Mostrar mensagens com a etiqueta Embarcações tradicionais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Embarcações tradicionais. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 6 de junho de 2016

VIII Encontro de Embarcações Tradicionais em Esposende

-
Cheguei há pouco de Esposende. Cansada, mas de alma cheia. Dois dias diferentes, a registar. O meu grande agradecimento à Amiga Ivone Magalhães, Directora do Museu Municipal e à Conceição, pela simpatia e acolhimento com que me receberam. Dia de festa em Esposende… Dia do rio e mar e de sua comunidade piscatória.
Ontem, para além de uma actividade interessante, no Museu Marítimo, passei a tarde na rampa junto à lota, à beira-rio, a tentar identificar as embarcações tradicionais que participaram no VIII Encontro de Embarcações Tradicionais em Esposende e a saborear-lhes a beleza das suas manobras.
Algumas embarcações já me eram bem familiares, como a catraia de Esposende, réplica navegante construída em 1993, a Sta. Maria dos Anjos, algumas «dornas galegas» e a lancha de fragata ou o catraio tejano, bem bonito e centenário, trasladado por gosto do proprietário, do Tejo para a laguna de Aveiro, de seu nome Costa Nova.
Catraia Sta. Maria dos Anjos

O catraio tejano Costa Nova
As tais memórias tradicionais marítimas de Esposende, que são relevadas pelo carinho e genica de alguns, iam-se sucedendo e preparando, ao mesmo tempo. Ao fim da tarde, algumas pescadeiras enfeitavam devotamente os andores que participariam na procissão fluvial de hoje e no lançamento de uma coroa de flores, ao mar, após a difícil saída da barra, em memória dos homens do mar falecidos em acidentes marítimos.
Na lota, algumas das divindades incorporadas
Algumas «estórias», tradições, memórias, lendas foram recordadas, enquanto transpúnhamos a fé e o carinho com que enfeitavam os andores, com as respectivas divindades. Pescador e fé caminham de braço dado – Nossa Senhora da Barca do Largo, Nossa Senhora da Graça, S. Pedro, a Senhora da Bonança (freguesia de Fão), a Senhora da Guia, a Senhora de Fátima, e o, para mim, conhecido, mas nunca visto, S. Bartolomeu do Mar.
-
O dia de hoje, com a dita procissão fluvial, num clima ameno, calmo e morno convidava ao passeio. Sem contar, mas sem hesitar, aceitei o convite de última hora para embarcar. Todo o desfile foi magnífico, neste caso, em catraias modernizadas, ditas «voadoras», a motor. Embandeiradas em arco com bandeirolas multicolores, desfraldavam à pouca aragem a beleza e o significado da bandeira nacional. Cenário alegre, garrido, penetrante e envolvente. A procissão teve dois momentos altos: um, o do encontro, em que as embarcações se dirigem mais para montante, para receber a Senhora da Bonança (da freguesia de Fão), que vem incorporar-se no cortejo.
A incorporação da Senhora da Bonança
O outro, em navegação a jusante, em direcção à barra, o lançamento à água da simbólica coroa de flores, em homenagem aos pescadores mortos em acidentes marítimos. Um misto de respeito e temor pela ondulação do próprio mar e do entrecruzar da agitação dos motores das embarcações, era o que sentíamos a bordo.
No mar, a coroa de flores
Chamou-me a atenção um barco com quatro fotografias de rostos – explicou-me a Ivone que era um barco de memória fúnebre, o Flecha, ao recordar os quatro últimos homens do mar, que faleceram de uma mesma família – a família Nibre.
Barco de memória fúnebre
De regresso à lota, donde saímos, parece que soube a pouco. Belo, empolgante e salutar!
De regresso do rio
Duas bonitas proas de embarcações com diferentes origens, saudosas da participação, já se sentem isoladas.
Uma portuguesa e uma galega

Fotografias da autora do Blogue
Ílhavo, 5 de Junho de 2016
Ana Maria Lopes

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Contrastes na Ria

-
Duas imagens de que gosto. São o oposto.
-
Poder-lhe-íamos chamar: Contrastes. Qual delas a mais bonita?
 
