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sábado, 5 de setembro de 2015

Beleza natural da Costa Nova

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A Costa Nova é uma estreita faixa de terra, bordejada pelo mar e pela ria. Tem, consequentemente, uma orla marítima e uma orla lagunar bem distintas.
A sua beleza natural, ninguém lha tira, ou por outra, já lhe surripiaram uma tão grande fatia, que nunca mais foi ou será o que era.
O brilho prateado do seu mar em movimento ondulante, como quem vagueia ou procura alguma coisa e uma laguna calma e brilhante, de luminosidades mutantes, consoante a hora do dia, caracterizam-na e fascinam os seus amantes.
Alguns aspectos, como as ciclovias, quer a norte, quer a sul, as boas condições para caminhada, corrida, pedalada, patinagem, tornam-se extremamente convidativas.
Mas, como nem tudo o que «luz é oiro» e, este ano, talvez por ter tido por aqui uma estadia mais prolongada, tive tempo de contemplar algumas mazelas de que padece e que necessitavam muito mais cuidadas. Indicio:
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Frente mar
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Alguns, bastantes, passadiços, de madeira, que pretendem proporcionar melhor acesso à orla costeira, estão em muito mau estado, originando quedas, tropeções, feridas e outros estragos físicos. Por outro lado, em alguns casos, não dá bem para perceber se os passadiços facilitam a chegada à praia, se prejudicam a protecção dunar…
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Frente ria
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Há outras moléstias que, francamente, me desgostam e, sem querer ferir ninguém, gostava de saber, por que os anos se sucedem e estão na mesma ou pior.
Daqui, desta minha janela, fere-me olhar, constantemente, a antiga mota, virada para a ria, que já lambeu o areal e quase os palheiros. O que «resta desta memória» estará tão descuidado, porquê? Haverá alguma razão que eu desconheça?
Aqueles tristes e insignificantes lagos que pretendem memorar a ria (consegui-lo-ão?) que ladeiam a mota, terceiro ancoradouro das barcas de passage, construído pela JARBA em 1942, nunca estiveram em tal estado… Durante meia safra, foram depósito de água poluída, emporcalhada, esverdeada, apinhada de garrafas e de sacos plásticos. Depois de esgotado o resto da água, assim permanecem, vazios, secos, por pintar e por cuidar. A existirem, que existissem, ao menos, aprimorados. Mas, não. Estão o cúmulo do desmazelo.

A mota entre lagos vazios e descuidados

O relvado, pouco cuidado, amarelecido, mais parece palha para alimentar jumentos, que verdura para alimentar a vista, na sua frescura. Algumas folhas, caídas, acastanhadas, envelhecidas, descuidadas, das palmeiras, contribuem para a encenação de uma situação sombria.
Faltam-nos, desde o ano passado, dois moliceiros que nos serviam e embelezavam a ria, no seu navegar e que nos facilitavam a travessia para a Bruxa, típica na zona, para veranear e, possivelmente, degustar uma tosta, bifana ou empalhada, tão características do local. Quem sempre teve a barca da passage do outro lado da estrada, sente-se completamente truncada e presa na tal dita bela língua de areia.
No términus da Calçada Arrais Ançã, com o seu belo casario riscado, que não chega para «tapar olhos», a residentes e visitantes, começa o desmazelo pleno dos parques e campos desportivos (merecerão esse nome?).
Um parque infantil que já foi um «brinquinho», pelos anos 60, que frequentei assiduamente com crianças familiares, hoje, e já há uns valentes anos, torna-se ultrapassado, desactualizado, pela falta de higiene, beleza, e de segurança, nas poucas diversões disponibilizadas.

O pseudoparque infantil

E os campos que se lhe seguem – de ténis, por exemplo? Abandonados, sem controlo, de portas escancaradas e sem qualquer tipo de vigilância, rodeados de ervas, estão completamente subaproveitados.
E um outro, que se lhe segue, apelidado de campo de futebol? No mesmo ou pior estado.
Toda esta zona envolvente na frente ria, é amparada por uma construção, que já mereceu o pomposo nome latino de Pérgula, no meio de umas ervagens secas, brotadas em areal sórdido e imundo. 

Alvura da pérgula, no final dos anos cinquenta
Salva-se o Minigolfe, renovado no ano passado, local alternativo para crianças e familiares, em dia de nortada ou de mar picado, na falta de praia lagunar.

No minigolfe, com a ria, ao fundo
Bem esmiunçado, muito mais haveria que elencar, mas já chega de mazelas que deitam a perder o potencial natural da Costa Nova.
Continuando a pedalada pela ciclovia, para norte, deparamos com o aspecto desolador do bar do CVCN encerrado, bar esse que, de algum modo, já foi um ponto de encontro e de convívio, na praia.
Bar do CVCN encerrado
Também, no domínio de transportes, a estrada de Ílhavo/ Costa Nova quase não existe no mapa. As carreiras, apenas durante Julho e Agosto, são pouquíssimas e incertas, deixando «em terra», com a maior desfaçatez, mesmo quem é possuidor de passe mensal. E as pessoas que têm empregos sazonais na Costa Nova, não tendo transporte próprio, assim ficam a «a ver navios» …
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O habitual festival de marisco «A ria A gosto», as natas do café Atlântida e as tripas do Zé das Tripas e suas variantes não chegam para animar a Costa Nova, durante a dita época balnear. Há que renovar e, sobretudo, cuidar.
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Nas entrelinhas, poderá haver aspectos que desconheço, mas que cada um palpitará a seu bel-prazer. Ou haverá quem não concorde comigo?… Assim vejo – sem querer culpabilizar ninguém, mas sim chamar a atenção, pela positiva.
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Costa Nova,  30 de Agosto de 2015
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Ana Maria Lopes
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domingo, 30 de agosto de 2015

Na Costa Nova, a ria galgou a terra

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Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha – diz o povo e com razão.
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Como eu não pude ir ter com a ria, veio a ria ter comigo, para encerrar o mês de Agosto com um brilho que, climatericamente, não teve.
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A ria no seu esplendor, na sua lhaneza, na sua fundura e na sua lisura, invadiu a terra, galgando-a, como outrora, plangente.
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Téthis, deusa das águas, fê-la subir, subir, subir, até que, transpondo a rodovia, beijou docemente a estrada e os palheiros, saudosa do seu antigo leito que lhe foi roubado maleficamente por alguém que não pensou, cientificamente, nos efeitos.

