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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Creoula - 1973, através da objectiva de António São Marcos - 2



Hoje, é a vez da escala:


No Creoula, armavam-se cinco mesas de escala de cada bordo.


O peixe escalado passava pelo escorredor antes de ir para o porão.


Cada mesa de escala tinha: troteiro, parte-cabeças e escalador.


Na escala, havia trabalho para todos.


Dóris içados, terminada a refeição, iniciam os pescadores, por equipas, as fases de preparação do bacalhau – trote, evisceração, decapitação, escala – nas quais cada um tem a sua função definida.


O troteiro trabalha junto ao topo do quete, donde tira o peixe. Munido de uma faca de lâmina direita, em forma de punhal, a faca de trote, dá-lhe um golpe transversal profundo na garganta seguido de um golpe vertical sobre o ventre até ao umbigo, terminando com dois ligeiros golpes no pescoço de forma à região céfalo-branquial ficar somente agarrada ao resto do corpo pela coluna vertebral e, assim, facilitar a evisceração e decapitação, colocando o peixe sobre a mesa.


O parte-cabeças, afastadas as paredes do abdómen, retira o fígado através do buraco da mesa de escala para um cesto; em seguida, arranca a partir do umbigo todas as vísceras até ao pescoço, separando com uma pancada, na quina da mesa, a cabeça do peixe que lhe fica segura na mão esquerda, atirando-a para o convés, a fim de se lhe aproveitar a cara ou a língua.
Com a mão direita, coloca o peixe ao alcance do escalador. Este homem não dispõe de qualquer instrumento auxiliar de corte.

O escalador vai dar ao bacalhau a forma espalmada que todos conhecem, que tem por fim aumentar-lhe a superfície ventral, permitindo que a salga se faça numa maior extensão e de uma forma mais uniforme. Depois de ter encostado o peixe a um barrote oblongo, com a faca de escala na mão direita, começa por dar um golpe pela parte superior desde o cachaço ao rabo, fazendo uma deslocação do bacalhau para a sua esquerda, enquanto prolonga o golpe. Em seguida, colocando o bacalhau com a região do umbigo sensivelmente no extremo direito da mesa, mas com a mão esquerda agora na espinha, dá-lhe um segundo golpe pela face interior da espinha, no sentido contrário, isto é, do umbigo ao cachaço, cortando, finalmente com um terceiro golpe, o vértice da espinha. É atirado para a selha, sobre a qual se apoia a mesa de escala.

Na selha, o peixe é lavado em água salgada aspirada do mar por uma bomba. Após a lavagem, o bacalhau é retirado pelos garfeiros e lançado num escorredouro.

Finalmente, depois de escorrido, é lançado através de mangueira de lona para o porão, onde sofre a última fase de preparação – a salga, não menos dura tarefa.

Algumas imagens fortes da escala revelam a rudeza do trabalho, em que todos os marítimos se ocupavam, em série, sem parar, até conduzirem o peixe à tal dita salga.

Fonte – Adaptação da Folha de sala A escala, escrita à época, 1992, para a Exposição FAINA MAIOR, Pesca do bacalhau à linha.


(Cont.)

Fotografias – Gentil cedência do Comandante António São Marcos

Costa Nova, 13 de Agosto de 2010

Ana Maria Lopes

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Santa Maria Manuela e Creoula festejam 73 anos



Há precisamente 73 anos, no dia 10 de Maio de 1937, os elegantes lugres Santa Maria Manuela e Creoula, irmãos de berço, desciam serenamente a carreira de construção dos Estaleiros da CUF, para penetrar nas águas profundas do Tejo.

A proa, em dia festivo…


Hoje, todos à uma, os Amigos do SMM cantaram-lhe os «Parabéns», numa festa memorável, na sua apresentação oficial.


Bolo de aniversário


Parabéns Santa Maria Manuela!


Dóris a preceito, testemunho da Faina Maior


Pouco depois, saiu garbosamente do Cais dos Bacalhoeiros da Gafanha da Nazaré para o Tejo, ao encontro, pela primeira vez, do seu irmão gémeo Creoula. Aí integrarão a parada naval que homenageará o Papa Bento XVI, durante a celebração da missa no Terreiro do Paço.

Rumo a Lisboa…


Sem tempo para mais, aqui fica o registo presencial, para memória futura…

Ler mais no D. A. de 11.Maio. 2010.

Fotografias – Ana Maria Lopes

Ílhavo, 10 de Maio de 2010

Ana Maria Lopes

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O Creoula entre nós - há 15 anos



Em tempo de Regata…Faz hoje 15 anos. O tempo vai passando quase sem darmos conta. Era sempre um prazer ter o Creoula entre nós18 e 19 de Setembro de 1993.
E mais uma vez nos deu o prazer da sua visita, proporcionando-nos agradáveis estadias a bordo e trabalhos em conjunto.