É dia…

É noite…

Evocam-nos vocábulos opostos. Jogos de palavras. Por detrás da antinomia sempre presente, o bucolismo da paisagem lagunar. De uma paisagem lagunar que já foi.
-
Na primeira imagem, o fim do peso da rotina de mais uma emposta, as velas atadas em fim de tarde, projectada no azul celestial, aqui e ali sujo por uns fiapos de algodão, a servirem de fundo à irmandade colectiva dos amanhadores da ria. É dia.
-
Na segunda, um prateado sobre o azul-cobalto da ria, originando sombras negras como lava, pintadas no silêncio do recolhimento de um olhar sempre amanhecido.
Jogos de luz que se entretêm a colar tatuagens sensuais sobre o corpo da laguna, em ensaios cenográficos de volúpia deslumbrante, que a emoção colhe por inteiro, sôfrega, ainda antes da compreensão os tactear à superfície das águas.
E ali em qualquer lado, em qualquer parte escondidas, as galhetas, em bandos, à procura de poiso para dormir, em lamento, piando em baixos e agoirentos dizeres, até que a luz agonize e sejam horas do sono. É noite.
-
A ria dorme para serenamente embalar o moliceiro no cochilo.
O mar, não.
O mar não tem sossego. O mar resmunga sempre, espreguiçando-se pela areia branca.  
-
As duas imagens são da nossa ria, em situações opostas. A superfície lagunar tem destas coisas: noite/dia, claro/escuro, agitação/descanso, velas brancas, mastros negros. Apreciem-nas.
---
Contrastes também do dia e noite de hoje: o bulício, o rebuliço, o alvoroço diurnos dão lugar ao sossego, à paz e à calma nocturnas.
-
Repesquei estas palavras de um post que tinha colocado no dealbar do Marintimindades, com algumas alterações. Hoje, já lá vão sete anos, ou é de mim, ou da ria. Sinto tudo murcho, muito despido e desmazelado, apesar de ser lua-cheia e maré-viva. Resta-me o horizonte, nos seus cambiantes volúveis, ao longo das diversas horas do dia. E, quando estou em silêncio, como agora, com o tal dito horizonte por fundo, o meu trabalho preferido é brincar nostalgicamente com as palavras, trabalhando-as, mudando-as, acoplando-as, contrastando-as. Contrastes em mim e na ria.
-
Fotografias – Arquivo pessoal da autora (anos 80)
-
Costa Nova, 3 de Agosto de 2015
-
Ana Maria Lopes
-

sábado, 27 de dezembro de 2014

O grande carregador da Ria

-
Que mais dizer de novo que ainda não tenha sido estudado ou publicado sobre o barco mercantel, acerca da sua função como carregador do sal – saleiro –?
Respiguemos, aqui e ali, o que diversos autores transmitiram, nomeadamente Senos da Fonseca, Inês Amorim e outros, sobre esta função do mercantel, o grande senhor da ria.
Que está extinto, é uma realidade e que é uma pena, também.
 
Como manter a sua memória? Divulgando imagens? É uma hipótese. Exibi-lo, como barco de museu? Outra. Nenhuma lhe tira a saudade da sua navegação e presença na ria, em labores diversos.
Eram-me familiares, quando na adolescência frequentava bastante o cais da Gafanha da Nazaré.
 
Fotografei-os, sem ter a noção que registava futuras relíquias. 

Gafanha da Nazaré. 1963. AML
-
Pessoa amiga cedeu-me alguns registos do último mercantel construído pelo Mestre Joaquim Raimundo, da Murtosa, em 1959, em dia festivo de bota-abaixo.
-
Um dos últimos mercantéis. 1959. PHC

Ainda para serviço efectivo, foi construído em 1973, o último mercantel, por Mestre Lavoura, afamado construtor de Pardilhó.
Como peça de museu, o MMI acolheu um, para exibição, em 2001, construído por Mestre Esteves, também de Pardilhó. E lá continua…
Muitas serventias…
O grande carregador lagunar teve três funções essenciais:
- Na passage, sendo mais conhecido, pela designação de barca.
- No carreto – de variadíssimos fretes – o junco, o caulino, a madeira, peixe, fruta, cereais, animais, artigos de artesãos locais, etc.
- No transporte específico do sal – o saleiro.
-
O Cais da Ribeira de Ovar era o destino mais habitual do sal. Em tempo de abastança!