Frente à «Marisqueira»

A partir do «Coração da Praia»…
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Costa Nova, 30 de Agosto de 2015
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 22 de julho de 2015

A minha Costa Nova de outras eras

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Hoje, enquanto conduzia de Aveiro para a Costa Nova, fui parar a outro comprimento de onda do pensamento e vieram-me à ideia – e com que saudades! – outros tempos.
As minhas memórias não vão recordar a frente lagunar, desde o sul, no bairro dos pescadores com seus armazéns de salga, a antiga «Marisqueira» (ex-Pensão Astória e ex-Casa Alberto Pinto Basto), o velho mercado, a Pensão Zé das Hortas, o largo com a estátua do ícone Arrais Ançã, as «motas» (cais), seu posicionamento, a ria a beijar a estrada ensaibrada, a datação dos primeiros eucaliptos ali junto à «Vivenda Quinhas», os furos da Regina, o Chiadinho, onde tanta vez fui buscar fotos que iam a revelar, a Rádio Faneca, os passeios na Esplanada até ao recolher (11 horas), os palheiros, primeiro a ocre, mais tarde listados e coloridos, o Bico… Chega…Disto já toda a gente sabe.
Hoje, vieram-me ao rol das memórias, as minhas lembranças marítimas – o nosso mar. O meu banho de mar. Não me chegava molhar os pés. Também não era nenhuma Maaia, mas convivia muito bem com o mar. Uma autêntica molhadura de liberdade. Conhecia-lhe as correntes, os eventuais lagos, os redemoinhos, a força na rebentação.
Mas todos os cuidados eram poucos. Com o mar não se brinca – assim fui transmitindo aos meus filhos que lá obedeceram, apesar de saberem nadar bem.
Em dias três Bbom tempo, bom mar, boa temperatura da água, passava o dia na praia, a ler, a bordar ou a crochetear, mais tarde a trabalhar para o bronze, mas com as cautelas solares aconselhadas.

A temperatura do mar tinha duas medidas – ou gelava o osso, ou não o gelava. Raro, amornada por alguma corrente quente, parecia o Algarve. Isto, uma ou duas vezes por ano.
Mas, apesar de franzina, friorenta, suportava tudo. Mais ou menos tempo, mais avanço, mais recuo, coragem! E, em mergulho gostoso, ultrapassava a rebentação – parecia um meia-lua, sem muleta, sem bois, sem remos. Só o prazer da ondulação.
Noutras situações, em que o mar não permitia ultrapassar a rebentação, mergulhava na espuma alta, cambalhoteando-me, – tal e qual um banho em champanhe.
Não havia nada que se lhe igualasse. Banha, seca, aquece, ...banha, seca e aquece... era esta a girândola.
A propósito de banhos no mar, quem não se lembra dos banhos do Dr. Ferreida da Costa?
A praia suspendia a respiração para o ver mergulhar, afastar-se, nadar, boiar e varar sei lá onde… Era divinal e nunca teve nenhum azar. Era um ritual.
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Voltando ao meu banho, só as pontas dos dedos engelhados e arroxeados me faziam  mesmo sair da  água.
Adorava vir por aí fora em fato de banho, de bicicleta, enrolada num dito trapinho adequado, já seca, salgada, ou a pingar de água marinha, conforme as condições atmosféricas.
Radiante, ofegante, consolada, entrava e dizia a quem estava, por vezes, a minha Mãe com a minha Tia Fernanda: quando este prazer findar, estou feita e a praia, o mar, a areia, para mim, acabaram.
O prazer e a intensidade dos banhos foram diminuindo… até que terminaram – parece-me. Tomei o último banho de mar, com as netas, para aí há dois anos. Por isso, sinto tanto a falta de uma praia lagunar… Aí, ainda me tentava, em dias quentes, soalheiros, a umas braçadas ou a boiar, relaxada.
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E hoje? As gerações repetem-se. E sinto-me no papel que dantes conheci à minha Avó.


Da minha varanda,,,

Uma praia de «avó», em que o maior prazer é estar numa quietude, olhos bebendo a beleza do espraiado manso da ria, que aprecio da varanda. Paisagem tão inebriante como inconstante, mudando de hora a hora, despertando-nos constantemente o gozo pleno da sua apreciação.
Vida de varanda já se usou mais que agora, mas mesmo assim, dá para bronzear, sem queimar. E ainda para ler, escrever, fazer serviço de «manicure», para entreter com quem passa, com os que «arribam» à praia, com os que levantam ferro e com os que partem em nova emposta.
Passeios de moliceiro, não tem havido, nem à ilha, nem à Bruxa. Poderá ser que o vento mude.
Até a vela de «O Marnoto» me faz falta ali na mota, e ainda mais quando embelezava a ria, em maré cheia, nas suas cores vistosas, com vela iluminada pelo reflexo do pôr-do-sol.
 