Creoula atracado, na sua elegância…



Os objectivos, dessa vez, no dia 18, foram uma visita especial da tripulação à Exposição Faina Maior, o lançamento de uma colecção limitada, de três pratos comemorativos da Exposição, em porcelana Porcel, com os motivos: Lugre “Creoula”, Alando o Trol e Clareando Cabos.

No dia 19, foi a entrega da palamenta de um dóri, preparada por uma equipa do “Museu”, tendo-nos sido muito úteis para tal trabalho o saber e prontidão de Francisco Ramos e Manuel Chuvas (Rupio). Eram impecáveis, sempre que os seus serviços marítimos artesanais eram solicitados. Nenhum pormenor era esquecido.

O Creoula tinha dóri, mas faltava-lhe toda a palamenta: remos, com as respectivas forras de couro e pinhas de anel, um par de forquetas com os respectivos estropos, os quetes da proa e da ré, alças da proa e popa, alça da escota, mastro, vela, vertedouro, búzio, foquim, faca e balde de isco, gigo, linha de mão, rile, linha da zagaia, nepas, pino, tortor, bicheiro, desmbuchador, trol e respectivo cesto, grampolim, balão, ferro, polé e pingalim. Tudo isto, "o museu conseguiu" com maior ou menor esforço, para aparelhar o dóri do Creoula, fielmente, a preceito e “à moda antiga”. Nada podia faltar.



A destreza dos dois “velhos lobos-do-mar” o Chico Ramos e o Rupio, ao manusearem a linha, estralhos e anzóis, não fazia crer que tantos anos já haviam passado. Saber de experiência feito, que não esquece…

Além disso, a tripulação teve o prazer de conviver com antigos oficiais do navio, num encontro emotivo de gerações distintas, vocacionadas para o mar.




Da esquerda para a direita, em planos alternados: João Sílvio, José Leite, João Fernandes Matias, José Negócio, Elmano da Maia Ramos, Francisco da Silva Paião (Capitão Almeida), Francisco Marques, Comandante Sá Leal e Marques da Silva.


Mais uma vez, os oficiais de Ílhavo estiveram grandemente presentes no comando deste navio emblemático, enquanto lugre da pesca do bacalhau.


O Comandante Sá Leal aprecia a “obra”



Dado o bom relacionamento entre o navio Creoula e o museu, este aproveitava a itinerância do navio para a divulgação do nome desta instituição museológica. Acordou-se, então, preparar uma exposição para bordo do Creoula, a ser inaugurada no porto da Gafanha da Nazaré, no ano seguinte.
Desta empatia nasceu o bom relacionamento que subsiste entre Creoula e Ílhavo/Museu.
Tal como hoje, por coincidência, o Creoula também se encontra cá, chegado de Lisboa, para sair no dia 23 e se integrar na Regata dos 500 Anos do Funchal. Bons ventos e boa viagem!

Fotografias – Arquivo pessoal da autora


Ílhavo, 19 de Setembro de 2008

Ana Maria Lopes




sábado, 9 de agosto de 2008

Projecto DE NOVO NA TERRA NOVA


Em maré de aniversários, faz exactamente, hoje, 10 anos, que o navio Creoula saiu para a Terra Nova, numa das missões mais expressivas que jamais cumpriu.


Regresso do antigo lugre aos mares da Terra Nova – in Jornal de Notícias de 9.8.1998

Canadianos e portugueses reaproximam-se
Creoula parte hoje para a Terra Nova – in Diário de Aveiro de 9.8.1998

Ílhavo “viveu” a partida do Creoula para a Terra Nova
O Presidente da República, Jorge Sampaio, no dia da largada do Creoula para a Terra Nova
Na tripulação segue grupo de jovens ilhavenses
Os votos são de boa viagem!...
– in O Ilhavense de 15.8.1998

Projecto De novo na Terra Nova junta Portugal e Canadá – in Diário de Aveiro de 15.8.1998


Assim se referem ao acontecimento alguns jornais da época. Muitos mais se lhe referiram.

Acudiram milhares de pessoas ao cais nº 10 do Porto bacalhoeiro da Gafanha da Nazaré, para viverem a saída do Creoula, com destino à Terra Nova. O Presidente da República, Jorge Sampaio, entre aquela massa humana, dirigiu-se ao navio para cumprimentar o Comandante, bem como todos os instruendos e Director de Treino de Mar, Capitão Francisco Marques, numa missão igualmente simbólica, já que havia sido o último Comandante do navio, enquanto lugre da pesca do bacalhau, 25 anos antes.


Também a Barra teve um movimento invulgar. A afluência ao Paredão e Meia – Laranja era fora de série. O Creoula, de velas enfunadas, saía a Barra, relembrando as saídas dos antigos lugres com o mesmo destino. Só que a missão era bem diferente!

