se embarcações de dia e de noite.
O movimento era ininterrupto.

Esta Nazaré era um alforge de imagens para consagrados fotógrafos estrangeiros, onde colhiam “clichés” que já não encontravam noutra parte do mundo.


Homens e mulheres empurram o barco para o mar


Escreve Álvaro Garrido, em folheto sobre a exposição Fora de Bordo, patente no MMI, espécie de lugar de síntese do ’mar português’, a Nazaré foi o laboratório favorito dos fotógrafos que vieram e voltaram, transmitindo a outros, com certeza, que certas imagens só se podiam ali fazer. Nos anos cinquenta e sessenta, as enseadas e praias de pescadores portuguesas eram lugares de vida e de morte, de conflito e de sobrevivência, espaços de fronteira habitados por tipos humanos que a modernização das pescarias já fizera desaparecer noutras paragens do ‘mundo desenvolvido’. Daí, talvez, a representação visual de sentido exótico que releva de várias fotografias, o privilégio atribuído às mulheres, aos velhos e crianças que em diversas se nota e, noutras ainda, a construção de imagens de tipo naturalista que nos mostram o mar como cenário e as suas gentes como personagens típicas de um certo imaginário etnográfico.

Também de outros pontos do nosso litoral vamos passar a apresentar imagens da mesma época, que consideramos dignas de divulgação.

 
Imagens – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 19 de Julho de 2011

Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Concurso de Painéis - 2011

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Pelo que fui sabendo, nunca houve um Concurso de Painéis (a 3 de Julho) tão simples de advogar – apenas cinco (?) barcos moliceiros têm pinturas novas, a saber: o «PARDILHOENSE», o «ZÉ RITO», o «A. RENDEIRO», «ANTÓNIO GARETE» e «DOS NETOS», três dos primeiros painéis, castiços e apelativos “quadros”, da paleta do pintor Zé Manel, e os dois últimos, com um ar mais naïf e menos elaborado, produto de familiares dos proprietários.

Poderia haver, eventualmente, mais um ou outro que eu já conhecesse do último S. Paio, mas que, para Aveiro, poderia ser novo.

Relativamente à classificação do Concurso, de que fez parte um júri rotineiro, mas conhecedor, ficou em 1º lugar, o «ZÉ RITO», em 2º, o «A. RENDEIRO», em 3º, o «JOSÉ MIGUEL», em 4º, o «PARDILHOENSE», reconstruído este ano com enlevo, cujo proprietário é o Miguel Matias. Em 5ºlugar, o «INOBADOR», em 6º, o «DOROTEIA VERÓNICA» e em 7º, o «DOS NETOS».

Eis alguns painéis premiados:

«NÃO ME ESTRAGUES A INTERRADÉLA!...»


«VOU-TE PÔR NA LINHA QUERIDO!...»


«ABRE-ME O TEU LIVRO...»


«FERNANDO EM PESSOA!...»


Predominância dos painéis maliciosos? Talvez não. Para a próxima, divulgarei mais alguns de outras temáticas.
Mais uma regata, mais um concurso. Será difícil, que a próxima, a do Emigrante, no Bico da Murtosa, seja vivida com mais fervor. A ver vamos! Faço votos.

Fotografias – Arquivo pessoal da Autora

Ílhavo, 8 de Julho de 2011

Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Retratos do litoral português

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Sempre que vou ao MMI, dou uma vista de olhos pela exposição de fotografia “Fora de Bordo – olhares sobre o Mar Português”, na perspectiva de alguns fotógrafos estrangeiros consagrados.

Porque também tive o privilégio, se assim se pode chamar, de ter contactado com o nosso litoral, pelos anos 60, em trabalhos de pesquisa, sinto-me identificada com as imagens, através de cenas que me marcaram e que observei de perto.

E que tal, para variar, ir divulgando alguns retratos do nosso mar, nessa época, que nem todos tiveram a oportunidade de reconhecer?


Nazarenas, na praia, esperam os seus homens


Enquanto nazarenas, de negro trajadas, esperam os seus homens, na praia, já uma companha prepara o barco do candil, para sair para o mar.

O remo, na Nazaré, era muito característico, diferente dos que estamos habituados a ver. Formado por vara roliça, sobre a extremidade da qual se sobrepõe a , encaixa nas enchamas, através de cágado triangular.

Neste caso, o remo ao alto, à popa, significa que a embarcação já tem lance marcado, para a vez seguinte.
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Foto - Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 8 de Junho de 2011

Ana Maria Lopes
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sábado, 23 de abril de 2011

Bateira de Recreio «NAMY» - 3

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Foi esta a vida da minha primeira NAMY, aquela com que tentei o Amigo Marques da Silva a recriar em miniatura, com as mãos que já lhe conhecemos. Parece uma jóia.