«O Marnoto»
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Ai Costa Nova! … Ou ela ou eu.
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Imagens – Etelvina Almeida e Paulo Godinho
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Costa Nova, 17 de Julho de 2015
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Ana Maria Lopes

domingo, 24 de maio de 2015

Postais da Costa Nova - Varandas - 3

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O arquivo do Dr. Paulo Horta Carinha é um espólio, a todos os títulos, notável, um baú sem fundo, que aprecio e comento sempre que me apraz.
Mas, ontem, esta imagem de uma varanda enfeitada com uma dúzia de mirones, em contemplação da ria e da azáfama piscatória, quiçá, seduziu-me. Apoderei-me dela, com ordem, – a varanda da Pensão José das Hortas, na Costa Nova, em 8 de Julho de 1936.

Varanda de ontem…

Ao guardar a imagem no ficheiro em que a incorporei, não é que ficou não encostada a esta outra, recente, com um grupo de amigos que se prepara com deleite para ver passar a procissão da Nossa Senhora da Saúde, em 29 de Setembro de 2013? Outro estilo, outras modas, outras roupagens, outras atitudes. Quase oito décadas as separam.

Varanda de hoje…

Não há dúvida, as pessoas passam, mas as cenas vão-se repetindo.
Sempre foi esta uma das grandes atracções das varandas da Costa Nova – um voyeurismo franco e aberto relativamente a tudo quanto passa e nos deslumbra, desde as serranias longínquas em declive, a Senhora da Maluca estilhaçante num pôr-do-sol resplandecente, a beleza da ria prenhe ou descarnada, a procissão da Senhora da Saúde, ou simplesmente, quem passa a passear ou a mercar. Se valer a pena, nada como rapar do binóculo de bordo do meu Avô…
Nada mau. Um entretém em cheio, desde que o tempo ameno o permita.
Foi assim com a minha Avó, com a minha Mãe, comigo! – Será que vai prosseguir?
Os deuses adivinhá-lo-ão.
Quase que dá para listar aqueles que por ali passaram e já não passam. Até que, algum dia, algum passante venha a dar pela minha falta na minha varanda virada para a ria…
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Fotos cedidas por PHC e por MEPC.
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Ílhavo, 24 de Maio de 2015
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Ana Maria Lopes

segunda-feira, 16 de março de 2015

Postais da Costa Nova - 2

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Ainda o Bico…

Os postais, que ultimamente têm surgido em alfarrabistas sobre a Costa Nova, não trazem propriamente nada de novo, mas deixam-nos visualizar cenas que nunca tínhamos presenciado antes, com tanto pormenor.
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Porventura, um pouco a norte do Bico, com a Senhora da Maluca, na banda de lá, como cenário, desenrolam-se várias cenas de trabalho, que passamos a listar.
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Em primeiro plano, pescadores descalços, de ceroulas atadas e de camisa lisa ou sarapintada, de bonés ou barrete negro tradicional, de borla na ponta, sentam-se à beira-ria, sobre uma rede da chincha que, entretanto, com agulha de rede, cuidam e remendam. São notórios os pandulhos usados na tralha dos chumbos, em primeiro plano, e as pandas, flutuantes, na tralha oposta.
A sua bateira chinchorra, ancorada, possivelmente com toldo enrolado, com varas e cabos, apetrechada, aguarda-os para a faina lagunar.
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De passagem, dois moliceiros, norteiros, com tudo a que têm direito, embelezam e completam a cena.
Numa bolina suave, auxiliada pela vara, homens-moliceiros aproveitam para, com os ancinhos trilhados entre tamanca e forcada, «raparem os cabelos verdes da ria».
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Um autêntico quadro de Raul Brandão.
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Ílhavo, 16 de Março de 2015
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 4 de março de 2015

Postais da Costa Nova - 1

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Será que a Costa Nova terá sempre algo a acrescentar? Relativamente à «minha bíblia» sobre esta língua de areia que já nos deleitou muito mais, este postal não é novidade (p. 123 da obra já citada); só que, de tão diminuto que está, não permite apreciar toda a informação que nos faculta.
Há muito que vimos sentindo a falta de uma praia lagunar, num contacto aberto, solto, franco, doce e libertador, com as águas correntes lagunares. Além de nos ter sido afastada da vista, uma boa dezena de metros, a ria, ainda nos foi levado esse refrescar directo dos pés ou dos corpos, nas suas macias águas. Isto consegue-se na ilha, na dita «Ilha Branca» de formação recente (pelos anos 70), mas convenhamos que aí abicar, a quem não tem embarcação, não é fácil.
Desde que a nossa estância balnear se começou a afirmar como pousio de veraneantes, o Bico começou por ser a primeira praia lagunar de renome, aí, até aos anos 30 do século XX.
Quem sabe, hoje, o que foi o Bico?
Um espraiado de areia, mais ou menos defronte ao actual e degradado parque infantil, enamorado de sol, apaixonado de água e luz, onde as beldades chapinhavam em grupo, para se sentiram mais afoitas. Foi a praia lagunar do tempo dos meus pais, onde chegaram a ser montadas, algumas, não muitas, barraquitas riscadas, para aconchego dos grupos de jovens veraneantes e possível troca de vestimenta molhada.
A actividade piscatória na zona era muito razoável e as embarcações, ao longe, na ria, pontilhavam-na de marcas mates ou brilhantes, empasteladas no casario embaciado ou reluzente da Gafanha da Maluca.