Ribeira de Ovar, em meados do século XX
Arquivo Aveiro

Com a evolução dos tempos, com a construção de estradas e pontes, com a diminuição de alguns destes produtos, a utilização do mercantel foi-se tornando cada vez mais escassa, conduzindo-o ao desaparecimento total.
As imagens que se seguem, inéditas e estonteantes, são registos de sonho, testemunhos de uma época não muito distante, que já não volta. Conseguidas do alto da Ponte da Varela (sempre depois de 1964), atestam idas e voltas de saleiros vazios e cheios, impulsionados por uma brisa suave que enfunava uma ou duas velas.
Imagens raras, etéreas, divinas, espelhadas entre azuis cerúleos, mortiços e acinzentados, distintos, sem linhas de horizonte notórias.

 
E o olhar alcandorado do arco central da ponte esfuma-se entre barco, sal e majestade da ria…
 
 
Têm a dimensão de uma visão efémera… 

 
Imagens finais – Gentil cedência do Sr. Comandante A. Bento
-
Ílhavo, 27 de Dezembro de 2014
-
Ana Maria Lopes
-

domingo, 10 de novembro de 2013

A apanha do «crico» na Ria de Aveiro

-
A apanha de bivalves na Ria de Aveiro anda na ordem do dia, sobretudo por causa das interdições devidas à presença de toxinas marinhas. (DA de 5. Novembro.2013).
-
A nossa ria, desde muito cedo, foi rica em bivalves, tendo-se tornado numa riqueza piscícola, que deu subsistência a uma quantidade grande de pescadores, que mais se interessaram e dedicaram por aquela actividade pesqueira. O berbigão, a amêijoa, o burrié, e até a ostra em tempos recentes (avistam-se viveiros, mesmo da minha varanda da Costa Nova) ali encontraram nas águas lagunares um bom habitat. A sua apanha, sobretudo do berbigão, na gíria, conhecido por crico, é um cenário com que deparamos frequentemente, mesmo a partir da curva da Biarritz. Actualmente, esta captura não me tem atraído tanto, se bem que seja muito intensa (vê-se com frequência), porque as embarcações usadas já são quase sempre as modernizadas chatas, em fibra de vidro, menos atractivas para mim.
-
Ali, pelo princípio do século XX, as embarcações utilizadas com tal finalidade eram, normalmente, as ditas bateiras mercantelas, a que se adaptava, à época, à proa, um instrumento chamado sarilho, de presença inconfundível, passando a chamar-se de bateiras berbigoeiras. Mas, confesso, nunca vi nenhum, a não ser em modelos ou em algumas imagens, poucas, não de grande qualidade.
Foi, sobretudo, numa miniatura do MMI, construída por Porfírio da Maia Romão, sem escala, em 1934, que memorizei bem, e, bastante mais tarde, na miniatura feita pelo Capitão Marques da Silva, à escala de 1/25, segundo plano do Museu de Marinha de José Pessegueiro Gonçalves, de 1923, que apreciei o sarilho, em pormenor.
Este era auxiliado pela cabrita ou ganchorra (em locais mais profundos), na apanha do berbigão, num processo que, pelas descrições lidas, sempre achei complicado.
-
 

Mas, ... adiante…, não foi propriamente isto, que me fez escrevinhar.
-
Noutro dia, remexendo «os meus baús», estes assuntos sempre me interessaram, encontrei umas imagens, dos anos 80, na Costa Nova, em que o berbigão era apanhado, com as ditas cabritas, mas a bordo de que embarcações? Suspense…vejamos.

Olha o belo crico. Ena tanto!

Ena!...que quantidade de crico capturado para bordo de um dóri (sobras da pesca do bacalhau, à linha…), bem nítido, onde é possível apreciar e anotar alguns pormenores.
-
O CRISTINA II era um dóri já adulterado e adaptado à pesca lagunar, com coberta de proa e painel de popa para aplicação de motor fora de borda, mas que ainda evidenciava, com clareza, o tabuado trincado, que sempre ostentava e o caracterizava. Também se vislumbra a peça metálica (o bronze), onde se enfiavam as forquetas, que sustinham em rotação, a parte central dos remos. E uma bela fateixa de quatro patas e quatro unhas, sobre a coberta da proa! É nítida e mete raiva!
A referida cabrita pode apreciar-se bem na mão do pescador, constituída por uma longa vara a que se prende a travessa de um ancinho metálico, de onde sai um arco em semi-círculo, que sustém um saco de rede de cerca de um metro de comprimento, com um rabicho, no fundo, que facilita a manobra do despejo do bivalve, depois de ter sido, esforçadamente, cravado e arrastado pelo fundo da ria, suportado no ombro arrojado do pescador.