Modelo visto de cima

Escrito de Marques da Silva:

Quando se visita a Sala da Ria do Museu Marítimo de Ílhavo somos surpreendidos pela presença de uma airosa e bela bateirinha.

O seu delicado aspecto causa-nos surpresa, porque as bateiras da ria, mesmo as mais pequenas, sendo de construção aprimorada, são sempre de estrutura mais resistente.

Esta, dado o fim a que se destinava, foi construída com muito gosto e atenção. Aplicaram madeira leve e cavernas embraçadas (ou embaraçadas), que permitem menos espessura de braços. Encontrámos este tipo de construção na bateira dos cagaréus, que sendo igualmente pequena e leve, era utilizada no transporte do pessoal das marinhas.

A bateirinha de Recreio “NAMY”, registada com o número A 7892. R, utilizada para passeio de veraneantes da praia da Costa Nova tinha além das bancadas de remar e do mastro, mais um assento na casa de ré, com antepara de encosto.


Pormenor da proa


Usava quatro remos leves em quatro forquetas, aplicadas nos bronzes da borda.
Para maior alindamento, o construtor substituiu o xarolo do leme, por uma cruzeta em meia-lua, com furos nos extremos para os gualdropes.

Na construção do modelo desta bateira, apliquei tola no fundo, choupo nos costados, limoeiro nas cavernas, nas rodas da proa, da popa e nas bancadas. Fiz os remos de tola, a âncora, as forquetas e a ferragem do leme em arame de cobre.

Procurei concluir a pintura com tintas idênticas às cores originais.

Dimensões encontradas:
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Comprimento ------- 4,90
Boca -------------------1,15
Pontal -----------------0.33
Nº de cavernas ------- 22

António Marques da Silva

30. 12. 2010

Fotografias – Arquivo pessoal da Autora

Ílhavo, 23 de Abril de 2011

Ana Maria Lopes
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terça-feira, 19 de abril de 2011

Bateira de Recreio «NAMY» - 2

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Em 1943, nasci eu e fizeram grande desfeita à dona da embarcação. O meu Avô rebaptizara a bateirinha com o nome da neta – NAMY (Ana Maria), que não pegou à nova proprietária.

Em documento oficial comprovativo do seu cancelamento, por más condições de segurança, em 10.7.1985, tive conhecimento exacto das suas dimensões – comprimento, 4.90 metros, boca, 1.14 m. e pontal, 0.30 m – e que tinha sido adquirida na Secção náutica do Clube dos Galitos, por 200$00.
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Em 22 de Setembro de 1946, mais uma vez, foi concorrente das Regatas da Senhora da Saúde, na 3ª corrida das caçadeiras, com Maria Isabel Duarte Silva como timoneira e Ruy Peixe, aos remos, segundo o jornal da nossa terra (20. 9. 1946).


Vaz Velho, Alcina Cachim e Manuela Vilão


E assim começámos como as moçoilas do tempo da minha Mãe a usufruir da ria de um forma directa e saudável, como hoje não é possível.

Algumas inovações: passeios até à Biarritz com aproveitamento de marés, banhocas reconfortantes, mergulhos da proa, travessias até à Bruxa a nado, com apoio da bateira ou a remo e tudo o mais quanto a imaginação nos despertasse fazer.

O Zé Maria Vilão e eu

No parecer de Alberto Souto, pelos anos 30, estas aprimoradas bateiras eram encomendadas pelos capitães dos antigos lugres de Ílhavo para que os filhos pudessem usufruir dos prazeres da ria, quando, em férias, na Costa Nova.
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Era eu quem a amoirava com frequência, enfiando a argola de ferro no colorido moirão frente à casa de Verão. Tempos em que se recolhia, a nado!!!!!


Em segundo plano, a NAMY amoirada – Postal dos anos 60


Já casada e mãe do primeiro filhote, saboreámos os três os prazeres de uma maré viva, cheiinha, transbordante, reflectida, em que os roliços remos de forqueta cortavam a água espelhada.

(Cont.)

Ílhavo, 19 de Abril de 2011

Ana Maria Lopes
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domingo, 10 de abril de 2011

Bateira de recreio «NAMY» - 1

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As «NAMY» da minha vida…

São hoje objectos de museu as minhas bateiras.

Cada uma com a sua história e a sua época. Estão, presentemente, em exibição, na Sala da Ria do MMI.

A que época remontar?

A primeira, graciosa, apitorrada, branquinha e verde, a NAMY, A 7892. H existe pelo menos desde 1935, com 76 anos e pertencera, primeiro, a minha Mãe, com o nome de NENÉ. Tenho muita pena de nunca me ter vindo parar às mãos nenhuma foto dela com esse nome, mas sei bem que assim foi.