Postal da Costa Nova (Banhos no rio) – o Bico

Ainda reconheci este Bico, já só com umas restos de areia e vegetação (tramagueiras), onde nos reuníamos, em tardes mais ventosas, para apanhar búzios e «concharinhas» para colares, para jogar as cartas, o prego, o encarreirar ou o ringue. O banho, mesmo para as mais afoitas, já era impossível, dado que ao caminhar pé ante pé, logo atolávamos num lodaçal que nos atemorizava.
No nosso tempo de menina e moça, usámos uma praia lagunar mais a norte (entre 1935 e 70), a que foi dado o pomposo nome de Biarritz (praia famosa do sul de França), frente a um casario que começaria a nascer e a desenvolver-se no redondo conhecido ainda hoje por esse nome.
A pé, de bicicleta ou de bateira, para aí nos dirigíamos em bandos, quais gaivinas ou gaivotas esvoaçantes.
Saboreávamos-lhe a areia branca, macia, em declive, o sol quente, luminoso e acariciador, bem como a água corrente, límpida, agitada ou calma, consoante o vento ou a ausência dele.
A ria era o palco de um sem número de malabarismos – mergulhos corridos, saltados, pinoteados, braçadas em diversos estilos (bruços, crawl, mariposa). Mas, para deleite mesmo ao sabor da corrente, fruindo o quentura do sol, nada como boiar directamente na água ou em colchões ou bóias insufláveis.
Pelos anos 50, os vários banheiros da praia (Sr. Portugal, Abreu e Maiaia) ainda dispunham na faixa de areal, as suas barracas riscadas e coloridas, onde, mediante aluguer, nos vestíamos, despíamos e abrigávamos da canícula, vento ou nevoeiro em excesso.

Na Biarritz, em 1963

E, por aqui, foram despontando os primeiros amores que, ainda hoje, deixaram as suas marcas.
Logo a seguir ao aparecimento da Biarritz, começou a moda de San Sebastian (praia do norte de Espanha), uns trezentos metros mais a norte, junto a uma antiga seca de Lavadores, que não chegou a gozar do brilho do primeiro espaço.

Na enseada, ao fundo, avista-se San Sebastian.1967

A rapaziada, que fruía de belos mergulhos de dunas altas para água límpida e profunda, era mais a clientela de San Sebastian. Ficava, mais ou menos antes da actual ponte da Barra, frente à actual moradia do arquitecto Cravo.
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Foram estas as praias lagunares da Costa Nova, até ao grande desfalque, a que foi submetida a ria, pelos princípios de setenta.
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Ílhavo, 4 de Março de 2015
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Postais da Costa Nova

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A minha bíblia sobre a Costa Nova, é, infalivelmente, o livro Costa-Nova-do-Prado – 200 Anos de História e Tradição, de Senos da Fonseca, 2009. É um tratado sobre a dita praia da minha infância, juventude, maioridade e vetustez. Congelou-a no tempo. Com a escrita, sim, mas, também com a imagem.
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Relendo-o, folheando-o, revisitando-o, traz-me sempre mais alguma novidade.
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Como o autor diz, poderia ser sempre melhorado. Como tudo. A meu ver com a introdução de mais alguns postais, que vão aparecendo em alfarrabistas, que pessoa amiga colecciona e que, aos poucos vai trazendo a lume. Este bilhete-postal, embora incorrecto na identificação, pois lê-se – Aveiro – Costa Nova – com o que fico revoltada, pela ignorância ou confusão do editor, representa inequivocamente um trecho da Costa Nova, que foi a nossa (ilhavense) jóia da coroa.
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Já que o Marintimidades entra no seu 7º ano de vida, por vezes, os recursos temáticos vão rareando ou, para mim, não são os mais apetecíveis. Vamos indo e vendo.
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Decidi ir postando alguns desses postais, por vezes datados, o que lhes acrescenta uma mais-valia.
 

E para começar… Que me apraz dizer? Este postal não é datado.
Vagueio no tempo:
Sem dúvida, uma foto antiga. Mas talvez não tão antiga como a apreciação dos trajes nos conduz.
Entre 1910 e 1930? Aposto… Por comparação com outras imagens, talvez, anos 20.
O casario, pela sua posição alongada, não permite grande identificação, mas uma das primeiras casas de alvenaria da praia, do séc. XX, talvez conhecida por «Vila Africana», propriedade de um Dr. Diniz (?), que ainda hoje existe, lá ao norte, dá-nos nas vistas.
A beira-ria que nos apraz observar é mesmo à borda-d’água. O areal lambe-a. A estrada ainda não é entrecortada por nenhuma muralha e, muito menos, pela esplanada.
Abicadas no areal, algumas embarcações identificadas como moliceiros, na sua elegância de vela erguida para os céus, embelezam o conjunto.
E, a propósito de moliceiro. No primeiro não tenho dúvidas, é-nos dado apreciar os dois painéis, proa e popa, de bombordo. Já são pintados com uma área muito razoável, longe na perfeição que foram atingindo por meados do mesmo século passado.
Todo o conjunto é envolvido por uma luminosidade enternecedora, daquelas, sempre em mudança, que caracterizam a nossa praia a cada hora do dia.
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Postal gentilmente cedido por PHC.
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Ílhavo, 30 de Janeiro de 2015
Ana Maria Lopes
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domingo, 30 de março de 2014

