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sexta-feira, 3 de abril de 2009

As "viagens " do Avô Pisco - II



1921 a 1926 – Mudou para os navios da Praça de Aveiro, começando por comandar o lugre Silvina.

Lugre Silvina, frente à seca


O Silvina, lugre com motor, de madeira, foi construído em 1919 por Manuel Maria Bolais Mónica para a Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., de Aveiro. Em 1928 passa a ser propriedade de Testa & Cunhas, Lda. Naufraga, devido a incêndio, em 1941, no Grande Banco da Terra Nova.

1927 – Foi capitão do lugre Laura, porventura, capitão orientador (?) e vigilante da reconstrução a que o navio foi submetido nesse ano, passando a ser em 1928, o Cruz de Malta.

Entre Laura e Cruz de Malta – 1927

1928 a 1937 – Capitaneou o Cruz de Malta.

A este lugre, dediquei um extenso post, neste blog.

O Cruz de Malta, em tempo de guerra…


1938 a 1942 (inclusive) - Fez a viagem inaugural no lugre de quatro mastros Novos Mares, sobre o qual já escrevi o post, O “velhinho” Novos Mares.

O Novos Mares a entrar em Leixões – Fotomar


Por informação do Jornal de Notícias de 8.12.1938, tive conhecimento de que o Novos Mares, no dia anterior, ao entrar a nossa barra e ao passar a restinga, encalhou, pelo que os restantes cinco navios, que aguardavam fora do porto, ficaram para o dia seguinte. Este encalhe, felizmente sem consequências, foi originado pelo lamentável estado da barra, agudizado pela não existência de motor, a bordo. Na campanha de 39, embora um pouco mais tardiamente, o Novos Mares já partiu, com o novo equipamento, indispensável.

E aí, depois de muitas procelas, maus bocados, aflições, preocupações, angústias, saudades da família, próprias deste tipo de vida rude e dura, ficou em terra, depois de trinta e quatro anos de mar, apto a, em 1943, iniciar as suas funções de Avô. Adorava-me, “estragava-me” com mimos, levava-me com frequência à chegada das redes, nas companhas da Costa-Nova e, amiúde, no quadro da bicicleta, à seca, na Gafanha da Nazaré. Bonacheirão, bondoso, humano e afável, empreendedor e trabalhador, entregou-se, após as fainas do mar, às visitas sistemáticas à firma Testa & Cunhas de que fora sócio-fundador, em 16 de Dezembro de 1927. As lides agrícolas ali, no quintal do Curtido de Baixo, ocupavam-lhe o resto do tempo. Deixou marcas profundas na minha existência e, ainda hoje, guardo, com carinho, alguns dos instrumentos náuticos de seu uso pessoal.
Foi curiosa a diversidade de navios em que ele embarcou. Daí, não ter sido fácil, mas atractivo e apelativo, articular as informações.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora, com a colaboração de vários Amigos


Ílhavo, 3 de Abril de 2009

Ana Maria Lopes

domingo, 18 de janeiro de 2009

Lugre bacalhoeiro Cruz de Malta


A propósito da biografia do meu Avô, que está em agenda de edição num futuro próximo, procurava uma imagem do Cruz de Malta, que também consta dos navios que comandou.

Como ainda tenho uma ideia, se bem que vaga, do Cruz de Malta e, perante as várias imagens que tinha e as que alguns amigos me foram cedendo, “fez-se luz” e alto lá!... podia juntar os dados que tenho do navio, pesquisar outros e tornar a sua história mais aliciante e apetecível.

É obrigatório começar pelo lugre Laura. Este navio, de três mastros, sem motor auxiliar, foi construído em 1921 na Gafanha da Nazaré por José Maria Mónica, sob risco de José Soares; propriedade da Empresa de Navegação e Exploração de Pesca, Lda., participou nas campanhas de 1921 a 1926. Imobilizou em 1927, para reconstrução, a cargo de Manuel Maria Bolais Mónica e toma o nome de Cruz de Malta na campanha de 1928, então, propriedade da Empresa Testa & Cunhas, Lda.

Lugre Laura

Lá que a reconstrução fez milagres, pelo menos, a nível estético, fez. O Laura não devia muito à elegância, na sua roda de proa direita e rombuda, enquanto que o Cruz de Malta (ler mais em Navios e Navegadores), primava pela beleza e elegância, no lançamento da roda de proa. Passou a ter um motor Guldner, com potência de 150 cavalos.


Cruz de Malta frente à seca


Na primeira campanha ao serviço da nova empresa, com 47 tripulantes e 42 dóris, a captura limitou-se a 1597 quintais de peixe e 2 toneladas de óleo de fígado de bacalhau, que renderam 195.600$00, dos 5500 quintais possíveis. Foi, talvez, a grande escassez de peixe, neste período, que levaria os navios nos anos seguintes até à Groenlândia, revelando-se, desde aí, local obrigatório de pesca.


Cruz de Malta encalhado


Dentre várias, foi esta a curiosa fotografia que quase me levou a dedicar um post a este navio. Situação, para mim, inédita. Encalhado frente a S. Jacinto (não havia, ainda o actual Triângulo), ferro a pique, vê-se bem, é aliviado. Três mercantéis, um por bombordo e dois, por estibordo, trasfegam o que é possível, incluindo dóris empilhados, atravessados, a bordo. Original!!!


Coexistiram na Empresa o Cruz de Malta, o Inácio Cunha, o Novos Mares e o São Jorge.

Foi, por uns anos, sempre muito cuidado, o navio mais velhinho e de menor capacidade de Testa & Cunhas, mas, talvez porque tivesse sorte, era considerado a mascote, uma espécie de talismã, para a mesma. Prova disso mesmo, a adopção, a partir de 7 de Março de 1947 (de acordo com documento existente) da cruz de Malta como logotipo da sociedade e a construção, em aço, em 1982, pelos Estaleiros de S. Jacinto, de um arrastão costeiro com o mesmo nome. O desenho da cruz do logotipo nem sempre respeita o design dos quatro braços em V, característicos da cruz de Malta.


À direita, Capitão Júlio Paião, a bordo do Cruz de Malta – 1943



Passaram pelo pequeno, mas garboso lugre, como capitães, tantos ilhavenses conhecidos como o Avô Pisco (1928 a 37), Capitão Quim da Graça (1938), Capitão Júlio Paião (1943 e 44), Capitão José S. Bixirão (Ponche) (1947 a 49), Capitão Manuel da Silva (1950 a 55) e tantos outros! Tantas e tantas safras, tantas e tantas campanhas, tantos e tantos sacrifícios, tantos e tantos perigos!

A navegar a todo o pano



A sua vida já era longa, quando por alquebramento (água aberta), se afundou, em 7 de Agosto de 1958, sob o comando de António Fernandes Matias, tendo sido recolhida toda a tripulação, a bordo do Gil Eannes.

Em vias de naufragar…



E assim foi vivendo, soberano, o Cruz de Malta, levando e trazendo tantas vidas, tantas saudades e tantas esperanças! Destes pedaços de tábuas e de almas é feita a Faina Maior!

Fotografias gentilmente cedidas por vários Amigos e arquivo pessoal da autora

Ílhavo, 18 de Janeiro de 2009

Ana Maria Lopes