Dóri de popa cortada
Imagem extremamente explícita da captura, em que a embarcação também costumava estar fixa a duas longas e pujantes varas. A bateira caçadeira que a imagem seguinte apresenta, nessa mesma época, também se dedicava à mesma faina.
 
E agora, a bateira…
Às vezes, interrogo-me – será que eu, na Costa Nova, pelos anos 80, ainda tão jovem, não tão teria nada mais interessante que fazer do que andar a «pescar» e fotografar pescadores nas suas fainas? Claro que tinha e ia alternando. Caso contrário, também não me alegrava, agora, de encontrar estas «pequenas relíquias» de um passado recente, ao vasculhar «os meus baús».
-
O que encontrarei mais? Não sei, ainda não acabou… Vamos a ver o que está dar…
-
Coincidência…quando cheguei a casa tinha uma chamada de atenção para um blogue sobre a apanha do crico. Mas eu também já tinha este pensado… Postei-o. Um não invalida o outro. Completam-se. E cada um cabrita o crico a seu modo.
-
Imagens – Da autora do blogue, nos anos 80
-
Ílhavo, 10 de Novembro de 2013
-
Ana Maria Lopes
-

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Os «Garridos» de Salreu

-
Por um acaso ou talvez não, demorámos quase trinta anos a saber algo mais sobre os Garridos de Salreu, construtores navais de machado e enxó, daquela localidade.
Eram eles Mestre José Luciano Rodrigues Garrido (1897-1962) e Mestre Manuel Maria R. Garrido, irmãos, que tinham tido um estaleiro de construção naval, em Salreu, até meados do século XX, seguramente.
-
Pelos anos 80, ao visitarmos o esteiro, afirmamos em Moliceiros – A Memória da Ria, que tudo estava deserto e ninguém sabia nada de ninguém.
Só o estaleiro abandonado e arruinado do Manuel Maria testemunhava o eco de um passado que já parecia muito distante.
-
Mas tinham existido os Garridos! Tivemos provas.
O afável Ti Arnaldo Pires, de Canelas, com eles tinha trabalhado na arte de construção de embarcações lagunares diversas, durante cerca de 30 anos – foi uma credível prova.
E, que melhor testemunho visual? O MMI mantém e exibe uma proa de moliceiro, encomendada em 1934, ainda em período anterior à própria fundação do museu (1937). Em legenda de estibordo, regista-se Mestre LUÇIANO GARRIDO Me Fes.


Mestre LUÇIANO GARRIDO Me Fes.
 
Tínhamos tido notícia há uns tempitos que um dos filhos do Luciano Maria Garrido, o Manuel (Augusto Tavares Garrido), tinha regressado da Venezuela, para onde emigrara ainda jovem, por volta de 1956.
Em busca de alguns esclarecimentos perdidos no tempo das «mui sui generis» embarcações de Canelas e Salreu, lá encontrámos, perto dos vestígios do antigo estaleiro do pai e tio, uma casa boa, espaçosa, tipicamente de emigrante venezuelano, pela traça e materiais usados.
Manuel Garrido (n. em Janeiro de 1937) e esposa acolheram-nos simpaticamente, mas, como ele próprio dizia, nos seus 76 anos feitos, com algumas maleitas e achaques, já não era muito exacto nos dados que fornecia. Foi o possível….o que a memória foi  deixando peneirar.
Cedeu-nos uma fotografia do pai, do Mestre Luciano Garrido e duas outras de uma reconstrução levada a efeito em Agosto de 1990, numas férias na região.


Mestre Luciano Garrido
-
No largo da freguesia e perto da ribeira de Salreu, ajudava o Mestre Arnaldo a reparar a bateira do José Maria do Ilídio.
 