NAMY, na Sala da Ria do MMI

Foi na NENÉ que as meninas dos anos trinta, na Costa Nova, passaram a sua meninice na Ria, em competições de remo, em são convívio, no então Bico, nas coroas, na apanha de bivalves, à pesca de recreio, já que as espécies piscícolas abundavam, então, nessa época: grossas enguias, belas e espalmadas solhas, robalinho prateado, alguma tainha distraída e, frequentemente polvos de olhar fixo e aspecto repugnante. Era assim a nossa ria.
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Notícia escrita,  fidedigna, da sua existência, obtenho-a através de O Ilhavense de 15 de Setembro de 1935, em que aparece como participante, na modalidade caçadeiras, em grandiosa regata então efectuada na Costa Nova (Costa-Nova-do-Prado, 200 Anos de História e Tradição, de SF., p. 131), no dia 15 de Setembro de 1935.
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Lemava- a D. Felicidade Mano e era remador Mário Graça.
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E todos os longos verões, a NENÉ ia para a Costa, enquanto passava os invernos bem acolhida e vigiada no travejamento dos armazéns da carpintaria da seca, onde se construíam e reparavam os dóris, sob a vigilância do sr. Zé Vicente.

(Cont.)

Ílhavo, 10 de Abril de 2011

Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A bateira erveira de Canelas – III

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Para levar os donos ao S. Paio e antes da vinda para o museu, em fins de Agosto do mesmo ano, sofreu a sua última amanhação, junto ao esteiro de Canelas. Aqui está o Ti Arnaldo, a dar-lhe os últimos retoques de breu.


A última amanhação – 25.8.1994


A 5 de Outubro, fez a última viagem pela Ria, de Canelas, até ao esteiro da Malhada. Para nós, os Amigos Francisco Marques, Aníbal Paião e para mim, foi um feriado em cheio, a seguir-lhe a viagem desde que foi visível, a partir do Cais dos Bacalhoeiros e a recebê-la de braços abertos.

A recepção, no esteiro da Malhada…


Na colunata do último edifício do Museu, aí foi esperando que fosse incorporada no espólio da anterior Sala da Ria, que abriu as suas portas a 25 de Novembro de 1995.

E lá continua, agora no actual edifício, para quem a quiser visitar.


Ecos de um passado completamente morto…

Se não tivesse sido poupada à lei da extinção que a perseguia, teria acabado pelos esteiros de Canelas e Salreu, sem vestígios de existência, como tantas outras (última imagem) que por lá havia, já num completo estado de degradação.
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Fotografias – Arquivo pessoal da autora


Ílhavo, 21 de Janeiro de 2011

Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A bateira erveira de Canelas - II

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Servia para mudar gado ou carrear estrume, transportava pessoal, ervas e apanhava moliço.
Embarcação de trabalho, chegou a deslocar-se até à feira dos treze, na Vista Alegre, ao canal de S. Roque para compra de sal e não faltava aos arraiais das festas setembrinas. Podia ter ou não leme, embora para ele estivesse preparada, falcas e vela. Com estes apetrechos se deslocava anualmente à romaria do S. Paio, servindo de abrigo aos seus donos, e proporcionando-lhes uns dias de reinação e de folguedo.

Bateira erveira no S. Paio de 1993


O que sempre tinha e que a distinguia das demais bateiras, eram quatro golfiões, bem salientes, dois à proa e dois à ré. Nos esteiros acanhados da região e, sobretudo, quando transportava gado, era deslocada, por terra, da margem, por duas pessoas, com o auxílio de duas varas, que “beiçavam” firmemente nos golfiões.

Em pesquisas, nos anos 80, pela ria, e sempre sequiosa de informações, soube que ainda poderia conhecer o mestre-construtor destas embarcações. Lá fui até casa dele em Canelas, o ti Arnaldo Domingues Rodrigues Pires (1921 – 1997), que, amavelmente, me mostrou o local, onde construía, à época, pequenas caçadeiras e os antigos moldes da última bateira erveira de Salreu, por ele construída em 1964. Orgulhava-se da obra.

Também tinha trabalhado com os Mestres Luciano e Manuel Maria Garrido, durante 31 anos, sobre os quais me confessou não serem dos mais hábeis na construção de barcos moliceiros.

Em Outubro de 1994, a referida embarcação foi adquirida pela Associação dos Amigos do Museu ao próprio dono, Sr. José Luciano de Andrade, conhecido pelo Ti Zé da Fonte.

Foi o próprio Ti Arnaldo quem ofereceu ao Museu os seus moldes, que lhe serviam de suporte à construção e que podem aí ser identificados com as respectivas partes da embarcação.

Antiga Sala da Ria – 1995

(Cont.)

Ílhavo, 14 de Janeiro de 2011

Ana Maria Lopes
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