Muitas embarcações de vários tipos acederam ao convite para acompanhar o antigo lugre-motor, hoje, NTM., dando à entrada da Barra um aspecto comovente e arrebatador.



Tendo vivido este projecto muito por dentro e acompanhado a viagem muito de perto, inclusive no Canadá, não quis deixar passar a data despercebida – a primeira década.


Patrícia Dole, Embaixadora do Canadá, na altura, lançou a ideia desta viagem, que recebeu o apoio dos dois países.
Ao contactar a Associação dos Amigos do Museu, encontrou nela uma forte aliada e, a partir daí, constituiu-se uma Comissão Executiva, sediada no M. M. de Ílhavo, formada pela citada Associação, pela Universidade de Aveiro e pela C.M. de Ílhavo – assim se realizou o projecto DE NOVO NA TERRA NOVA.

Fotografias – Arquivo pessoal da autora e de Carlos Duarte

Costa-Nova, 9 de Agosto de 2008

Ana Maria Lopes


domingo, 8 de junho de 2008

Memórias do lugre-motor Creoula

Na Costa-Nova, enquanto se vão fazendo as limpezas e preparando a casa para o Verão da criançada, fui escolhendo umas revistas e deparei com uma pequena brochura – Creoula.
Folheei-a, recordei as últimas vindas do Creoula aqui à Gafanha e fui salpicando a leitura.

O Creoula é um lugre de quatro mastros. Construído no início de 1937 nos estaleiros da CUF para a Parceria Geral de Pescarias, o navio foi lançado à água no dia 10 de Maio e efectuou ainda nesse ano a sua primeira campanha de pesca. Um número a reter é o facto de ter sido construído no tempo record de 62 dias úteis.

Estas informações já são sobejamente conhecidas.
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Em 1979 o navio foi comprado à Parceria Geral de Pescarias pela Secretaria de Estado das Pescas, para nele ser instalado um museu de pesca.
Havia experiências anteriores muito negativas (o caso do Hortense), mas, tendo-se verificado o bom estado do casco, deliberou-se que o Creoula se manteria a navegar e seria transformado em Navio de Treino de Mar (NTM), para apoio na formação de pescadores e possibilitar a vivência de jovens com o mar. E assim foi.
Em 1 de Junho de 1987, por despacho oficial, o Creoula foi formalmente entregue ao Ministério da Defesa Nacional, passando a ser designado como Unidade Auxiliar de Marinha (U.A.M.) e classificado como navio de treino de mar.
Para tal, o navio sofreu algumas alterações de peso, tendo sido nessa recuperação muito importante o papel que desempenhou o Comandante António Marques da Silva, pelo seu vasto saber e conhecimento do navio, enquanto navio da pesca do bacalhau à linha, com dóris.

Termina assim a dita brochura:

Novas terras, novas gentes, usos e costumes diferentes a desvendar!
Novos conhecimentos a adquirir, experiências e desafios a vencer!
Um tempo para trabalhar – um tempo para lazer e divertimento!
…E, no fim, uma saudade nos olhos de quem parte e de quem fica.
É esta a magia de um navio carregado de história, no qual gerações de pescadores ganharam arduamente a sua vida, e onde hoje a juventude aprende a olhar o infinito do mar como só os marinheiros o podem fazer.

Bem-vindos a bordo!

Então, … parei as arrumações para respigar estas frases, só…, e mais nada?

Não, nem pensar! Algo “na manga” me fez meditar.

Tive a sorte de conviver de muito perto com dois dos actores do grande elenco que constituiu a última viagem aos Grandes Bancos do Creoula – 1973 – António São Marcos, o imediato, e o saudoso Francisco Marques, o comandante.

Melhor ainda, tive a sorte do António ter uma habilidade rara para fotografia, que pôs em prática nesta viagem, e eu possuir, por ele cedidos, uns tantos belos diapositivos desta epopeia, que ficou histórica.

Obrigada, António São Marcos, pois assim vamos surpreender e maravilhar os leitores deste blog, os amantes do mar e da aventura e os muitos apaixonados pelo Creoula, que já nele viajaram ou que gostarão de o vir a fazer.

Daqui ressalta, no meio de uma vida árdua, penosa e dura, o romantismo, o mito e a magia de uma lenda.

Saboreemos, pois.

Uma pilha de sete dóris com peia reforçada, para enfrentar temporal



Envergando uma nova vela latina, em viagem

Dóris a regressar junto ao navio


Dóris aguardam vez para atracar



Dóris à borda, a garfar peixe (descarregar com garfo)

Quetes do convés com peixe, antes da escala



Fotografias – Amável cedência do Comandante António São Marcos

Costa-Nova, 7 de Junho de 2008

Ana Maria Lopes