Reconstrução no largo…


No largo, perto do esteiro de Salreu

 
Em casa, esboçou a sigla (marca pintada no leme), dos Garridos, que ainda ninguém me soubera definir – uma espécie de flor com 5 círculos em amarelo e verde, circundada por um círculo maior a negro.
Em ameno cavaqueio, tivemos a oportunidade de observar restos de ferramenta de construção, incluindo «um macaco» de elevar as embarcações, bem como um grande e prazenteiro bertedoiro de moliceiro, saído das mãos do nosso hospitaleiro salreense. Cobiçámo-lo e em negócio amigável, lá o trouxemos, para fins decorativos.


Sobras de ferramenta…

-
Imagens – Gentil cedência de filho de Luciano Garrido
-
Ílhavo, 17 de Junho de 2013
-
Ana Maria Lopes
-

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Regata de Moliceiros do S. Paio - 2013

-
Hoje, sábado, dia 7, o PARDILHOENSE repete a dose e traz outro grupo de romeiros às festividades do S. Paio – é a regata dos moliceiros. Quantos estarão presentes?
À chegada, a maré não nos possibilita a atracação no Cais do Guedes e vemo-nos obrigados a amarrar na cais dos pescadores, de «braço dado» com O MARNOTO. Um pouco mais atrasado, chegou O INOBADOR.
O SÃO SALVADOR, da Junta de Freguesia de Ílhavo, já lá residia há uns dias para ser aparelhado com tempo. O arrais seria murtoseiro de gema – o Marco Silva.
--
Barcos moliceiros de tamanho vernáculo, apenas se apresentaram dez, mais algumas amostras, com as quais embirro e que só atrapalham na fotografia. A regata dos moliceiros, ainda sublime, tem vindo a perder o brilho, pela diminuição consecutiva de embarcações presentes. Fica a interrogação – até quando teremos moliceiros na ria?
-
Cansada de ontem, hoje, não deixarei mais que um relato dos acidentes e incidentes e registo das classificações para memória futura…
A moldura humana não tinha o mesmo fervor da véspera. Eu também apenas segui a corrida, da margem, que não é, de modo algum, tão emocionante!
Dada a partida, ei-los que largam tal cisnes brancos de asas iluminadas ao vento, tirando partido da posição na saída, da sabedoria e sorte dos arrais e da superfície dos panos, que a meu ver, deveria estar regulamentada.
Fugindo àquela imagem mais habitual de moliceiros certinhos, quase em posições paralelas, de velas incandescentes, em diagonal, focarei outros aspectos.
-
Uma «molhada» de moliceiros

Os primeiros quatro…, cinco…, foram-se destacando, parecendo querer definir posições. Eis senão quando, de repente, avisto uma embarcação das que iam destacadas a querer tombar, ai!, ai!, ai!, e já está!... que emoção!... completamente adornada, fazendo da ria o seu leito.
Fotografias de pessoa amiga, ajudam-me posteriormente a ter uma perspectiva mais próxima do sucedido, em sequência.
Qual foi? Qual foi? Ainda por cima, ia em terceiro lugar… Ninguém sabia…Havia alguns moliceiros com costados da mesma cor. Só no final, a nossa curiosidade foi satisfeita – tinha sido o MANUEL SILVA.
-
MANUEL SILVA - 1.
 -
MANUEL SILVA - 2.
 
MANUEL SILVA – 3.
-
Imaginamos que terá sido dramático para a tripulação, que, fisicamente, nada sofreu. Houve alguma dificuldade no processo de remoção, tendo a embarcação sofrido alguns danos – constava.
Bem, não fora o PARDILHOENSE, constatámos, por exclusão de partes, caso contrário, teríamos de fazer uma maratona a nado, até ao Oudinot, vá lá, com água e vento a favor.
Também houve algumas desistências, mas a brisa, que até ia «caindo» não justificou mesmo estes desaires. Acontecem ao mais «pintado».
Classificação:
-
1º - SÃO SALVADOR – Arrais Marco Silva
2º - ZÉ RITO – Arrais Zé Rito
3º - A. RENDEIRO – Arrais Zé Rebeço
4º - CÂMARA MUNICIPAL DA MURTOSA – Arrais José Caneira
5º - INOBADOR – Arrais Pedro Paião
 
O Ti Zé Rebeço em prova

De regresso, ultrapassámos O MARNOTO, na sua imagem fascinante. Não foi propriamente premiado, mas teve uma presença brilhante e digna, como a imagem denota, no seu porte elegante.
 
