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domingo, 15 de fevereiro de 2009

O salvamento do Desertas - II




Todo o processo de salvamento foi complexo e complicado, mas a pouca profundidade que a ria tinha, em alguns locais, relativamente ao calado do navio, e o duplo corte da ponte, de madeira, Forte – Barra, foram duas das grandes barreiras, também vencidas.

Aproxima-se do Forte


Em 28 de Janeiro de 1920, o Desertas já enxergou o Forte, tendo, seguidamente, fundeado em S. Jacinto.


Fundeia em S. Jacinto


Depois de toda esta odisseia, saiu a barra, rumo a Lisboa, em 20 de Março de 1920, onde chegou, no dia seguinte.

Tal proeza foi, de novo, lembrada por Aníbal Paião, na palestra “O Desertas…na Costa-Nova”, durante a 1ª Semana Internacional de Vela, em 29 de Agosto de 2003.

As vantagens económicas para a praia, à época, foram muitas, não só porque o movimento de transacções se intensificou, favorecendo o comércio local, mas também, porque o Canal do Desertas, como se chamou até à década de setenta, foi procurado, pela sua riqueza piscícola, por gerações. de pescadores da chincha.. Também embarcações de trabalho e de lazer o elegeram como local favorito para a prática da vela e do remo, mesmo em marés baixas.

Era passeio habitual, de bicicleta, nos meus tempos de juventude, na praia, uma ida até ao Desertas, pela incipiente estrada que une a Costa-Nova à Vagueira, ou seja, até aos vestígios da profunda vala dragada para sua passagem, que uniu o mar à ria. Creio que devido a vários fenómenos ambientais, desapareceram, actualmente, essas referências.


À direita, início da estrada da Vagueira - 1. 10.1951



Ler mais no blog 200 anos da Costa-Nova de SF, embora o autor tenha anunciado que este capítulo vai ser revisto e melhorado, depois da leitura do tal livrinho de Mendes Barata.

Com a aproximação do Centenário, em 1918, seria obrigação e devoção da Câmara Municipal, mandar assinalar o local histórico, pelo menos, com um painel de azulejo, do tipo do que acima exibo.

Fica a sugestão, já alvitrada por outros.

Era tão, tão, tão popular a visita ao andamento das obras, junto do navio, por turistas e residentes, que até surgiram algumas versalhadas e cantilenas:

O Desertas arrolou,
Numa praia tão tamanha.
Foi p’ra dar que fazer
À gentinha da Gafanha.

O Desertas arrolou,
Num dia de muito frio.
É, por isso, meus senhores,
Que o Desertas “tá” no rio.

O Desertas encalhou, ó pistotira, ó pistotira,
Com a proa p’rà Gafanha, ó pistotira, ó pistotira,
Quando o barco foi embora, ó pistotira, ó pistotira,
Muitas mulheres ficaram prenhas, ó pistotira, ó pistotira.

Mais uma:

O Desertas encalhado
Foi uma coisa muito boa.
Pois veio dar que fazer
Ao pessoal de Lisboa.


Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 15 de Fevereiro de 2009

Ana Maria Lopes

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O salvamento do Desertas - I



Ler algo sobre o Desertas, para a maioria das pessoas, é capaz de não dizer muito. No entanto, à faixa etária mais madura, moradora em Ílhavo e veraneante na Costa-Nova, deve interessar. Há, porventura, quem saiba mais do que eu, por experiência, ou, por mais profundos e tecnicistas conhecimentos. Eu sei o que sei e apeteceu-me relembrar o Desertas, mesmo sem ter assistido a essa curiosa história da Primeira Guerra Mundial, que encheu páginas de alguma da imprensa da época – O de Aveiro, Campeão das Províncias, Ilustração Portuguesa, etc.
Mas, não vou por aí.

O Desertas foi o ex-navio alemão Hochfeld construído em 1895, nos estaleiros de Flensburg, com 112, 47 metros de comprimento, 12,75 de boca e 7,84 de pontal. Vindo de Leixões, onde não pôde entrar, devido ao refrescar do vento de sudoeste (explicação do comandante, algo contestada), acabou por encalhar no litoral ilhavense, em 18 de Novembro de 1916, pelo sul dos palheiros da Costa-Nova, ou seja, a 4 milhas a sul do nosso Farol.

Nem toda a gente estava de acordo com o salvamento do navio, acontecimento, então, muito controverso:
- tentar salvar o navio, por mar?
- ou salvá-lo, pela ria, abrindo um canal na língua de areia que separa a ria do mar?

Depois de um valente temporal, em 20 de Janeiro de 1918, que provocou um grande rombo no navio, malograram-se todos os esforços para o pôr "a nado".
Após uma série de polémicas, diligências e atritos, só a 1 de Junho do mesmo ano, se iniciou a abertura do canal, em direcção à ria.

Pelo Verão de 1918, um bombardeamento proveniente de um submarino alemão, atacara a zona do canal, alarmando muita gente.

Mas descansem que acabo, por aqui, as descrições pormenorizadas.

O Desertas, visto do mar, já puxado para terra



Quem tiver muita curiosidade em sabê-las, pode socorrer-se do livro O Salvamento do Desertas dos Transportes Marítimos do Estado, escrito por António Mendes Barata, Engenheiro orientador de todos os trabalhos, publicado, em Lisboa, em 1920.

Aí sim, estão descritos, à exaustão, todos os passos de alta tecnologia, sobretudo para a época, e devidamente ilustrados com 66 fotografias.

Faz agora cerca de dez anos que tais fotografias (70), compradas numa Feira de Velharias, em Lisboa, graças à generosidade do historiador e investigador aveirense Dr. Amaro Neves, vieram cair nas mãos da Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo.
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O Desertas na bacia e a draga Mondego


Convinha expô-las, para avivar a memória dos vindouros de que o Desertas se deslocara majestosamente frente à nossa Costa-Nova, entre 1918 e 1919.

..


Em 1919, o Desertas avança, lentamente, do sul, na Costa-Nova


E de 20 de Fevereiro até 5 de Abril de 1999, estiveram disponíveis ao público, no Museu, as setenta fotografias. Também este painel de azulejo de Francisco Pereira, por amável cedência do médico e coleccionador, Dr. Hermes Castanhas, foi exibido.


Outeiro – Águeda, 1932


(Cont.)

Fotografias – Arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 13 de Fevereiro de 2009

Ana Maria Lopes