A Casa dos Faróis, in «Varandas para o Atlântico» de Sousa Dinis

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Os comentários aos posts sobre a Casa dos Faróis conduziram-nos a um romance de Sousa Dinis, Varandas para o Atlântico, editado em 2000, esgotado, em que o autor evoca umas férias lá passadas. Bem, vamos a elas, através de uns exíguos excertos respigados.
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(…) Mas quando me sentia verdadeiramente realizado, era com a partida para a Costa Nova. A banhos como dizia a minha avó, apesar de nunca tomar banho de mar ou de ria, onde só molhava os pés. Para ela, banho só na banheira.
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A partida tinha lugar todos os anos no último dia de Julho.
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O velho carro do avô, carregado de todos os precisos parra o mês e com a suspensão soltando sons que tanto podiam ser gemidos como relinchos, lá ia estrada fora, os pistons resfolgando em apoplexias até se deter na Casa dos Faróis, com um último soluço asmático, jazendo depois, durante um mês, ao lado da carcaça meio apodrecida de um barco moliceiro que tempo ali fizera encalhar de vez.
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A Casa dos Faróis, que ainda há poucos anos existia orgulhosamente decrépita e abandonada, era a casa de praia dos Marnotos há várias gerações. Assim a baptizaram a gente da Costa Nova porque, passado o logradouro murado, que desde o portão de entrada contorna toda a casa até se espraiar num largo quintal nas traseiras, tem, de cada lado da escada de acesso à varanda da entrada, duas réplicas do farol da Barra, colocadas simetricamente.
Essa varanda era lugar de cavaqueira de meus avós e amigos, ao cair das tardes de Verão. Presenciei ali acesas discussões sobre se o farol da Barra pertencia a Ílhavo ou a Aveiro, e onde, na opinião dos ílhavos, os de Aveiro os deviam meter… A varanda dava aceso a uma sala de estar e de jantar. Seguiam-se para o interior, quatro quartos, dois de cada lado, todos eles separados por acolhedoras paredes de madeira, enfeitadas com redes, remos e outro motivos náuticos, até se chegar ao fundo, à cozinha, reino exclusivo da avó Amélia. Aí, havia uma escada para o sótão e uma porta para as traseiras que servia a casa de banho e o quintal, onde umas couves raquíticas, crescendo na areia, lutavam teimosamente contra o solo pobre e o ar salitrado do mar, que se ouvia ao fundo e se cheirava ali mesmo, misturado com o odor dos arbustos das dunas.
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O meu quarto, de tantas recordações, estava virado a norte e nele entrava, todas as noites, com a precisão de um relógio, a luz familiar do farol da Barra – quatro pancadas para o mar e quatro para terra. Entrava a luz, o cheiro da maresia, que sempre me acompanhou desde que me recordo, e entrava o barulho das ondas, deliciosa música de fundo para adormecer.
A cama tinha a cabeceira e os pés em arcos, imitando a proa e a ré de um barco moliceiro a quem a visse de lado. E a mesinha de cabeceira tinha um tampo de vidro que mostrava, por baixo, uma bússola com a agulha virada para o lado do farol.
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Foi nesta «cama-barco» que, por volta dos meus quinze ou dezasseis anos tive um sonho esquisito. Ou então algo de insólito me aconteceu (…).
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Fiquemos por aqui e sonhemos o que desejarmos…na projecção dos raios de luz do Farol.
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Foi tudo quanto nos foi dado encontrar sobre a Casa dos Faróis. Este nosso interesse fez com que nos chegasse às mãos o postal que partilhamos, em que se identificam bem a Casa dos Faróis, entre tramagueiras, a casa do Dr. Diniz e a Casa dos Leões, hoje em «obras de Santa Engrácia», em trio isolado, o que reportará a imagem lá para os anos 30 do século XX.
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Mas, e em primeiro plano? Na borda-d’água, mais uma bateira para a colecção! Uma prazenteira e elegante chinchorra, de breu vestida, com um toldo protector para os seus dois ocupantes, em dias de surriada.
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À cata de dados diversos – fotos remotas, depoimentos, escritos e postais antigos – vai-se recompondo a «memória da Costa Nova», que nunca estará completa, mesmo só em pouco mais de dois séculos de vida.
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Imagem – Postal gentilmente cedido por Aníbal Paião
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Ílhavo, 30 de Março de 2014
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Ana Maria Lopes
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sábado, 1 de março de 2014

A Casa dos Faróis na Costa Nova do Prado - II

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A Casa dos Faróis na Costa Nova do Prado 

(Cont.)

Casa dos Faróis. Anos 70
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No primeiro andar, a maior das divisões, tão larga quanto a casa e profunda de bem quatro ou cinco metros, era o lugar de vida e de reunião. Servia de casa de jantar e de sala de estar. Uma janela de cada lado da porta e uma (ou duas) a Sul deixavam entrar a luz e o Sol. À volta da mesa, se bem me lembro redonda, as cadeiras.
Aqui começava o particularismo do mobiliário, que tentarei descrever se me não falhar a memória. Imagine o leitor uma canastra paralelepipédica com o fundo para cima a servir de assento. Por dentro, colocados e presos a cada aresta, os pés eram quatro cabos de remo. Nas costas, dois remos cortados do lado da pá, em diagonal, fixados à tampa da canastra de um lado e a uma das faces de canastra do outro formavam as costas da cadeira.  
Duas cantoneiras, réplicas exactas de popas de moliceiros usavam-se como credências, com o assento a servir de prateleira e, na parte de baixo, o armário para a loiça e os copos. O chão, os tectos e os tabiques da casa toda eram de madeira encerada, de tom quente e toque suave, quase cor de mel.
A porta, na enfiada da entrada principal dava para o corredor. Neste, ao fundo, ficava a cozinha virada a poente, à esquerda o quarto dos miúdos onde eu costumava ficar e a casa de banho, com as janelas a Sul. À direita, uma escada de madeira apoiada à parede Norte, com três lanços perpendiculares uns aos outros e balaústres esculpidos, dava acesso ao primeiro andar, onde ficavam os outros quartos e raramente acessível à miudagem.
No «meu» quarto, a cama de pessoa e meia, era de madeira esculpida em forma de barca estilizada. De parte e de outra, as mesas-de-cabeceira eram, nem mais nem menos, bitáculas, também obra de exímios marceneiros. Até hoje, tirando lá em casa, onde todos os quartos tinham este tipo de móveis, nunca mais vi nada com que se parecessem.
Na casa de banho contígua, mas sem comunicação directa com o quarto, não havia água canalizada, nem canos de esgoto. Chão, tabiques, tecto e portas eram também daquela madeira bonita e quente já descrita. Um lavatório de ferro esmaltado à antiga, encostado à parede, com o seu jarro de água e o balde para a água suja e, no meio da divisão, um semicúpio de zinco em forma de bateira, suficientemente grande para um adulto, era o equipamento sanitário de que me lembro. Pendurado por uma corda a uma roldana no tecto, por cima do semicúpio, um balde de folha com um ralo de regador para o duche. Muito bem me recordo de uma criada trazer da cozinha dois jarros de água quente. Começava por abaixar o balde de duche e enchê-lo de água. Feito isto, avaliava a temperatura com a mão, içava outra vez o instrumento e prendia a ponta da corda no gancho aparafusado no tabique. Então, já despido, entrava eu para o semicúpio e, em pé, com a ajuda da mãe, puxava pelo cordão da válvula de água e tomava o duche quotidiano, que adorava. Logicamente, penso que depois alguém vinha despejar a tina, mas julgo nunca o ter visto.
 