Porte elegante…

E mais um dia bem passado na ria, em são convívio, ambiente único, natural, sadio e festivo.
Grande gente, a gente da ria, «mai-las» suas embarcações, as que vão restando.
-
Imagens da autora do blogue. As do MANUEL SILVA, gentilmente cedidas por Mariano Zé
-
Algures na ria, 7 de Setembro de 2013
-
Ana Maria Lopes
-
 

domingo, 8 de setembro de 2013

«Durante» o S. Paio - 2013

-
Como escrevinhei o «antes» do S. Paio, há quem espere pelo «durante». Ei-lo, aí vai ele, antes que seja tarde e se perca a emoção.
Um grupo de amantes da ria organizou-se e foi no moliceiro PARDILHOENSE, com a mira do S. Paio – a maior das romarias lagunares setembrinas de fim de Verão. Objectivo – assistir à regata de bateiras à vela e à corrida dos chinchorros – programa imperdível! Acompanhar as embarcações, apreciá-las, sorvê-las, admirá-las e divulgá-las.
-
Mas o tempo promete, não promete?
-
Nem chuva, nem sol, nem relâmpagos, nem trovões, nem calor, nem frio. Uma calmaria podre. A ria, um espelho, que a ausência de sol não valoriza. Mas, aguardemos!....
Os «nossos» romeiros vêm chegando, com entusiamo, farnéis diversos (chegou-me aos ouvidos…) e cheios de desejo de viver um dia na ria, à moda antiga. Dos 40 anos aos 70… com boa vontade, ou dos anos 40 aos 70?
Desvendem o trocadilho.
O astro-rei parece querer trespassar a camada de nuvens para nos aquecer a alma e encharcá-la de luz.
Muitos conhecidos, muitos amigos, muitos fotógrafos, boa disposição e cordialidade a bordo. E a tripulação vai aparelhando o PARDILHOENSE.
A viagem como de outras ocasiões, desta vez, a motor, por imperativos de horário, começa e prossegue sem incidentes.
Uma linha do horizonte mais escura divide dois mundos, ambos cinzentos, mas etéreos – o céu e a água.
-

Linha do horizonte
--
Muitas câmaras, mais ou menos pomposas, muitas objectivas poderosas, tripés, monopés, um «cardápio» de material fotográfico… A ria merece.
A luz tenta penetrar e aureolar a paisagem, facilitando os reflexos.
 
Reflexos em S. Jacinto
-
Lembrou-me a descrição de uma ida ao S. Paio, em mercantel, relatada por Egas Moniz, em seu livro de memórias, A Nossa Casa.
-
«Na festa de S. Paio, a grande romaria da gente ribeirinha, a ria coalha-se de barcos que provêm de todas as freguesias marginais. Abundam os moliceiros lindamente embandeirados, com sinais distintivos para que os tripulantes os reconheçam quando, encostados uns aos outros, formam na Torreira a frota da alegria.
São as famílias e amigos do proprietário do barco que o enchem de raparigas airosas, de olhos escuros e tez morena, e de rapazes desempenados e garbosos, tisnados pela maresia (...)».
-
O ambiente à chegada já era bem festivo, mas faltávamos nós, logo que tínhamos decidido degustar uns pitéus a bordo. Nada faltou. Vitualhas em abundância…desde rojões, sandes de queijo e fiambre, pataniscas de bacalhau, quiche, broa com azeitonas, queijo… a chouriço preto e vermelho, assados a bordo, quentinhos, a sair, por assador perito e gafanhão orgulhoso, da Gafanha de Baixo! Tudo bem regado por um vinho alentejano branco Porta da Revessa, por um tintol adequado e por «água fresquinha», para os mais imaculados.
Para quem não dispensa a fruta, uva saborosa e graúda, melão aquoso e figos apetecíveis, acabadinhos de arrancar da árvore, a gosto.
Claro, não podia deixar de ser, mesa posta em toste do moliceiro, coberta por toalha colorida.
Ou não tenha servido esta embarcação de casa – dizia Raul Brandão.


A assar a chouriça, a bordo
---
Algumas bateiras já vão ensaiando o pano, a hora da partida, 3 horas, aproxima-se. E nem milhares de  olhos conseguiriam captar tanta beleza.
De repente, aguarelas belíssimas saídas da paleta de pintor sublime, imaginário e criador, deliciam-nos.
É dado o sinal de partida, a brisa norte vai apertando, a marola sucede e a arte dos arrais é posta à prova.
-
Aguarela surpreendente
-
Um chamado «vento burro» (incerto) – refere o Ti Abílio Carteirista – faz «das suas». E uma boa meia dúzia de bateiras, entre as cerca de quarenta, concorrentes, virou. Nada de maior! «Quem anda à chuva, molha-se».
Junto das bóias, a ria lembrava uma pista de carros eléctricos de choque, em que cada um, neste caso, cada uma, lutava pelo melhor lugar.
As velas das bateiras, em competição, conforme a posição, ganham uma brancura que até fere a vista, tal qual um abat-jour iluminado por lâmpada poderosa.
-

Abat-jours iluminados
 -
Neste dia, há pequenos/grandes pormenores, que completam e embelezam a «alma das bateiras»: a toste, o mastro e a vela, respectivos cabos e leme, por vezes, com sigla. O céu azul em que se empastelam, adornado de nuvens róseas acaramuladas, tal pedaços de algodão perdidos no infinito, completa o cenário.
Sinto-me encharcada de tanta beleza e quase não consigo ordenar as ideias e a prosa. Jorram!
Não conheci o proprietário da bateira vencedora, que tinha o casco beije, cor não muito usual para o costado desta embarcação. Prestou boa prova.

Bateira vencedora. Foto de TCS
-
Em segundo lugar, o Marco Silva, que nos proporcionou belas imagens, a bordejar, com a borda debaixo de água e o camarada, em equilíbrio, em pé, sobre a falca. A serra como fundo, com casinhas brancas, soltas, incrustada no céu, qual pantalha azul, azul, azul…
 

A bateira do Marco, em 2º lugar
-
Meu Deus! Que mais se pode exigir da natureza?
Foguetes e palmas para os primeiros classificados!...
--
O intervalo entre corridas deu para ir a terra, esticar as pernas à borda-d’água, contemplar os chinchorros que se preparavam, visitar o café do Guedes e sentir a romaria.
-
A travessia dos chinchorros é um espectáculo único, daqueles que nos faz ferver o sangue e que vale a pena vivenciar. Não possibilita grandes imagens, mas faz subir a adrenalina e o entusiasmo. Grandes homens e grandes mulheres! É a competição pura e quase feroz! Excitante, mas pacífica!


Chegada de chinchorros

Hora do regresso!
Meios chochos e cansados, «vimos da festa». A emoção gasta…
-
Mas o lanche ajantarado preparado com desvelo pela Etelvina, com outras participações, «aqueceu a guelra». E, oh, oh, uma caipirinha, preparada a bordo, pela Lourdes, com todos, incluindo as muitas batedelas com o pilão, no meio de muito boa disposição, aqueceu a «malta». É que o vento norte soprava fresco e, então, o arrais, decidiu trocar o motor pela vela. Com maré e vento de feição, era um tal andar!...
No meio de grande azáfama e de alguns receios, era um tal obedecer a ordens:
 
- Pessoal para bombordo! Pessoal para estibordo! Tudo à proa! Mais gente para a ré!
- Caça o pano! Cuidado com as cabeças! Atenção à escota!
- Toste a bombordo! Toste a estibordo!
-
Desligado o motor, é como que se apagou uma antiga máquina de petróleo.
E os barulhos naturais vêm ao de cima – o chape-chape da água da marola contra o costado, o ruído do vento, o panejar da vela, o piar de gaivotas e gaivinas – e são pacificadores!
Em frente à barra… entre o Triângulo e o Forte, à vista do porto de pesca costeira e do Sto. André, alguns chapiscos acordam-nos, no meio de tanta beleza.
Preparativos para a atracação – escota solta! Vela a panejar!
Chegada ao Oudinot e desembarque!
-
Grande dia de ria, de romaria, de maresia e de agradável convívio. É de repetir!
Imagens da autora do blogue. A da bateira vencedora, gentilmente cedida por Teresa Cruz Santos
-
Algures na ria, 6 de Setembro de 2013
-
Ana Maria Lopes
-

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O «antes» do S.Paio - 2013

--
Cumprindo uma ancestral tradição, a partir de amanhã e até ao próximo domingo, dia 8, a praia da Torreira, no concelho da Murtosa, volta a encher-se de gente vinda dos mais variados pontos do País, em maré de celebração, para a romaria do S. Paio, indiscutivelmente, a mais concorrida, popular e afamada da região.
 