Tina Campos, Alfredo, Margarida e Amélia Campos

 
Era na cozinha que se aquecia a água para os banhos e para o que mais fosse preciso. Um enorme fogão de lenha, de ferro fundido, com dois fornos e, do lado direito, aquecido pelo combustível do fogão, que se acendia de manhã e dava até à noite, havia um reservatório de cobre com uma torneira do mesmo material, sempre cheio de água, muitíssimo quente, designadamente para as tarefas e necessidades culinárias. Para os banhos e duches, penso que se aquecia água em grandes chaleiras na chapa do fogão. Dessa cozinha, onde raramente ia, é a única coisa que me ficou.

O DJ seria um Osvaldo, de Vagos


As janelas, a Sul e a poente arejavam e deixavam passar a luz do Sol. Por dedução, já que a memória o não registou, devia haver uma escada exterior da cozinha para o quintal, por onde entrava e saía o pessoal, com tudo o que era preciso para a casa e os seus moradores. Não poderia deixar de ser assim pois não havia nenhum acesso directo da garagem (que ocupava toda a superfície do plano térreo) para o primeiro andar, e também nunca vi passar pela porta principal fosse o que fosse para a cozinha ou para as necessidades domésticas.
A casa mítica da minha infância foi demolida e alguém construiu no terreno, se bem me parece com uma «fatia a menos» para alargar a rua dos Faróis. No que lá está, resta uma ínfima referência à Casa dos Faróis na forma do telhado.
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O tempora! O mores!
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Bruxelas, Janeiro de 2014
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© Jorge Tavares da Silva
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Nota – Este texto e imagens foram-me enviados pelo Autor, meu amigo, com a finalidade de vir a ser publicado no Marintimidades. Um hino à Casa dos Faróis, demolida. Além do mais, também fui frequentadora de um ou outro bailarico, nesta cave.
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A Casa dos Faróis na Costa Nova do Prado - I

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A Casa dos Faróis na Costa Nova do Prado

Casa dos Faróis. Anos 70
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Quando nasci, ao sair da 2ª Guerra Mundial, o meu tio-avô paterno Manuel Marques, de Azurva, já tinha comprado a Casa dos Faróis, o refúgio estival da família.
Pela parte que me toca, as recordações directas e conscientes estendem-se muito aproximadamente por um curto período, de1949 a 1952. Ou seja, entre os meus quatro e sete ou oito anos. Mas, a magia daquela casa era tal que dela me recordo em pormenor, no que diz respeito ao ambiente, aos materiais e aos móveis, únicos no seu género. Além disso, soube-o muito depois, a moradia em questão tornara-se uma das referências da Costa Nova.

Para quem vinha da Barra, ou seja do Norte, único acesso terrestre da terreola, a primeira casa da Costa Nova era o palheiro do José Estevão. Seguiam-se, na avenida que lhe presta homenagem, a garagem do Samuel (actualmente devoluta), com uma fachada muito curiosa, e outras moradias da primeira metade do século XX que ainda lá estão. A Casa dos Faróis fechava a marcha, à esquina de uma ruazinha de terra sem saída, hoje rua dos Faróis. Mais adiante, antes do «Bico» subsistiam ainda alguns palheiros. Infelizmente, nessa altura já poucos eram de madeira. Tanto quanto sei, depois de um incêndio anterior à minha própria existência, a madeira fora banida da construção e os que ainda restavam eram casas de pedra e cal com o reboco das fachadas a imitar o revestimento tradicional. Verdade seja dita, mais para Sul alguns tinham escapado. Na memória dessa época, dos elementos urbanos marcantes, ficaram-me a pensão Pardal, o busto do Arrais Ançã e o popular café homónimo (também conhecido por Coração da Praia). Uns metros à frente o café Beira Ria, ponto de referência da burguesia veraneante, com um mezanino onde os músicos tocavam, o Hotel Restaurante do mesmo nome e a «Mota» (actualmente, posto de turismo) embarcadouro das barcas para atravessar a Ria e, depois da curva da convivial Marisqueira, outro excelente restaurante, campeava o Mercado Municipal. Duas ruas na direcção Norte-Sul e uma meia dúzia de transversais de nascente a poente constituíam a «rede rodoviária» da povoação.
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É este o cenário urbanístico-arquitectónico que da infância herdei.
No final da década de 50, a Casa dos Faróis saiu da família e, até 1962, as férias que na Costa Nova passei foram na Pensão Pardal ou no Hotel Beira Ria. Esporadicamente, aquando de umas festarolas que organizei na garagem, ainda voltei à mítica mansão familiar.