A influência da festa é de tal ordem que ali o calendário é marcado em função da romaria e então é comum ouvir dizer-se que determinado assunto fica para “antes ou depois do S. Paio” – refere o Diário de Aveiro de hoje, 3.9. 2013.
-
O texto despertou-me a atenção…
-
Amanhã, começa a romaria e como adoro os preliminares das festas, resolvi ir até lá para ver, realmente visto, como «era o antes do S. Paio».
-
Claro, as ruas já estavam engalanadas, como supunha, com as suas decorações e iluminações temáticas – davam-se apenas os últimos retoques e experimentavam-se as ligações.
-
As primeiras tendas do que, agora, em todas as festas, são uma feira, já tinham chegado ou já estavam a chegar. Encontra-se de tudo um pouco e a preços de saldo, ou não tenhamos um país em saldo, desde as imagens mais devotas até à lingerie mais ousada e arrojada nas talhos e coloridos.
Como sou suspeita nos meus sabores marítimos, fui visitar os preparativos e os ensaios das embarcações que se preparavam para desfilar na ria, deixando boquiaberto quem aprecia. Deslumbrantes e etéreas aquelas velas disseminadas pela paisagem de uma beleza azulina e empolgante, deslizavam entre céu e ria. Tudo era atraente e não se passava dos preparativos.


Preparativos...
 
                                                     
Na sexta-feira, pelas 15 horas, não percam a regata das cerca de 40 bateiras, distribuídas por várias categorias, que nos surpreenderão, enchendo-nos a alma de cor, luz, reflexos e magia.
-
Com dois tripulantes, já treinavam e acertavam as manobras, com fervor.
 

Treinavam…

Cerca das 17 horas, será o momento da actuação dos imponentes chinchorros, em travessia lagunar, com o entusiasmo vibrante e ágil das tripulações masculinas e femininas.


Chinchorro Raquel em competição (2012)
 

Enquanto alguns estaleiros, em Pardilhó e na Torreira, davam os últimos retoques a bateiras que desfilarão nas regatas, o moliceiro da Câmara Municipal da Murtosa sofreu, no estaleiro do Zé Rito, à beira-ria, uma amanhação de que estava bem carente, assim como o restauro de pintura e seus painéis, para a regata de moliceiros, no sábado, pelas 16 horas. O Zé Manel Oliveira não podia faltar, na renovação das decorações. Faz parte da romaria, ou seja, da «mobília», como sói dizer-se.


Zé Manel repinta a SANTA LUZIA
 

Em tarde quente de Verão, de pés a chapinhar na água acalentada, rodeei a elegante embarcação, para apreciar e fotografar mais quatro novos painéis naïfs e coloridos, verdadeiro exemplo de arte popular.


Painel de proa. EB
 

Painel de ré. EB


E a festa já se vive, na véspera, com entusiasmo, mas sem grandes rebuliços.
 
Vamos esperando que estes últimos dias quentes de Verão se vão aguentando (não é o anunciado…), para podermos apreciar o que de melhor e entusiasmante se faz na ria, a nível de romarias populares.
 
As outras, as que Deus tem, já foram!....
E no domingo, dia 8, dia do santinho milagreiro, lá desfilará a procissão, como é hábito, com os andores que lhe são característicos, acompanhados por diversas irmandades, grupos de escuteiros, representações de emigrantes, personalidades, bandas de música, entre as quais a famosa Banda do Visconde de Salreu, e muitos crentes, que cumprem promessas. Dando a volta até ao mar, saúdam os barcos, em homenagem aos grandes homens que ali entregam a sua vida, sempre ameaçados por grandes perigos, em busca de alimento diário.


O andor do S. Paio (2012)
 
 
E mais um S. Paio se avizinha. Vivamo-lo com alegria, em confraternização e percurso lagunares, a bordo de um moliceiro tradicional.
-
Imagens – AML e Etelvina Almeida (chinchorro e andor)
-
Costa Nova, 3 de Setembro de 2013
-
Ana Maria Lopes
-