Da esquerda para a direita, identificados – Zeca Vinagre, Alfredo, Margarida, Barreto e Abrantes

O que dela posso contar resulta sobretudo de farrapos de conversas familiares e de lembranças «românticas» de uma infância radiosa. A Casa dos Faróis era, para nós crianças, um mundo fantástico de imaginação, onde tudo se tornava possível. Assente entre a Ria e o Mar, deste separada pelo que chamávamos «a Selva». Para lá íamos, quais «cowboys e índios» que éramos (designadamente o Dinis, o João Manuel e eu) e inventávamos todos os dias novas façanhas do Faroeste, com flechas de cana e revólveres de pau. Ou então, a nascente, na Ria, onde apanhávamos caranguejos no lodo da baixa-mar, andávamos de bateira ou lançávamos à água barcos à vela de cortiça de fabrico próprio. De quando em vez, lá aparecia um de nós com uma lancha ou um rebocador de folha com motor de corda, que acabavam sempre por enferrujar.
A nossa casa, construída na primeira metade do século XX, muito provavelmente por um «Calafão» (emigrante de retorno, com fortuna feita na Califórnia) cujo amor da Ria e do Mar o levou a erigir os dois faróis, réplicas reduzidas e fiéis do Farol da Barra, ao pé dos lanços de escada Norte e Sul a acolher quem naquela casa entrava. Mas, sobretudo, o mais marcante era a decoração e o recheio, de que só a família e alguns amigos poderiam testemunhar. Raros são ainda deste mundo e o que aqui revelo aos leitores, ainda que muito incompleto será, para quem a não conheceu, o pouco que gostaria de deixar.
A Casa dos Faróis foi erigida no terreno com três estremas que rematava o quarteirão a Sul. Ainda hoje delimitado pela Avenida José Estêvão, a rua dos Faróis e a Avenida da Belavista, esta última um mero sendeiro a poente. A Norte, o limite era então uma ruazinha de terra, de acesso ao já citado palheiro do José Estêvão, actualmente rua da Nossa Senhora da Encarnação.
Construção de planta rectangular, de alvenaria, com a fachada principal a nascente a altaneira Casa dos Faróis, com o telhado de duas águas, encimado por uma águia de asas abertas, não passava desapercebida. Quem lá entrava era recebido no terraço de cerca de quatro metros e a toda a largura da fachada, onde se chegava por um dos dois lanços de escada, com os míticos faróis por sentinelas. Dali, a vista para a Ria, sobretudo nas noites de lua cheia e de praia-mar era um encanto.
O muro de cerca, com balaústres arqueados a partir de um metro de altura, delimitava o terreno a nascente e a Sul. Deste lado ficava a entrada de serviço, um pequeno portão de madeira entre dois pilares. A nascente, um portão de madeira de dois batentes abria para um terreiro, parcialmente atapetado de chorões, por onde passavam os carros quando iam para a garagem. Na faixa central de cimento, entre os pilares de betão armado de sustentação da casa, havia espaço para três automóveis, uns atrás dos outros. À esquerda e à direita, o chão era de areia e ali se guardavam enviesados os barcos, as bicicletas, os apetrechos de praia, de navegação e algumas alfaias. Ao fundo da garagem, uma porta na fachada poente, dava para o jardim e o quintal. No muro de cerca das traseiras, de alvenaria maciça, com uns dois metros de altura, havia um outro portão inteiriço de madeira, que dava directamente para a «selva». Por uma estreita trilha ia-se até ao Mar. A Norte do terreno, o muro meeiro com o vizinho separava as duas propriedades.

Patacão (de costas), Abrantes, Amélia Campos e Jorge (autor do texto)

No vão da escadaria da fachada principal, de parte e de outra, havia um canil de abrigo para os vários cães da família. Acabado o defeso, os caçadores da casa iam às galinholas e aos mergulhões. No Verão, punham-se as bateiras-caçadeiras e o vouga na Ria, para passear, pescar ou ir à praia de «Biarritz» ou de «San Sebastian».
 
Bruxelas, Janeiro de 2014
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© Jorge Tavares da Silva
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Nota – Este texto e imagens foram-me enviados pelo Autor, meu amigo, com a finalidade de vir a ser publicado no Marintimidades. Um hino à Casa dos Faróis, demolida. Além do mais, também fui frequentadora de um ou outro bailarico, nesta cave.
(Cont).
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Desafiado a um relato da CHINCHADA...

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Desafiado a algo dizer – embora sem delírios (?!!) que a autora reconhece no meu palrar – para assim dar conta das Chinchadas Monumentais organizadas pelo grupo dos «sete magníficos»,  anos seguidos, na Costa Nova, no dia 15 de Agosto, de cada ano.
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O grupo era constituído por Francisco Meneses, Zé Parada, José Ançã, João Carlos Loureiro, Jorge Picado, Carlos Duarte, Manuel Cândido Amador e eu.
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Ano após ano, púnhamos de pé uma complexa organização. Prévia e atempadamente apregoada, nos característicos «avisos» programáticos saídos da mão prodigiosa do João Carlos Loureiro (o mesmo acontecendo no S. Martinho).


Chinchada 73

Eram distribuídos aos amigos de aqui, mas e também, muito especialmente aos ílhavos que a profissão desviara para Lisboa: Alberto Bixirão, João Bela, Fernando Lau, e outros. Também em particular atenção para os amigos do grupo, embora de uma outra geração mais velha, onde pontificava meu Pai (sempre a adorar estar perto do filho e dos amigos), o Cap. Zé Vaz, inefável e inenarrável contador de estórias apimentadas, homem de um humor fino e privilegiado, o «Teiguinha», irmão de peito de meu Pai a quem consagrava verdadeiro culto; Ferreira Jorge, o eterno sonhador, homem de carácter a que Ílhavo tanto deve, amigo do seu amigo, que foi um meu companheiro de jorna, até ao seu fim. E muitos outros. Todos podiam convidar os seus amigos. Que por vias disso, nossos amigos eram. E é por isso que a fotografia apresentada pela AML, foi cedida pelo juiz Dr. Lamas, um dos convidados habituais. Juntamente com o Juiz de Vagos, o «El Gordito», senhor de uma alegria contagiante, que parecia ter, no lugar do estômago, antes uma esponja sequiosa. Outro habitué era o velho «Monchaine». Trazia sóbrio e direito, o D. João, Visconde de Taboeira, e o levava deitado, majestosamente embalado, para a cama de dossel e colgaduras onde deveria sonhar com o encargo real de vedor da adega celestial.

 
Binhos

O grupo organizador, esse ia, responsavelmente, de véspera, para o local, onde se ia dar a batalha de fruição das vitualhas divinais. Que as mãos experientes dos master chiefs gourmetsFonseca & Meneses – iriam certamente prodigalizar.
Obrigatório, era cumprir «as vésperas». Ainda que reduzida a sua celebração, ao grupo organizador, eram, depois de terminados os arranjos do campo, mercadas por opípara jantarada. Cada um tinha a sua função: o Parada era o organizador do campus; o Zé Ançã era o homem que tratava das buídas – que se requeriam muitas e boas – sendo seu especial encargo encanteirar (em segurança) os pipos. E apor-lhes à distância de uma mão, duas confortáveis cadeirinhas (para o dito D. João e para o El-Gordito), que gostavam em particular, de degustar em repouso, o bairrada seleccionado. Os irmãos Amadores eram os achegadores das vitualhas, transportadores dos mantimentos e seus guardadores. E claro, os contabilistas, que ali não havia borlas para ninguém. O João Carlos era o fazedor da complicada engenhoca, o assador campal onde ao outro dia se churrascava, umas vezes, uma vitela inteira, outras, mais comedidamente, um caprichoso suíno de boa seba.
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Voltando à foto. Pelo que relatarei, creio ter-se tratado da «Monumental Chinchada» de 1971. E explico porquê.
Os primeiros lanços da chinchada, nesse ano, a que eu, liberto dos afazeres da cozinha ainda assisti, terão começado pelas 7 da manhã. Às oito aparece-me o Cap. José Negócio (vindo da lota de Matosinhos onde era o capataz) com uma enorme lagosta viva. Enorme (!), pois nunca tinha visto alguma com aquela envergadura. Nem nunca mais vi. Talvez com uns bons 5 kg. Então logo me lembrei de uma partida. Entreguei ao Carlos Duarte (ou José Ançã) a lagosta, pedindo-lhes que, sorrateiramente, a levassem no saco, e, no momento da chegada da rede, fossem por detrás, e a lançassem na sacada da rede da chincha. Assim acontecido, imagine-se o pandemónio, quando, no meio de umas tuberculosas tainhas e do escasso, surge aquele monstro marinho.
A chinchada era acompanhada, por terra, por um balcão de vime, que continha bebidas para retemperar as forças aos participantes, após cada lanço. Dirigia e carregava, o bar, o Alberto Bixirão. Logo o bar se transformou altar de tasca, onde todos quiseram celebrar e discutir o milagre, digno de sermonário e responso. Só ali faltava o Padre António Vieira.
Mas a chinchada continuou. E eis que num lanço em frente à mota da barca, quando subiam a cortiçada para evitar o salto da tainha, o Zé Ançã exclama:
- Eh pá cuidado; anda aqui tubarão….Bateu-me numa perna, e não vos digo nada.
Claro que todos se riram da brincadeira.
- Vê lá se te come a mãozinha da direita e viras XUXALISTA….logo lhe atiraram…
O melhor estava para acontecer. Aberta a sacada, depara-se com uma enorme corvina. E que corvina (!): mais de doze quilos.
Só me lembro do desalento dos arrais das bateiras:
- E anda um home a esgalmir, noite e dias, a apanhar escasso …e vêm estes pis…… e é o que se vê. É que nunca na p… da nossa vida vimos tal coisa.
Ora certo é que no grupo, quando o caso da lagosta começou a ser murmurado, logo se pensou que a corvina também fora lá posta. O difícil foi convencê-los da fortuna. No cartaz do ano seguinte, lá aparece a corvina pendurada no pinheiro, tal como esteve no ano anterior.
 
Corvina

E o certo é que a corvina, foi assada (no forno de lenha) e comida, na cena seguinte, em casa do Sr. Manuel Casal.
E eram assim, as nossas «Chinchadas Monumentais». Que procuravam não deixar morrer a tradição, como as que relato no livro «Costa-Nova-do-Prado – 200 Anos de História e Tradição».
Como terminavam? Bem aí é que era chegada a hora dos valentes. Íamos jantar à casa da Barra, e depois era chegada a minha vez de levar os mais teimosos a casa. Toda a gente se habituara a que, sucedesse o que sucedesse, eu estaria mais ou menos sóbrio para levar a casa a procissão dos anjos que se não atrevessem a ir pelos seus pés. Felizmente que ainda não havia balão.
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Mas ficamos por aqui, assim manda a desafiante….

Costa Nova, 14 de Fevereiro de 2014

SF

Nota – Agradece-se ao autor, assim como se salvaguardam os direitos.